quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O que o amor envolve

O amor envolve tanta coisa, que dá preguiça só de pensar. Como um bolo de roupas pressionadas uma contra a outra, envoltas por um elástico (ou coisa do tipo) pra caber numa mala de viagem.

O amor envolve o teu medo de se relacionar e a minha pressa de me aprumar. Envolve os traumas e as manias que acumulamos solitariamente no caminho que um percorreu até o outro. Amor envolve um certo orgulho, envolve vergonha também, paciência, e um sem-fim de dúvidas e de vontades.

O amor envolve meu medo de me relacionar e a tua vontade de viver só. Tua sede de noite e minha necessidade de dia. O amor envolve meus fantasmas, teu tédio, os romances que leste e as minhas lembranças de família, derramadas dum baú.

O amor desenvolve as minhas teorias sobre o tempo e as tuas hipóteses sobre o nada. Desenvolve conversas perdidas na história e desejos mal-resolvidos; desenvolve porque, como coisa viva, não pára de ir pra algum lugar enquanto não morre. O amor desenvolve o medo da morte e a paz da vida.

O amor desembrulha pequenas coragens, temores ocultos, o amor desembrulha os corpos e os mergulha um no outro só pra mostrar que o que é real se toca. O amor desembrulha presentes e passados, anseia o futuro perigosamente e embrulha estômagos com ansiedade e poréns.

O amor envolve a nossa música, as manhãs de sábado, as tensões na nuca. O amor envolve uma disposição assustadora para a eternidade, e tenta a todo momento escapar da juventude pra dizer que não se aprisiona em lugar nenhum.

O amor envolve o que meus amigos pensam de você, e o que sua mãe te predestinou desde sempre. O amor envolve os times opostos, o vinho e a tequila, o samba e o rock, a praia e a chapada. O amor é birrento porque, de tanto medo de que o matem, prefere dominar a própria morte suicidando-se.

O amor envolve a pele áspera do teu braço, os dedos curtos do meu pé, os olhos fundos, os dentes tortos. O amor envolve nossa diferença de altura, de idade, de origem, de endereço.

O amor envolve as concepções que há sobre ele e devolve os formatos que inventaram para senti-lo. O amor balança, dança, bamboleia e se esquiva docemente das fórmulas que o sufocam, o amor sobrevive. O amor floresce nos jardins, nas árvores e no mato também, o amor acontece, o amor cresce; o amor não tem dono nem relator.

O amor desenvolve o conflito de expectativas e o receio de se subordinar. O amor desenvolve a inércia mal-explicada pela física, o curso do rio; o caminhar cansado e desconfiado pra um lugar desconhecido, o amor cassa às vezes. O amor desembrulha aquilo que está e fecha os olhos pra ser feliz. Mas o amor também rasga a fantasia para se atirar numa realidade irremediável de amor.

O amor me envolve como um abraço caloroso num dia de inverno. O amor envolve o que eu esperava e você que veio, o que eu sempre sonhei e você que sonha. O amor envolve um sem-nome de tipos de esquivar-se, justificativas, racionalidades, exclamações e coisas pequenas. O amor desenvolve as coisas pequenas e as deixa grandes.

O amor desvia, e na mesma via, sem querer, desavisado, por um momento, afrouxa o elástico, e as roupas vão ao chão, espalham-se.

O amor, agora, envolve eu e você. Mais nada.


***
Aos amigos e amigas, desejo um 2015 cheio de amor!

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A Vila Matilde

Às vezes, é a Vila Matilde.

Ela cruza o caminho e chega num sorteio de bicicleta dum programa vespertino na TV. Nas caminhadas longas em pernas curtas até um mercadinho ou uma banca de jornal. Até o correio.

A Vila Matilde vem e traz um mundo que era muito grande, quando a casa era um sobrado e a rua era pacata, mas mesmo assim, a gente tem medo.

A vizinha curandeira
A vizinha alcóolatra
Os meninos jogando bola, fazendo barulho no portão

Uma tartaruga e um cachorro convivendo (mal)
Carpete
Quintal
E um camundongo eternamente perdido no quarto dos fundos

A sensação de que a vida será imensa
Uma pulsação de coração que joga seu próprio som pra fora e além
Uma paz que ficou ali, perdida
Presa numa ratoeira
Esquecida que nem brinquedo velho

Sempre que eu esqueço como faz pra ter paz,
Penso que preciso ir lá na Vila Matilde procurar.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Para Noel

Vive, Noel, vive!
Porque a vida não acaba em 26 anos
Num somatório de meses
De dias e noites

Ora, e quem seria tolo o bastante
Pra pensar que a vida se conta
Em medida cronológica?

A vida transborda pra fora do corpo e do tempo
A vida se eterniza
Segue o verso
Outro verso
Improvisa
Não se esgota
Cantarola

A vida brota, suja e rota
Em baforadas de cigarro
Em copos e mais copos
Até perder a hora
Perder o medo
E enxergar na noite
O baile dos arvoredos

Vive, Noel, na vontade de vida
E gasta-a à vontade
Que vida não é coisa que se economiza
Para trocar por mais vida depois,
Quando a vida cobra a conta
Da vida lavrada em atas
Que a vida se vive agora
Que a vida não tem errata

Vive ainda Noel
Em teus amores
Guardados nos amores
Que cada um segue vivendo
Embalado em samba e poesia
Em dor e despeito
Em ternura e desejo

Noel vive
Noel não morre
Porque ele, ao se desfazer no ar,
Integrou-se à vida coletiva
À personalidade nacional
E vive na vida da gente
Até que a vida da gente
Faça por merecer viver
Noel.


sábado, 22 de novembro de 2014

Céu de Brasília

Gosto demais de perceber o quanto sou pequena. Me encantam todas as coisas que me jogam na cara a pequenez.

Ser pequena é um alívio. Nenhum fardo, nenhuma tristeza, nenhuma responsabilidade pode ser tão grande se eu não puder carregar. Eu sei o meu tamanho.

É por isso que me faz tão bem estar diante do mar, olhando até onde a vista alcança, e saber que tem muito muito muito mais lá na frente. É por isso que o samba é minha forma de me relacionar com a vida, porque com seus cem anos de história, me põe a nadar numa piscina infinita de acordes, poesia e batucada. E eu sou só uma gotinha ali.

É por isso que o céu de Brasília me fascina. Ele se estende para cima, quase toca o chão, vai prum lado e pro outro até que eu não possa mais ter noção da grandeza. Quando o sol está brilhando, ofuscando a visão. Quando as nuvens escuras o decoram com desenhos e muito mais que três dimensões. O céu de Brasília, quando nublado, te mostra que você nem sabe quantas dimensões podem existir.

Sou eu pequena aqui embaixo olhando pra toda imensidão que sempre me lembra que nada é definitivo, que nada é irreversível, que nada está finalizado, que nada pode ser tão pesado. O céu é maior, e é tão leve.


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Léo e Verônica - parte 10 de 10

Verônica decidiu dedicar-se integralmente ao trabalho, de modo que não restasse tempo nem forças, e logo, nem vontade nem motivos para pensar no caso encerrado. Pensou que seria desejável voltar à Itália para uma nova etapa de estudos e pesquisas, pensou em outros lugares, pensou em outros estudos. Concentrou-se em escrever um projeto, leu pilhas de livros e, quatro meses depois, estava a caminho do Peru para começar a pesquisar História da Arte na América pré-Colombo.

Passado o momento de tristeza profunda, a solução que Léo encontrou também foi refugiar-se no trabalho. Abandonou os happy hours com os colegas da agência, até porque queria evitar Laís mais do que nunca. Sentia raiva da ex-mulher, atribuía a ela seu rompimento com Verônica. Mas as semanas passaram-se uma a uma, cada uma com sete dias e cada dia com vinte e quatro horas. Sem se apressar e sem nem demorar, tudo voltou ao normal.

Depois de seis meses, os movimentos de rotação e de translação continuavam sendo executados rotineiramente pelo planeta Terra. E então, na mesma semana em que regressou a Brasília, coincidentemente, Verônica reencontrou Maria Elena, aquela ex-colega de faculdade, num bar onde amigos da universidade se reuniram para recepcioná-la de volta.

Lembrou-se do contexto em que viu a moça pela última vez, mas, desta vez, não houve modo de desviar o caminho ou fingir não ver.

- Que alegria, Verônica!

- Pois é, quanto tempo.

- Que coincidência maravilhosa! Sabe quem encontrei há poucos dias? O Léo! Falamos de você!

- Ah, é mesmo? – Verônica ficou um pouco desconcertada – Não o vejo há muito tempo, o que falaram?

- Nada demais, ele me disse que você estava no Peru.

- Puxa. Como será que ele soube...?

- Não sei não, mas a esposa dele não gostou de perceber que ele sabia de seu paradeiro! – falou Maria Elena, maliciosamente.

- Esposa? Ah, claro, a Laís, não é? – jogou verde para colher maduro.

- Ela mesma. Parece adorável.

- Sim. Ela é incrível.

“Mas que homem covarde”, pensou Verônica. “Como pude me envolver com ele?!”, indagava-se, desprovida de sentimentos de amor ou carinho, mas tomada por um ressentimento inusitado e firme. Desligou-se do mundo durante alguns minutos, para digerir a informação.

Léo lhe falara muitas coisas sobre sua relação com Laís. Antes de lembrar como era bom o começo, em que vivenciava as delícias de “um lago tranquilo”, ele enfatizava o gênio difícil da mulher, as grosserias, a má vontade, o comodismo, o jeito estreito de pensar a vida. Parecia até que o amor se esgotara havia muito, não era coisa nova. Mas em vez de permitir que os horizontes se lhe abrissem, em vez de deixar que ar puro lhe tomasse os pulmões, que uma vida nova lhe trouxesse novos amores e possibilidades, lá estava Léo, com o rabinho de Labrador entre as pernas. Verônica deixou que a decepção lhe pesasse por alguns minutos, e, num gole de cerveja, voltou-se para os amigos. “Ainda bem que eu não insisti nessa história”, foi a sensação que prevaleceu.

Enquanto isso, Léo voltava a boiar ao sabor das águas tranquilas do casamento. Prometeram nunca falar de Verônica, e assim foi. Mas, dentro dele, o altar de sua deusa estava recomposto, sem quase nem um arranhão.

***


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Léo e Verônica - parte 9 de 10

- Foi por isso que me apeguei tanto à Laís... Encontrei-a logo depois, e ela era muito diferente. Não tinha essa possessividade louca, não me sugava. Fazia tudo parecer um lago de águas tranquilas. Aí eu soube o que era estar com alguém por querer, não por ser obrigado.

Léo falou olhando para aquele tempo, mais de oito anos antes. Enxergava-o tão nitidamente que não viu o terrível incômodo que provocou. Verônica aborreceu-se de imediato, em sua face lia-se com clareza que ela não acreditava no que tinha acabado de ouvir.

Era mesmo inacreditável que aquele Léo apaixonado e carinhoso tenha cedido lugar a um homem banhado a tamanha insensibilidade que fosse capaz de, naquele momento, a tal altura do campeonato, deixar escaparem aquelas palavras. E ele bebericava sua cerveja como nada de anormal tivesse acontecido.

