segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

De coração de Natal

Ano passado, mais ou menos a esta altura do ano, chovia em São Paulo também. Eu saía de uma reunião – a mesma a que compareci no fim de semana último – e levava companheiros ao aeroporto de Congonhas. Lembro que alguma coisa acontecia na sede da UNE, pois os e as jovens que participavam da mesma reunião que eu dirigiram-se para lá antes mesmo do nosso compromisso terminar.

Voltando do aeroporto, pela Avenida 23 de Maio, chuva fina no pára-brisa, imaginava calada e distraída que seria ótimo ir para casa descansar de dois dias de reunião. Ou ainda, que poderia ligar para algum dos bons amigos para uma boa cerveja, e assim, também descansar dos dois dias de reunião...

Eu não sei bem por que, mas no fim das contas, peguei a Tutoia e segui na direção da UNE. Nem sei se cheguei a tomar a decisão de ir para lá ou se o carro me levou porque quis. Não fui para casa, não fui tomar cerveja. Fui oferecer minha ajuda a companheiros(as) que credenciavam entidades ao tal fórum da UNE. Registre-se: havia uns anos que eu não acompanhava absolutamente nada, atividade nenhuma, nenhuma discussão, do movimento estudantil. Fiz parte da direção da entidade, na pasta de mulheres, de 2003 a 2005. Depois disso, passados poucos meses de acompanhamento da nova gestão, virei adulta e as costas para o movimento que me formou.

Estranho. Mas aquele dia, acabei indo pra UNE. Espírito natalino? Oferecer ajuda? Não sei. Fui para a UNE. Minha irmã estava lá. Fui pra UNE. Sei lá fazer o quê.

Sei que a Avenida Paulista estava inacreditavelmente congestionada. Eu não peguei aquele trajeto, mas muitos chegavam bufando na sede da entidade por conta disso. Lembro que retardei meu retorno daquela imprevista visita exatamente por causa daquele tão anunciado trânsito da Paulista. Eu não entendia o que levava tanta gente à mais famosa avenida de São Paulo num domingo às 22 horas. Mas vai saber. Podia ser um acidente, recapeamento, montagem de palco para a festa de réveillon, semáforo embandeirado. Muita coisa é capaz de causar um baita trânsito em São Paulo. Comum.

Em algum momento, alguém chegou e alertou:

- Ei, fujam dos arredores da Paulista, tá tudo parado lá.

Sim, mas onde estávamos era arredor da Paulista. “Inevitável dirigir-se ao centro fugindo dos arredores da Paulista, criatura esperta”, pensei. E também, àquela altura, essa notícia já não era novidade pra ninguém. Alguém foi mais curioso que eu:

- Mas por que trânsito a esta hora? É domingo e passam das 23h!

- Ah, são as luzinhas de Natal.

Estranhei. Mas um belo rosto surgiu para fazer a seguinte consideração:

- Aqui nesta cidade as pessoas causam trânsito para ver Papai Noel???

Todos riram. De fato, até para mim, paulistana, soava estranho. Não é um fenômeno tradicional, mas acho que era uma tradição se formando... todos os prédios da Paulista se enfeitam, se iluminam, se enchem de bonecos e decorações para marcar a chegada do Natal. E as pessoas vão lá ver... ficam lá, tiram fotos... passam devagar com seus carros para não perder nada... veem Papai Noel sim. Que coisa.

Natal é isso, parece uma histeria coletiva. Odeio os shopping centers entupidos, o trânsito da Paulista iluminada, os especiais de Natal da TV...

Enfim. Lembrei de tudo isso porque hoje encontrei a seguinte matéria no portal UOL: “Turista enfrenta chuva e trânsito para visitar decoração de Natal em São Paulo”. Falava da Avenida Paulista... A primeira coisa que lembrei foi a ironia sutil na voz do belo rosto que estranhou a mobilização pró-Papai Noel na maior cidade brasileira. Alegrou-me o dia lembrar aquela situação, em seu conjunto, porque desde aquele dia esse rosto passou a fazer parte da minha vida.

Em seguida, pensei: “Pôxa, que coisa chata, as coisas se repetem iguaiszinhas todo ano”! Chuva, congestionamento na Paulista, decorações de Natal, Papai Noel, credenciamentos de atividades da UNE... a mesmice é incômoda. É inimiga da espontaneidade.

Mas... no fundo, é assim: os olhos precisam estar atentos, porque, em meio à mesmice, sempre existe uma novidade especial que enche os olhos de quem não se acostumou a olhar sem ver.

Variações do mesmo tema

Dizem que há males que vêm para o bem.
Mas há males que vêm para outros males.
Há malas que vêm de trem.
E se há males que vêm para bem, também há malas que vêm para o DEM.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O racismo cordial do PMDB

Uma das vinhetas veiculadas pelo PMDB-RS na noite desta segunda-feira, 7 de dezembro, afirmava que "o povo que não tem virtudes se torna escravo". A frase é retirada do hino do Rio Grande do Sul. A estrofe completa diz: "Mas não basta pra ser livre / Ser forte, aguerrido e bravo / Povo que não tem virtude / Acaba por ser escravo". Acontece que, isolada de seu contexto, a frase escolhida pelo partido de Fogaça e Rigotto permite uma interpretação indesejável. Cabe a reflexão.

De que virtudes estamos falando? E quem escraviza?

Nosso país escravizou os negros africanos por mais de três séculos, não porque lhes faltasse virtude. Faltava virtude aos europeus, à Igreja Católica (que legitimava a ação). Faltava virtude ao capitalismo que se desenhava, ao colonialismo que se impunha à América. Falta virtude a quem escraviza.

Quantos índios não foram feitos escravos entre os séculos XVI e XVII pela América Latina? E ainda hoje dizem que se buscaram os negros porque índio era "preguiçoso"... vai ver lhe faltava a virtude de ser disponível à escravização.

O melhor instrumento que há, contra essa cabível "interpretação" da frase em questão, é conhecer a história do nosso povo, a história da luta do nosso povo por liberdade e contra a exploração e a opressão. A história de 500 anos de resistência. É aí que reside a virtude. E convenhamos que o PMDB não tem tanto a ver com essa história.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Maluf, Tuma e Colasuonno: que trio hein?

Mais um... da Folha de S. Paulo de 28/11.

A Folha (que considera que o Brasil viveu uma ditabranda) "esquece" de dizer que os militantes cujos corpos estavam em Perus e na Vila Formosa foram assassinados pelo regime militar, por defender a democracia. Maluf, Tuma e Colasuonno são cúmplices desses assassinatos. E estão na vida pública até hoje, ganhando bem e interferindo na vida de milhões de brasileiros. Tristeza...

A América Latina vem vivenciando um processo muito interessante com a ascensão de governos populares, progressistas ou de esquerda. Quase todos têm feito questão de acertar suas contas com o passado recente de tortura, censura, desaparecimentos e mortes.

Nosso Brasil, apesar do empenho, particularmente, do Ministro Tarso Genro e do Secretário de Direitos Humanos Paulo Vannucchi (parente de Alexandre Vannucchi Leme, estudante da minha universidade morto pela ditadura em 1973), avançou menos do que queremos no sentido de "enterrar" esse passado. Para que ele não volte. E para que ninguém pense que pode sair impune de um processo como aquele. Não é "revanche". É justiça.

Recomendo fortemente um documentário que assisti recentemente, "Condor", de Roberto Mader, sobre a Operação Condor - cooperação interna entre os regimes militares latino-americanos, nos anos de chumbo.


Ministro elogia ação contra civis no caso Perus; Maluf e Tuma são acusados

O ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) comemorou a primeira ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal de São Paulo contra civis que tiveram participação em fatos da repressão na ditadura militar (1964-85).

Em ação apresentada à Justiça, o Ministério Público Federal pediu que o deputado federal Paulo Maluf (PP-SP), o senador Romeu Tuma (PTB-SP) e o diretor da Eletrobrás Miguel Colasuonno sejam condenados a pagar indenização e percam suas funções públicas ou aposentadorias. Eles são acusados de participar do funcionamento da estrutura que ocultou cadáveres de opositores da ditadura nos cemitérios de Perus e da Vila Formosa, em São Paulo, na década de 70.

Tuma foi responsável pelo Dops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) de 1967 a 1983. Ontem ele preferiu não se manifestar por não ter conhecimento dos documentos do processo. Maluf e Colasuonno foram prefeitos da capital, de 1969 a 1971 e de 1973 a 1975, respectivamente. Em nota, Maluf disse que é "uma acusação ridícula". Colasuonno informou que desconhece os fatos das acusações e, por isso, não poderia se manifestar.

Na Unicamp, Vannuchi declarou: "Eu saúdo a iniciativa porque ela reforça a consciência nacional de que o tema não está com ponto final. Lideranças civis e empresariais deram sustentação a esse regime, então não é justo que se faça um debate centralizado unicamente nas Forças Armadas".

"Quem estudar a história do regime verá que civis foram bater nas portas dos quartéis pedindo que os militares saíssem para depor João Goulart."

Segundo a denúncia, Maluf ordenou a construção do cemitério de Perus, com quadras marcadas para "terroristas". O projeto da prefeitura incluiu a construção de um crematório, ideia depois abandonada. Na gestão de Colasuonno, de acordo com documentos, o cemitério de Vila Formosa foi reurbanizado, quase impossibilitando a identificação dos locais onde estavam corpos dos militantes.

Tuma foi implicado porque, segundo os procuradores, sabia de mortes ocorridas sob a tutela de policiais do Dops, mas não as comunicou às famílias.

Outros dois nomes na ação são Fábio Pereira Bueno, diretor do Serviço Funerário Municipal entre 1970 e 1974, e o médico legista Harry Shibata, ex-chefe do necrotério do IML.

Os procuradores sugerem que as penas sejam diminuídas caso os réus contem em depoimento fatos que conhecem do período de repressão.

"É inequívoco que havia um esquema e que o cemitério de Perus era um centro de ocultação de cadáveres de militantes políticos", diz a procuradora da República Eugênia Fávero.

A Unicamp, que recebeu Vannuchi ontem, é um dos alvos da segunda ação do MPF. Nela, os procuradores pedem a responsabilização de funcionários e universidades porque houve descaso na identificação das ossadas localizadas em Perus e exumadas em 1990. As universidades implicadas são Unicamp, Universidade Federal de Minas Gerais e USP.

A Procuradoria pede, em liminar, a retomada do trabalho de identificação das ossadas. O órgão apresentou no passado ações, em andamento, que buscam responsabilizar militares por crimes da ditadura. Como se tratam de desaparecimento de pessoas, os procuradores entendem que se equivalem ao crime de sequestro -por não terem sido localizadas, esses crimes não seriam anistiáveis.

O Serra e o Castelo de Areia

Hoje o dia tá produtivo de reproduções... rsrs... tem mais este artigo, do camarada Altamiro Borges, do PCdoB, uma das principais vozes da luta pela democratização da comunicação atualmente. Ele fala da operação da PF, que apura a relação de políticos influentes do PSDB com executivos da construtora Camargo Correia, acusados de evasão de divisas e lavagem de dinheiro. Boa leitura.

Serra desaba com castelo de areia

A mídia golpista não teve mesmo como esconder as podridões do demo José Roberto Arruda. Os vídeos da Polícia Federal são demolidores. Até o Correio Braziliense e a Veja, que recentemente foram presenteados com contratos milionários de compra de assinaturas pelo governo do Distrito Federal, tiveram que triscar o assunto. A sujeira poderia, até, respingar nestes veículos! Mas, ao mesmo tempo, a mídia hegemônica faz de tudo para abafar outro caso suspeito de corrupção, que envolve diretamente o principal presidenciável tucano, o governador paulista José Serra.

