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segunda-feira, 3 de junho de 2019

Juntas

Uma vez, ao dizer a um interlocutor respeitável, que não gosto de uma cantora famosa, ouvi assim:

- Vocês mulheres são muito cruéis umas com as outras.

É sim verdade. E é sim mentira. Porque a vida é o quê? É dialética mesmo.

Hoje em dia, não me poupo mais de meus gostos e desgostos. Gosto das minhas opiniões formadas, porque as formo à revelia de quem me queria eterna aceitante do que me trazem. Então não, então opino. Gosto e não gosto. Meu gosto. Boto à prova, na serenidade de quem sabe o que quer e tenta saber ouvir. Na insegurança de quem quer sempre ser compreendida, não julgada.

Dizem que as mulheres são bastante competitivas entre si, especialmente nos espaços que mais habitei nesta vida, como Música e Política. E por que será? Desde cedo, sempre percebemos que não há espaço pra todas. São poucas as mulheres que vencem, e essas sempre são usadas para que o status quo afirme que as mulheres sempre podem vencer. É mentira que sempre podem. Os filtros que colocam pra nós são da ordem do MUITO MAIS (mas MUITO MAIS mesmo) que pros homens. Muitos filtros. E eles vêm, principalmente, da vida material. Você sabe por quê Clementina e Jovelina só se tornaram conhecidas depois de terem mais idade?

Pois então. Não xingue nem critique nem muito menos condene as mulheres que têm essa dificuldade, que se veem em disputa, que temem perder o que não têm - seu espaço. De outro lado, nós também vamos entender que não há nada o que fazer se não for juntas. Chega de ser a exceção. Queremos ser a regra.

Sabe o que é mais legal? Tentar fazer realmente um mundo onde caibam TODAS, como cabem os homens. Personalidades, forças, vivências, artes, tudo é diverso, as mulheres são tantas! Eu quero um mundo onde caibam todas. E se não... Por que será que os homens teriam tanto receio das cotas??! Perder espaço? Pois é! Bem-vindoooos!


sábado, 14 de abril de 2018

Quem matou Marielle Franco?

Eu não conheci a Marielle Franco pessoalmente. Mas conheci sua campanha, em 2016. Amigos/as em quem confio, do PSOL ou não, pediam votos pra ela entusiasmadamente. Ela só podia ser uma pessoa boa. No adorável e resistente Bip-Bip, a maior parte dos frequentadores, notei certo domingo, se dividiam entre ela e Reimont. Peguei o panfleto, achei legal pra caralho. Ela só podia ser uma pessoa boa.

Recebi com alegria a notícia de sua eleição por expressiva votação. Torci pra que o mandato fosse bom, porque o Rio merece, a periferia merece. Porque as mulheres negras das favelas merecem essa referência. Ela só podia ser uma pessoa boa.

Há um mês, aquele nome, Marielle Franco, que li em panfletos e diálogos de luta e de esperança, estava numa notícia horrível, digna deste nosso tenebroso tempo. A dor pesa 500 toneladas. Tão difícil colocar nesses quase-sempre-odiáveis parlamentos uma mulher negra da favela. Lutadora dos direitos humanos. Quando ela chega lá, dão-lhe quatro tiros na cabeça e pronto. Eles atiram na esperança da gente, na esperança do povo pobre. Ela foi morta porque estava fazendo bem seu trabalho. Marielle foi morta porque estava honrando cada um de seus mais de 46 mil eleitores.

Mataram uma vereadora no meio da rua na ex-capital do país. Ela era uma pessoa boa.


sábado, 19 de novembro de 2016

O feminismo é uma prática*

Um dos melhores abraços que já ganhei na vida veio acompanhado de uma frase forte: “Muito obrigada por nunca ter desistido de mim”. Eu estava chegando a um Encontro de Mulheres da UNE, onde iria palestrar, e a moça se dirigiu a mim antes mesmo de eu entrar no local.

Eu a conhecia havia algum tempo. Era uma aguerrida militante do movimento estudantil, cheia de disposição, inteligente, forte. Ocorre que não gostava do feminismo. “Ai, Alê, desculpa, eu gosto de você, mas essa coisa de feminismo não é pra mim não”, ela dizia, justificando-se ora na dificuldade que tinha com pautas delicadas, como a questão do aborto, ora porque considerava que sua trajetória individual prescindia de “muletas” para alcançar seu lugar.

Agora, eu a encontrava feliz no Encontro de Mulheres Estudantes da UNE (EME), realizada na plataforma feminista e transformada como militante e como pessoa. Disse-me que o feminismo mudou sua vida. E, certamente, ela faz diferença na vida de muitas mulheres hoje.

Não é um caso isolado. Neste meu caminho de mais de 15 anos no feminismo, conheço muitas companheiras que já se disseram “femininas e não feministas”, ou que não vão se meter com “pauta de mulher”; e hoje são corajosas e determinadas defensoras da plataforma feminista nos espaços que ocupam.

A gente não tem o direito de desistir de ninguém. Nossa luta é dura, o caminho é longo e difícil. Todas são importantes. Como era mesmo aquela palavra de ordem... Nenhuma a menos, certo?

Aprendi com o movimento de mulheres que a gente deve acreditar nas mulheres. Quando elas narram uma situação de violência que sofreram, mas o homem nega. Quando elas se sentem incapazes de fazer uma fala em público. Quando elas participam do movimento de mulheres, mas têm dificuldade de enfrentar o patriarcado na própria casa. Quando elas dizem que não precisam de feminismo.

Eu nunca desisti daquela moça mesmo, e me alegro quando lembro aquela tarde em Salvador. Orgulho-me de não ter aproveitado nenhuma das chances que se me apareceram de desqualificar uma mulher com base nos argumentos machistas que combato, mesmo quando essa mulher já se utilizou da sua condição hierárquica sobre mim para me constranger.

Fui formada numa tradição que entende que podemos ter convergência no feminismo e divergência na conjuntura. Que podemos ter convergência na conjuntura e divergência no feminismo. O que nós não podemos nunca nunca é pensar que podemos prescindir umas das outras. Ou pior: não podemos em hipótese alguma afastar ou excluir mulheres das nossas fileiras. Ou pior ainda: JAMAIS desqualificar de forma leviana uma mulher que frequenta os espaços de debate feminista, a fim de expulsá-la de lá. Mesmo se algum dia ela tenha dito que é feminina e não feminista. Mesmo que você não vá com a cara dela. Mesmo que você a confronte nas instâncias políticas cabíveis.

Na minha humilde opinião, aquela que pensa que pode excluir mulheres da “sua” luta precisa mais de ajuda que aquela que ainda não se convenceu do feminismo. De minha parte, estou aqui para estender-lhe a mão. Foi o feminismo que me ensinou que é assim que eu devo agir.