Ela fechou a cara e quis ir embora. Não aceitou que Léo passasse a noite em sua casa e despediu-se com votos secos de boa noite. Nem um “até amanhã” acompanhou.

Léo desconfiou que sabia onde errara, e, ao deixar Verônica em casa, franziu a testa, coçou a cabeça e pensou: “estava indo tudo tão bem!”. Mas ok, haveria os próximos dias para que tudo se acertasse novamente.

Mas o dia seguinte passou arrastando-se, e nada de comunicação entre eles. Verônica ficou pensativa, calada, um pouco triste, quase arrependida por ter entrado naquela história. Recuperava os últimos meses em sua cabeça para entender onde estava o ponto de virada, não encontrava.

Enquanto isso, Léo entendia que a confusão era natural, afinal, acabara de se divorciar. Aliás, de se separar, pois o divórcio ainda não tinha saído. Sendo assim, esperou que o incômodo de Verônica se dissipasse no ar.

Sua falta de atenção foi tamanha que fez o cálculo absolutamente errado. Diante do silêncio que deveria ser pacificador, mas somente fez incendiar uma guerra interna no peito da moça, nasceu uma carta que Léo receberia em seu correio eletrônico.


Léo,

Eu realmente não tenho vocação para coadjuvante. Não vou tentar sobreviver à humanização da sua deusa, processo esse que vem se dando de forma cruel e covarde. Não sou a mesma moça de vinte e poucos anos, muita coisa mudou em mim como produto das escolhas que fiz e das surpresas que a vida me fez. Não tenho forças para competir com a idealização de mim mesma. Não tenho paciência para competir com a sombra da sua ex-esposa, que se aproxima como nuvem de chuva que não chove, mas somente coíbe o sol de brilhar.

Sendo assim, peço que não me procure mais. Viva sua pós-separação como achar melhor, viva um período de solteirice, elabore o luto que quiser em sua cabeça, com suas lembranças e seus fantasmas. Eu pensei que tivesse alguma coisa a ver com isso, mas notei tristemente que não, que nada disso diz respeito a mim. A garota que eu fui era um trampolim de onde você pôde se jogar, mas esta eu que existe agora não está nas águas onde você mergulhou.

Cuide-se. E também cuide de não ferir outras pessoas no seu caminho até descobrir o que você realmente quer da sua vida neste momento.


Verônica


Léo respondeu à carta e Verônica apagou sem ler. Sabia que lhe chegariam palavras vazias e confusas, além de perguntas e questionamentos. Era só isso que Léo era capaz de produzir mesmo. Ficava indignada de ter de responder a dúvidas que ela não reconhecia. Ele tentou telefonar e ela não atendeu.

Passados alguns dias, sem conseguir nenhum retorno de Verônica, Léo começou a ser consumido pela culpa. Não tolerava a acusação de que envolveu Verônica em sua vida de forma egoísta, até que ela fosse engolida por suas incertezas e traumas. Recusava-se a crer na imagem da deusa se esvaindo por entre seus dedos, não para tornar-se humana em seus braços, mas para escapar-lhe devido a sua incapacidade de fazê-la ficar. Onde ele tinha se perdido dela? Onde ele tinha se perdido de si?

Sofreu por semanas, sem saber bem por qual dos motivos disponíveis. Pensava que era por saudades. Não tinha fome, não tinha sono, nem vontade de sair – nem mesmo para desabafar com os amigos. Passava noites em casa, diante da TV, tentando sem sucesso ler algum livro ou estudar casos que a agência lhe passava. Queria tirar férias, não podia. Queria mudar de emprego, não sabia. Queria mudar de planeta, não havia. Estava fadado a conviver consigo mesmo, suas culpas, sua infelicidade, sua tragédia sentimental e todas as dúvidas que, por mais que ele tenha jogado no mundo, não paravam de brotar por geração espontânea dentro dele.


***
Continua...

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Léo e Verônica - parte 8 de 10

As sete partes anteriores estão disponíveis neste blog.




Léo mostrava-se inconsolável, mas tantas dúvidas e pouca atitude eram claras demonstrações da sua fragilidade, que já se exibia desde a época da faculdade. Características assim não eram recomendáveis para quem procurasse sustentar qualquer coisa de verdadeira com Verônica. Aquela mulher que, quando jovem, namorava vulcanicamente entre amorosos beijos públicos e fatais desentendimentos com desfecho sempre em aberto. Que não tinha medo de atropelar corações indefesos, quiçá de expor seus sentimentos a teste. Aquela cuja beleza brilhava de dentro para fora, na coragem de estabelecer pontes improváveis como aquela que a levou da elaboração de técnicas para a venda de produtos até a história da humanidade registrada através do olhar de artistas pulsantes de sensibilidade, habilidade e criatividade.

Ele sabia que seus erros, naquele momento, poderiam ser uma via de mão única e sem retorno. Mas não conseguia equilibrar suas ações na cabeça. A ética, esse conceito que cada um define como quer. O amor, que não é muito definível para ninguém. A culpa, um modo de se relacionar com a vida. A comodidade para desviar de grandes sofrimentos, desentendimentos, expectativas frustradas. O cálculo dos passos leva a lugares exatos, não é preciso jogar os olhos para além de onde se pode alcançar, evitem-se as frustrações. O tempo disso era a juventude, ficou para trás há algum tempo já.

Os dias continuaram passando iguais. Verônica via-se numa situação em que nunca estivera antes. Primeiro, teve medo do envolvimento com Léo, porque ele a amava de forma estabanada e infantil, pela qual ela não podia se responsabilizar. Depois, pensou que deveria ceder àquela paixão do rapaz, afinal, (que ironia) talvez fosse mesmo saudável viver sem grandes contradições ou perigos. Passou a experimentar as sensações de deixar-se levar por um caminho que não era de seu feitio cumprir, mas, justamente por isso, poderia levar a um lugar surpreendente. Quando finalmente esteve à vontade em meio àquela situação, foi Léo quem titubeou.

Para Léo, não se tratava disso. Ele evitava admitir para si mesmo e para qualquer um que sentia pena de Laís, entendendo que ela construíra sua vida ao redor dele e agora estava cercada por todos os lados. Não tinha para onde fugir e, acuada, não era forte o suficiente para reerguer sua vida sobre outras bases. E que bases poderia erguer se estava vulnerável por ter sido traída, trocada por uma mulher mais exuberante, por quem seu marido sempre fora apaixonado, desde a juventude?!

- Não queria lhe dizer isso, amiga, mas esse é o tipo de situação que acaba com cada um dos três para um lado – opinou uma amiga com quem Verônica se aconselhou.

Manteve a relação com Léo ciente dos riscos, mas confiante que era o melhor a fazer naquele momento. Não tinha mesmo nada a perder.

Certa noite, a caminho do cinema, Léo e Verônica avistaram ao longe Maria Elena, antiga colega de faculdade de ambos. Estava bastante diferente daquela época, mais magra, cabelos pintados, muito produzida. Antes, era desleixada e famosa pela tagarelice. Diziam que costumava portar-se como dona da verdade e pensava dominar todos os assuntos, desde beisebol até física quântica.

Léo e Verônica riram das lembranças que Maria Elena provocou, e ele resolveu fazer uma revelação:

- Ela me consolou de você.

- Como assim?

- Ficamos juntos durante um tempo depois da faculdade, mas ela era louca!

- Jura?

- Sim, maníaco-depressiva, histérica, possessiva.

- Ela ficaria assombrada ao nos ver juntos agora!

- Certamente! – ele riu – Cada vez que eu tocasse no seu nome... Ela armava um escândalo!

- Cruz credo! Gente insegura!

- Foi horrível... Mas eu estava tão carente que me subordinei àquilo tudo.

- Por tanto tempo assim?

- Entre idas e vindas... Um ano, mais ou menos...

- E você não tinha me contado, seu dissimulado!

- Tive medo de você não me querer mais ao saber que já me relacionei com essa maluca!

Verônica ficou surpresa ao ouvir aquilo, e assim, percebeu que aquele medo que ele já teve de perdê-la parecia não estar mais lá. Por um lado, uma alegre constatação. Por outro, a chave das respostas que buscava. Beijou gentilmente os lábios de Léo e entregou-se à leveza daquela noite, livre da sombra de Laís e de tudo o que ela trazia consigo.

Até que chegaram, como na cauda de um cometa desgovernado, pronto a chocar-se contra o planeta, no descuido de palavras ventiladas no anoitecer dos sentires.

***
Continua...

domingo, 9 de novembro de 2014

Léo e Verônica - parte 7 de 10

As seis partes anteriores estão disponíveis neste blog.



Incomodada pelo gradual e injustificado afastamento, Verônica passou a cutucar o namorado para entender o que se passava. A situação não chegou de repente, mas foi de repente que ela notou. Sabia que o pós-separação não seria fácil, mas não tolerava que as coisas acontecessem somente na cabeça de Léo, enquanto ela assistia, deduzindo as cenas dos capítulos anteriores. Quando provocado, Léo tergiversava.

- Às vezes ela está bem, às vezes não... Tente entender, foram sete anos...

- Até quando?

- Até quando o quê?

- Até quando eu vou ter que entender que você não entende que sua ex-mulher está esperançosamente tentando se reaproximar de você?

Léo tinha convicção de que entre ele e Laís já não havia amor, isso não era uma questão. Separaram-se de comum acordo, ela também demonstrara por meses a fio o quanto a presença dele lhe era dispensável. O divórcio tinha sido para os dois uma libertação daquela obrigação de conviver que não tinha mais sentido. Esforçava-se para conversar com naturalidade, para mostrar à ex-mulher que, mesmo que não fossem casados, ela fazia parte da vida dele de um jeito bom. Escondia de Laís os resquícios de Verônica que havia no seu corpo e nos seus olhos para não feri-la, imaginando que essa ação se daria por tempo determinado. Logo, estaria livre. Assim que Laís também estivesse.

Assim, a presença imperiosa de Laís fazia com que o deslumbramento por Verônica cedesse lugar a dúvidas e olhares distantes. Parecia que a cautela que Verônica sugerira no início começou a fazer sentido para o moço.

A displicência crescia gradativamente, até explodir numa tarde chuvosa. Depois de três dias inteiros sem falar com o namorado, Verônica telefonou tensa:

- Léo, eu quero saber o que está acontecendo.

- Ué, não está acontecendo nada...

- O que mudou?

- Nada mudou...

Encontraram-se para jantar, e ela não estava de bom humor. Léo tentou tranquilizá-la, disse que estava desenvolvendo projetos importantes na agência, que não precisavam se relacionar com aquele grau de intensidade.

- Alto lá! Quem estabeleceu essa dinâmica foi você!

Verônica, que antes nem estava certa do que sentia por ele, agora notava isso acontecer sob seu nariz sem saber explicar. De um lado, não apostava em que Léo e Laís tivessem um amor a ser reatado, e exatamente por isso o afastamento de Léo fazia pouco sentido. Talvez estivesse aberto a conhecer outras mulheres e viver outras histórias antes de se envolver profundamente com alguém, como ela mesma tentara alertá-lo na mesma noite em que ele, como um menino que chora com medo do trovão, disse que a amava.