A Polícia Federal divulgou na semana passada alguns documentos comprometedores da chamada “Operação Castelo de Areia” - nome bem apropriado para o candidato tucano. Uma das peças da investigação policial indica que influentes políticos do PSDB de São Paulo receberam propina da construtora Camargo Corrêa. A Folha do final de semana simplesmente ofuscou o caso. O jornal golpista da famíglia Frias preferiu abrir as suas páginas para as acusações levianas de um ex-petista rancoroso contra o presidente Lula, acusado sem provas e sem escrúpulos de tentativa de estupro.

O Estadão e o “Palácio Band”

Já o Estadão, que nunca escondeu sua adesão a José Serra, abordou o tema sem maior alarde - a se fosse uma suspeita contra qualquer político da base de apoio do governo Lula. Mesmo assim, o jornal da família Mesquita se fingiu de morto ao citar a expressão “Palácio Band”, que surge numa das planilhas apreendidas pela Polícia Federal. Ele evitou explicar que a expressão é uma nítida referência ao Palácio dos Bandeirantes, local onde reside e governa o grão-tucano Serra.

O título da notinha também é maroto. “Documentos indicam mesada de empreiteira a políticos”. Não há qualquer referência ao PSDB - imagine se os tais políticos fossem de qualquer partido de esquerda. No corpo da matéria, o partido de Serra também é poupado. O jornal sequer alerta que um dos acusados de receber propina, o secretário Aloísio Nunes, é o preferido do grão-tucano para substituí-lo no “Palácio Band”. Vale à pena reproduzir alguns trechos da reportagem:

“Aloísio Nunes, US$ 15.780”

“A Polícia Federal concluiu a Operação Castelo de Areia - investigação sobre evasão de divisas e lavagem de dinheiro envolvendo executivos da Construtora Camargo Corrêa - e anexou ao relatório documento que pode indicar suposto esquema de pagamentos mensais a parlamentares e administradores públicos e doações ‘por fora’ para partidos políticos. O dossiê é formado por 54 planilhas que sugerem provável contabilidade paralela da empreiteira (...)”.

“Os repasses teriam ocorrido em favor de deputados federais, senadores, prefeitos e servidores municipais e estaduais. Em quatro anos a empreiteira desembolsou R$ 178,16 milhões. Em 1995, segundo os registros, ela pagou R$ 17,3 milhões. Em 1996, R$ 50,54 milhões. Em 1997, R$ 41,13 milhões. No ano de 1998, R$ 69,14 milhões. O que reforça a suspeita de caixa 2 é o fato de que os números alinhados aos nomes dos supostos beneficiários estão grafados em dólares, com a taxa do dia e a conversão para reais”.

“Na página 54, há quatro lançamentos em nome do deputado Walter Feldman (PSDB-SP). Cada registro tem o valor de US$ 5 mil, somando US$ 20 mil entre 13 de janeiro e 14 de abril de 1998. À página 21, outros 12 lançamentos associados ao nome Feldman, entre 26 de janeiro e 23 de dezembro de 1996 - US$ 5 mil por mês... Em outro arquivo, na página 18, valores ao lado da expressão ‘Palácio Band’ – 4 anotações, entre 8 de fevereiro e 30 de setembro de 1996, somando US$ 45 mil, ou R$ 46.165. Na última planilha, na página 54, constam nove registros, um assim descrito: "14 de setembro de 1998, campanha política, Aloísio Nunes, US$ 15.780’”.

Luís Fernando Veríssimo: "Para voltar a crer"

Para quem não lê o Zero Hora, ou não viu hoje, ou é de fora de Porto Alegre, do Rio Grande do Sul... não precisa ficar chateado, não perde nada não lendo o ZH. É mais do mesmo, mais um desses periódicos porta-vozes da classe dominante. Posição clara.

Só que, dialeticamente, quem não viu o ZH desta quinta-feira, 03/12, perdeu a coluna do Veríssimo. Está impagável. Não socializar seria um ato de egoísmo.


Para voltar a crer

Não faltam motivos para descrer da humanidade. Vamos combinar que fizemos coisas extraordinárias, mas nossa passagem pela Terra não está sendo, exatamente, um sucesso. Para cada catedral erguida bombardeamos três, para cada civilização vicejante liquidamos quatro, a cada gesto de grandeza correspondem cinco ou seis de baixeza, para cada Gandhi produzimos sete tiranos, para cada Patrícia Pilar 17 energúmenos. Inventamos vacinas para salvar a vida de milhões ao mesmo tempo em que matamos outros milhões pelo contágio e a fome. Criamos telefones portáteis que funcionam como gravadores, computadores – e às vezes até telefones –, mas ainda temos problema com a coriza nasal. Nosso dia a dia é cheio de pequenas calhordices, dos outros e nossas. Rareiam as razões para confiar no vizinho ao nosso lado, o que dirá do político lá longe, cuja verdadeira natureza muitas vezes só vamos conhecer pela câmera escondida. Somos decididamente uma espécie inconfiável, além de venal, traiçoeira e mesquinha. E estamos envenenando o planeta, num suicídio lento do qual ninguém escapará. E tudo isso sem falar no racismo, no terrorismo e no Big Brother Brasil.

Eu tinha desistido de esperar pela nossa regeneração. Ela não viria pela religião, que se transformou em apenas outro ramo de negócios. Nem viria pela revolução, mesmo que se pagasse para o povo ocupar as barricadas. Eu achava que a espécie não tinha jeito, não tinha volta, não tinha salvação. Meu desencanto era total. Só o abandonaria diante de alguma prova irrefutável de altruísmo e caráter que redimisse a humanidade. Uma prova de tal tamanho e tal significado, que anularia meu ceticismo terminal e restauraria minha esperança no futuro. E esta prova virá neste domingo, se o Grêmio derrotar o Flamengo no Maracanã.

Se o Grêmio derrotar o Flamengo, o Internacional pode ser campeão. Mas o mais importante não é isso. Se o Grêmio derrotar o Flamengo mesmo sabendo as consequências e o possível benefício para o arquiadversário, estará dando um exemplo inigualável de superioridade moral. A volta da minha fé na humanidade não interessa, Grêmio. Pense no que dirá a História. Pense nas futuras gerações!

(Luís Fernando Veríssimo, no Zero Hora de 03/12/2009)



(peço licença ao amigo Bier - augustobier.blogspot.com - pra usar uma charge dele como ilustração... e deixo claro: eu, como em quase tudo na vida, também nessa disputa tenho lado - vermelho!)

Maringoni: "O que deu no Cesinha?"

Nos últimos dias, andou circulando pela internet um e-mail de Gilberto Maringoni, um conhecido jornalista e cartunista da melhor parte da nossa esquerda (onde quer que esteja sua filiação partidária). Ele comentava o fatídico artigo de César Benjamin na Folha de S. Paulo, quando acusou Lula de tentativa de violência sexual contra um jovem militante.

César Benjamin, 15 anos depois da história contada por ele, presta-se a esse triste papel com alguma motivação, para mim, ainda não identificada. Deve ser um mosaico de muita coisa. Nenhuma delas, respeitável ou justificável. Até o Zé Maria, presidente do PSTU, classificou a acusação como mentirosa. Mais gente envolvida na tal história fez isso. E as palavras de Benjamin, mesmo assim, não pararam de ecoar.

Bem, vejam o que escreveu Maringoni. E tenha dito.



Caras e caros:

O jornalista Duarte Pereira, ex-dirigente da Ação Popular, a quem admiro pela retidão de princípios, enviou a algumas pessoas o texto de César Benjamin, “Os filhos do Brasil”, acompanhado de um comentário crítico.

Envio a vocês, abaixo, minha resposta ao Duarte.

Abraços,

Gilberto Maringoni

*****

Caro Duarte:

Você sabe do respeito imenso que tenho por você, por seu discernimento político e por sua história.

Por isso quero falar-lhe como amigo e companheiro.

Não acho correto darmos credibilidade ao Cesar Benjamin neste episódio.

Ele tem também um passado de lutas e uma capacidade de elaboração respeitável.

Mas há tempos, Cesar resolveu buscar um espaço em vôo solo, descolando-se de qualquer ação coletiva.

Não sei exatamente o que se passa. Não sei se é uma vaidade imensa, não sei se é alguma questão política, ou se um modo de se fazer política com o fígado.

Uma denúncia como a que ele faz não é uma denúncia pessoal.

Só encontro paralelo recente no caso Miriam Cordeiro. Levanta-se um pecado íntimo para se atacar uma vertente política.

Por que a denúncia não foi feita antes?

Por que a denúncia foi feita na Folha?

Por que ela é feita quando o governo tem uma atitude digna na questão hondurenha?

Por que ela é feita quando Lula recebe um inimigo figadal de Israel?

Por que ela é feita quando há um afrouxamento mínimo na política monetária?

Por que ela é feita quando se travam as privatizações dos aeroportos?

Por que ela é feita quando a direita faz uma ofensiva de conjunto na América Latina?

Por que a Folha abriu uma página inteira a ela?

Por que ele faz isso na boca de uma campanha eleitoral?

Por que ele faz isso quando o candidato da direita - José Serra - começa a cair nas pesquisas?

O caso me evoca outra lembrança triste.

No início dos anos 1970, alguns militantes da esquerda revolucionária, muito jovens, não aguentando as torturas a que foram submetidos na prisão, foram para a TV.

Afirmavam estarem arrependidos da luta.

Anos atrás eu os classificava com o epíteto seco de 'traidores'.

Hoje, pensando no fato de serem adolescentes, pondero meu tom.

Não fizeram um papel edificante.

Causaram prejuízos irreparáveis.

Mas eram meninos acuados.

O caso mais evidente foi o de Massafumi Yoshinagui, da VPR. Foi até capa de Veja, em 1971. Viveu atormentado com seu gesto, até se suicidar em 1976, aos 26 anos de idade.

Quase 40 anos depois, Cesinha - que não é mais um menino - vai para as páginas e holofotes da grande mídia, fazer o que as classes dominantes querem.

Recebi notícias que blogs da direita estão difundindo o texto.

Conheço o Cesinha há cerca de 25 anos.

Sinto que nós o perdemos irremediavelmente.

Fico envergonhado com o papel que ele está desempenhando.

Seu passado não merece isso.

Mas a História irá julgá-lo.

Por ora fica na ponta da minha língua o adjetivo que usei contra os que foram à televisão naqueles anos.

E não encontro atenuantes para César Benjamin.

Faço votos que ele se dê bem no outro lado.

Abraços,
Maringoni

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Práticas antissindicais, perseguição e censura

Na contramão do sindicalismo combativo, e resumindo suas ações ao corporativismo puro e simples, sindicatos de jornalistas de diversos estados brasileiros têm promovido perseguições e chantagens contra organizações sindicais ou da esquerda de maneira geral, pela demissão de jornalistas, trabalhadores dessas instituições, que não tenham sua formação específica em jornalismo.

Esse é um bom lead para uma matéria que visa a informar o que alguns sindicatos de jornalistas vêm fazendo para impedir jornalistas de trabalhar.

Eu sei de situações revoltantes no Rio Grande do Sul, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Goste o sindicato de jornalistas ou não, esses profissionais estão exercendo sua profissão legalmente, a despeito do corporativismo raso da intervenção desse movimento “pró-diploma”, que se diz “pró-regulamentação”, mas não é.

Em vez disso, a ação tem sido reforçar o discurso de que a qualidade do jornalismo depende da formação universitária específica (premissa muito fácil de se contrariar). Os sindicatos de jornalistas não querem sindicalizar os trabalhadores que exercem sua profissão sem o diploma específico. Não querem protegê-los de abusos e violações de direito. Querem ser mais um agente na precarização do trabalho desses, ao que tudo indica.

A história chega ao cúmulo de plenárias de forças políticas apreciarem a situação de funcionário cuja cabeça está sendo pedida pelo sindicato de jornalistas. Em alguns lugares, eles ameaçam de retaliação a instituição empregadora, ou em outros, sugerem que vão expor o trabalhador ou trabalhadora a constrangimentos. Às vezes, são as duas coisas combinadas. Mas isso não é assédio moral? Ou é bancar a polícia?