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* Esse foi o título de um dos processos de formação e debate que organizamos com as mulheres da Juventude do PT, há muitos anos. Sigo confiando muito nessa premissa.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Fraudes, mentiras e falácias: fundamentos da Lei da Mordaça

Ruth Brochado e Alessandra Terribili*

Que os PLs autodenominados “Escola Sem Partido” baseiam suas premissas em falácias, todos já sabemos. A principal delas reside no próprio nome, afinal, o projeto não se refere à disputa partidária no interior das escolas. O que ele pretende, de fato, é assegurar o predomínio de suas próprias convicções conservadoras, forjando um pensamento único caracterizado pela intolerância e pela ignorância.

No DF, os porta-vozes das trevas adotaram a tática de fatiamento do projeto, ou seja: fragmentaram-no e apresentaram-no em partes, inclusive apelando a fundamentos inconstitucionais. Seus idealizadores propõem a perseguição de professores (as) e a censura de conteúdos sob o pretexto de defender o “direito dos pais a que seus filhos menores recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”. Ora, e como cumprir tal promessa em meio a uma diversidade de convicções, expectativas, referências morais e visões de mundo que há numa sala de aula? E mais: é desejável que, num espaço público, os diferentes não entrem em contato?

Portanto, a Lei da Mordaça não é apenas uma falácia, é também hipócrita e autoritária. Ao anunciar sua cruzada contra uma suposta “doutrinação” praticada por professores e professoras, os defensores (as) da Mordaça pretendem, na realidade, manter sua doutrinação particular. Para isso, precisam expulsar o senso crítico das escolas, como quis fazer a ditadura militar de diversas formas – inclusive, prendendo, exilando, torturando e matando professores (as).

Gênero

Para argumentar suas frágeis teses, os autores dos Projetos de Lei da Mordaça apelam a conceitos vazios, como a tal “ideologia de gênero”.

Na literatura feminista, o conceito de gênero aparece pela primeira vez em 1975, na definição de Gayle Rubin. Basicamente, trata-se de afirmar que a desigualdade entre homens e mulheres, geradora de toda sorte de violência, conflitos e exclusão, não é natural, mas sim, construída socialmente. Isso quer dizer que a opressão das mulheres é sustentada há séculos por valores morais e práticas sociais e econômicas que condenam a mulher à submissão. De acordo com os idealizadores da Lei da Mordaça, são esses os valores morais que devem circular livremente nas escolas, sem questionamento ou confronto de ideias.

Não há teórica ou liderança feminista que utilize o termo “ideologia de gênero” para se referir a qualquer coisa. “Gênero” não é uma “ideologia”, mas sim, um conceito, uma categoria de análise. Portanto, podemos afirmar que aquela é uma expressão fabricada por eles para causar pânico nas suas bases e, assim, gerar a comoção necessária para implementar seu projeto reacionário e autoritário para a Educação.

Na Câmara Legislativa do DF, há PLs em tramitação como o 1138/2016, de autoria de Sandra Faraj (SDD), que não só proíbe a “aplicação da ideologia de gênero” como visa a impedir que qualquer proposição que relacione o termo gênero à construção de políticas pedagógicas seja sequer discutida pela Câmara. Na justificativa do projeto, encontramos um festival de estupidezes de todos os formatos. Referenciando-se em nota política emitida por uma pequena associação de pediatras conservadores estadunidenses, a parlamentar diz que “ideologia de gênero” é uma “corrente” que contraria “até a teoria da evolução, a biologia e tudo mais que já se ouviu falar” (sic). Ironicamente, Faraj afirma que conceitos como identidade de gênero e orientação sexual foram suprimidos dos textos do PNE e do PDE por “falta de base científica”.

Assim sendo, os (as) parlamentares que se utilizam da expressão “ideologia de gênero” em seus projetos deveriam ser convocados a revelar as devidas referências teóricas e políticas associadas ao termo. Não podemos aceitar que a Câmara Legislativa, que deveria reunir representantes do povo para estudar, discutir e propor de forma séria e consequente, se dê o luxo de basear seus debates em expressões fraudulentas sem nenhuma fundamentação teórica ou política.

Educar para a igualdade

Enquanto isso, no mundo real, as mulheres continuam sofrendo todos os tipos de violência sexista, sendo as negras as mais vulneráveis. Os dados atestam:

• 3 em cada 5 mulheres jovens já sofreram violência em relacionamentos. (Instituto Avon/Data Popular – 2014)

• 56% dos homens admitem já ter praticado algum tipo de violência. (Instituto Avon/Data Popular – 2013)

• Em 2015, um relato a cada 7 minutos. 85.85% dos casos estão no ambiente doméstico; quase 70% dos agressores são parceiros ou ex-parceiros. Mais da metade dos assassinatos de mulheres se dão em contexto de violência doméstica. Maioria das vítimas são negras. (Levantamento do Ligue 180)

• De acordo com a publicação Estatísticas de Gênero – Uma análise dos resultados do Censo Demográfico 2010, do IBGE, pode-se inferir que as mulheres ainda são maioria entre os desempregados, entre os trabalhadores informais ou precarizados. Quanto aos rendimentos, as mulheres recebem, em média, 67,7% do rendimento dos homens que realizam mesma função. Essa realidade é mais cruel com as mulheres negras e as rurais.

• Menos de 10% da Câmara dos Deputados são mulheres, o que prejudica decisivamente a capacidade do Poder Legislativo de produzir e aprovar políticas de combate a essa triste realidade.

O conceito de gênero nos ensina que nenhum desses dados é natural ou inevitável, mas sim, que podemos formar seres humanos capazes de romper com as desigualdades e construir um mundo melhor para todos e todas. O que não é natural pode ser mudado. A Educação precisa estar a serviço do combate à cultura do estupro, da discriminação e às diversas formas de violência e de opressão, contribuindo para formar cidadãos e cidadãs a partir de valores como respeito, igualdade e solidariedade.

Conforme fica nítido no discurso dos defensores e defensoras da Lei da Mordaça, a real intenção dessa iniciativa é manter as relações de poder tal qual estão: opressão das mulheres, exclusão dos negros e negras, invisibilização da população LGBT. Todas as pessoas que desejam construir um mundo melhor precisam se opor firmemente à Lei da Mordaça.

* Ruth Brochado, professora e militante feminista, é diretora da Secretaria de Mulheres do Sinpro-DF; Alessandra Terribili, mestra em ciência política e militante feminista, é assessora política do Sinpro-DF.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

No quesito IGUALDADE, o Brasil ainda está longe do pódio

Talvez, a principal frustração da torcida brasileira nas Olimpíadas Rio 2016 tenha sido a ausência de nossa carismática seleção feminina de futebol no pódio de premiação. Sobre nós, prevaleceram as equipes de, respectivamente, Alemanha, Suécia e Canadá.