Ao observar a falta de palavras expressa num olhar assustado, de quem entrou na sala errada, Verônica respirou fundo e voltou atrás. Em parte.

- Desculpe, Léo. Sempre fui eu quem disse que deveríamos ir devagar, respeitar seu tempo de se recompor do fim de um casamento. Você não se preocupava com isso, mas vejo que agora está pisando no chão novamente...

***
Continua...

sábado, 8 de novembro de 2014

Léo e Verônica - parte 6 de 10

Leia aqui as partes anteriores: UM, DOIS, TRÊS, QUATRO e CINCO.



Assim, Laís retomou sua frequência aos happy hours com amigos do trabalho. Agora, sempre maquiada, às vezes, esbanjando sorrisos artificiais como o Lago Paranoá. Havia noites que terminavam com desentendimentos públicos entre ela e Léo. Havia noites em que ela agia com um misto de displicência e desprezo. Havia noites em que ela mal olhava na cara do ex.

A separação era muito recente, era tudo muito estranho para Laís. Brasília inteira era o Léo, mesmo que ela não quisesse assumir, mesmo que talvez já não o amasse, mesmo que tivesse dúvidas ou não quisesse pensar sobre isso. Desde que chegou à cidade, ele fora seu único namorado, com quem conheceu e viveu tudo até ali. Talvez esse momento imediatamente posterior à separação reavivasse uma solidão que nunca saiu de dentro dela, porque quem não é sozinho não vincula suas vivências a uma só experiência. Talvez fosse somente uma fase até ela passar a se relacionar com a própria vida sem a mediação de Léo.

Numa noite em que se encontraram e se comportaram civilizadamente, em meio a uma inocente carona, Laís contou a Léo que vinha saindo com alguém. Era um sujeito mais moço, parece. Disse, risonha, que o rapaz queria coisa séria, mas ela preferia ir com calma, afinal, acabara de se divorciar e queria aproveitar o novo momento. Léo não sabia se aquilo era uma indireta, mas gostou de saber que ela decidira viver a vida que lhe cabe. A Verônica, a história soou falsa.

- Carona, Léo? Agora, além de discutir a ex-relação periodicamente, ainda tem carona?

- Ela está começando a aceitar com mais tranquilidade... Sermos amigos vai ser bom, vai tornar tudo mais fácil.

Um lapso de insegurança como esse não combinava com a personagem que Verônica se habituou a interpretar na vida de Léo. Mas diante do que ela observava, a previsão de tempos tempestuosos não permitiu que ela se fizesse de bem resolvida.

Ela estava certa. A paz e a amizade não duraram muito, pois logo Laís descobriu que a moça com quem Léo saía era ninguém menos que sua paixão de faculdade, de quem ele tanto lhe falara. Pois então, como aquele romance não havia de ter importância? E se tinha importância, como não calcular que os dois já tivessem se encontrado desde antes da separação? E se já vinham se encontrando, como dominar o orgulho ferido e a certeza de que o rapaz estava mais feliz nesses poucos meses do que nos sete anos anteriores?

Deixou-se atormentar pela própria imaginação até não suportar. Desapareceu dos happy hours por um tempo, mas voltou porque aquele lugar era seu também, e ali, Verônica não entrava. Certo dia, bebeu drinks a mais e foi novamente cobrar o ex-marido.

- Faz poucos meses que estamos separados, o divórcio nem saiu, e todo mundo sabe que você sai com essa mulher.

- Por que isso te incomoda? Você está bem, eu também... Somos amigos!

- Amigos uma pinoia! Você não me respeitou, Léo! Você me expõe, me faz sentir descartável!

A noite foi longa. Laís chorou um pouco, alegando profundo desconforto com o namoro do ex-marido. Léo fez e falou de tudo para mostrar que nada aconteceu antes de se separar dela. Ela, aos poucos, envergonhava-se da cena, sentia-se frágil sob olhares de canto de olho dos amigos no bar. A conversa terminou com um novo abraço amistoso.

- Desculpe-me... No fim, acho que me sinto mal porque ela tem tudo que você sempre quis que eu fosse, mas eu não sou.

A frase entrou no corpo de Léo pelos ouvidos feito um punhal que corta tudo por dentro até se aninhar no coração, não sem antes destroçá-lo.

Talvez o passar dos meses e dos anos tenha tornado comum uma mulher que já fora tão especial. Agora, o encanto dele pela vivacidade de Verônica fazia com que ela fosse apenas a pobre mortal que ele já viu despertar pela manhã centenas de vezes.

Léo começou a ficar confuso. Não sentia paixão por Laís, não sentia desejo, mas sentia-se responsável. Sentia culpa, gratidão, carinho, tristeza e frustração. Ainda estava preso a esses sentires. Em alguns momentos, pegava-se pensando em como eram os dois quando se conheceram. Ele, cético, cabisbaixo, coração em cicatrização por causa da paixão nunca correspondida pela velha amiga da faculdade. Laís parecia uma gata arisca, sua pouca experiência nas festas e aventuras que quase todos vivem na juventude fazia com que ela se comportasse em movimentos circulares de autoproteção. Encontraram-se no momento certo para se amarem e serem felizes juntos. Mas o momento tinha acabado.

Devagar, ele retomava a mania de ser cabisbaixo. Verônica notava esse movimento. O homem que a amava após poucas semanas de convivência agora queria tempo para ficar sozinho, e carregava um fardo no olhar que comprometia o brilho que estava ali antes.

***
Continua...

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Léo e Verônica - parte 5 de 10

Aqui estão disponíveis as partes UM, DOIS, TRÊS e QUATRO.



Léo e Laís tinham decidido, de compreensão comum, separar-se. A conversa não havia sido dura, mas muito longa sim. Voltavam de um jantar que reunira diversos amigos, onde os dois se sentiram desconfortáveis. No silêncio de volta para casa, ela quis saber se ele tinha alguém. Assim mesmo, de supetão, mas firme e controlada. Parecia sensata. Era um modo de abordar o tema, numa perspectiva bastante dela.

Léo negou que tivesse se envolvido com outra pessoa, mas aproveitou a chance para dizer que já não via boas possibilidades de os dois continuarem juntos. Daí derivou um longo e denso diálogo, em que não houve gritos, acusações ou palavras ríspidas. O que mais latejava era a percepção nítida do fim, e já não havia forças para promover esforços de conciliação.

As pessoas e as relações fazem sentido em contextos determinados. Quando o sentido se esgota, não é possível transportar alguém de um tempo a outro. Abre-se um mundo, você muda de emprego, de casa, tem a chance de fazer aquela viagem que sempre quis, mas sua parceira ou parceiro nunca se animou para lhe acompanhar. Você começa a praticar algum esporte, fazer algum curso. Sua vida muda, aquela pessoa não pertence mais àquele lugar. De repente, um casal já não combina como outrora. Isso não ocorre de repente, mas é de repente que se percebe.

Os dois choraram um pouco. Deixaram as burocracias para conversar depois. Enfim, abraçaram-se e ele saiu, dizendo que ia respirar ar fresco.

Ao telefone, Verônica ofereceu seus braços para confortá-lo, mas ele tinha que voltar para casa, coerente com a alegação de que não havia outra mulher em sua vida. Dormiu na mesma cama que Laís, sem tocá-la – como, aliás, já vinha se tornando praxe.

Dividiram o mesmo apartamento por alguns dias ainda, e depois, Léo juntou o que tinha – ou, pelo menos, o principal – e levou à casa de um amigo, onde ficaria até dar um rumo definitivo à sua vida. Foi doloroso, mas só porque todo fim é triste mesmo.

Mesmo assim, Léo estava empolgado, sentia-se vivo novamente. Às vezes, sentia culpa por sentir-se bem, mas, na maior parte do tempo, sentia-se muito bem. Encontrava Verônica com frequência e discrição, para que Laís não soubesse e não sofresse. Para que Léo não se sentisse culpado por causar sofrimento à ex-esposa.

Mas como seus olhos traziam as primeiras flores que anunciam a primavera, os amigos não tardaram a notar que havia alguém em sua vida. Para os mais próximos, revelou o que acontecia. Conforme evoluía o namoro, ele já nem queria se esconder.

Numa noite dessas, ele disse a Verônica que a amava.

- Léo, você não acha que estamos avançando rápido demais?

- Eu realmente não estou pensando nisso.

- Você mal saiu de uma relação de sete anos – Verônica mostrava-se reticente – Não acha prudente que vamos com cuidado?

- Eu esperei dez anos para sentir o que estou sentindo agora. Nada vai me convencer de que eu tenho que ir devagar. A menos que você queira assim.

- Não é isso – e lá vem ela sorrir meigamente – Só me preocupo um pouco com você.

Ela se preocupava um pouco com ela mesma. A outra criatura vinha se atirando de cabeça num romance intenso sem cumprir luto nem por um dia, abdicando até da solteirice com que todo ex-casado sonha.

E assim foi, no compasso da ansiedade de Léo por viver seu grande amor da juventude. Logo estavam os dois a sair por aí. Planejavam o próximo feriado, a noite seguinte, o fim do ano.

Não tardou para que Laís soubesse do romance. Braba como sempre foi, e muito à vontade na posição de cobrá-lo – ela o conhecia perfeitamente bem –, Laís procurou Léo. Propôs encontrá-lo num comum horário de almoço para resolver pendências da vida prática, mas avisou de antemão que a pauta seria mais extensa que só afazeres: “quero falar com você”.

Ao confirmar, Léo virou um cravo murcho. Tinha preguiça daquela conversa, tinha medo do que ela poderia lhe deixar de legado. Era uma situação constrangedora: Léo não queria fazer Laís sofrer, mas não havia muito o que explicar. A cobrança o irritava, mas ele sentia que devia explicação. Esse dever o torturava dentro da cabeça, e era como ele não fosse livre para viver sua história com Verônica enquanto Laís não se visse resolvida com o passado.

- Sinto-me exposta diante dos nossos amigos – disse Laís – Você poderia ter esperado meu corpo esfriar para colocar outra mulher na sua cama.

- Ela não tem nada a ver com o fim do nosso casamento, Laís... É só algo que aconteceu.

- Ainda que eu acredite que “é só algo que aconteceu”, aos olhos dos outros, parecerá que fui trocada. Percebe como me sinto?

Ele percebia, e a culpa fazia tanto volume no sangue que poderia entupir as veias a qualquer momento. Não queria morrer disso.

A certa altura, Léo notou que Laís não sabia que sua nova namorada era Verônica. Valeu-se disso para sugerir que o caso não era importante, mas sim, era uma moça com quem passava algum tempo, afinal, todo mundo sabe como são as pessoas recém-separadas, ávidas por novas experiências.

- Não, Léo, eu não sei. Estou muito ocupada com os encaminhamentos do nosso divórcio, e não estava contando os dias para você sair de casa e eu começar a me divertir por aí.

Nada que ele dissesse melhoraria a situação. Então ele se calou, somente ouviu as queixas, deixou que lhe caíssem as sobrancelhas de modo que a expressão fosse a mais triste possível. Pediu desculpas, pediu que ela não se incomodasse, que não pensasse bobagens sobre os momentos prévios à separação. Era só mais um desencontro da vida, afinal. De resto, teriam de conviver um com o outro no trabalho e entre os colegas, seria melhor para ambos que mantivessem uma relação amistosa.