Se uma central sindical é solidária à luta corporativa dos sindicatos de jornalistas em defesa da reserva de mercado, jamais poderá ser condescendente com práticas de assédio moral ou com a subordinação preconceituosa de determinados(as) trabalhadores(as) a critérios absolutamente controversos.

Outro dia, chegou até mim a boataria, pela boca de colegas não tão próximos da vida sindical. Um jornalista, cujo nome protejo, disse: “Eu soube que tal lugar contratou jornalista sem diploma! O nome do dito-cujo é Fulano!”. O coitado do Fulano ficou assustado com a repercussão de um assunto que é, simplesmente, seu trabalho cotidiano há mais de dez anos. E então, cria-se um cordão de isolamento em torno da pobre criatura... tratada como criminosa, como se fosse um traficante de animais selvagens, sei lá.

Além de serem repudiáveis as práticas recentes encaminhadas pelos sindicatos de jornalistas de alguns estados, há que se reforçar que a opinião deles NÃO é um consenso. A cruzada deles pela reserva de mercado NÃO é a opinião de toda a esquerda, NÃO é a opinião de todos os que trabalham. É preciso romper com esse falso consenso que paira no ar, que, muitas vezes, justifica essas ações de perseguição, preconceito e anti-sindicalismo que se vê por aí.

Ass: Adelaide de Julinho

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O assassino era o escriba

(Paulo Leminski)

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjunção.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido na sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

***
Viva a língua portuguesa! Contra a reforma ortográfica neoliberal do Governo Lula! rsrs... adoro este poema, queria socializar.

Uma história encomendada

Era quase uma matrix. Ele fingia que era ele, ela fazia de conta que era ela. Desempenhavam papeis. Era tudo fajuto, das juras de amor à convivência harmônica. As joias de presente eram falsas. O pijama não era 100% algodão. As flores eram de plástico.

Em alguns momentos, cansavam-se de interpretar. Nada que uma noite de sono não curasse. Era fácil levar a vida assim, porque ela nunca desviava do destino encomendado. Nunca se perdiam as estribeiras. Não havia decepção, risco, mas também não havia euforia.

Um dia, ela se esqueceu de mentir. Deixou a cara de verdade aparecer. Foi um susto.

Não souberam como lidar com essa situação. Chegaram a sentir desespero. Ela tentou corrigir rápido, mas não dava mais tempo. Por não saber reagir, ele também acabou se revelando.

Se separaram e foram infelizes para sempre.

***
Moral da história: a moral foi inventada por alguém.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Um ano

Hoje este blog completa 1 ano...

Até que é bastante coisa. A internet tem essa democracia de abrir espaço pra quem quer falar, mas ainda não oferece a democracia do acesso ao que se fala...

Pensei em festejar o ato de escrever, de opinar, a língua portuguesa, as palavras, os conteúdos, os instrumentos... mas decidi falar sobre "ser livre".

No blog, posso escrever minhas crônicas, meus artigos de opinião, reproduzir textos de informação, sem que ninguém me considere uma criminosa por escrever sem ter diploma de jornalista. Aqui eu não sou perseguida pelos guardiães do corporativismo, que priorizam a batalha por reserva de mercado que a luta por regulamentação da imprensa, do exercício da profissão, na perspectiva da democratização da comunicação. Ninguém, aqui, pode pedir pro provedor me excluir pelo fato de estar escrevendo sem ser formada em jornalismo.

Enquanto isso, jornalistas diplomados escrevem suas matérias reproduzindo os velhos preconceitos e a mesma hierarquização que se vê há décadas e décadas. O sensacionalismo tosco diante de tragédias particulares e coletivas, a abordagem viciada de temas polêmicos, a prioridade editorializada da opinião de uns poucos sobre tudo e mais um pouco. Mas os leads estão perfeitos! (mentira, muitas e muitas vezes não estão) As entrevistas estão impecáveis e as fotos estão bem escolhidas! (como se isso fosse produto, meramente, de uma técnica pretensamente "neutra")

Ora, vão destruir o excelente jornalismo que temos no Brasil ao acabar com a obrigatoriedade do diploma de jornalista!!! A solução é... colocar na Constituição!

Quanta bobagem.

Quero, antes, ver uma nova Lei de Imprensa ser elaborada democraticamente e aprovada pelo Congresso Nacional, dentro de paradigmas muito distintos dos que embasaram a Lei anterior. Quero ver regulamentado o direito de resposta, quero que a imprensa seja imprensa e não Poder Judiciário, quero que não haja impunidade, quero que não haja censura. Quero que se regulamente o exercício do jornalismo, e não que se resuma isso a uma formação particular. E quero, principalmente, que tudo isso se dê a partir do princípio da democratização da comunicação, do incentivo a veículos comunitários e populares, do fim da propriedade cruzada, do controle social. Repito, em letras garrafais: CONTROLE SOCIAL. De novo, pra não ter dúvida: CONTROLE SOCIAL.

A liberdade de imprensa não é uma liberdade de empresa. E nem liberdade SÓ da imprensa. Muito menos SÓ de ALGUMA imprensa.

Pra usar a sabedoria popular, a liberdade de um termina onde começa a do outro... Desde os meus tempos de Enecos (Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social - contra a obrigatoriedade do diploma), sabíamos que só podemos ser livres juntos.

Pela democratização da liberdade!

“Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”
(Cecília Meirelles)

domingo, 8 de novembro de 2009

Manifestação Contra a Violência Sexista

São Paulo - Vá à Uniban protestar!

Os Movimentos Feminista, Sindical e Estudantil convocam um ato contra a violência sexista ocorrida na UNIBAN, que neste momento tem como agravante a expulsão da aluna que recentemente sofreu violência, ou seja, a vítima foi transformada em ré, os agressores estão impunes. A UNIBAN, com essa conduta, banaliza, estimula e justifica a violência contra a Mulher.

NÃO podemos nós calar!

ATO nesta segunda-feira, 9 de novembro, às 18 horas na porta da UNIBAN São Bernardo do Campo.

Endereço: São Bernardo do Campo – Avenida Rudge Ramos, 1501 (fica no KM 12 da Via Anchieta) para quem sai de são Paulo é necessário fazer o retorno.

Saudações feministas
Marcha Mundial das Mulheres

Mensagem da UNE:

UNE protesta contra discriminação por uso de vestido curto

Nós, mulheres estudantes brasileiras, vimos a público repudiar todas as forma de opressão e violência contra as mulheres. No dia 22 de outubro deste ano, uma aluna da Uniban (campus ABC – São Paulo), com a falsa justificativa de ter ido à aula de "vestido curto", é seguida, encurralada, xingada e agredida por seus "colegas estudantes".

A cena de horror é filmada, encaminhada à Internet e vira notícia por todo o país. Não aceitaremos que casos de machismo como esse passem despercebidos ou que se tornem notícia despolitizada nos meios de comunicação.

O fato em questão revela a opressão que as mulheres sofrem cotidianamente, ao serem consideradas mercadoria e tratadas como se estivessem sempre disponíveis para cantadas e para o sexo. Não toleramos comentários que digam que a estudante "deu motivo" para ser agredida. Nenhuma mulher deve ser vítima de violência, nem por conta da roupa que usa nem por qualquer outra condição. Nada justifica a violência contra a mulher.

Sendo assim, nós, mulheres estudantes brasileiras, organizadas na luta pelo fim do machismo, racismo e homofobia, denunciamos a violência sexista ocorrida contra a aluna da Uniban, nos solidarizamos com as mulheres vitimizadas por esses crimes e queremos punição a todos os agressores envolvidos nesse episódio e em outros tantos que acontecem e não repercutem na mídia. Não vamos nos calar perante o machismo e a violência.

Somos Mulheres e não Mercadoria!

Diretoria de Mulheres da União Nacional dos Estudantes


***
Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do Governo Federal cobra explicações da Uniban.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Sensação de casa de férias

Quando me mudei para o Largo do Arouche, para morar na companhia do amigo Anderson Campos, comentávamos entre nós que aquela nossa casa nova parecia uma casa de férias. Eu lembro da sensação. Eu nunca tinha morado sozinha, e parecia uma coisa tão cheia de liberdade, e uma felicidade sortuda de dividir um apartamento no centro com um amigo querido, com que isso trazia essa coisa gostosa de sensação de casa de férias. Como todas férias, dá medo de que acabe logo...

Mistura-se com isso o fato de que nos mudamos num dezembro. Fim de ano também dá sensação boa. Pelo menos, pra mim. Não é de nostalgia, de melancolia. É de vontade de viver mais, em paz com o mundo e comigo... é aquela trivialidade de retomada da esperança, de mudar o que não gostamos, de fazer promessa de sermos melhores por termos vontade disso, de fato. Um tempinho pra descansar, pra ter expectativas. Sensação de dever cumprido e disposição de encarar os desafios novos. Depois de uma certa idade, você torce para que os desafios sejam novos. Mas isso é outra história.

Enfim. O Anderson, quando saí de casa, me disse que aprendeu em Jericoacoara (nossa viagem de ano novo, entre amigos) que sempre haverá casas de férias. Isso não acaba.

Domingo último acordei com essa sensação. Esquisito. Lembro que, ano passado, só me dei conta do fim do ano quando ele já estava quase no fim mesmo. Este ano é diferente. Este ano foi tão intenso que eu estou sentindo ele acabar desde agora. Talvez não com todas aquelas sensações que descrevi acima, pelo menos, ainda não na sua plenitude. Mas com a alegria que elas trazem.

Acordei domingo como se fosse dia de Natal. Aquela coisa gostosa de só encontrar quem você quer encontrar. De não ter horário de acordar e de dormir. Uma sensação de mandar no próprio tempo. Era um contexto de felicidade que trouxe mais bons sentimentos. Não sei. Uma epifania.

Eu queria ser capaz de prolongar essa sensação de felicidade ao máximo. Sempre ter uma casa de férias. Mas isso todo mundo quer, não? Controlar medo, ansiedade, controlar tudo que é ruim e amplificar o que é bom. Naquela manhã de domingo, foi a percepção de que isso é mesmo possível que tornou o dia tão feliz quanto um 31 de dezembro de ano de missão cumprida.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Intolerável

Não existem palavras que definam o que foi o comportamento daquele monte de trogloditas estudantes da Uniban São Bernardo.

A história da menina vestida “com pouca roupa”, que praticamente foi atacada pelos colegas, agredida, perseguida, assediada, humilhada, é de chorar. Que tipo de gente promove um tumulto com o objetivo de violentar alguém? Que tipo de gente faz isso como quem vai à esquina comprar cigarros?

A confusão foi tamanha que a polícia foi acionada. A estudante só conseguiu sair da faculdade enrolada num jaleco e escoltada, e ainda assim, sob vaias e xingamentos. Não vi o famigerado vídeo no YouTube, não tenho estômago pra isso. Imaginar a cena já me faz passar suficientemente mal. Mas há quem tenha estômago de aço pra essas coisas, e esses fotografaram e fizeram vídeos pelo celular da cena bizarra que a Uniban presenciava.

Não há nada que justifique isso, nada. Nenhuma história anterior, nenhum contexto de conflito – que não parece haver. “Agiram mal, mas ela provocou”, li em alguns depoimentos de colegas. E certamente é o que muitos pensaram.

O que dizer de um torcedor do Palmeiras, vestido a caráter, que é agredido violentamente por torcedores do Corínthians? Que ele provocou??? A animalidade que algumas pessoas podem assumir, a possibilidade de o insano acontecer, não é motivo para atribuir à vítima o papel de cúmplice da violência que ela mesma sofreu. O normal não é isso. Nosso paradigma tem que ser o da normalidade, o das pessoas que convivem socialmente, e não o de animais incapazes de ter discernimento ou de ter a razão prevalecendo ao instinto.

Não me importa que roupa a moça vestia. Importa que ela foi duramente violentada, e isso não podemos tolerar.