O time do Brasil começou a competição muito bem, com vitórias, garra, alegria de jogar e muitos gols; o que rendeu às nossas meninas comparações com sua equivalente masculina – que iniciou o torneio deixando a desejar em todos os quesitos mencionados. Porém, essa não é uma comparação justa, por três motivos: 1) Fora Temer; 2) Ao terminar as Olimpíadas, concretizou-se um resultado previsível, mas que parece desabonar o feito de nossas meninas pelo tamanho das expectativas geradas sobre elas, expectativas essas desproporcionais aos investimentos e à atenção da mídia ao longo dos últimos quatro anos; 3) Para comparar Marta a Neymar e a seleção masculina à feminina, seria necessário que todos tivessem igualdade de condições, o que está deveras distante de acontecer.

No Brasil, o futebol ainda é um esporte muito masculino. A desigualdade na distribuição de recursos é gritante, e um pouco disso pode ser atribuído aos níveis diferentes de desenvolvimento: basta lembrar que a primeira partida oficial disputada pela seleção brasileira feminina aconteceu em 1986, quando a masculina já tinha 72 anos de chão. Mas não é só isso. Há as abissais diferenças salariais. Mas não é só isso. Como atestou uma reportagem do jornal inglês The Guardian, de 2006, a partir da experiência da jogadora chilena Dania Cabello no Santos:

“‘Durante os treinos, tínhamos que esperar em nossos quartos na hora do almoço. Enquanto os jogadores almoçavam no refeitório, recebíamos bandejas. Era como se recebêssemos sobras’, contou Cabello, lembrando ainda que o time vestia uniformes masculinos usados e precisava treinar nas areias do balneário paulista porque o campo de treinamentos era ocupado por um dos times juvenis do Santos.

Ironicamente, o time foi extinto em 2011, como parte de um pacote de cortes feitos pela diretoria do clube para tentar custear a presença de Neymar - ele acabou sendo vendido pelo Santos ao Barcelona em 2013”. (1)

Mas não é só isso. Para se referir à prática de um esporte que, no Brasil, ainda é tão masculino, é preciso levar em consideração um aspecto fundamental: as barreiras impostas às mulheres para se inserir num mercado tão dominado pelos homens, parte integrante de um universo absurdamente machista.



Ouro, prata e bronze

Por exemplo: na Suécia, medalha de prata em futebol feminino, há políticas de incentivo ao combate de estereótipos contidos na separação de brinquedos e de cores entre meninos e meninas, para enfrentar o machismo desde o berço. No Brasil, o discurso obscurantista busca limitar a participação das mulheres no espaço público, e iniciativas medonhas, como a Lei da Mordaça, visam a proibir que professores e professoras desconstruam em sala de aula os estereótipos de gênero.

Segundo o primeiro-ministro Stefen Lofven, o governo sueco é feminista. O gabinete é paritário: 12 ministros e 12 ministras. No parlamento, 44,7% são mulheres (2). No Brasil, as mulheres não chegam a 10% da Câmara dos Deputados. Na Suécia, homens e mulheres dividem o trabalho doméstico e de cuidados, graças a muito investimento público no combate à desigualdade. Atualmente, estudam-se formas de intervir na composição do comando das empresas, para que mais mulheres alcancem os postos mais altos também no setor privado (3).

No Canadá, país que nos derrotou na disputa pelo bronze, o parlamento é composto por 26% de mulheres, e há paridade na composição do governo. Ao ser perguntado sobre por que ter metade de mulheres no Ministério, o primeiro-ministro Justin Trudeau não titubeou: “Porque é 2015”. Enquanto isso, no Brasil, uma mulher legitimamente eleita, e contra a qual não pesa acusação alguma, foi cassada por um golpe parlamentar que entregou o poder a um governo inteiramente masculino, conforme noticiaram alguns dos principais veículos internacionais de informação.

Na Alemanha, medalha de ouro em futebol feminino, já há cotas de mulheres na direção das empresas desde 1998. No Brasil, muita gente se queixa do mecanismo de cotas, por desafiar seus próprios privilégios. O Parlamento alemão é composto por 36,5% de mulheres. Lá, busca-se representar linguisticamente as identidades, como forma de combater a desigualdade: artigos científicos e acadêmicos devem usar uma gendergerechte sprache, ou seja, uma linguagem igualitária entre os gêneros. No Brasil, há quem se ofenda pelo uso da flexão presidenta, presente em dicionários de Língua Portuguesa desde antes de eu e Carmen Lúcia nascermos.



Ser mulher

Segundo entrevistas com 370 especialistas ouvidos pelo TrustLaw, da Fundação Thomson Reuters, em 2012, entre os países que integram o G-20 (20 maiores economias do mundo), o Canadá é o melhor país para se ser mulher. A Alemanha vem em segundo lugar. O Brasil lidera a metade inferior da lista: 11º lugar. Tal ranqueamento foi estabelecido a partir de critérios de políticas públicas de promoção da igualdade, de combate à violência e à exploração, aliadas ao acesso a educação e saúde.

O Global Gender Gap 2015, relatório produzido pelo Fórum Econômico Mundial – percebam: Fórum Econômico Mundial – mediu a igualdade entre homens e mulheres a partir de indicadores em quatro áreas: educação, oportunidade e participação na economia; saúde e sobrevivência; e empoderamento político. No ranqueamento, entre 145 países, temos: 4º Suécia; 12º Alemanha; 30º Canadá; 85º Brasil.

Por fim, vale mencionar que, num debate caro ao movimento de mulheres no que se refere à autonomia sobre o próprio corpo e a própria vida, nosso país também não sobe ao pódio: Alemanha, Suécia e Canadá têm o aborto legalizado em seu território desde os anos 70; enquanto, no Brasil, os obscurantistas procuram, cada vez mais, restringir até extinguir o acesso das mulheres aos poucos casos de aborto legal que a lei permite.

A paixão nacional brasileira é um esporte que, até outro dia, era praticado somente por homens, em cujo campo uma mulher que adentra como árbitra ou bandeirinha está sujeita a agressões e assédios que, em entrelinhas, afirmam que ela não é bem-vinda. Só por isso, Marta, Cristiane, Formiga e companhia já são verdadeiras heroínas: elas duelam com o machismo diariamente para se concretizarem como referências no país do futebol.