- Foram sete anos, Léo, muita coisa... – ela suspirou – Você acha que ainda podemos ser amigos?

- Exatamente por termos vivido tanta coisa juntos que seria uma pena se não nos tratássemos como bons amigos.

- Você vê problemas em conviver comigo?

- Imagine! O que não faz sentido é você se afastar de espaços que são de nós dois e não deixarão de ser somente porque não somos mais um casal.

Abraçaram-se amistosamente.

A conversa aliviou a consciência de Léo. Agora, ele começava a imaginar que poderia viver sua felicidade sem amarras. Ele narrou a conversa a Verônica, com algumas omissões – não queria que ela soubesse que deixou que Laís entendesse que o romance não era importante. Falava como se estivesse condenado à presença de uma mulher que já não amava, mas que o intimidava. Verônica simplesmente ouvia. Talvez tudo aquilo fizesse parte de um necessário ritual de separação de corpos e de almas.

***
Continua...

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Léo e Verônica - parte 4 de 10

Confira aqui as partes UM, DOIS e TRÊS.



Reencontrar a futura ex-mulher depois de passar a noite com Verônica não fez bem a Léo. Sentiu-se culpado, mal conseguiu olhar nos olhos de Laís. Sempre procurara ser ético, agir corretamente segundo os códigos de conduta informalmente acordados por toda a humanidade, sob a mediação de algumas instituições que hoje zelam por esses códigos e mediam também a aplicação das punições a quem sai da linha.

Quando baixou a adrenalina, a empolgação ficou ofuscada por esse terrível sentimento de culpa. Isso não lhe alterava a certeza do divórcio, ao contrário: talvez fosse a única saída. Afinal, não cometera um adultério comum, mas sim, a paixão que ora o seduzia era verdadeira, vinha de longa data e o redimia de qualquer erro de encaminhamento. No céu, alguém havia de considerar que aquele não era um crime doloso.

Não esperava que sua musa lhe respondesse a mensagem enviada ainda pela manhã. Habituou-se a intuir automaticamente que ela lhe era inatingível. Mas ela respondeu no meio da noite. “Estou bocejando até agora, mas valeu a pena. Outros beijos”. Aí mesmo que o olhar de peixe morto deu lugar ao de um cachorro labrador que reencontra o dono depois de dias.

Acontece que precisaria controlar todas essas expressões de estado de espírito que lhe assaltavam a face. Estava em casa, com Laís e a vida real. Pensar nisso fez com que, pouco a pouco, o peixe morto e o labrador se condensassem num gorila bem idoso.

Ainda bem que não tinham filhos, pensava. Nunca fora um desses ansiosos pela paternidade. Laís também não fazia disso o centro de suas expectativas. Estava concentrada em evoluir na carreira, e sua jornada estava apenas no início. Ambos tinham concordância na ideia de postergar o caminho “natural” de todo casal que se junta em matrimônio: procriar.

- Vocês ainda trabalham na mesma agência? – perguntou Verônica, no encontro seguinte.

- Sim, mas ela não pára no escritório, costuma visitar clientes.

Embora não se sentisse suficientemente à vontade para perguntar-lhe que justificativa apresentou à esposa por não ter dormido em casa, Verônica sabia que essa resposta lhe indicaria o caminho por onde pensar sobre qual lugar aquela relação teria na sua vida.

- A mãe de Laís está bastante doente, ela tem ido visitá-la sempre que pode...

- Vai hoje?

- Infelizmente não.

Despediram-se, e Léo dirigiu-se ao lar de sua sobriedade.

Sentiu ainda mais culpa naquela noite. Encontrou-se com a amante, beijou-a fielmente, sentiu o corpo todo ser percorrido por uma sensação de paixão que há tempos não o visitava, para, em seguida, voltar para casa e para sua esposa. Não poderia fazer aquilo com Laís, sua companheira de sete anos.

Certamente viveram muitas coisas boas, mas agora, ele só sabia se lembrar do momento atual. Era injusto. Deixava que as brigas por nada, a grosseria, a má vontade, a rotina, a ausência de frio na barriga se sobrepusesse à beleza do que viveram, que, nos sonhos românticos do início do namoro, deveria se desdobrar em mais belezas por viver. Mas não: a falta de planos para o verão lhe pesava sobre os ombros. Não havia mais o que pensar juntos para amanhã. Deitou-se e sentia o peito apertado, como anunciando que uma história muito importante encontrava seu final. Chorou em silêncio na cama, sem que a mulher notasse. Ela já não notava muito, mesmo.

Falou com Verônica na manhã seguinte. Anunciou que se separaria da mulher.

Porém, vendo-se obrigado a equilibrar sentimentos variados sobre uma colher presa entre seus dentes ao caminhar sobre a corda bamba, ele pediu que ela esperasse um pouco. Preferia não vê-la até que tudo estivesse resolvido.

- Sei que não é simples. Faça como achar melhor.

Verônica sabia que não se tratava de coisa fácil, desfazer um casamento. Quando Léo perdera o pai, foi Laís quem ficou ao seu lado em tempo integral, ajudando o filho único a tomar as providências cabíveis e acalmando seu coração. Foi um com o outro que viajaram para fora do país pela primeira vez. Dividiram alegrias de sucessos e frustrações de fracassos. Era uma vida inteira.

Em meio a mudanças importantes, rupturas e definições, Verônica hesitava. Rejeitava o papel de pivô de uma separação, até porque mal sabia o que sentia por Léo ou o que esperava daquele reencontro. Não queria que muita responsabilidade lhe retirasse a leveza. Ele dizia que a separação era coisa anunciada, e que ela não tinha responsabilidade alguma.

- Não posso mais segurar minha vontade de te ver, podemos nos encontrar?

Ele rompeu sua própria decisão num final de semana que Laís foi passar com sua mãe. Inventou desculpas esfarrapadas para não acompanhá-la, ela não insistiu. Àquela altura, a conversa sobre a separação já estava em andamento nas entrelinhas.

Pela situação em que se encontravam enquanto casal, não seria surpresa para ninguém que terminassem. A última tentativa de oferecer respiração boca a boca ao velho sentimento não fora bem-sucedida. Passaram dez dias de verão na Bahia, sem preocupações de nenhuma ordem e sem contar tempo. A viagem foi ótima, mas o regresso a Brasília não.

- Eu acho, inclusive, que ela está mais tranquila que eu. – informou Léo à namorada, quando perguntado. Tal percepção aliviava sua tensão, que era evidente.

Divórcio é coisa que dá trabalho e traz chateações de todas as ordens. Precisa encaminhar burocracias, precisa fazer as malas, recolher as coisas, separar bens. Precisa decidir quem vai ficar com o cachorro. Precisa encontrar onde morar e acertar de forma sensata como lidar com a ex-companheira no ambiente de trabalho e no círculo social em comum.

Eram muitos os amigos em comum. Léo trabalhava na agência havia quase oito anos. Laís chegou depois, como estagiária. Interessaram-se um pelo outro nos happy hours que os colegas costumavam programar, e em encontros nem tão casuais pelos corredores. Ela era mais jovem que ele e viera do interior de Goiás para estudar. Surpreendia-se com tudo que conhecia na capital federal, e Léo se sentia viril ao apresentar-lhe o mundo.

Enquanto isso, Verônica, aos poucos, aceitava se deixar levar pela paixão que o velho amigo sentia por ela. Ele a contemplava como quem está diante de uma deusa, com tamanha admiração que ninguém jamais lhe havia dedicado antes. Léo era a melhor companhia que ela poderia ter naquele momento, ainda que não estivesse certa da profundidade e da extensão de seus próprios sentimentos. Talvez fosse mesmo o caso de dar uma chance à vontade que ele sempre tivera de fazê-la feliz.

Numa noite fresca de fim de outono, ele a procurou pelo telefone, voz um pouco embargada:

- Acabou, Verônica. Acabou tudo.

***
Continua...

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Léo e Verônica - parte 3 de 10

Leia aqui as partes UM e DOIS.



Como que furtivamente, escolheu uma quadra distante do seu trajeto habitual, no fim da Asa Norte. Conforme se aproximava o momento de rever Verônica, o coração palpitava mais e mais, rodopiava, dançava um tango dentro de seu peito.

- Você está mais bonito que na época da faculdade.

E ela diz isso sorrindo. Com os olhos reluzindo. As suaves sardas no rosto pareciam pintadas por Van Gogh, só para fazê-la diferente de todas as demais mulheres do planeta.

Conversaram durante duas horas. Ela falou do tempo que passara na Itália, o aprendizado, a paixão pelas artes plásticas e as perspectivas profissionais. Lecionava numa faculdade particular, mas sonhava integrar o corpo docente da UnB e seguir com suas pesquisas.

- E sua esposa, que faz? Publicitária também?

- Sim, é... Mais administradora que publicitária, nos conhecemos na agência onde trabalho...

- Oh. Uma publicitária que é administradora e uma publicitária que é historiadora da arte. Você é o único dessa turma que levou a publicidade a sério?

E soltou uma gargalhada espontânea e leve. Ele se remoía por dentro. O que mais queria era dizer a Verônica que o casamento ia mal, que estavam prestes a se separar, mas não queria parecer ridículo. Queria beijá-la intensamente como fizera tantos anos atrás, mas, desta vez, sem serem interrompidos pela iminência da “besteira”, por medo, recalque ou qualquer coisa que os impedisse de fazer a besteira que quisessem impunemente.

Ela exalava perfume de flores do campo. Contou que nunca mais viu o fulano. Teve outros namorados, mas não era do tipo que se entregava à comodidade, destacou. Quando as coisas precisam acabar, elas acabam. Ele se sentiu minúsculo.

Ao acompanhá-la até um táxi, titubeou aos tremeliques, mas por fim, libertou-se das amarras – que chegavam a pesar fisicamente – e beijou-a, como queria. Ela retribuiu.

- Acho que vou com você nesse táxi para ter certeza de que chegará bem...

- Está querendo me defender de alguma coisa? Ou devo me defender de você? – ela riu e os olhos reluziram ainda mais.

Foram, e a noite nunca mais acabou. Léo temia que alguém o despertasse. Estar com a mulher dos seus sonhos era ainda melhor na realidade. A felicidade explodia dentro dele, como se seus órgãos estourassem fogos de artifício, e seu sangue carregasse, de um lado pro outro, uma sensação plena de satisfação. Depois que dormiram, ele acordava de quando em quando para ter certeza de que tudo aconteceu. Sentia-se o mesmo menino da faculdade, olhava-a dormir e sentia amor. Sabia que era amor, o amor de sempre, tão conhecido, tão familiar. Era muito fácil amar aquela mulher.

Nas primeiras horas da manhã, o sonho acabou. Saiu apressado, atrasado, para casa, vestir-se para mais um dia de trabalho. Correu as quadras serelepe, estaria singing in the rain, não fosse pleno período de seca na capital federal. Os ipês coloridos compunham o cenário da sua felicidade, a boca não conseguia parar de sorrir, porque nela ainda estava impressa a noite que ora se acabava.