Deveria importar para os julgadores de plantão que o que mais se vê neste mundo de comunicação globalizada e instantânea é milhares de listas de mulheres mais sexy, mais desejadas, mais bem-sucedidas por terem seu corpo “em forma”. As mulheres mais festejadas pela mídia são as que cumprem padrões estéticos, não éticos, profissionais, políticos ou morais. As que são expostas como referências para as meninas são as que são desejadas, as que vestem pouca roupa, as que deixam marmanjos babando pela sua sensualidade, exaustivamente explorada por tudo que é revista masculina, feminina, canal de TV privado ou não. Todas as meninas querem ser bem-sucedidas, aceitas. Pra isso, ensinaram-lhes que devem ser desejadas. Devem ter belos corpos e expô-los.

Não quero fazer um debate determinista sobre o que levou a garota a se vestir de forma x, y ou z. Muito menos pretendo justificar a ação de lado a lado a partir daí. Mas questionemos, portanto, qual a ética e qual a moral de um mundo que apresenta esse caminho para as mulheres, o de serem objetos a serem expostos e usufruídos, como um caminho possível para "o sucesso". Quantas não fazem isso? Quantos não acompanham as “mulheres-fruta”, as globais de capa de revista masculina, etc etc etc? Quem há de julgar a estudante da Uniban, ou atirar a tal da primeira pedra? Ou atirar o mesmo que atiraram em Geni?

O que cabe julgamento é ao comportamento daqueles estudantes que a perseguiram. Isso sim. Há referência ética pra isso. Pra eles, é preciso apresentar algum desfecho. Não podemos tolerar a impunidade de um bando de trogloditas que agride assim a uma mulher.

E alguém se pergunta o que vai ser da vida dessa menina agora? Se ela vai continuar estudando, se vai ter os mesmos colegas? Incrível como os fatalmente punidos não são os criminosos em alguns casos...

***
Tem me chamado muita atenção a quantidade de casos de estupro praticados por adolescentes e contra adolescentes que se noticiam nos últimos dias. A violência não está encontrando limites.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Raul Pont, aliado das lutas das mulheres de luta

Como disse o próprio Raul, “a violência veio daqueles que rasgaram a Constituição”.

O povo gaúcho assistiu com perplexidade a reunião derradeira da comissão especial que avaliava o pedido de impeachment contra Yeda Crusius, governadora do Rio Grande do Sul. Mesmo sabendo que a opinião dos gaúchos e gaúchas era pelo impeachment da governadora, por a considerarem culpada (como atestou a última pesquisa do Ibope), a conclusão orquestrada pela maioria governista na comissão e lido em reunião pela relatora e então presidenta estadual do PSDB, Zilá Breitenbach, foi pela absolvição da governadora.

Assim como ao longo de todo o processo de denúncias, tentativas de investigação (sempre sabotadas pelo governo e pela base governista na Assembleia Legislativa), naquela reunião, mais uma vez, os deputados aliados manobraram para impedir questionamentos da ordem do mérito e do método que ali estava colocado - ou melhor, imposto. E independentemente do que a oposição argumentava, o relatório seguia sendo lido pela deputada tucana, e a sessão era mantida com mãos de ferro pelo deputado Pedro Westphalen (PP), presidente da comissão. O alvoroço entre deputados do governo e da oposição, incrementado pela manifestação popular que tomava conta da A.L. e pelos correligionários da governadora tornou-se inevitável.

Um dos desdobramentos daquela triste tarde de 8 de outubro foi a acusação descabida que Zilá Breitenbach aplicou a Raul Pont. Indignadas, quase 300 mulheres de várias regiões do Rio Grande do Sul e de fora dele, militantes dos movimentos de mulheres e de diversos movimentos sociais, educadoras, sindicalistas, psicólogas, advogadas, médicas, jornalistas, estudantes, escreveram para o gabinete do deputado perguntando: ninguém vai fazer nada? Queriam manifestar seu apoio ao deputado Raul Pont por sua história reconhecidamente solidária à luta das mulheres.

Leia a nota apresentada por essas mulheres em apoio ao deputado Raul Pont, em defesa de sua trajetória de proximidade com o feminismo e de sua luta em defesa dos direitos humanos.

Raul Pont, um aliado das lutas das mulheres

Ao escrever, em sua Pagu, que "nem toda feiticeira é corcunda", Rita Lee lançou um apelo implícito: por favor, não nos generalizem pela simples condição feminina. Muito antes da cantora e compositora brasileira, a filósosa francesa Simone de Beauvoir concluía: "não se nasce mulher, torna-se mulher".

Com a ascensão do movimento feminista, uma nova palavra de ordem incorporou-se à luta pela igualdade: "não basta ser mulher". Era um posicionamento demarcador do propalado "feminismo da diferença" e que entendia o movimento feminista não como contrário aos homens, mas como um apelo para que homens e mulheres caminhassem lado a lado, construindo a igualdade de condições e oportunidades.

Esse chamado vem conquistando homens e mulheres através dos séculos, contabilizando incontáveis avanços das mulheres nas mais diferentes esferas de atuação. Nós, que fazemos parte dessa história, reconhecemos no deputado estadual Raul Pont um aliado da nossa luta.

Raul Pont, um militante dos direitos humanos e das liberdades políticas, ainda estudante universitário enfrentou a ditadura militar. Foi preso e torturado e conhece muito bem as marcas que a violência deixa e que o tempo não apaga.

Enquanto parlamentar e prefeito esteve sempre atento às reivindicações dos movimentos de mulheres, presente em nossos atos e defendendo a eqüidade de participação das mulheres nas mais diversas esferas. Os avanços das políticas públicas para as mulheres em Porto Alegre passaram por sua administração. A busca de mais recursos no orçamento do Estado, conta com sua voz na defesa permanente.

Ao contrário de Raul Pont, a deputada Zilá, do PSDB, votou contra emendas importantes que ampliavam recursos para as mulheres no orçamento público. Além disso, sua figura é ausente nas atividades e debates promovidos pelos movimentos de mulheres.

Assim, não podemos aceitar caladas à tentativa de vitimização da parlamentar. Que a deputada se sinta agredida pelo gesto de baixar o microfone quando a sessão estava interrompida é um sentimento seu – pessoal. Não é - e nem seria em hipótese alguma - uma agressão "a todas mulheres gaúchas" como, de maneira pretensiosa, declarou Zilá. Ela está muito longe de representar todas as mulheres gaúchas. Ela não representa sequer todas as parlamentares do Legislativo Gaúcho.

Na defesa da história militante de Raul Pont.

No reconhecimento à sua presença na luta das mulheres.

Na convicção de que a verdade é revolucionária.

Repudiamos todas as tentativas de transformar o deputado Raul Pont no desvio de foco da CPI.

Porque a calúnia pode ser uma violência maior. Ela não fere a carne, mas atinge a honra.

***
Eu, particularmente, tenho nojo desse povo que instrumentaliza a luta das mulheres para finalidades tão espúrias quanto esta da deputada Zilá. É gente que tem por hábito desqualificar o feminismo, desdenhar das demandas das mulheres, mas que adora usar como pauta em momentos de puro oportunismo!
O Raul mais do que merece a mobilização feminista em sua defesa. A gente o conhece bem.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Transição, trânsito e transitoriedade

"O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim, esquenta e esfria, aperta e depois afrouxa, aquieta e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem". (Guimarães Rosa)

O jornalista e escritor gaúcho Fabrício Carpinejar tem uma ótima crônica sobre a ansiedade. Dizia ele: “Sou ansioso, minha sensibilidade parece que está de plantão. (...) Sou ansioso porque espero a vida com urgência”*.

Imagine, então, o que é ser ansioso diante de uma famigerada “fase de transição”, aquela famosa e infinita ligação entre um ponto e outro. O “um ponto” você está deixando. O “outro” é aonde você quer chegar. Ou melhor, aonde você vai chegar, isso é certo. Por isso, inclusive, é que a ansiedade fica desperta e saltitante: já que você vai chegar, que seja logo.

Vejamos, é como se fosse o trânsito de uma grande cidade. Melhor: o trânsito de uma cidade grande que você ainda não conhece bem. Você sai de casa e vai pro trabalho. Vamos supor que é um trajeto longo, ou então, que é “horário de rush”. Você sabe bem aonde vai, a ansiedade não é produto de um destino desconhecido. Mas a demora para chegar é incômoda, porque, inclusive, é inestimável. E incontrolável. Dependendo do fluxo de automóveis ou da vontade dos deuses, você pode demorar 40 minutos ou 2 horas.

Começa a demorar mais do que o previsto. Pode ter sido um semáforo enguiçado, um acidente de trânsito, obras na pista, qualquer coisa. Pode até ser que você tenha pegado o caminho errado, na ânsia de se antecipar. Daí vem a angústia, o mau humor, o estresse, o medo do erro... até uma insegurança de não chegar.

Quem conhece o caminho não tem medo de errar, nem de perder a hora. Mas no nosso caso hipotético aqui, o caminho não é familiar. Você sempre pode se perder. Ou estimar mal o tempo que leva. Ou desconhecer as melhores rotas. Ou se surpreender com frequentes contratempos que não abatem os que já passaram por ali. Enfim: quem não conhece o caminho que leva ao ponto aonde se quer chegar sofre mais de ansiedade e de todos os males que dela decorrem.

Acontece que aqueles que não têm esse problema já tiveram, pelo menos, uma vez. Todo caminho é desconhecido pra quem nunca passou por lá, ué. Mas depois de passar, por mais longo, esburacado ou escuro que seja, você já conhece. Pode desviar dos buracos, levar uma lanterna. Pode sair de casa com o tempo calculado.

Veja que não estamos falando, aqui, de um destino desconhecido – e isso é importante. Porque quem não sabe aonde vai chegar, ou não quer saber, ou ainda está descobrindo, tem outro tipo de problema de que não falaremos aqui...

É assim na vida. O que você nunca enfrentou antes te amedronta. A ansiedade parece que devora o corpo e a alma. Quer que o tempo passe logo, quer dormir e acordar quando tudo estiver pronto. Quer que o caminho seja mais rápido do que você mesmo. Pra não sentir o caminho...

Não tem outro remédio, se não, paciência. Confiança. Claro que precaução também nunca é demais. E confiança não pode ser em excesso... não tem jeito, o caminho está lá e você tem que cumpri-lo. Não há teletransporte. Você pode tornar o caminho mais ou menos árduo na medida em que controla ou não sua ansiedade, seu mau humor, sua insegurança. Fácil não é. Mas é melhor facilitar.

Levar uma boa música pra ouvir, um bom livro para ler. Levar coisas boas na lembrança do “um ponto”, levar expectativas boas do que vai encontrar no “outro”. Assim, a ansiedade de quem espera a vida com urgência fica mais suportável...

* “Ansiedade” é uma crônica de Carpinejar que pode ser lida em Canalha!, dele, publicado pela Editora Bertrand Brasil.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A intolerância machista contra as mulheres

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”
(Clarice Lispector)


O artigo escrito por Carlos Alberto Di Franco para O Estado de São Paulo não chega a surpreender. Quem conhece a trajetória do ilibado professor, sabe da sua profunda identificação com setores mais reacionários e ortodoxos da Igreja Católica.

O Partido dos Trabalhadores é produto da luta democrática, do desejo de homens e mulheres de construir justiça e igualdade. A união de movimentos sociais da cidade e do campo, do novo sindicalismo que surgia, a intelectualidade e a Igreja progressista construiu o PT a partir de experiências da luta concreta do povo brasileiro em sua pluralidade. Dessa forma, é evidente o compromisso histórico do PT com sua democracia interna, bem como a presença valiosa de companheiras e companheiros referenciados na Igreja, notadamente, na Teologia da Libertação.

Os deputados Luís Bassuma e Henrique Afonso, respectivamente, espírita e evangélico, se desfiliaram do PT afirmando que foram “vítimas” de intolerância religiosa. Ora, vejamos. Há muitos espíritas e muitos evangélicos, das mais diversas matizes, entre nós. Há católicos, há presbiterianos, há judeus. Há candomblecistas, umbandistas, anglicanos. Há ateus. Nossa tradição democrática, a mesma que contribuiu com a incipiente democracia brasileira, nos ensina que nenhuma crença deve se impor sobre a outra. Nenhuma é exclusiva no grau de verdade que carrega. Nenhuma pode ser discriminada. Daí, a compreensão nítida de que o Estado é laico. O Estado não pode se orientar por uma ou outra religião, nem pela negação delas, sob pena de incorrer em erros que a humanidade já assistiu muitas vezes.