Não é possível falar da prática do futebol feminino no Brasil sem levar em consideração que, embora tenhamos avançado, nosso país ainda guarda sérias dificuldades em assegurar a autonomia das mulheres e igualdade de condições. Se com tantos obstáculos, chegamos aonde chegamos, imagine só aonde as mulheres podem levar este país se rompermos as barreiras da discriminação, da opressão e da exploração que ainda nos dividem.

(1) Extraído de matéria da BBC Brasil, que pode ser encontrada em: http://www.bbc.com/portuguese/geral-37028976.

(2) Os dados sobre composição de Parlamentos neste artigo foram retirados de Global Economy.

(3) Com informações da Revista 2. Matéria disponível no portal Geledés:
Como a igualdade de gênero fez da Suécia um país mais rico - http://www.geledes.org.br/como-igualdade-de-genero-fez-da-suecia-um-pais-mais-rico/. 

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Não seja cúmplice

É por isso que é necessário um organismo de governo para elaborar, propor, articular e desenvolver políticas para as mulheres.

É por isso que os sindicatos e organizações dos movimentos sociais precisam ter secretarias de mulheres.

É por isso que é inaceitável que não haja mulheres no Ministério.

É por isso que é necessário haver mulheres em número razoável no parlamento.

É por isso que é necessário que haja mecanismos artificiais de distribuir recursos e tempo de TV entre homens e mulheres que disputam vagas no parlamento.

É por isso que existe o mecanismo de cotas e de paridade, que assegura uma proporção mínima de mulheres nas direções de entidades representativas.

É por isso que é preciso falar de gênero nas escolas.

É por isso que você JAMAIS deve desqualificar uma mulher chamando-a de vagabunda, vadia, puta e afins.

É por isso que não tem graça nenhuma fazer piada com estupro ou com qualquer outro tipo de violência contra a mulher.

É por isso que você não pode tratar as mulheres que te cercam como suas serviçais.

É por isso que você NÃO PODE legitimar a violência nem no campo material nem no campo simbólico.

É por isso que você precisa entender que NÃO é NÃO.

É por isso que não adianta compartilhar post ou meme de indignação no facebook, se você não age coerententemente.

É por isso que o governo golpista de Michel Temer é cúmplice de cada caso de estupro e de violência contra as mulheres que ocorre em todo o Brasil.

Não é porque poderia ter sido sua irmã ou sua mãe. É porque foi com ela. É porque é com todas nós diariamente.

É porque não há igualdade.

E é porque precisa haver.



terça-feira, 16 de junho de 2015

O Plano Distrital de Educação e o obscurantismo autoritário e desqualificado na CLDF

Hoje tivemos mais um triste episódio que demonstra a total desqualificação dos setores conservadores e da direita nos parlamentos deste país. A exibição de luxo dessa boçalidade se deu em meio a uma importante vitória do Sinpro-DF e demais entidades e movimentos integrantes do Fórum Distrital de Educação: a aprovação do PDE (Plano Distrital de Educação).

Ainda pela manhã, em reunião da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), já se percebiam cartazes e intervenções contra a "ideologia de gênero".

[Colchetes: eu não sei que diacho é isso. Nunca vi nenhuma militante, teórica, estudiosa, pesquisadora, dirigente feminista ou do movimento LGBT se referir a uma "ideologia de gênero". Aliás, eu sempre fui a primeira a chamar a atenção de minhas próprias companheiras feministas quanto a esse conceito: gente, gênero não é sujeito político. Não existem plenária de gênero, política de gênero, violência de gênero. Existem plenária de mulheres, políticas para as mulheres, violência contra as mulheres. Não podemos nós esconder as sujeitas dessas situações todas. Gênero é recorte, é categoria de análise, é um conceito útil para compreender a construção social do feminino e do masculino.]

Mas esse pessoal das trevas inventou a tal coisa que é a ideologia de gênero. Enfim.

E então, líderes de igrejas cristãs (não sei quais, não entendo disso) no parlamento passaram a criticar o PDE afirmando que este fazia apologia à tal da "ideologia de gênero". Os cartazes das pessoas traziam dizeres em defesa da família tradicional e outras bobagens que elas se recusam a entender que faz parte da crença religiosa delas, e elas não podem impor a crença religiosa delas a todo mundo, que isso é feio.

Se você perguntasse para essas pessoas onde no projeto está a defesa da tal da "ideologia de gênero", a pessoa:

a) Fazia cara de paisagem;
b) Juntava meia-dúzia de palavras sem lé com cré e, no fim, não respondia;
c) Gritava, te xingava ferzomente, se retorcia.

Era óbvio que aqueles cidadãos e cidadãs não conheciam o texto ora sob apreciação. Mas, para mim, que ainda não perdi totalmente a fé na humanidade, já não era tão óbvio que seus representantes no legislativo também desconhecessem o projeto que eles mesmos estavam colocando em votação.

Em suas intervenções, deputados como Rodrigo Delmasso (PTN), Raimundo Ribeiro (PSDB) e Sandra Faraj (Solidariedade) diziam que a "ideologia de gênero" presente no PDE (???!!!!) destruiria a família; que as crianças não mais seriam educadas como meninos ou meninas, mas que decidiriam isso ao atingir a maioridade; atrocidades desse nível. Ou seja, ou esses parlamentares são mais que medíocres e limitados, e sim, bastante ignorantes mesmo; ou então, são mal intencionados, o que coloca em questão seu próprio caráter. Em qualquer das alternativas, eles não merecem os mandatos que lhes foram oferecidos.

O pobre Plano só pretendia - como vocês, pessoas capazes de juntar lé com cré, facilmente supõem - que todos os seres humanos dentro de uma escola sejam tratados com igualdade. Que se desconstruam preconceitos, discriminações e qualquer forma de opressão de alguém sobre outro alguém. Porque isso também é feio.

Mas o pessoal das trevas não admite isso. Parece que querem manter a população LGBT excluída, marginalizada, vulnerável. Não se importam com os milhares e milhares que morrem em decorrência da homofobia assassina que eles alimentam e valorizam. São cúmplices dessas mortes, e depois rezam impunemente para seu deus.

Afora as questões referentes a orientação sexual, diversidade e RECORTES de gênero; os deputados da CLDF não quiseram nem saber do Plano Distrital de Educação. Não debateram suas metas e estratégias; a oferta de vagas; a educação de jovens e adultos; a valorização dos profissionais da educação; o financiamento da educação. Mas, isso sim, retiraram toda e qualquer flexão de gênero do texto - aparentemente, há quem se incomode muito com o saudável hábito de visibilizar as mulheres nos textos políticos.

É uma gente pequena, tão pequena, mas tão pequena, que eu só posso lamentar. E festejar que, apesar de todo o obscurantismo que impediu que o texto contemplasse a diversidade presente nas nossas escolas e na nossa sociedade, nem a boçalidade desse pessoal das trevas pôde impedir que o DF tenha, agora, um plano com metas e estratégias a serem alcançadas para a Educação num prazo de dez anos.