Mas ele chegou em casa e a vida real desabou sobre ele. Lá estava o cachorro, que, faminto, destruíra algumas roupas que estavam estendidas num varal de chão. O velho tênis azul ficara em pedaços. A louça se amontoava na pia, e a torneira passara as últimas 24 horas pingando irritantemente. Nada que pudesse lhe tirar o bom humor.

Laís não estava, fora a Goiás visitar a mãe doente. Claro que aquela coragem toda não surgiu de algum tipo de enfrentamento.

Como um adolescente que precisa controlar seus impulsos apaixonados, Léo segurou o mais que pôde a vontade de tocar Verônica de novo, mas, como a tecnologia intermediasse um toque virtual que causa sensações físicas, enviou-lhe uma mensagem já no final da manhã. “Lembro que você detestava acordar cedo. Espero que me perdoe por fazê-la levantar antes das sete. Beijos sonolentos, mas bem-humorados”, disse.

Sim, dormiram muito pouco. Ele também não estava habituado a isso, e disputava contra o sono armado de xícaras e mais xícaras de café. A vontade de dormir era perceptível, e disfarçava o olhar de peixe morto, característico dos arrebatados pela paixão. Ao chegar em casa, à noite já, Laís notou a noite mal dormida:

- Você precisa fazer alguma coisa pra resolver essa insônia – aconselhou, com a falta de atenção de quem não acredita no próprio discurso, enquanto preparava o jantar.

***
Continua...

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Léo e Verônica - parte 2 de 10

Leia a parte 1 aqui.



Léo e Verônica conversaram de pé ao lado da mesa dela. Foram poucos minutos, não o suficiente para atualizar as histórias encadeadas que levaram a vida de cada um aonde ela foi parar. Uma informação socializaram: ela já não estava com fulano, estava com fulano nenhum. Voltara havia poucas semanas de um semestre na Europa, aonde tinha ido estudar. Ele contou que solteiro não era, mas fez questão de dizer também que o momento era de crise.

- Que curioso. Agora que estou solteira, quem não está é você – e sorriu esbanjando aquele charme que era exclusivo dela.

Ele tremeu inteiro por dentro. Trocaram contatos e ele voltou à mesa com seus amigos, depois de prometer procurá-la. Ela disse que esperaria. Seus olhos estavam mais verdes do que mel naquela noite.

Os amigos quiseram saber quem era a bela.

- Foi o grande amor da minha vida por muito tempo – ele murmurou, ainda embriagado pelo encontro imprevisto, como aquele que toma um porre sem ter se alimentado antes.

Não havia forma de Léo ficar indiferente a Verônica. Quando começou a namorar Laís, comparava-a à antiga paixão sem perceber, mas as duas eram mulheres bastante diferentes. Laís sempre foi dura, fechada, até um pouco ranzinza. Não raro, era grosseira com ele diante de muitas pessoas. Era seu jeito. Já Verônica, parece que vivia sempre com aquele sorriso doce nos lábios. E quando ela o olhava nos olhos, fazia parecer que o mundo ao redor era o bairro do Limoeiro, onde se passam as historinhas da Turma da Mônica. Na faculdade, estava sempre entre os melhores da turma, e ainda tinha tempo de ser campeã de natação.

Por alguns minutos, os amigos caçoaram dele. Ora, o homem estava prestes a pôr fim a um casamento, o que costuma colocar os seres humanos em situação de tristeza e solidão. Então, ele reencontra uma linda mulher, que, por muitos anos, foi seu maior sonho romântico, ela lhe dá indicações de que gostaria de passar mais tempo com ele, e ele... Vai embora?! Como se não tivesse mais o que fazer ali?

“Vou ligar pra ela outro dia”, ele se justificava. Verônica exercia tal fascínio sobre Léo que o botava tímido, mesmo quando se dava conta de que, ao longo daqueles anos que os tinham separado, ele se tornara um homem. Estava mais velho, mais seguro. Ria mais, atrevia-se a opinar sobre o que mal conhecia. Tinha projetos para a vida. E que surpresa perceber que aquele rosto meigo continuava sendo um fator de desestabilização.

Além disso, havia Laís. Não ia sair por aí se refestelando, era um homem casado. Acontece que encontrar Verônica mexeu tanto com ele, que não pôde mais ser a mesma pessoa ao lado da esposa. Chegou em casa naquela noite e mal falou com ela. Estavam brigados mesmo, aquela atitude não pareceria estranha.

Dali por diante, a indisposição só aumentou. Laís notava a diferença no comportamento do marido. É verdade que já não andavam bem, mas o afastamento, de repente, tornou-se um abismo.

Léo passou a sonhar, literalmente, com Verônica. Isso alegrava seu dia, fazia se evaporarem as chateações da anunciada dissolução do casamento, e ele curtia a doce expectativa de revê-la. Passava o tempo lembrando histórias, imaginando o que poderia ter feito diferente e, às vezes, atrevia-se a pensar que era agora, não antes, o momento de a paixão se realizar. É o destino, esse fanfarrão. Vai saber.

Com Laís, entrou em ritmo de discussão permanente. Os dois sabiam que o que viviam estava prestes a acabar, mas não acabava, desenrolava-se como um novelo de lã infinito. Ela não tinha certeza. Ele não tinha coragem.

Numa tarde vazia em seu escritório, sentindo-se mal pela situação e com pensamento fixo na cor mel dos olhos de Verônica, Léo tomou horas de fôlego e telefonou para a velha amiga. Convidou-a para um café, e ela aceitou prontamente.

***
Continua...

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Léo e Verônica - parte 1 de 10

Encanto era pouco. Nunca se esquecera da tarde em que ela lhe bateu à porta, linda, molhada de chuva, tremendo um pouco de frio. "Não tenho outro lugar pra ir, posso ficar aqui?”, perguntou, fingindo-se desprotegida. Sabia dos sentimentos dele, aproveitava-se disso por vezes. Não por crueldade, talvez mais por oportuno descuido.

Naquela tarde, Verônica terminara seu conturbado relacionamento. Viviam brigando, até em público, mas também em público gostavam de demonstrar sua paixão tão intensa quanto frágil. “Quem faz tanta questão de mostrar pros outros é porque precisa provar para si mesmo”, havia quem dissesse. Léo sofria um pouco diante daquele exibicionismo, e nem chegava a alimentar esperança quando o casal se desentendia. Só em sonhos.

Quando ela entrou em sua casa, naquela tarde, sua consciência o alertava de que era mais um rompante de ódio em meio a uma tendência louca para folhetim mexicano. E, no fundo, até achava que o que ela queria era provocar ciúmes no tal fulano. Só no fundo, porque, na superfície, seu coração saltitava diante da garota de olhos cor de mel, rosto meigo e temperamento intempestivo.

A jovem choramingou até, gradativamente, começar a se insinuar, sutil. Assim que ela chegou bem perto e apontou-lhe os lábios desmascarados como se fossem um AR-15, ele não pensou duas vezes: beijou-a apaixonadamente. Passado um tempo incontável, ela se levantou de súbito, esfregou os olhos quase friamente, respirou fundo e sussurrou:

- Eu preciso ir embora, antes que faça uma besteira.

Mas que besteira?!

É que ela, na realidade, sabia que aquela situação era momentânea. Temeu não ser perdoada. No fundo, Léo sabia. Na superfície de sua pele, esperava que aquela fuga fosse apenas um sinal de que a entrega daquele momento fora verdadeira, porque escapada. A partida repentina poderia ser produto do susto, sabe-se lá. Foi pega de surpresa por um sentimento inesperado e avassalador. Não é fácil para ninguém.

E depois de um romance-relâmpago sintetizado em beijos descontrolados, Verônica partiu, e já não chovia. Lá fora, pelo menos.

Acontece que a vida de Léo piorou depois desse dia. Se antes era capaz de conhecer mulheres, sair com algumas, ainda que seu amor platônico pela amiga sobrevivesse a tudo, agora sim que ele não conseguia mais se interessar por ninguém. Ela, claro, mais uma vez retomou seu romance exibicionista com o fulano. Ele ficou sozinho, cheio de expectativas frustradas e um enorme vazio dentro de si.

O tempo passou, botou ele mesmo um fim nesse sofrimento do pobre coração de Léo. Afastaram-se, porque é da vida que as pessoas se afastem quando não estão caminhando para o mesmo lugar. Léo, finalmente, conseguiu relacionar-se com outras mulheres, namorou uma delas, casou-se.

Depois de muitos anos, certo dia, em profunda crise em seu casamento, o destino, esse fanfarrão, fez com que Léo encontrasse Verônica por acaso. E justamente no bar aonde ele fora encontrar amigos para desabafar os problemas do amor.

- Amor é assim mesmo, Léo – aconselhava um – Briga, separa, volta, se ama, se afasta...

- Não, não – outro opinava – Tem vezes em que o sentimento acaba e pronto.

A verdade é que ele não sabia bem qual das situações estava vivenciando, precisava pensar. Foi elucubrando assim que, de longe, avistou seu antigo grande amor. De imediato, gelou-lhe a espinha, seus olhos ficaram vidrados, a boca ficou seca, incapaz de produzir qualquer palavra numa só tacada, e foi difícil escapar das indagações dos amigos: “O que foi, Léo?!”.

Acumulou quase uma hora de encorajamento. Tanto tempo tinha se passado, tanta coisa tinha mudado, e ele ainda sentia esses calafrios. Foi até ela, como se estivesse passando à toa.

- Quanto tempo! – ela se levantou e pareceu feliz em revê-lo.

***
Continua...

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Léo e Verônica

Será que há,
Será que é certo,
Será que sobrevive?

A nossa vontade de estar
De semear, de se plantar
E de ser livre

Será que é o tempo,
Será que é o espaço?

Será que tem tempo certo,
Será que é o contexto
Que está errado?

Será que o amor acontece?

Será que o amor acontece pra sempre
Em qualquer sempre
Em qualquer era
Ele começa?

Recomeça?

Será que sou sempre eu
Será que sou sempre ela?

Será que tem regra?
Será que me espera?

Será que é amor?
Ou será só
A minha própria
Primavera?

***
Na próxima segunda-feira, 3 de novembro, começo a publicar um novo conto, "Léo e Verônica", em dez partes. ;-)

sábado, 25 de outubro de 2014

Cordão

Na voz do Chico, que cometeu o terrível impropério de expor
sua opinião política e assim se tornou inimigo de classe
para a massa cheirosa do Leblon e dos Jardins.
Que estes permaneçam atentos para, a qualquer momento,
ver passar na avenida um samba popular.