A ética da política

Dessa forma, quem praticou a chamada intolerância religiosa foram exatamente os dois parlamentares. Foram intolerantes com quem não compartilha de suas crenças – essas sim, de ordem individual. Foram intolerantes com o feminismo, segmento que esteve desde o princípio na construção do PT, e muito disputou até que suas concepções se tornassem um eixo político do partido, parte de seu programa e de suas políticas. Foram intolerantes com a democracia partidária, que define as resoluções e encaminhamentos do partido.

No bojo da discussão da reforma política, está a premissa de que os partidos políticos devem ser fortalecidos diante da atuação individual – porque isso inibe a corrupção e politiza a relação com o eleitorado. Também com base nessa concepção, os mandatos parlamentares são instrumentos do partido de defesa de suas bandeiras, seus princípios, suas opiniões e suas propostas.

É surrealismo imaginar que um mandato parlamentar do PT possa ser usado como instrumento de uma batalha contra uma posição importante do próprio PT. Luís Bassuma e Henrique Afonso não apenas votaram contra orientação partidária. Eles se colocaram como expoentes principais contra uma posição do PT, publicamente, e se utilizando do mandato que lhes foi garantido com votos depositados no partido. A punição a eles determinada pelo Diretório Nacional era o mínimo que se esperava de um partido que se leva a sério.

A base do reacionarismo

Em seu artigo, o professor Di Franco afirma que sua opinião quanto ao aborto tem base, para além da religiosa, filosófica e científica. Pura verborragia. Podemos desafiá-lo a apresentar conceitos da Filosofia ou mesmo conclusões da Ciência que apontem o que ele busca justificar. A Ciência e a Filosofia não estão à disposição de comprovar que se justificam as milhares de mortes de mulheres, todos os anos – em sua maioria, pobres e negras –, em prol de uma dita “defesa da vida”. Não é fato que a vida se inicia na concepção. É mentira que as mulheres são “hospedeiras” de seres humanos autônomos. É mentira que os embriões são organismos completos. Falácias jogadas aos quatro ventos para defender opiniões retrógradas que, entre suas conseqüências, alienam os corpos e as vidas das mulheres, tratando-as como “hospedeiras”, determinando que seu destino, queiram ou não, é a maternidade, e que elas nem sequer podem escolher em que momento querem e podem ser mães.

Esse tipo de raciocínio defendido pelo professor Di Franco é o mesmo que, levado ao extremo, legitimou barbáries na história da humanidade, nas quais sempre o mesmo setor da Igreja esteve envolvido. E como todo propagador desse tipo de idéia, ele usa de argumentos falaciosos com vistas a rotular seu “adversário”.

É, no mínimo, lamentável que um jornalista doutor em Comunicação promova uma infeliz comparação entre legalização do aborto e “eliminação de doentes”. É lamentável porque é manipulação de discurso, e não por meio da ocultação, mas sim, por induzir seu leitor ao erro propositadamente, com o objetivo de desqualificar o interlocutor a princípio.

As mulheres defendem a legalização do aborto há décadas, e já não sofrem o isolamento que o professor nos imputa. Países reconhecidamente conservadores como Portugal e México fizeram o debate e promoveram a regulamentação. Praticamente todos os países ditos “desenvolvidos” têm a prática de aborto regulamentada em seus territórios, o que fez diminuir as mortes de mulheres e a própria prática de aborto.

Liberdade e igualdade

As mulheres não recorrem ao aborto porque querem. Elas recorrem ao aborto porque a hipocrisia de um setor da Igreja insiste em fingir que elas não existem. Porque condena o uso de preservativos. Porque reforça o mesmo machismo que violenta mulheres e que as abandona, muitas vezes, ao enfrentar uma gravidez indesejada.
As mulheres recorrem ao aborto porque não têm saída. Legalizar o aborto é uma forma de incluir essas mulheres. De acabar com a hipocrisia que garante apenas às que podem pagar o acesso a uma clínica clandestina. De prevenir tantas mortes e tantas seqüelas. De apresentar um programa completo, com planejamento familiar e universalização de acesso a métodos anticoncepcionais. Legalizar o aborto é parar de fingir que o problema não existe.

Causa muito incômodo a alguns que as mulheres lutem por sua liberdade e por sua autonomia. Essa luta está no combate à violência sexista, na busca de igualdade no mercado de trabalho, pela socialização do trabalho doméstico, contra a mercantilização do corpo das mulheres. Em todos esses momentos, a luta das mulheres enfrenta a intolerância, mas nunca se retraiu por isso. E foi isso que fez a humanidade caminhar no sentido da igualdade, embora ainda haja um longo caminho a percorrer.

De nossa parte, feministas, nos conforta saber que o discurso que o professor Di Franco representa é de um setor, não de um amplo setor, como ele quer fazer parecer. Muitos companheiros e companheiras da Igreja estão conosco nessa luta.
Liberdade de expressão nós, feministas e petistas, conhecemos bem. Nós ajudamos a construir o conceito. Nunca estivemos do outro lado.

Alessandra Terribili, integrante da Secretaria Nacional de Mulheres do PT e militante da Marcha Mundial das Mulheres

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Setembro foi de luta para as mulheres

Não é porque o mês de setembro acabou há alguns dias que se torna sem razão falar sobre as lutas e vitórias das mulheres que marcaram o mês.

O mês de setembro marcou uma importante vitória das mulheres petistas. Na reunião do Diretório Nacional (DN) dos dias 17 e 18, a comissão de ética do partido apresentou seu parecer sobre o processo movido pela Secretaria Nacional de Mulheres contra os deputados federais Henrique Afonso (AC) e Luís Bassuma (BA).

As mulheres petistas, com base nos estatutos do partido e nas resoluções do seu III Congresso – entre as quais a que define pela defesa da descriminalização do aborto e a sua regulamentação no serviço público de saúde –, argumentaram que os dois parlamentares não apenas não seguem a opinião partidária como organizam opinião contrária a ela. Essa postura fica evidente em declarações de ambos à imprensa, sua participação em ações públicas contra a legalização do aborto e em inúmeros projetos de lei apresentados por eles. Bassuma chega ao ponto de presidir a “Frente Nacional Em Defesa da Vida”, espaço em que se organizam aqueles que buscam restringir ainda mais a autonomia das mulheres e seu direito ao seu próprio corpo.

O resultado da reunião foi punição. Noventa dias de suspensão para Afonso, um ano para Bassuma. Trata-se de uma ocasião significativa, em que o partido, mais uma vez, tomou para si a luta das feministas brasileiras, em defesa da vida, da saúde, da autonomia daquelas que são criminalizadas por interromper uma gravidez indesejada. Mais do que se solidarizar com as mulheres, o PT reafirmou que essas que o constroem há quase 30 anos fazem parte da sua história, da sua compreensão do mundo e da sua elaboração programática. Não é uma luta das mulheres petistas. É uma luta de todo o PT.

Henrique Afonso e Luís Bassuma se desfiliaram do partido dias depois. Classificaram a resolução do DN como “intolerância religiosa”. Ora, essa foi exatamente a prática de ambos. Intolerância com aquelas que não têm a mesma crença que eles, e têm direito de dispor livremente sobre seu corpo, de decidir livremente se querem ser mães e quando, e de ter fé ou não nos princípios religiosos que quiserem. Intolerância com as milhares de mulheres que dão entrada nos hospitais públicos brasileiros depois de tentar praticar um aborto inseguro, sem as adequadas condições, por sua própria conta. Essas são condenadas: a serem presas, a sofrerem seqüelas e até a morrer, em alguns casos.

E tudo isso no mês de setembro. No mês em que, dia 28, as mulheres da América Latina e do Caribe celebram sua luta pela legalização do aborto. Além dos atos que coloriram ruas e praças de todo o país, o 28 de setembro de 2009 foi coroado com a refirmação, por parte do Partido dos Trabalhadores, do seu compromisso com a luta das mulheres. Que esse compromisso siga orientando nosso discurso, nossa ação e nosso programa para o Brasil.

Alessandra Terribili, integrante da Secretaria Nacional de Mulheres do PT e militante da Marcha Mundial das Mulheres.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Não trabalhamos com estúpidos

Escrito por Bruno Padron, Porpeta

O treinador Hélio dos Anjos, do Goiás, soltou mais uma de suas "pérolas" em entrevista coletiva. Afirmou que não trabalhava com homossexuais ao ser perguntado sobre um suposto ciúme do elenco com relação à contratação de Fernandão. Se a homofobia fosse considerada crime, o futebol, ao menos, não reproduziria tais barbaridades.

Quando um clube anuncia uma grande contratação, daquelas de impacto, existem inúmeras decorrências da mesma. Se por um lado dirigentes e torcedores soltam fogos de artifício comemorando o feito, por outro, questões como salários pagos bem acima da média do elenco e tratamento diferenciado podem provocar crises internas entre os jogadores.

O noticiário sobre o time do Goiás vem colocando esta questão à mostra. Depois da chegada de Fernandão, após a empolgação inicial, surgiram boatos de que o grupo estava insatisfeito com a presença dele.

Principalmente porque seu salário era bastante superior ao dos outros que, até aquele momento, colocaram o Goiás entre os quatro primeiros colocados do Campeonato Brasileiro, na zona de classificação para a Libertadores. Mas também por supostos privilégios ao meia-atacante.

Fernandão não é mais um garoto. Assim como Ronaldo, no Corinthians, não pode submeter-se à mesma carga de treinamentos feita por um jovem de 22 anos de idade.

Embora se saiba que algumas estrelas do futebol, ao retornarem para campos brasileiros, inserem cláusulas em seu contrato de trabalho que lhes permitem algumas regalias, como a dispensa de alguns dias de treinamento. Será o caso?

Mas todo boato no futebol não é fruto da imaginação da imprensa. Às vezes ela aumenta, mas não inventa. A fertilidade das notícias sempre tem um dirigente ou um jogador como fonte. Em geral, tudo feito em off.

Embora muitas das notícias sejam desprovidas de averiguação, servindo apenas ao furo de reportagem, interesses eleitorais internos dos clubes ou jogadores forjando descontentamento, já de olho em alguma proposta mais interessante de outro time.

Mas quando a notícia aparece, toma conta das entrevistas e algumas respostas são exigidas pela imprensa e pelos torcedores. Daí, a depender do entrevistado, podem variar as versões ou até mesmo o tom usado sobre uma determinada versão, que pode ser previamente combinada.

Hélio dos Anjos, às vésperas de um jogo contra o Flamengo, no Serra Dourada, arranjou uma forma bastante controversa para conclamar a torcida do Goiás a comparecer ao estádio. Disse que achava uma vergonha ter goianos torcedores de times de outros estados. Gerou uma polêmica desnecessária, desrespeitando o direito individual à escolha do seu time do coração. Dito isso, mais um jogo do Flamengo no Serra Dourada com maioria rubro-negra nas arquibancadas.

Agora, ao responder sobre o suposto "ciúme" do grupo com Fernandão, Hélio afirmou que ciúme era "viadagem" e ele não trabalhava com homossexuais.

Mal sabe, ou sabe muito bem e não quer dizer, que a homossexualidade no futebol é algo mais comum do que se imagina, embora não amplamente divulgada. Ou seja, ele pode estar trabalhando ou já ter trabalhado com vários. O que o tornaria ainda um mentiroso. Além disso, já não é o único caso recente de discriminação por orientação sexual no futebol.

Até os dias de hoje, o nome do meio-campo Richarlyson, do São Paulo, não é gritado pela principal torcida organizada do clube no início dos jogos. Isso porque houve boatos, levantados por um dirigente palmeirense e negados pelo jogador, diante das ameaças dos dirigentes são-paulinos, sobre a homossexualidade do jogador. Desde então, ninguém fala mais sobre o assunto.