Que venha a próxima década. A disputa pela igualdade não acabou esta tarde.

sábado, 7 de março de 2015

O destino e o livre-arbítrio: viva o Dia Internacional da Mulher!

Destino e livre-arbítrio, para nós, mulheres, são coisas que existem e se confrontam cotidianamente. Somos fruto dessa relação dialética, que flameja e tremula dentro de nós, levando-nos a nos movimentar por sentir as cadeias que nos prendem.

Exaltam nossa “natural” sensibilidade, enquanto evocam nossa capacidade de compreensão para assegurar o cumprimento de uma árdua rotina marcada pelo trabalho incansável fora e dentro de casa.

Mas nós observamos, enxergamos, percebemos; e nos levantamos para exigir equipamentos públicos e a socialização do trabalho doméstico e de cuidados.

Elogiam a nossa beleza, enquanto nos põem a perseguir freneticamente um padrão inatingível, em nome do qual compraremos cosméticos, remédios, dietas, cirurgias.

Mas nós vemos beleza onde querem que vejamos erro, nos orgulhamos da força da nossa pele, exibimos nossos corpos e cabelos para afirmar a beleza da nossa autonomia.

Elogiam nossa sensualidade, sexualizam nosso corpo, nossos gestos e movimentos; enquanto reprimem nossos desejos e justificam as violências que sofremos diariamente.

Mas nós queimamos sutiãs, rasgamos fantasias, mostramos a barriga, beijamos as bocas que queremos e fazemos brotar jardins cheios de borboletas.

As rosas, chocolates e maquiagens que nos oferecem hoje nos estão predestinados como forma de agradecer pelo nosso útero, enquanto passam 365 dias do ano tentando controlar nossos corpos e nossas escolhas.

Mas a nossa luta vem de séculos para tomar as rédeas de nossa própria história, ela floresce em rompimento de padrões, barreiras e amarras, e o Dia Internacional das Mulheres é a celebração disso.

Condenam-nos formal ou informalmente, adoecem-nos, matam-nos ao longo de toda essa trajetória de resistência; somos nós, são elas, heroínas anônimas e conhecidas.

Desafiamos a morte e nos tornamos sementes, voando pelo ar, contagiando, até nos plantarmos em outras mulheres e lutas e cantos do planeta. Trazemos em nós aquelas companheiras, que vivem para sempre em nossa escolha de dedicar nosso livre-arbítrio a construir um destino de igualdade para todas nós.



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O balé das borboletas

Despertei e fui para o quintal, onde alguns raios de sol pareciam tentar resistir às nuvens escuras que avançavam sobre o céu azul. Queria ir à cachoeira pedir a Oxum pelas minhas amigas, mas logo notei, olhando de longe, que a chuva não tardaria a vir, e provavelmente já até estivesse molhando meu altarzinho. Ainda com o coração inconsolado, desisti de assumir o trajeto e me pus a olhar ao longe o vento e o movimento das nuvens.

Foi quando, desde esse longe, vinham duas borboletas brancas naquele balé clássico das borboletas. Foram vindo e vindo, e então estavam já bem perto. Continuaram brincando como se fossem duas crianças no carnaval, bicando-se, afastando-se e voltando a unir-se. Rodopiaram ao meu redor duas vezes, como se tentassem me envolver no balé. Acho que foi o primeiro sorriso sem dor que derramei em trinta horas. Pensei que fossem minhas amigas dizendo pra eu ficar bem.






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Para Rosângela Rigo e Lurdinha Rodrigues, com todo meu amor e minhas saudades para sempre...


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Legalizar o aborto urgentemente!

Se o aborto fosse legal no Brasil, como o é em dezenas de países do mundo (quase toda a Europa, Ásia e América do Norte), Jandira e Elizângela estariam vivas. O procedimento seria disponibilizado no SUS e haveria regras para sua realização.

É justamente por isso que o feminismo levanta essa bandeira há tantos anos, em defesa da vida das mulheres. Muitas interrompem uma gravidez que não desejam através de métodos caseiros, como a inserção de uma agulha de crochê no útero, que pode levar à hemorragia e, consequentemente, à morte. Outras procuram clínicas clandestinas que efetuam o procedimento sem as devidas condições de higiene e segurança. Como atestam os dois casos mencionados, isso também pode levá-las à morte.

As que não morrem podem ser presas, graças a uma lei que quase nos remete à Idade Média. Já os homens que as engravidaram estão livres de qualquer pena.

De outro lado, as mulheres das classes mais abastadas têm acesso ao aborto seguro, pagando pequenas fortunas em clínicas que são tão clandestinas quanto as que mataram Jandira e Elizângela. E há pessoas que insistem em fechar os olhos para essa situação.

Quem é contra o aborto, que não o pratique. Mas não queira que sua forma de ver o mundo interfira na legislação e nas políticas públicas, porque o Estado é (ou deveria ser) LAICO. As mulheres, quando querem interromper uma gravidez, o fazem da forma que estiver ao seu alcance. Algumas morrem: as pobres.




quinta-feira, 24 de abril de 2014

Jô Soares e a naturalização pseudoengraçadinha do machismo: ô novidade...

Jô Soares pode já ter sido um cara razoável algum dia. Mas se foi, deixou de ser "há horas", como se diz no Rio Grande do Sul. Hoje eu até evito assistir suas entrevistas, que são cada vez mais imbecilizadas e sem graça, pra me poupar da vergonha alheia.

A última vez que eu tinha visto faz tanto tempo que eu nem lembro quando. A entrevistada era a cantora Thaís Gulin, a quem ele constrangedoramente queria induzir a falar de sua relação com Chico Buarque - sem sucesso.

Mas através de uma matéria da capa da UOL, cujo link está abaixo, soube da entrevista de Jô com uma bandeirinha chamada Maíra Americano Labes. Consta da matéria que a moça "foi alvo de grande polêmica no último sábado após ter sido chamada de 'gostosa' pelo técnico Celso Teixeira, do Juventus, em partida do Campeonato

Catarinense". Eu, militante feminista e pesquisadora, considero uma violência que uma mulher, no exercício da sua profissão, seja tratada dessa forma. Particularmente, causam-me repulsa aqueles homens que abordam dessa forma grosseira as mulheres em bares e boates. Não é porque eu estou lá que estou exposta a visitação. Imagine no caso dela, que estava trabalhando. É um modo clássico e recorrente de desqualificá-la. E pelo que soube da entrevista, a própria Maíra contextualizou o "elogio" como agressão.