Este lindo samba é pra ser um carinho no coração:

Da militância do PT, o bem mais precioso que esse partido construiu em 34 anos. Jovens, adultos e idosos cheios de coragem e vontade, que não esperam ninguém chamar, não têm medo de cara feia nem de intimidação, que carregam nos olhos e nas bandeiras uma determinação inabalável, banhada nas esperanças mais bonitas que temos, para defender o Brasil do elitismo preconceituoso, ignorante e arrogante que, até agora, não aceita que não são os donos do país;

Da militância do PCdoB e da Consulta Popular, cada uma a seu modo, sempre aguerridas, nunca titubeando nos momentos fundamentais da construção do nosso sonho coletivo;

Da militância do PSOL que esteve na campanha da Dilma neste segundo turno, pedindo voto nas ruas e nas redes, exibindo o avatar virtual com referência à presidenta, exaltando a criticidade de seu voto, destacando que seguirá na oposição pela esquerda. Essa militância pela qual eu sempre tive todo o carinho e todo o respeito, cuja companhia torna nossa luta mais virtuosa;

De tanta gente que estava afastada da política, da militância, que estava desesperançosa, desapontada, desmotivada... E encontrou bons motivos para voltar às ruas, não só encontrou como fez da força de suas convicções e esperanças a fonte da juventude do segundo turno desta campanha;

De tanta gente que nunca tinha se exposto em disputas políticas dessa ferocidade; mas, diante do que viu, não recusou o chamado e foi protagonista de uma virada que não foi numérica, mas talvez, histórica... Acho que um dia entenderemos a importância disso.

Não sei qual o resultado que sai das urnas amanhã. Mas, em meio a tanto ódio, tédio e náusea... Para mim, foi a mais bela das flores: esse cordão que construímos linda e quase que espontaneamente. Os filhos e filhas que não fogem à luta somos nós, não permitiremos que até o hino nacional eles privatizem.

Obrigada pela companhia. Obrigada por, mais uma vez, escancararem para mim o sentido das escolhas que sempre fizemos.


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Que me perdoem aqueles que sentem ódio, raiva, medo. Eu sinto amor.

Que me perdoem aqueles que sentem ódio, raiva, medo. Eu sinto amor.

Eu sinto amor pelos sonhos que tenho, porque nenhum deles é individual e mesquinho. Sinto amor ao imaginar um mundo onde um ser humano não seja subjugado por outro. Sinto ainda mais amor ao perceber quantas pessoas imaginam a mesma coisa, e se movimentam para isso.

Seu ódio não me faz sentido, eu não vou falar com ele. Se você gritar, xingar, ofender, exibir num estandarte seus preconceitos ou esbravejar sua vontade de esmagar os outros pra chegar aonde quer, eu nem vou ouvir. Vou rir.

O amor explode em meu peito quando me dou conta de que agora, finalmente, estão acontecendo coisas pelas quais muita gente lutou. E minha insatisfação não tira de mim meu amor, porque eu olho ao redor e vejo gente lutando. Eu me instrumentalizo de amor para enfrentar o que não aceito.

Sinto o amor me varrendo a alma quando vejo tanta gente que estava afastada, que tinha desistido, que estava frustrada... Tanta gente voltando a empunhar bandeira. Tanta gente expondo nas roupas, nos rostos, no seu tempo a sua opinião, a vontade de disponibilizar a si mesmo para que o país avance num caminho de distribuição de renda, de causas humanitárias e justiça social. Amo a coalizão construída nesses marcos, e amo ainda mais a responsabilidade que essas presenças valiosas trazem.

Eu amo quando seu ódio empurra mais e mais pessoas para o nosso abraço.

Acho graça quando quem odeia não explica o próprio ódio. Rio das besteiras que tremulam sem poder justificar, sem assumir que não é ele mesmo o elaborador daquele ódio todo. Eu rio e sigo amando. Quem sabe esse amor forme um tapete por onde passarão pessoas que, fatigadas pelo ódio, se deixarão contagiar pelo amor à igualdade e ao respeito.

Quanto mais o Brasil se afastar do elitismo, dos preconceitos, da exploração como forma convencionada de relação social, mais eu vou sentir amor.

Se seu ódio é o melhor que tens, o meu amor é só um caminho para atingir sonhos ainda maiores.


***
É por isso que, neste domingo, vou de #Dilma13.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O relacionamento - 7 de 7

Para ler as partes anteriores, clique:

UM
DOIS
TRÊS
QUATRO
CINCO 
SEIS


Ora, mas é claro! O rapaz da lata de cerveja na praia de madrugada!

- Sim, foi uma boa dica! – sorriu para o desconhecido – Mas tenho uma ideia melhor para eliminar os danos definitivamente.

Teresa puxou o homem pelo braço para uma área do salão absolutamente visível para qualquer um que estivesse do lado de fora. Ele não entendeu o movimento, quando notou... Teresa tascou-lhe um beijo de cinema. Ao fim da cena, ele, ainda um pouco zonzo, olhou a mulher num misto de surpresa e graça. Esfregou os olhos com leveza, voltou a si e, parecendo ter entendido, só então lhe cochichou ao ouvido:

- Era aquele de laranja o responsável pela dor da noite de sexta-feira?

- O irresponsável da dor da noite de sexta-feira, você quer dizer.

- E fazendo isto a gente devolve a dor para ele?

- Ahan.

O desconhecido virou-se para seus amigos e deu uma piscadela. E Teresa outra vez o beijou ardentemente. Atrás do balcão, Romeu não entendeu nada. Os amigos do rapaz tentavam controlar o riso. Gentil investigava pelo canto do olho, estranhando, um pouco desconfortável. Imaginava que o show era para ele.

Teresa, beijos finalizados, deu a mão para o desconhecido e encaminharam-se até a mesa onde estavam os amigos dele.

- Amor, não me mate, estou praticando uma boa ação – disse o moço em direção a outro rapaz.

- Tomara que dê certo, pra que esse chifre horroroso que vocês cometeram sirva para alguma coisa! – o outro homem ria muito.

Teresa se surpreendeu mais por encontrar um namorado tão compreensivo que pela informação de que eles eram gays.

Gentil durou pouco mais de meia hora no bar. Ao entrar para acertar sua conta, teve de testemunhar mais alguns beijos de cinema. Fingiu não ver, mas até os paralelepípedos de Santo Antônio de Lisboa estavam embasbacados. Romeu fechava a conta do moço usando um olho, e com o canto do outro observava Teresa: conversava alegremente com seus três novos amigos, mal se dava conta da presença de Gentil.

Depois de se certificarem de que ele partiu mesmo, todos brindaram e gargalharam. Teresa sentiu-se aliviada. O peito murchou não como uma flor que murcha, mas sim como se antes ele estivesse artificialmente inflado, e, ao atingir seu limite, em vez de estourar como balão de festa, por ter sido cutucado, fura e esvazia-se até deixar um coração flácido no lugar daquele que já quase tinha explodido.

Com Romeu também à mesa, Teresa contou-lhes toda a história entre ela e Gentil. Ao narrar, revivia aqueles dois meses, recompunha fatos e expectativas, já sem lembrar com precisão a ordem cronológica. Em alguns momentos, a sensação era de muito barulho por pouca coisa. Em outros, ela se compreendia e se perdoava. Mas ainda tinha aquele restinho de tristeza melancólica guardado em algum canto do peito murcho, que se acendia nos espaços de tempo em que não havia nada a dizer.

Jonas e Paulo também contaram como se conheceram e o que viveram até chegarem até ali. Sem grandes obstáculos entre eles, os obstáculos quem lhes impôs foi o mundo, que, com essa idade, ainda não aprendeu que o amor entre as pessoas não deveria ser um fator de incômodo para ninguém. E se for, ué, que os incomodados se mudem.

Foi no sofá da casa de Jonas e Paulo que Teresa passou a última noite daquela pequena temporada em Florianópolis. Pensou que demoraria em conseguir dormir, porque fora um intenso final de semana, mas o cansaço era a maior das sensações naquele momento, seguido de perto pelo medo de perder o voo.

- Se prometer nunca mais agarrar meu marido, te esperamos para uma próxima visita! – brincou Jonas na manhã seguinte, antes que Teresa partisse de volta ao Rio de Janeiro.

O trajeto de volta não teve lágrimas, altivez ou déficit de dignidade. Entre os sentires, o que mais a ocupava era um bastante confuso: por onde será que tanta tristeza saiu? Superar uma paixão, esquecer uma história vivida, ou pior, esperada, com alguém é que nem equação logarítmica: quando te dizem o que fazer, parece impossível. Mas você resolve, e aí, parece que foi fácil. Como é que eu não tinha feito isso antes? A verdade é que fiz, e quem haverá de dizer que não foi no tempo certo?

O peito ainda estava murcho, parecia consequência do cansaço do corpo e da alma. Teresa não dormiu no avião, ficou observando as nuvens passarem, tentando enxergar o oceano lá embaixo. Era grande demais. Vai saber o que ele liga e o que ele separa.

No Rio de Janeiro, esperavam-lhe os alunos e algumas telas vazias. Resolveu pintar uma para Romeu, outra para Jonas e Paulo. Levou-as a Florianópolis no réveillon, foram muito bem recebidas pelos novos donos. Romeu pendurou no bar mesmo. Paulo emocionou-se com o presente. Era ótimo ser hóspede na casa daqueles dois, eram generosos, hospitaleiros e bem humorados. Sem contar que moravam numa chácara no Pântano do Sul, dava para ir a pé até a trilha da Lagoinha do Leste. Era perfeito, aquele encontro parecia coisa do destino mesmo.

***


terça-feira, 14 de outubro de 2014

O relacionamento - 6 de 7

Acompanhe aqui as partes:
1
2
3
4
5



- Não sabia que estava aqui. – ele gaguejou.

- Você não é o último motivo que eu tenho para visitar Florianópolis. Eu conheci primeiro ela, depois você – falou, meio ranzinza, meio debochada – A namorada não veio?

Só faltava não haver namorada nenhuma.

- Não, não. Nem sei por onde ela anda hoje, temos um relacionamento aberto.

Aberto é a puta que pariu.

Por que estava dizendo aquilo?! Teresa sentiu cócegas naquela parte do corpo responsável por produzir raiva. Relacionamento aberto?! Ora, e o que me importa? E não adianta esse sorrisinho maroto ridículo, canastrão! Antes de comover ou seduzir, vai se assemelhar àquelas bandas de pagode romântico bem cafona, de camisa multicolorida, óculos espelhados e tênis de plataforma. Cantando músicas que prometem ir buscar a lua, o sol, as estrelas, os cometas e até os buracos negros desta e de todas as galáxias em nome do amor.

- Ora, que bom para você. Desejo de coração que fique com ela e com todas as mulheres que puder.

Ele riu, ela não. Dito isso, Teresa se virou para o balcão, chamando Romeu para lhe servir outra dose. Gentil ficou no vácuo. Um pouco aturdido, afastou-se devagar, meio que olhando para trás, meio que fingindo que aquilo estava nos planos. Foi à direção de seu amigo, quase sem rumo, e sentaram-se na área externa do bar.

- Mulher, o que afinal você quer? – Romeu perguntou – Quer disputá-lo? Quem mostrar-lhe que está bem, para efetivamente sentir-se melhor? Quer esquecê-lo? Que curtir a dor? Eu não te entendo, de verdade.

- Eu quero é outra dose, Romeu. Porra.

O coração da carioca ainda estava disparado, custando a digerir a situação recém-vivida. Aberto?! Que tipo de gente meio que entra num relacionamento aberto, e diz isso a conta-gotas para as outras pessoas? Procurou desviar o foco de sua atenção para ver se controlava aquele sentimento esquisito, que escapava dela mesma na forma de respiração ofegante e um pouco de tremelique. Ao menos, a ela, parecia que estava respirando ofegante e tendo tremeliques.