Pouco importa se, de fato, o jogador é ou não homossexual. Importa que o tratamento dado à questão pelo mundo do futebol é discriminatório, passando inclusive pela negação da existência "desse tipo de coisa" no futebol.

Outros, como Raí, ex-jogador do São Paulo, afirmam que a homossexualidade é freqüente no meio. Estaria mentindo? Provável que não. O que evidencia tudo que está abaixo do tapete.

Uma legislação que puna a homofobia não acabará com ela, mas pode cumprir o papel de colocar em pauta este debate, seja na sociedade como um todo, seja em meios mais hostis, como o futebol.

Algo que faria Hélio dos Anjos, ao menos, pensar duas vezes antes de falar tais bobagens. Poderia ser processado, ou até preso. Mas, com certeza, não usaria o espaço privilegiado que o futebol possui na mídia para destilar preconceitos.

Sabemos que os sexuais não são os únicos. Existe racismo, xenofobia, e todos os outros que permeiam nossa sociedade. Mas o futebol precisa dar outro exemplo, afinal os personagens da bola são referências de comportamento para muitos jovens. Hoje, infelizes referências.

Ele pediu desculpas pela declaração preconceituosa, mas as ruas provam que o limite chegou ao fim. Muita gente morre no dia-a-dia por pensamentos e atitudes estúpidas como a dele, e desculpas já não são mais suficientes.

Bruno Beneduce Padron (o Porpetta!) é bancário - e meu amigo.
E-mail: brunopadron@yahoo.com.br

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Parece um sonho

(Mário Quintana)

"Parece um sonho que ela tenha morrido!"
diziam todos... Sua viva imagem
tinha carne!... E ouvia-se, na aragem,
passar o frêmito do seu vestido...

E era como se ela houvesse partido
e logo fosse regressar da viagem...
- até que em nosso coração dorido
a Dor cravava o seu punhal selvagem!

Mas tua imagem, nosso amor, é agora
menos dos olhos, mais do coração.
Nossa saudade te sorri: não chora...

Mais perto estás de Deus, como um anjo querido.
E ao relembrar-te a gente diz, então:
"Parece um sonho que ela tenha vivido!"

***
Porque, pra quem precisa ser forte, não é demérito algum tirar forças dos sonhos...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Mais machismo e mais homofobia no futebol

18/09/2009 - 15h07
Diego Souza responde Fabrício e avisa que não jogará como 'mocinha'
Do UOL Esporte
Em São Paulo


tsc tsc... machismo e futebol de novo... se não me engano, bem na semana em que Marta estréia pelo Santos, com a 10.

O pobre do Diego Souza nunca chegará a ser uma "mocinha" como Marta.

Outro que falou bobagem foi o técnico do Goiás, Hélio dos Anjos. "Eu não trabalho com homossexuais. Dizer que tem ciumeira é coisa de viado" - falou ele para a imprensa. Ah, se já tivéssemos aprovado a lei que criminaliza a homofobia...

Todo mundo sabe, é até chavão, que essas estrelas do futebol são modelos pra uma porção de crianças, jovens, adultos e idosos pelo país afora. Não podem falar sem pensar. Aliás, deviam pensar mais.

E eu pergunto com que roupa...

Um senhor chamado Nelcir Tessaro, vereador do PTB em Porto Alegre, resolveu propor à Câmara de Vereadores da cidade que defina de que forma os parlamentares devem se vestir para comparecer às sessões. Mais do que uma idéia brilhante produto de dias e até meses de reflexão, mais do que uma incomum generalidade, o vereador tem dois alvos: suas colegas Sofia Cavedon (PT) e Fernanda Melchionna (PSOL).

Ao que tudo indica, ele se incomoda que as mulheres não se vistam em trajes “formais”, em tailleur, de salto alto, vestido longo. Ele se incomoda profundamente com a pouca formalidade que percebe nas vestimentas das duas vereadoras. Ele se incomoda especialmente com camisetas que trazem dizeres políticos.

Ora, vejamos. Proibir dizeres políticos em camisetas de pessoas que são pagas exatamente pra fazer política é meio estranho. O que se espera de um parlamentar é que tenha posição e que a defenda. Que a exponha. Eu, particularmente, gosto de quem expõe sua opinião na simplicidade enfática de uma camiseta.

Porque qualquer pessoa pode usar uma camiseta para exibir o que pensa sobre algum assunto. Não é privilégio de quem detém um mandato, ou conta com microfones e holofotes para poder falar. Um parlamentar – ou no caso, UMA parlamentar – que usa esse meio para explicitar a opinião que está representando, pra mim, demonstra sua sintonia com a idéia em questão e com aqueles e aquelas que lhe delegaram o mandato.

Outra nuance da discussão é aquela clássica: o machismo que continua orientando algumas ações e discursos no parlamento. Lastimável que venha um cidadão querer definir como as mulheres devem se vestir, se comportar, falar, se expressar para serem respeitadas na política. Isso não tem outro nome, se não machismo.

Juntando as duas coisas, é como no título do artigo escrito pela vereadora Fernanda: a política não tem que ser só pra engravatados.

Acho que vou dar de presente à vereadora Sofia, de quem, felizmente, sou companheira de corrente, uma camiseta com os dizeres: “Machismo, aqui, não”. Pra ela usar na sessão da Câmara que, semana que vem, vai apreciar o projeto de Tessaro – sim, o projeto existe, este artigo não é uma pegadinha.

***
Ou nas palavras do grande Chico: “Quero perder de vez tua cabeça / Minha cabeça perder teu juízo”.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Frase

Viva Belchior, que bom que ele apareceu. rsrs...

"Longe o profeta do terror que a laranja mecânica anuncia,
Amar e mudar as coisas me interessa mais."

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Machismo tradicional

Do jornal Zero Hora de 15 de setembro de 2009, seção “Informe Especial”, pelo interino Alexandre Elmi:

Prenda do Parque
Não é o caso de o Acampamento Farroupilha da Capital, cada vez maior e mais democrático, ganhar também uma rainha, como as festas do Interior?
Seria uma forma de valorizar ainda mais a charmosa e crescente participação feminina no evento.


Pra quem não sabe, o Acampamento Farroupilha se instala no Parque da Harmonia todos os anos, nas proximidades do 20 de setembro – data em que se comemora a Revolução Farroupilha. Lá, festeja-se a memória do fato histórico e as tradições gaúchas – uma característica importante do povo do Rio Grande do Sul é prezar pela sua própria história e pelas suas tradições.

Muy bien. Ano 2009. Vem um colunista dizer que a participação das mulheres deve ser coroada com a premiação de uma “prenda”, uma “rainha”, ao fim e ao cabo, uma miss. Vamos valorizar o evento, vamos reafirmar que o papel das mulheres é o de adorno, enfeite, que sua característica fundamental é serem belas e estarem, portanto, à disposição dos homens que as contemplam, que as desejam, que as tomam. Vamos inventar uma tradição nova. Vamos eleger uma rainha pra mostrar qual deve ser a participação das mulheres, vamos classificar assim a presença delas. Vamos fazer com que a "crescente participação feminina" restrinja-se a ser "charmosa".

Vira e mexe tem alguém pra justificar discriminação e desigualdade a partir de “tradições”. Mas nesse caso, é pior. Ele propõe uma nova iniciativa como futura tradição, que ressalta o machismo existente na cultura gaúcha, brasileira, mundial.

O machismo é uma tradição a ser combatida. Não é possível que as pessoas não enxerguem que pode – e deve – ser diferente.

PS: Antes que me venham com essa, não, “não é só uma brincadeira sem maldade”. Tudo expressa uma cultura. Toda cultura está a serviço de uma estrutura. Quem não sabe disso ou tá fingindo ou é um pobre alienado.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Nota da Marcha Mundial das Mulheres contra o machismo na CPI da Corrupção

Violência contra uma Mulher: é assim que classificamos o que tem acontecido nas sessões da CPI da Corrupção, instalada na Assembléia Legislativa do RS. É assim que tratamos quando sofremos violência no espaço público ou no privado. Não vamos nos calar diante do machismo, de falas desclassificadas, desrespeitosas e com tons de deboche com que alguns deputados vêm tratando a deputada Stela Farias.

Ficamos chocadas, ainda, ao ler a matéria postada no blog do PSDB do Rio Grande do Sul, onde escrevem que é preciso "arreios à mão, para domar Stela" no título do texto. Finalizam dizendo que "a base aliada terá que ter determinação e firmeza para domá-la". Isso é preconceituoso, misógino e machista, e vem com o objetivo de desclassificá-la somente pelo fato de ser uma mulher a conduzir a CPI. Ou se fosse um homem diriam que ele precisaria de arreios?

A Assembléia Legislativa não pode compactuar com este tipo de atitude e declarações, que tentam diminuir o trabalho brilhante que a deputada vem desenvolvendo diante dessa CPI, assim como fez na CPI do Detran.

Nossa luta cotidiana pela emancipação e autonomia das mulheres caminha junto com a luta por relações igualitárias entre homens e mulheres. Exigimos que a Assembléia Legislativa não permita que este tipo de manifestação se repita dentro das sessões da CPI e em nenhum lugar dessa Casa.

***
A CPI em questão, para quem não se atentou, é a que investiga fraudes e esquemas de corrupção no governo do estado do Rio Grande do Sul, o que inclui a governadora Yeda Crusius (PSDB). Essa senhora, em vez de prestar esclarecimentos sobre os fatos em questão, segue criminalizando e colocando a polícia para agir com violência contra quem a denuncia.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Transbordar e ser grande

Mais poesia.

Fernando Pessoa sabia das coisas. Abaixo, um poema de Ricardo Reis, e um trecho de um (longo) poema de Álvaro de Campos. Pra mim, tratam de intensidade. Eu gosto da intensidade, é como uma verdade ampliada, exposta pra quem quiser ver. Autêntica. Bonita, porque plena. E como tal, não tem um lado só. A beleza da intensidade é o céu e o inferno dela mesma.

"Multipliquei-me, para me sentir
Para me sentir precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravazar-me,
Despi-me, entreguei-me
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente."

(trecho de "Passagem das Horas", de Álvaro de Campos)

"Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda brilha,
Porque alta vive."

(poema de Ricardo Reis)

sábado, 5 de setembro de 2009

O caminho

Amor é ter um vasto caminho a percorrer
E os olhos nem verem aonde isso vai dar

Amor é como se fosse um campo de vegetação rasteira
Verde, meio amarelo e marrom
Plano
Com sol quente vermelho e brisa leve branca
E um lago em algum lugar
E um saber que o mar está perto

Não precisa explicar tudo
O amor é composto do desconhecido também
Não precisa conhecer poemas
Nem muitas palavras belas
Que o amor se define com os meios que tem
E quase sempre
Dispensa a si mesmo de muita autodefinição

Amor às vezes surpreende o amador
não parecia assim
não esperava assado
não combinara o que foi

O amor não combina
O amor é
O amor, quando combina,
É tão evidente
que explica toda análise combinatória
que a matemática já produziu
E prova, por a + b
Que tinha que ser assim
Que sempre esteve determinado
Que o que tinha que ser, se deu

Amor que é amor
Tem um quê de irracionalidade
de uma paixão inexplicável
que não tem origem clara nem ponto de chegada
Não se entende muito bem
Tem raiva, mesquinhez e pouca sobriedade
Mas ele vem levando pela mão

Amor não é amor se não for racional
- É este, não aquele, nem nenhum outro.
Ele mais eu, porque eu e ele
Dá certo, funciona, encaixa
Resultante positiva
Faz bem, produzo mais, sorrio para o mundo
Todo mundo gosta mais de mim porque eu amo

Porque nenhuma dor que o amor cause
É maior que a perspectiva boa das felicidades por viver
Que têm base material
num agora feliz
num eu sei que vou te amar
num bem danado que o danado faz
só por estar ali

Amor que é amor mesmo
Não tem medo do próprio fim
Porque sabe que ele chega,
mas sabe, sabe sim
que ele recomeça de onde parou
Simplesmente porque nós queremos
E decidimos que será assim

Amor é respeitar o tempo
E desrespeitar o fim
Amor é decidir conscientemente que é você
E sentir a intuição concordar

Amor é esperar
é se precipitar
é antecipar e se atrasar
E dar tudo certo mesmo assim

É a plenitude de si mesmo
É o outro integral
e isso não ser incômodo
ou motivo para pensar

Amor é o próprio caminho
É um turbilhão e é a calmaria
É gostar de viver assim
É olhar pra ele e pensar que sempre soube
(e que ele também percebeu)
Que chegaria até ali
Porque era ele, porque era eu

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Presente

Eu sou mesmo uma mulher de sorte. Ganhei de presente um poema. Recém-escrito.