Aí chega o não menos cretino do Jô Soares, com todas as línguas que ele fala e seus livros publicados, e diz que o técnico "não estava tão errado assim". OI?! Não sei se Jô, seus idiomas e seus livros já ouviram falar em MACHISMO. Vai ver ele acha suas "piadas" suficientemente engraçadas para livrar-lhe da compreensão de que a fala dele encoraja SIM esse comportamento repugnante, por naturalizá-lo. As mulheres que reclamam são mal-humoradas, mal-amadas, não têm senso de humor. E assim, muitas mulheres não denunciam as violências que sofrem e ninguém sabe por quê, né.

Mas calma, pode piorar. A matéria relata o seguinte diálogo:

Jô: “Mas e se o juiz pergunta pra você: 'ô, gostosa! Foi impedimento ali?'''
Maíra: “O juiz é autoridade máxima dentro do campo''.
Jô: “Juízes, aproveitem!''

Assédio sexual é crime. O artigo 216-A da lei 10.224/2001 diz: "Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente de sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício, emprego, cargo ou função". A pena prevista é de detenção de um a dois anos. Mas vai ver que isso está escrito numa das línguas que o Jô não entende.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Mulheres, música, amizade e força pra todas!

Outro dia vi Roberta Sá num programa de TV, divulgando o show que a Nívea está realizando em algumas capitais, em homenagem ao samba, estrelando: ela, Alcione, Martinho da Vila e Diogo Nogueira. Lá pelas tantas, ela demonstrou um misto de assombro com encantamento ao falar do amor que Alcione sente ainda hoje por Clara Nunes. "Ela sente saudades, fala com carinho", disse. Devia ter parado por aí, porque depois completou: "E olha que é difícil cantoras se gostarem". Riu.

Bastante imprudente o comentário, porque minutos depois ela foi convidada a falar de cantoras/compositoras da sua geração. Então ela não gosta das mulheres que mencionou?

Mais que imprudente, o comentário foi infeliz. Eu, particularmente, rejeito aquele senso comum de que as mulheres estão predispostas a não se gostarem, a disputarem espaço e olhares entre si. Creio que a sociedade capitalista-patriarcal em que vivemos busca nos jogar aí, e legitimar esse processo é o pior a se fazer.

                                                                      Clara e Alcione

Clara Nunes era muito amiga de Alcione (não é à toa que é a voz da Marrom na versão original de "Um Ser de Luz", samba assinado pelo então marido de Clara, Paulo Cézar Pinheiro, junto com dois grandes amigos dela, João Nogueira e Mauro Duarte). E Clara tinha uma relação carinhosa com muitas cantoras do seu tempo, como Elis, por exemplo - que costumava ficar em sua casa quando ia trabalhar no Rio.

Carmen Miranda ajudou a alavancar a carreira de sua irmã, Aurora, que chegou a atingir alto nível de "notabilidade" (foi ela que lançou uma das marchinhas mais conhecidas e mais eternas, "Cidade Maravilhosa"). As duas se apresentaram juntas e sempre foram grandes amigas. Carmen tinha outras grandes amigas no meio, como Elisinha Coelho.

                                                                    Aurora e Carmen

Não é difícil cantoras se gostarem, coisa nenhuma. Especialmente porque este país é repleto de cantoras que, além de belas vozes, têm energia, personalidade e estilos próprios. Adoro ouvir Teresa Cristina e Mariene de Castro e saber que faço parte de uma geração que produziu essas (entre várias outras!) preciosidades. Gosto também de ouvir as vozes de Roberta Moura e Venise Borges (cantoras da banda Mariposas, de Porto Alegre) se combinando e se completando; de ver Pâmela Amaro e Thá Gonzalez (vocalistas do bloco Turucutá, também de Porto Alegre) comandando a festa de milhares de pessoas; de ouvir em Fortaleza minha cantora predileta, Marina Cavalcante, com sua voz que parece uma flauta; do jeito da Ana Reis de cantar sorrindo (que, quando eu cheguei em Brasília, foi uma das pessoas que mais me deu dicas de como encontrar o caminho das pedras)... É muita mulher talentosa neste mundo da música!

Roberta Sá que me desculpe, mas amizade e solidariedade são fundamentais. Para todas as cantoras deste país que se gostam, eu ofereço a alegria comovente de Sá Marina, na força da voz de Elis.


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Trinta e um anos sem CLARA NUNES

Eu não sabia que era hoje, Clara. Não lembrava, sei lá. Prefiro guardar a data do seu nascimento, em 12 de agosto de 1942.

Eu não sei quem eu sou sem você, mesmo nunca a tendo visto em vida. Mesmo sabendo que me apareceste como um fantasma do bem, me mostrando o samba, me dando um jeito feminino de cantar forte. E como disse o nosso amigo João, tirando a preta do cerrado, pondo rei Congo no Congado...

Lembro como ontem ouvir "O Mar Serenou", uma década atrás, e pensar... Tem espaço pra ser mulher nessa história de samba. Lembro que, minutos após te ouvir, fui à beira do mar testar se eu poderia ser sereia. E graças a você, eu soube que eu sou sim, sereia.

E cada vez que o vento vem, eu peço que me traga um pouco de você... Se não sua voz, então, que me traga o que você faria, porque nada foi fácil pra você, como não é pro povo brasileiro. Mas você é guerreira, como as mulheres brasileiras são. Você sempre foi.

E, Clara, você foi Clara. Clara ficou espalhada como se tivesse sido cinzas que teu vento levou pra onde quis. Há você em cada canto deste país, onde se canta samba, onde se celebra nossa história... Tua voz ecoa que nem grito que lançaste pra demarcar justamente isso: a nossa história, que cavaste suave pra fazer brotar onde tinha que ser. Eu fui. Eu sou.



Clara, querias tanto ter filhos... Isso nunca lhe aconteceu pela biologia. Mas Clara, minha Clara, linda do meu coração: tiveste muitos filhos e filhas por este Brasil. Estamos aqui, sem seu sobrenome, pra reproduzir teu legado. Porque, para nós, é uma honra continuar.

Não tem um dia em que eu não pense... Como seria tudo isto se você estivesse aqui? Mas tu não és tristeza, nem frustração... Tu és a força da nossa bravura, tu és a beleza da nossa cultura, tu és a voz que vive pulsante em cada mulher, em cada sambista, em cada musicista... Para a gente fazer nossa cultura ser eterna, ser reinante sobre tudo... Como és tu, filha da rainha dos ventos, que, nos meus sonhos, está sempre em cada sopro de ar que vem na minha direção.

Obrigada por ter me levado ao lugar de onde eu vou contribuir mais pro mundo ser melhor. E se o mundo me diz não, meu sim vem de ti. Porque você vive sempre com a gente. E a gente fica a lembrar, vendo o céu clarear, na esperança de vê-la...