Começou a correr os olhos pelo pequeno salão, pretensamente mansa, como que investigando reações, como que altiva. Apenas uma mesa estava ocupada, e eram três homens. Reparou que um daqueles homens não lhe era estranho e fixou o olhar nele por alguns segundos. Mas não se lembrava de onde o conhecia. Deixa pra lá.

Pouco tempo depois, chocou-se com o rapaz ao sair do banheiro.

- Acabaram-se os motivos de chorar? – ele perguntou sorridente.

Ela ficou muda porque realmente não lembrava quem diabos era aquela pessoa, mas era um homem bonito. Ele percebeu que a memória da senhorita falhava, e continuou:

- Talvez os procedimentos de redução de danos tenham surtido efeito.


***
Continua...

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O relacionamento - 5 de 7

Aqui você pode acessar as parte UM, DOIS, TRÊS e QUATRO.


Acordou ao lado do estranho sedutor. Estava muito cedo ainda, e ele já precisava partir. Recomendou-lhe que dormisse mais e que esquecesse Gentil.

- Não vou procurá-lo, te falei! – ela garantiu – Eu ainda tenho algum resquício de dignidade.

O paraense riu, beijou-lhe os lábios e saiu sorrindo. Dentro do quarto, ela sorriu de volta, para si mesma, e voltou a dormir.

O domingo começou ao meio-dia. Teresa deixou o quarto com sua tristeza em direção à Lagoinha do Leste, sua praia predileta. Nunca foi até lá na companhia de Gentil, porque é necessário percorrer uma trilha para atingi-la, e ele não era muito chegado a grandes esforços – imagine, se nem de um namorico à distância o paspalho dava conta.

Ficou ali, sentada diante do mar, durante um tempo que não calculou ou controlou. O vai e vem das águas, a quebra desigual das ondas, o horizonte bem distante, lá no fundo, tudo parecia dar conselhos. Mas não era nada do tipo “ele não te merece”. Era mais como: “passa”.

Não que a dor passe. Isso se ouve das mães desde crianças, quando se abre um machucado no corpo. Passa. Depois de adultos, não é a dor que passa. É você que passa. E faz a opção de carregar aquela dor ou não. Teresa olhava o mar e não encontrava o fim dele. Seus olhos fixaram-se no horizonte, olhando tudo que havia debaixo daquelas águas. Tanta coisa se passou. Tantos caminhos elas já devem ter conhecido, tanta gente já deve ter se deixado levar por aquele movimento. No fim, o sofrimento de agora é pequeno mesmo, porque o agora é pequeno demais.

Antes que ameaçasse cair o sol, ela se levantou e pegou a trilha de volta. Cansada, sentiu-se melhor pela primeira vez em... Dois dias.

E foi a Santo Antônio de Lisboa. Caminhou pelas ruazinhas inadvertidamente, a passos lentos, como quem não quer chegar a lugar nenhum e não vê problema nisso. A noite rasgou o céu, trazendo-lhe uma certa nostalgia, aquela dorzinha insistente no peito, uma tristeza melancólica que não cessava, mas era só o restinho dela. Talvez fosse só o fim do domingo, o fim da viagem. Vai saber.

Voltou ao bar de Romeu. Ao avistá-la, o amigo riu:

- Foi boa a noite?

- É, foi sim, o sujeito era legal.

Sentou-se ao balcão pela terceira vez em três noites. Agora, com menos gente no bar, contava com a companhia do velho amigo. Teresa parecia calma, mas o corpo estava cansado. A alma também estava esgotada, coitada. Chega, Teresa. Deu.

Não demorou muito tempo e um rosto bastante familiar adentrou o bar, falando alto e dando risadas. Seu peito fez-se água e escorreu pelo sangue. Era Gentil, acompanhado de um amigo.

Ele a viu e se dirigiu até ela, sem jeito, um pouco surpreso pelo encontro.

- Tudo bom?

- Tudo sim.


***
Continua...

Pela universidade pública e pela minha própria história como lutadora social: VOTO DILMA neste 26 de outubro.

Greve Geral contra a flexibilização
da CLT - nov/1999
Eu comecei a militar no movimento estudantil. Fiz parte do CA da ECA (Escola de Comunicações e Artes) e do DCE da USP. Na minha primeira semana de universidade, algumas turmas ficaram sem aula porque faltavam professores. Faltava dinheiro, diziam.

Mas à Faculdade de Economia e Administração não faltava dinheiro. Ah tá, eles tinham o dinheiro de fundações privadas que, como sanguessugas, atuavam no espaço da USP, usando o nome da USP, professores da USP (que acabavam não cumprindo adequadamente suas obrigações com a graduação) e repassavam uma parte da grana à faculdade. Mas isso não é privatização? 

Calma. Greve, vamos fazer greve. Todas as estaduais, USP, Unesp e Unicamp. Não podemos aceitar a privatização da universidade pelas beiradas, não podemos aceitar esse sucateamento! Morríamos de medo de acordar, um dia, com data marcada para o leilão das universidades. A gente resistia, resistia. E quando a gente resistia, vinha a polícia e descia o cassetete na gente. Eu mesma já tomei uma porrada tão grande no braço que passei dias usando somente blusa de manga comprida, para que minha mãe não se preocupasse ao ver a marca. A gente fazia passeata, a polícia jogava spray de pimenta. A gente parava a Paulista, a polícia batia na gente. O governador mandava, era política de governo bater na gente, desmontar a USP.
Porto Alegre, Fórum Social
Mundial - jan/2002

Não podia fazer greve, mas a gente queria disputar a universidade. Não dava, a gente não podia votar pra reitor. Nada no mundo é mais autoritário que a USP, cujo reitor é eleito somente pelo seu Conselho Universitário, um universo minúsculo, que tinha, na sua composição, menos de 10% de estudantes. Queríamos eleições diretas, queríamos voto paritário, queríamos democracia na universidade, nós também queremos falar! Aí, cercávamos a reitoria em dia de eleição, para pedir democracia, e vinha a polícia e batia na gente de novo.

Ao lado da USP, tinha a comunidade São Remo, com quem diversos trabalhos de extensão eram realizados. Mas eles lá, nós aqui. Os filhos das famílias da São Remo não estudavam na USP, não estudavam em universidade alguma. Havia os muros da universidade, havia um mecanismo excludente e elitista de seleção, havia acesso nulo a políticas sociais e de geração de renda e havia uma polícia truculenta para impedir que essa turma entrasse na universidade, em qualquer sentido de “entrar”. Nós achávamos que o espaço da USP era público, de toda a comunidade. Nós queríamos que as pessoas da São Remo também pudessem estudar na USP.

A gente lutava, uma luta de resistir. Passávamos finais de semana em reunião, apanhávamos da polícia em protestos, tínhamos propostas, ideias. Nas férias, fazíamos os congressos estudantis. Não podíamos permitir que as universidades públicas fossem privatizadas. Todos os dias, a gente acordava para impedir que a universidade fosse privatizada, fosse num leilão, fosse por mecanismos camuflados de privatização.
Belém, fev/2000: ato do Cobrecos
pela democratização da comunicação
denunciando os "festejos" da Globo e do
governo FHC de 500 anos do Brasil.

Infelizmente, meu estado continua sob poder do PSDB. Completaram vinte anos de governo. Alckmin, só ele, já foi governador três vezes, vai para a quarta gestão. No início deste ano, acompanhei com muita tristeza as notícias sobre a “falência” da USP. Acentuaram-se os problemas da universidade, manteve-se a repressão.

Enquanto isso, em âmbito federal, outra realidade passou a ser vivenciada. Afastou-se o fantasma da privatização, houve concursos públicos, ampliaram-se as vagas, novas universidades foram criadas, inclusive, pelos interiores, implementaram-se as cotas, aproximando o ensino superior de gente que, até pouco tempo atrás, nunca imaginou que estudaria numa universidade pública. A pós-graduação passou a contar com muito mais recursos do que sempre, a ponto de, minha turma de mestrado na Ciência Política da UFRGS, quase toda ela era contemplada com bolsa. Os doutorados oferecem possibilidade de vivência e estudos no exterior, investe-se na formação. Sem falar no Prouni.

Eu sinto uma dor amarga de ver o que aconteceu com a USP desde que eu a deixei. Ao mesmo tempo, sinto um orgulho danado de ver, no âmbito federal, serem implementadas políticas pelas quais eu e muitos lutamos, e não apenas lutamos, também fomos parte do processo de elaboração, em tantas manhãs, tardes e noites que perdemos aos vinte e poucos anos, quando a opção mais fácil teria sido curtir nossa juventude em dias de lazer.
Esta ficou famosa: greve das
universidades federais, set/2001.

Óbvio que existe ainda muita luta para fazer. Mas não é mais uma luta de resistir, é uma luta de avançar. Eu jamais vou deixar de me indignar, de lutar, porque aquela menina de dezenove anos ainda não encontrou todas as respostas, ainda não resolveu todos os problemas. Não deixo de lutar porque devo isso a ela, àqueles e àquelas que fizeram esse enfrentamento, às famílias da São Remo, a todos os que lutaram antes de mim para ver as mudanças acontecerem, e, principalmente, a todos que ainda virão.

Que as nossas lutas sejam sempre para avançar. Chega de lutar para somente se defender. É por isso, e para festejar um Brasil que combate o elitismo, a privatização, o sucateamento das instituições públicas, a repressão, que dia 26 de outubro, com toda certeza, eu sou DILMA 13. Por uma universidade pública, gratuita e de qualidade para todos e todas.

Minha turma no CALC (Centro Acadêmico Lupe Cotrim),
calourada em março/1999. Saudades.

domingo, 12 de outubro de 2014

O relacionamento - 4 de 7

Confira aqui as partes 1, 2 e 3.

Altivez, Teresa, altivez. Teve de superar de imediato a falta de dignidade, que nem uma pessoa que, ao tomar um susto brabo, cura a bebedeira num segundo. E como estava meio bêbada ainda, até pensou em sair dançando. Abordar um desconhecido qualquer e tacar-lhe um beijo na boca.

- Teresa, ao vê-la aqui, assim... Eu não posso me conter... Não há ninguém, eu disse aquilo para te afastar da minha vida, porque eu tenho medo do que sinto por você. Relacionamentos à distância são dolorosos, trazem muita insegurança, saudades. Não vou saber lidar com isso. Vou sentir medo de te perder e vou te atormentar, e você vai se chatear e eu vou te perder da mesma forma. E vou sofrer como já estou sofrendo agora.

Oh...

Foi quando Teresa notou: não são mais que oito da manhã. Não pode ser o Gentil acordado a esta hora na lagoa. Perder a dignidade tudo bem, mas perder o juízo já é vandalismo. Saiu andando, com um saco de meio quilo de camarão na mão. Precisava urgentemente encontrar um lugar para descansar.

Entrou na primeira pousada barata que lhe apareceu e dormiu cheirando a mar. Acordou porque o camarão começou a cheirar mais forte. A cabeça ainda doía. Gentil ainda não estava lá.