Essas situações interessantes da vida, que nos arrancam sorrisos, que têm origem em meras coincidências, que o acaso desenha mas as construções da história preenchem.

Sem mais churumelas. Um amigo querido escreveu um poema. Sei lá por quê. Sei lá quem ou o quê o inspirou. Não sei a finalidade, nem sei se tem finalidade. Mas ele escreveu e é lindo. Como fiz aniversário há 2 dias, ele me percebeu online e me presenteou com o poema que acabara de escrever. Destacou que não fui a fonte de inspiração - e é fácil notar que não -, mas é algo dele, que se desdobrou dele mesmo hoje, agora, minutos atrás, por algum bom motivo. E é meu agora.

Que nem pintar um quadro e presentear alguém. Que nem apanhar em casa mesmo uma coisa que sempre foi sua, que tem identidade com você, que faz parte da sua vida de alguma forma, e presentear. Que nem fazer um jantar pra alguém. Saber que você é capaz de fazer uma coisa bonita e saber que você tem um bom amigo, ao mesmo tempo.

O poema do meu amigo agora é meu. Ganhei de aniversário. Não importa que não o motivei. Importa que ele foi produto de um bom motivo. E que seu autor, certamente feliz com sua produção, embalou-o com seu carinho por mim e me deu.

Pedi a ele que a epígrafe fosse: "A uma amiga querida que estava de aniversário dois dias antes de este poema se descolar de mim".

O Amor bateu em minha casa
(Daniel MM)

O Amor bateu em minha casa em um sábado à noite.
Eu ia para o baile, gostei do seu rosto, mas hoje não vale:
Ligue amanhã, sim? No domingo amarei em fim.
Não ligou, me acordou! E a bater palmas. Mandei as favas:
Eu quero dormir porra! Tchau Amor, corra!
Sem a ressaca do dia anterior e cheio de mau humor,
Veio a segunda e a falta do grande Amor.
Nenhum número para ligar, falar da falta de ar
E do vazio de estar só. Triste o laço que termina em nó.
Treze ligações na terça e eu não agüentei:
Me procura sexta, Amorzinho, antes que eu enlouqueça.
Vinte e quatro e-mails na quarta e o amor cheirou dor.
Quinta eu tudo queria fazer, que só me fizesse do Amor esquecer
E no almoço sentou-se à mesa ao lado. Enjoei , não almocei.
Mas na sexta...
...quando de manhã o Amor encontrei...
Senti alegria e medo,
Brilho e dúvida,
Certeza e escuridão,
De querer algo sem querer,
De ter o que não se quer,
De ser o meu querer,
Feito imagem no espelho
E sentimento no coração.
Entendi da busca do Amor
E querendo novamente ser encontrado
Virei o rosto e fugi desconcertado.
Trabalhei toda tarde e Dele esqueci. Fui pro bar e lá bebi.

Daniel Moreira 01/09/09

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

"Esse é tempo de partido...

... tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra."

(Drummond)


Esse endeusamento de figuras que tomam inciativas motivadas por mais coisas do que apenas suas "convicções e sonhos". Esse esquecimento dos milhares que têm suas convicções e sonhos, que os vêem abatidos uma porção de vezes, mas não têm um mandato no Senado e nem os holofotes da mídia pra poder desabafar. Esses que seguem em frente, com lágrimas, com sangue, com suor, que se envergonham, que sentem dor, que pensam em desistir, mas seguem. Porque esses, esses não podem se dar o luxo de perder um tempo valioso. Não podem se dar o luxo de bancar o/a messias. Não podem se dar o luxo de errar, porque têm uma história inteira - não uma parte - pra escrever.

Essa coisa toda com a Marina Silva, o que mais me incomoda é que, se ela não encontra condições políticas pra defender suas bandeiras no PT, ela vai encontrar no PV????? O hipócrita e oportunista PV? Isso sem entrar no debate político-programático, que vai ainda mais longe na mediocridade.

A justiça que a causa ambiental, mais, que a causa eco-socialista contém é inegável. Também é inegável que o capitalismo, por mais que busque incorporar parte do discurso (para esvaziá-lo, em alguma medida, e pra se atualizar sem deixar de ser ele mesmo, por outro lado) jamais vai responder à questão. Jamais - não tem como. Também, é certo que os socialistas e suas organizações, muitas vezes, não dão a esse e a outros debates a centralidade necessária para, inclusive, enfrentar o sistema. Enfrentar de forma ampliada, estratégica, enfrentar na sua plenitude.

Admiro quem não abre mão das suas convicções políticas, quem não as relativiza seja pra buscar atalhos (que não costumam existir), seja para perseguir ideais individuais. Convicções são para ser disputadas, porque, mesmo entre os nossos, nem sempre enxergaremos as coisas da mesma maneira.

Mas a Marina não vai dar mais centralidade à causa ambiental, no sentido que essa luta deve ter, filiando-se ao PV para disputar a presidência. Já vimos esse filme. Outros e outras já cometeram esse equívoco. Pra mim, respostas individuais não servem pra nada.

Todo mundo sabe o que é o PV. Ou melhor, deveria prestar atenção pra saber. Em SP, o PV é base do PSDB desde sempre. E o governo do PSDB é um grande amigo da natureza no estado?

O PV faz pose de fashion. "Nem à esquerda, nem à direita, à frente". O PV do Gabeira, que praticamente defende o turismo sexual. O PV sem programa, mas com interesses.

Não estou entre aqueles que estão solidários à senadora. Sou solidária, isso sim, a boa parte de suas idéias (e nem todas porque, no caso do feminismo, por exemplo, ela não está exatamente do mesmo lado que eu). Estaria solidária se observasse, na movimentação dela, uma forma de lutar mais e melhor por aquilo em que ela acredita. Mas, pelo que eu disse acima, não é isso que vejo...

Não têm sido dias felizes. Eu não tô feliz, nem satisfeita, nem aprovando várias coisas. Mas não sou senadora e ninguém da imprensa quer saber minha opinião. Não tomo atitudes só pra limpar minha consciência. Como eu, há muitos e muitas. Mais do que se pode imaginar, inclusive. Neste tempo de partido, de homens e mulheres partidos... não dá pra ter resposta individual. Tem que ter mais responsabilidade com a luta de séculos, com processos de décadas, com companheiros de anos. A dimensão histórica de tudo é importante. Do governo, do partido, e das nossas ações.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Fase

Sem escrever
Estou em fase
de adaptação
transição
elocubração
Estou em fase
crescente

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Morre lentamente...

(Pablo Neruda)

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoínho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida a fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante…

Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples fato de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio pleno de felicidade.

***
Meus votos de boa sorte e muitas felicidades a todo mundo que se atreve a mudar alguma coisa na própria vida, contando mais com as alegrias do que será do que com as tristezas que trazem a vontade de fazer diferente...

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Sábio chinês

Vou fazer uma coisa bem cafuçu. Vou postar aqui uma frase de um "sábio chinês". rsrs... é uma frasezinha que eu sempre leio quando vou à sede nacional do PT em São Paulo, e sempre a acho simpática. Tá pregada numa parede, junto da cafeteira do 3º andar. É assim (mais ou menos):

Dentro de mim, há dois cães. Um manso e dócil, um bravo e mau. Alguém pergunta: qual deles ganha a briga? Responde o sábio: aquele que eu alimentar.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Um viva às mulheres do movimento estudantil



Uma demonstração de unidade e de coragem.

A plenária final do 51º Congresso da UNE contou com uma seqüência de falas que não estava disputando nenhuma resolução em específico, nem fazendo a defesa de uma ou outra chapa. Chamavam atenção por mais do que isso: eram vozes femininas, o que ainda é incomum de se ouvir num espaço como aquele. Mais motivo pra prestar atenção: elas representavam as principais forças políticas do congresso e do movimento estudantil como um todo, identificadas com PT, PCdoB, PSOL.

Essa unidade era pra denunciar o machismo do movimento e afirmar que as mulheres seguirão organizadas pra enfrentar e pra propor política para que a UNE, como um todo, enfrente. E elas sabem que, quando as mulheres se organizam pra lutar contra a opressão, a reação vem. Mas estão preparadas e mais maduras pra garantir a luta das mulheres. São vitoriosas desde já por terem protagonizado um momento tão... bonito.

Bonito porque a luta das mulheres é bonita. Porque é emocionante ver a unidade entre tantos setores, em meio a uma disputa que, tantas vezes, é cruel. E porque, ainda que nem todos tenham ouvido ou entendido o que elas disseram, aquelas que, como eu, pararam para ouvir cada palavra, certamente ganham mais fôlego, mais ar, pra lutar e seguir lutando. Não estamos sozinhas.

O ME é cheio de expressões do machismo que permeia toda a sociedade e a universidade. Tem casos de violência – aliás, as mulheres aprovaram uma carta com orientações e métodos de como a UNE deve tratar casos de violência que ocorram em seus fóruns e seus espaços. Tem desqualificação das mulheres que assumem papéis protagonistas. Tem assovios, gritinhos, risadinhas. Tem músicas escandalosamente machistas e palavras de ordem que seguem a toada. Tem xingamentos que só se dirigem às mulheres. Tem homem dirigente que se aproveita dessa condição pra tratar as mulheres como produtos à venda. Tem assédio sexual. Tem pouco espaço pra discutir o feminismo. Tem pouco recorte feminista pros debates gerais. Tem tolerância demais com situações explícitas de opressão.

A próxima executiva da UNE apresentará um desafio pra essas lutadoras que subiram ao palco naquele domingo, 19 de julho. Pra elas e pras demais lutadoras que as ouviam no ginásio, ou que estão nas universidades organizando a luta de todos os dias. O desafio de garantir a presença das mulheres pra garantir o feminismo na UNE.

A informação que tenho é que as chapas que já têm definidas suas indicações para a direção executiva da entidade não se preocuparam em assegurar a presença das mulheres. Um dos eixos das falações das companheiras era justamente ressaltar a importância de se aprovarem as famosas cotas de 30% para mulheres na direção da UNE, que não há. De olhos bem abertos, vamos observar que as teses que se apresentaram ao 51º Conune, embora falem sobre “gênero” nos seus materiais, ainda não vão assegurar que mulheres dirijam a entidade.

Parabéns às mulheres do ME, por essa demonstração de força e de que é possível superarmos diferenças para lutar por justiça e igualdade, que é uma pauta comum a todas nós. Foi louvável a iniciativa, me emocionou bastante. Parabéns a cada uma das que lutam. Parabéns à Lúcia Stumpf, é preciso dizer, que foi uma presidenta da UNE atenta à agenda das mulheres, contribuiu, fez diferença. Não basta ser mulher, tem que ser feminista!

E que no 52º Conune (onde espero não estar... rsrs...), os próximos 2 anos tenham enchido ainda mais de sentido a luta das mulheres militantes do ME. Que seja inaceitável e intolerável qualquer manifestação de machismo. Das repudiáveis musiquinhas da plenária final às agressões de mulheres que ocorrem Brasil afora em espaços do movimento.

A luta sempre continua...

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Uns dias

“O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso” – Mário Quintana.