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Mais um caso extremo de violência contra a mulher. Até quando?

Mais um caso - mais um! - de violência contra a mulher termina de forma trágica. Aqui no Rio Grande do Sul, na cidade de Sapucaia do Sul, região metropolitana de Porto Alegre, um homem de 41 anos fez a ex-mulher, de 51, refém por quase 24 horas.

A polícia cercou a casa e iniciou as negociações com o agressor. Ele já havia anunciado, segundo relatos da família dela, que, caso não reatasse o relacionamento com a mulher, ele a mataria. Na segunda-feira, tentou invadir a casa. Na terça-feira pela manhã, conseguiu.

Ainda segundo relatos, durante o relacionamento, a mulher era agredida pelo então companheiro. Consta que há B.O. registrado por ela, e que havia uma medida protetiva a seu favor. Mas nesta manhã, ela sofreu tentativa de asfixia, e encontra-se, agora, hospitalizada em estado gravíssimo.

A imprensa brada, com sua "indignação" costumeira: a polícia não está preparada!!!

Eu pergunto: a imprensa está?

Até quando trataremos casos de violência contra a mulher como "crimes passionais"? Parece uma simples troca de expressão, mas não é. É preciso visibilizar que se trata de um crime decorrente da profunda desigualdade entre homens e mulheres, não uma ação motivada por paixão ou desespero. Esta segunda opção de tratamento acaba trazendo em si algum atenuante para um crime que deveria ser percebido como intolerável. Quantas terão que morrer? Quantas viverão suas vidas sob violência, ameaças, medo?

Ouvi a coletiva concedida pelo coronel responsável pela operação. As perguntas dos colegas jornalistas raramente chegavam ao X da questão. Queriam saber por que a polícia não invadiu a casa antes, por que não atirou, por que não havia escutas dentro da casa. Durante o tempo que acompanhei, nenhuma questão sobre o óbvio: se havia uma medida protetiva, se havia registros da violência sofrida anteriormente, se havia ameaças de morte, por que deixamos a situação culminar com a invasão da casa dela?!

Uma colega, comentando o caso no rádio, dizia do quão diferente são os casos "passionais" dos crimes "comuns", já que, nos primeiros, o agressor não se importa com sua própria vida. Quase bati o carro ao ouvir uma atrocidade dessas. Uma análise estúpida, que desconsidera o histórico de cada situação, desconsidera o genérico das situações e despreza, completamente, a realidade de desigualdade vivenciada pelas mulheres. É como se os homens fossem "naturalmente" violentos e descontrolados. A velha história da "legítima defesa da honra", só que com outra roupa.

Os casos de violência contra mulheres são cotidianos. A ausência de políticas efetivas de prevenção é preocupante. A abordagem da imprensa é rasa.

De acordo com levantamento do jornal Zero Hora, seis mulheres foram mortas no Rio Grande do Sul nos últimos oito dias. Os dados da Secretaria de Segurança Pública apontam que 42 mulheres foram mortas entre janeiro e maio no estado, mais da metade, pelo parceiro ou ex-parceiro.

Até quando? Enquanto tratarem esse tipo de crime como "passional", ficará subentendida uma extraordinariedade que não há. Muitas são as mulheres vitimadas. Todos os dias há mulheres sofrendo algum tipo de violência. Vamos esperar que elas morram nas mãos de parceiros ou ex-parceiros, então exigiremos a prisão deles?

Ainda falta muito preparo à polícia, às autoridades da segurança pública, à imprensa para que os casos de violência contra a mulher sejam enfrentados onde se deve: na raiz.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Ser mulher

Nas primeiras horas da manhã, a mulher levantou e foi plantar a vida na terra, pra da terra tirá-la, pra da terra sair. Na terra ficou e plantou-se, como flor, como Rosas, Margaridas e Violetas, com espadas, enxadas e canções, ensinando a humanidade a cultivar o futuro que semeou em tempos bons ou ruins, adubado por sangue e suor de mulher, que percorreram seu corpo sem definir seu destino, para extravasar-se e cair no chão, arando porvires melhores. Mulher sabe que o mundo não é agora, o mundo já foi e vai ser, o mundo existe para ser transformado em colheitas de luta e de sonhos. Mulher rompeu amarras, livrou-se das garras e das mãos que seguravam seus pés. Mulher é inconformada, pode mais e vai além. Mulher não vê o que está ali, vê o que pode estar, e cumpre o caminho que há enquanto observa cuidadosa para encontrar em que lado estará o mato fechado a ser desbravado na direção do novo dia verde. Mulher colhe, todos os dias, o que planta desde a aurora da humanidade, conhece quem é, tem olhos cheios de água e de sons. Choram Marias e Clarices, riem-se Chiquinhas, Claras, Clementinas e Alices. Mulher não sabe o que é medo porque não teve tempo de aprender, enquanto ganhava em seu rosto as marcas do tempo que viu, o peso profundo de tudo o que somos, a beleza luminosa de quem vamos ser. Mulher sai do fogo, da água e da mata, mulher amanhece em qualquer madrugada, mulher sempre sabe o que ninguém percebeu. Mulher é a vida que explode em jornadas ingratas, no pó do caminho, na carga inexata da história que vem correndo atrás, para onde ela chama. Não só Amélias e Emílias, são Coras, Adélias, Cecílias espalhando sementes com versos no ar. No fim do dia, a mulher cansada sente o corpo pesar, mas o olhar é do dia que vai começar. São Iaras, Dandaras, Heleniras, Lourdes, Luízas. Despertam prontas para ser o que são, e sem dó: a mulher é a mão que semeia o mundo melhor.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Prostituição: Por um debate livre da moral machista

Texto meu de um tempão atrás, alguns aninhos. Infelizmente, não perdeu a atualidade. Agora, é Jean Willis (PSOL-RJ) a querer recuperar essa ideia de que a prostituição é eternamente uma saída para as mulheres. Uma lástima.

Prostituição: Por um debate livre da moral machista


Nós, feministas do PT, cansamos de ouvir argumentos conservadores (para dizer o mínimo) para tentar justificar ou atenuar o machismo presente em nosso cotidiano ainda hoje – inclusive no cotidiano militante. Um discurso tão falacioso quanto comum é o que afirma que as mulheres já conquistaram seu espaço, que já há igualdade e que o machismo é coisa do passado. Como se mesmo entre nós não houvesse expressões clássicas do machismo que permeia as relações sociais desiguais entre homens e mulheres.

Acontece que, infelizmente, a igualdade ainda não existe, e é a busca dela que movimenta o feminismo. As relações entre homens e mulheres são relações de poder. Para desenvolver qualquer análise e qualquer luta da esquerda, é preciso partir daí: a necessidade de construir igualdade entre homens e mulheres como um pressuposto da luta socialista.