- Vagou que nem zumbi até de manhã? Teresa, você está precisando que alguém sacuda tua cabeça? – indagou Romeu.

Tomara que ele não viesse com aquela conversa de “ele não te merece”.

- Ô maluca, você poderia ter sido assaltada. Vê não faz a mesma merda hoje.

E ela voltou a beber, porque todo mundo sabe que a gente bebe pra esquecer.

Teresa ficou sentada ao balcão do bar lotado, com olhos perdidos na imensidão do nada, e um copo de vodca à sua frente. No fundo do copo, dava para ver a cara do Gentil. Tão bonito ele.

Não tardou a aparecer gente querendo prosa. Veio um e sentou-se ao seu lado, começou a puxar conversa. Ela não estava fazendo nada mesmo, então, respondia. Lacônica, no começo. Mas como a presença do outro começasse a lhe interessar, passou a responder melhor. Ele era comissário de bordo, e somente no dia seguinte voltaria ao Pará, onde vivia.

Comissários de bordo são os marinheiros da modernidade, ela pensava. Aquilo de um amor em cada porto. Sempre longe de casa, conhecer muitos lugares, passar boa parte do tempo no céu. Um amor em cada aeroporto, sem se apegar demais a nada nem a ninguém. Ah, se eu fosse comissária de bordo.

Quando algumas horas se passaram, Teresa já tinha contado ao novo amigo todas as razões que a levaram a Florianópolis e toda a ardência que seu peito sentia.

- Não devia sofrer tanto, ele não te merece. – sentenciou o homem.

Hum.

Enfim, resolveu contar algumas vantagens para se sentir menos ridícula. Disse a ele do prêmio que estava disputando no Rio de Janeiro, por um desenho produzido para a capa de um livro infantil. Também contou da viagem a Machu Pichu, feita antes de desgraçar sua vida ao conhecer Gentil – coisa de uns dois meses antes.

- Dois meses?! – ele se espantou – Do jeito que me disse, pensei que era coisa de ano!

- Ora, cale-se. A gente pode se apaixonar com uma semana e passar dez anos fingindo gostar de alguém.

Essa consideração inaugurou um assunto de horas sobre gostar, apaixonar, casar. Sabe-se bem como termina esse tipo de conversa quando é desenvolvida por um casal que acabou de se conhecer.

Saíram juntos do bar, sob olhares de chacota de Romeu.


***
Continua...

sábado, 11 de outubro de 2014

O relacionamento - 3 de 7

Parte 1 aqui
Parte 2 aqui


- Moço, o senhor me consegue uma cerveja dessas suas? Eu pago.

- Não estão para vender.

- Eu pago.

- Não estão para vender.

- Eu pago o dobro.

O homem usava um chapéu panamá. Tinha um rosto magro, comprido, decorado por uma barba rasa, que era um marrom meio iluminado. Era bonito. Deu logo uma lata de cerveja àquela louca, para evitar chatear-se. Só prestou atenção nos olhos dela segundos depois.

- Não chore não, moça!

- Pois eu quero é chorar, não me amole.

- Pois então chore, que chorar é bom. E chorar num porre é quase política de redução de danos.

Teresa desfez a expressão tristonha e olhou o rapaz como quem representa um ponto de interrogação. Não disse nada, desfocou sua vista para melhor refletir sobre aquela condição, e, quando notou, talvez muito tempo depois, os bêbados já estavam longe. Ainda cantavam.

Começou a desenhar na areia. Lembrou que, na bolsa, havia lápis e um caderno. Deixou as mãos andarem sozinhas pelas folhas, e elas produziram alguma coisa. Aos poucos, foi-se configurando um desenho inovador, inspirado, interessante. Um novo jeito de olhar para a tristeza que há intrinsecamente no mundo e no amor, um aglomerado de sentimentos confusos, que se combinam e se contrapõem a sentimentos desconhecidos e imprevisíveis que vêm de outrem.

Quando Teresa se despertou, nas primeiras horas da manhã, estava jogada na praia, ao lado de sua obra, e ela era horrível. Ainda tinha uma lata de cerveja quente pela metade.

Olhou ao redor, não havia ninguém. Havia, isso sim, uma dor de cabeça lancinante. Que ideia imbecil beber sem ter jantado. Pensou que acabara de atingir o fundo do poço, o subsolo que fica abaixo do fundo do poço, talvez até o magma terrestre. Ia chorar de vergonha de si, mas, enfim, já tinha chorado demais. Levantou-se, a roupa repleta de areia molhada, a cara amassada e toda borrada de maquiagem derretida. Lavou o rosto no mar e foi embora, carregando a sandália nas mãos. Não sabia aonde ir.

Pegou um ônibus, foi parar na Joaquina. Entrou de roupa naquela água estupidamente gelada, numa tentativa desesperada de conter a ressaca. Pior seria se pegasse uma gripe braba, afinal, por estar tão frágil, imunidade baixa, ela se tornaria uma pneumonia. Que Gentil chorasse eternamente sua morte precoce. Faria um desenho para registrar que morreu de amor. De amor nada, de desgosto. Ele se sentiria culpado para o resto da vida.

Começaram a chegar surfistas à Joaquina, e então ela saiu de lá. Foi à lagoa. Procurou camarões, queria comer camarão. Nada de morrer de pneumonia, vamos morrer por intoxicação alimentar. Choque anafilático. Qualquer coisa assim. Já que é para perder a dignidade, que seja de uma vez.

E porque a vida é mesmo cruel, lá vinha Gentil. Lindo como sempre, de chinelos, uma manhã de sábado lhe pulsando nos olhos.


***
Continua...

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O relacionamento - 2 de 7

Acesse a parte 1 aqui.

Bebeu sozinha durante horas. Romeu mal conseguia lhe dar atenção porque, no bar, ele fazia as vezes de garçom, caixa, barman e até cozinheiro. O amigo se concentrava em alterar o rumo da prosa para que ela não pensasse somente no tal do Gentil. Tentava outros assuntos, perguntou dos quadros que ela pintava, falou que andava com paredes vazias, quis saber da escola onde lecionava, de novela, de qualquer coisa. Mas Teresa não estava para conversa mole, trazia uma expressão de dor, de rancor, de rejeição. Essa porcaria desse sentimento de rejeição.

Antes que Romeu fechasse o bar, ela decidiu sair andando. O álcool no sangue a encorajava a caminhar sozinha pelas ruas de Santo Antônio de Lisboa como se elas levassem ao Méier. Conversou com os paralelepípedos, choramingou para os poucos passarinhos acordados àquela hora. Chegou ao mar e desabou em prantos.

Nem sabia direito de onde vinha tanta dor. Não é racional. É só um homem, ok, eu sei. Saber disso não ajuda a parar de chorar. Saber que há muitos homens no mundo também não ajuda. Imaginar que ele não a merece não só não ajuda como dá vontade de se atirar ao mar com um paralelepípedo preso à perna. Dane-se merecimento. Não sou prêmio de maratona.

Gente que dá esse conselho só pode fazê-lo por não saber o que dizer. Não há outra explicação. O que eu deveria fazer então? Pedir que o candidato preencha um formulário e disserte sobre seus defeitos e suas qualidades, anexando um exame psicotécnico? Ou melhor, abro um processo de seleção dividido em três fases, para que todos os interessados ao posto se enfrentem e eu possa chegar ao homem de méritos suficientes. Ora, que bobagem. Quero ser livre para desejar o mais vil.

E aqueles que dizem, conformados, que “não tinha que ser”?! Esses são os mais odiosos. Porra, então, o que é que tinha que ser? Aquele que me quis e eu rejeitei, para quem disseram que eu não o mereço e que nossa relação “não tinha que ser”?

Vamos recuperar a história recente e imaginar o que é que tem que ser. Teresa pôs-se a rememorar seus últimos fracassos. O último ex-grande amor de sua vida compareceu à sua festa de aniversário, o que a encheu de alegria, para, em seguida, enchê-la de sublimes e sinceros votos de infelicidade eterna ao atracar-se contra uma mocreia voluptuosa que vestia preto. O anterior a esse foi superado quando deixou de responder e-mails ou mensagens de celular – por que diabos homem faz isso?! Ser derrotada pelo silêncio é acachapante. E antes, tinha tido aquele que simplesmente voltou para a ex, na maior cara de pau. Aquela sonsa.

Quando nasci, um anjo bebum, desses que tropeçam nas pernas, filosofou no boteco: vai, Teresa, ser gauche no amor.

Teresa, mesmo sentada na areia, cambaleava. Ao seu redor, todo o comércio estava fechado. A alguns metros, avistou alguns bêbados batucando e cantando felizes da vida. Que tipo de idiota teria tantos motivos assim para ser feliz àquela hora? Nem cerveja mais havia!

Havia sim.


***
Continua...

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O relacionamento - 1 de 7

- Eu meio que estou entrando num relacionamento.

A confissão lhe caiu feito bomba. Não que não esperasse. Aliás, desconfiava vividamente. Os telefonemas passaram a ser esparsos, as conversas, mais curtas. Ele já não gastava suas madrugadas na internet em conversas virtuais que acendiam o peito e o corpo em contraste com o escuro do quarto e da solidão. Já não comentava com ela as desventuras do Botafogo, nem procurava saber quando o visitaria em Florianópolis.

Também, que havia de fazer? Namoro à distância já é problema. Namorico, então... Não é problema porque não existe. É um pré-namoro, é um feto, é um antifeto, é uma coisa qualquer que poderia ser, mas não é.

- Ora, Gentil, que vou eu lhe dizer? – tentava parecer altiva – Você não me deve explicação alguma.

O que disse?! “Não deve explicação”? Claro que deve! Não só deve, como devia ter dado antes! Esperar agora? Véspera de seu embarque?

- Não se preocupe comigo.

A boca não falava o que o coração elaborava. Era o susto.

Decidiu, altiva, manter a viagem programada. Ora, cancelar voo dá prejuízo. Além do mais, ir a Florianópolis sem mais ter nada com ele mostraria que ela nem se importava com aquele tal de relacionamento. Florianópolis com ou sem você, tanto faz.

O que mais lhe doía era aquele diacho de sentimento de rejeição. Teresa e Gentil poderiam significar nada um para o outro dali a poucas semanas, simplesmente porque perceberiam que não combinavam. Ou porque brigariam por causa de política. Ou poderiam ficar juntos até esgotar a vontade, e, depois disso, mal se lembrariam do nome um do outro.

Mas não. Prematuramente, o manezinho lhe informava que havia outra mulher em sua vida. Isso traz a fúria dos deuses gregos ao corpo dos mortais, e o que era um namorico que tinha a distância como componente divertido passa a ser uma paixão incontrolável que tem a distância como obstáculo. Ora, se ele estava aberto para meio que entrar num relacionamento, devia ser com ela, não com uma fulana qualquer que nem tinha entrado na história. Quem ele iria namorar? J. Pinto Fernandes?

Teresa embarcou, altiva. Chorou no avião durante todo o trajeto, sem altivez alguma. Uma hora e meia separava o Rio de Janeiro de Florianópolis, era lágrima pra caramba. Desceu do avião e ninguém a estava esperando.

O jeito é beber. Foi ao bar do amigo Romeu.


***
Continua...