Tem aqueles dias que podiam não existir. Aqueles dias que você deseja passar dormindo, pra não ver, e quando acordar, passou de uma vez. Aqueles dias em que seu time perde (o pior não é seu time perder, é o time dos outros ganhar), que você passa horas procurando a chave de casa e a descobre no seu bolso, que você se atrasa por isso e perde valiosos minutos das zilhões de coisas que têm acumuladas pra fazer, aqueles dias em que você não consegue telefonar pra quem precisa, não consegue entrar no site que precisa, aqueles dias chuvosos, feios, tristes, em que você queima o dedo cozinhando, aqueles dias em que você está naquele humor que nem você se suporta.

Dá um ódio sem precedentes do bom humor dos outros, especialmente aqueles que sempre estão exageradamente de bom humor, fazendo gracinha, soltando piadas sem graça. Dá mais raiva ainda dos demais mal humorados, porque se você mal pode conviver com seu próprio mau humor, imagina com o alheio! Como dizem meus amigos do Ceará, eu não sou nem obrigada!

Dá vontade de saber quem diabos inventou a merda do telefone celular e seus toques terríveis – sim, porque, hoje em dia, nenhum toque pode ser um simples “trim, trim”, precisam ser elaborados sons eletrônicos combinados com sei lá o quê, piadinhas de todos os tipos e músicas que não necessariamente quem convive com o dono do celular aprecia.

As costas doem mais do que o normal e a gente se sente mais lesado do que nunca pelo tanto que nos exploram, que são folgados, que são inconvenientes, que são chatos mesmo.

Daí, é melhor ficarmos sozinhos, pra não ter que incomodar ninguém com nosso próprio mau humor, mas mais do que isso, para que ninguém acentue nosso mau humor. Sem perguntas, sem explicações, sem queixas, sem nada. Ser a Bela Adormecida e dormir 100 anos.

Só tem um jeito de melhorar o humor na marra.

Se tem alguém de humor pior que o seu. Com muitos motivos de ter o humor ruim. Falando seco no telefone, monossílabos e monossílabos, e evitando os tônicos, que isso já seria um sinal de definição. Cabeça na lua, raiva de tudo, pressa de tudo. Palavras ríspidas, incomodando-se com a companhia de si mesmo. Incomodando todo ser vivo que houver ao redor, e alguns seres não vivos também. Mastigando sem engolir todos os motivos que a vida oferece para que o humor se mantenha ruim. Seguindo até o enjôo, vomitando seu tédio sobre a cidade.

E se essa pessoa é especial. Se quando pensa nela, muda seu dia. E se você sente cada coisa que essa pessoa sente. Essa pessoa é aquela que lhe desperta um sentimento meio incondicional, e você não admite que seres vivos, não vivos, os reinos animal, vegetal e mineral façam alguma coisa de mal pra ela. O reino da tecnologia, então, nem se fale, craque em tirar qualquer um(a) do sério.

E aí você recolhe seu mau humor, seu time, o time dos outros, os outros, a chave, os minutos, os motivos. Você não anula. Você recolhe porque isso tudo é menor do que você pensava. E quer cuidar para que o mau humor daquela pessoa não faça mal a ela mesma, para que as razões do seu mau humor tenham seus efeitos minimizados. Para fazer um carinhozinho, ou só pra ficar quieto(a) mesmo. Para a pessoa saber que você está do lado.

A Bela Adormecida acorda de seu sono de 100 anos. E vê que o mundo continua lá, no mesmo lugar, não adiantou prolongar a noite. E isso nem chega a ser assustador.

Então, eu vou ter que discordar do gaúcho Quintana, desta vez... o maior dos alívios da gente é que as pessoas podem ter a ver com nossos problemas. Se elas quiserem. E se a gente permitir.

***
100º post!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Nota do PT sobre o golpe em Honduras

O repúdio ao golpe em Honduras é generalizado.

Já manifestaram-se o presidente da Assembléia da ONU e o secretário-geral da entidade, a Organização dos Estados Americanos, o Sistema de Integração Centroamericana, os países da Alba, o Grupo do Rio, a Unasur, a União Européia e os EUA. O governo brasileiro deixou claro que não conciliação possível com o golpismo.

Em Honduras, há um único governo e um único presidente: Manuel Zelaya. Todo o nosso apoio ao povo hondurenho, em luta pela democracia.

Hoje, 30 de junho, ocorreu em São Paulo o primeiro ato público contra o golpe em Honduras. Nova manifestação ocorrerá no dia 2 de julho, também em São Paulo, em atividade realizada pela Central de Movimentos Sociais e partidos políticos, entre os quais o PT.

A direção do PT orienta seus filiados, especialmente os parlamentares e demais figuras públicas, a ampliar a denúncia e as mobilizações de solidariedade. O golpismo militar, articulados com os interesses oligárquicos e seus apoiadores incrustrados no parlamento e na judiciário, não pode vencer. O povo latino-americano, assim como o povo brasileiro, não quer a volta ao passado.

Ricardo Berzoini, presidente nacional do PT
Valter Pomar, secretário de relações internacionais

terça-feira, 30 de junho de 2009

Racismo, machismo, e outras coisas nojentas

No bojo de Grêmio x Cruzeiro, que vem aí, ainda imerso na polêmica da partida anterior, quando o volante cruzeirense Elicarlos denunciou o atacante gremista Máxi Lopez por racismo, deu hoje no portal Globo.Com: "Kléber discorda do amigo Souza: ‘Futebol é para homem, mas não para racismo’".

Quer dizer... machismo pode???

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Contra o golpe em Honduras

ATO CONTRA O GOLPE DE ESTADO EM HONDURAS!
AMANHÃ, DIA 30 DE JUNHO ÀS 10 HORAS
EM FRENTE AO CONSULADO DE HONDURAS EM SÃO PAULO,
RUA DA CONSOLAÇÃO, 3741 (entre a Rua Oscar Freira e Estados Unidos).

Convocam: Marcha Mundial das Mulheres, MST, CUT, UNE, entre outras forças sociais.




Confira a nota da MMM e REMTE:

Somos todas Honduras! Estamos em resistência!

A Marcha Mundial das Mulheres e a Rede Latinoamericana Mulheres Transformando a Economia nos unimos a todas as organizações feministas e do movimento social de Honduras para condenar e repudiar veementemente o golpe de Estado contra o presidente Manuel Zelaya Rosales, dirigido pelas Forças Armadas e pelo presidente do Congresso Nacional, Roberto Micheletti, com apoio dos meios de comunicação controlados pela oligarquia deste país.

Executado pelas forças armadas às 5 da manhã do domingo, 28 de junho, o golpe truncou as aspirações democráticas da população, que se preparava para realizar uma consulta à sociedade hondurenha, para verificar se estava de acordo em convocar uma Assembléia Nacional Constituinte, com o objetivo de elaborar uma nova constituição. Além disso, o golpe militar colocou na presidência Roberto Micheletti, fantoche da oligarquia hondurenha.

Apoiamos a resistência pacífica do povo, em particular das feministas hondurenhas, que estão mobilizados/as em vigílias e greve geral em apoio ao Presidente Zelaya e à restituição da democracia hondurenha, e nos somamos a todos os movimentos sociais para exigir:

- O restabelecimento da ordem constitucional, sem derramamento de sangue.

- Que o Exército não reprima a população de Honduras que exige o retorno da democracia.

- Que se respeite a integridade física das feministas e demais dirigentes sociais, que estiveram a frente da consulta.

- O retorno do Presidente Zelaya a suas funções em Honduras, e o rechaço a Micheletti por parte da Organização dos Estados Americanos (OEA).

- Que as autoridades garantam o direito da população ao pleno exercício da democracia através da consulta popular.

Denunciamos o papel dos meios de comunicação comerciais, utilizados pelas oligarquias hondurenhas como ferramenta para frear a vontade popular e intermediar, encorajar e justificar o golpe, o que os torna cúmplices.

Conclamamos todas as pessoas, organizadas em movimentos ou não, em nível nacional e internacional, a se manifestarem contra esta agressão aos direitos do povo hondurenho e a divulgar este pronunciamento. Convidamos também a socializar informações produzidas pelos meios populares como a Rádio ELM (www.radioeslodemenos.org) e a Rádio Mundo Real (www.radiomundoreal.fm).

Além disso, convocamos os movimentos sociais a protestar frente às representações diplomáticas e comerciais de Honduras, e a enviar cartas de repúdio ao golpe de Estado às embaixadas em cada um de seus países.

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!

29 de junho de 2009.

sábado, 27 de junho de 2009

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— Ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

(Mário Quintana)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Democracia? Racial? No Brasil? No futebol?

Um bom texto do meu amigo Bernardo Cotrim sobre um assunto que deveria ter muito mais espaço do que tem tido na nossa democrática mídia brasileira. O racismo que inunda os campos de futebol do Brasil e do mundo, e que segue sendo, infelizmente, muito atual. Me lembrou o glorioso Graffiti, ex-São Paulo, cuja polêmica teve um desfecho mais razoável. Boa leitura.


O MITO DA DEMOCRACIA RACIAL
(Bernardo Cotrim)

Na noite da última quarta-feira, jogaram Cruzeiro e Grêmio, pelas semifinais da Copa Libertadores da América. O que tinha tudo para ser mais uma noite de futebol na TV ganhou contornos dramáticos: ainda no primeiro tempo, uma confusão envolvendo o argentino Maxi Lopes, do Grêmio, e os brasileiros Elicarlos e Wagner, do Cruzeiro, teve seu desfecho após o jogo, numa delegacia de polícia.

Vendo as imagens, fica claro que Maxi Lopes falou alguma coisa que ofendeu profundamente os dois jogadores do Cruzeiro. Após o jogo, Elicarlos revelou a ofensa e registrou queixa na delegacia do Mineirão. Segundo o volante brasileiro, que é negro, o atacante gremista o chamou de macaco.

Não é a primeira vez que uma confusão nos gramados envolve manifestações de racismo. No passado recente, casos como o da torcida organizada fascista da Lazio, time de Mussolini, imitando sons de macacos cada vez que um dos brasileiros negros da rival Roma tocava na bola, ou do camaronês Eto’o, do Barcelona, que ameaçou abandonar o campo durante uma partida do campeonato espanhol devido aos insultos racistas da torcida adversária, ganharam grande repercussão pública e motivaram uma campanha internacional da Fifa contra o racismo no futebol.

A novidade, neste caso, foi o comportamento da imprensa esportiva brasileira. Em uníssono, todas as resenhas do dia seguinte reprovaram o comportamento do jogador cruzeirense, responsabilizando-o por criar um “clima de guerra” para o próximo confronto entre as duas equipes, justificando que o ambiente de um jogo de futebol “é assim mesmo”, e que muitas ofensas acontecem durante a partida, e que Elicarlos não deveria trazer para fora do gramado os problemas que lá acontecem.

Confesso que fiquei escandalizado. O que seria, para o jogador ofendido, uma solução dentro do gramado? Engolir a humilhação, baixar a cabeça e aceitar como “parte do jogo” que um adversário cometa um crime? Agredi-lo fisicamente, colocando em risco sua permanência dentro da partida e prejudicando a própria equipe? Responder ao racismo com xenofobia, igualando-se ao agressor?

É trágico como a mesma imprensa brasileira que propaga que o racismo no Brasil não existe é a mesma a fechar os olhos diante da ação covarde e criminosa sofrida pelo jogador brasileiro. O que têm a dizer os detratores das ações afirmativas neste caso? Também me impressiona a semelhança entre o argumento de que “os problemas do jogo devem ser resolvidos no próprio jogo” com o velho ditado “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” – sempre invocado para negar solidariedade às mulheres vítimas de violência doméstica.

É preciso reafirmar a mais ampla solidariedade ao volante Elicarlos. Se cada jogador vítima de racismo tiver a coragem do brasileiro e enfrentar o problema de frente, maiores serão as chances de combatermos preconceitos vis, que não devem ter espaço nem nos gramados, nem em lugar algum.