É sob esse prisma que queremos apreciar o projeto de lei 98/2003, de autoria do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), que legaliza a prostituição no Brasil, e que conta com a simpatia de alguns parlamentares petistas. Para nós, mulheres petistas, o que importa é construir um debate político numa perspectiva feminista, para que tenhamos um posicionamento claro de enfrentamento ao machismo e à opressão, na sua totalidade.

O absurdo projeto

Ao contrário do que o discurso pseudo-libertá rio que justifica a apresentação do projeto quer afirmar a proposta contida nele é altamente conservadora. Ao fim e ao cabo, trata-se de permitir que se explore e se abuse de mulheres dentro de algumas condições. Trata-se de regulamentar que mulheres permaneçam na condição de objeto ou coisa a ser possuída, sem o direito elementar de dispor de seu próprio corpo. Os supostos defensores da superação da hipocrisia acabam sendo, na realidade, porta-vozes da exploração e da rendição à opressão sexual.


O conteúdo do projeto de lei não lida com direitos das pessoas prostituídas, e sim, regulamenta o comércio e libera os negócios dos empresários do sexo, já que retira do Código Penal os artigos que criminalizam os agenciadores. E alguém aqui acha que prostituição é profissão livre e autônoma, como qualquer trabalhador ou trabalhadora do setor de serviços? Ou conhecemos a realidade de que, quase sempre, trata-se de mulheres exploradas por um “cafetão”, ou em situações mais drásticas, mulheres que se prostituem por um prato de comida ou por um real na beira das estradas ou em cinemas pornô do centro de São Paulo. Sem falar em pais que prostituem as filhas. É preciso encarar a realidade de que a maioria das prostitutas não tem nenhuma autonomia sobre seu “serviço” ou sobre sua sexualidade, e muitas delas são vítimas freqüentes de violência.


E ainda há o tráfico de mulheres, situação favorecida pelo projeto em questão. Milhares de mulheres migram do hemisfério sul para se prostituírem no hemisfério norte. Os países mais pobres “exportam” mulheres para o primeiro mundo, reservando-lhes uma vida de escravização que, na grande maioria das vezes, elas não se propunham a levar. O tráfico de mulheres é organizado nacional e internacionalmente. São organizações criminosas, e quem lucra com isso são homens que exploram mulheres.


Tentar diferenciar “prostituição livre” de “prostituição forçada” é um absurdo do tamanho da violência que essa situação representa. É falso pintar de libertário o discurso de defesa da regulamentação da prostituição. Estamos falando da manifestação mais extrema das relações de poder entre os sexos, e o problema disso não é meramente “a marginalização da atividade”, inclusive porque o projeto prevê, centralmente, a descriminalizaçã o das condutas de favorecer a prostituição. E como regulamentar isso? Facilitar a reposição da mercadoria? Estabelecer tabela de preços?

Somos mulheres, não mercadoria

Na década de 80, organismos internacionais estimularam e impulsionaram a criação de organizações de prostitutas, por conta da necessidade de massificar a prevenção da Aids, doença à qual essas mulheres são mais expostas. Algumas dessas organizações tiveram grande importância para a defesa dos direitos humanos e da saúde das prostitutas. Isso não significa que a prostituição seja uma alternativa de profissão para as mulheres (como sempre, as mais pobres), ou que seja positivo regulamentar uma relação de opressão e violência em carreira ou projeto de vida.


Em vez de assumir um discurso de moral machista e conservadora como o acima descrito, em vez de buscar instrumentos para legitimar uma situação de dominação e subordinação extrema de mulheres, que têm seus corpos e suas vidas alienados como em nenhuma outra situação, em vez de facilitar a vida daqueles que exploram mulheres, que as levam de seus países de origem para levar uma vida de violência longe de casa, em vez de tudo isso, há que se construírem alternativas para as mulheres. As políticas de emprego na cidade e no campo precisam ter um enfoque de gênero. As políticas de educação, de saúde, de habitação, não podem ignorar que homens e mulheres são tratados de forma desigual nesta nossa sociedade.


O feminismo sempre defendeu o livre exercício da sexualidade, a autonomia do desejo, o direito ao próprio corpo, a legalização do aborto. E isso nada tem a ver com a apropriação e circulação mercantil dos corpos das mulheres. Quem afirma o contrário, como se a prostituição fosse uma “fatalidade”, um “ato espontâneo”, ignora que nossa sociedade é marcada pelo machismo, pela opressão e pela exploração econômica. Não é possível descolar práticas sexuais das relações sociais nas quais estão inseridas. Prostituição é quando a desigualdade e a opressão apresentam sua carga erótica. Isso deve ser combatido, não estimulado.

quinta-feira, 8 de março de 2012

"Não temo quebrantos, porque eu sou guerreira..."

Da mesma forma que não há um só grande amor na vida de alguém ("o" amor da vida), também não há um só lugar no mundo pra cada pessoa. Atualmente, sinto absolutamente que encontrei meu lugar no mundo. A música e Porto Alegre vieram dar um sentido diferente à minha vida a ponto de transformar muita coisa em mim. Isso não quer dizer que eu sempre andei por aí perdida, sem encontrar meu lugar. Pelo contrário. Tenho a sorte de pertencer a vários "lugares". Isso é muito confortante.

Mas se tem uma coisa que dá sentido a todos os meus lugares e todas as minhas paixões é o feminismo. Este post é para dividir com vocês uma alegria imensa que terei neste 8 de março.


Há exatos dois anos e nesta exata Porto Alegre, peguei meu MTB (registro de jornalista) depois de sofrer implacável perseguição daqueles que deveriam defender os trabalhadores: o sindicato da categoria. Perdoem-me o bom português, mas estou me lixando para o corporativismo deles. Sou jornalista e, como escrevi na ocasião, meu MTB, mesmo antes de existir formalmente, sempre esteve a serviço da luta das mulheres por liberdade e igualdade. É um instrumento de que disponho para contribuir, para ser mais uma em marcha.

Hoje, vou subir ao palco do 512 - rua João Alfredo, 512, Cidade Baixa, Porto Alegre - para marcar o Dia Internacional da Mulher, esse dia tão importante, tão repleto de significados, que traz em si o brilho de cada luta e conquista das mulheres, homenageando as mulheres do samba.



Como Beth Carvalho declarou recentemente, é claro que o samba é machista. Pois se o mundo é, como o samba haveria de não ser? Mas as coisas só mudam na luta das mulheres. Embora ainda haja muito o que mudar, se hoje a realidade é diferente de 50 anos atrás, isso se deve somente às mulheres que resistiram, que não aceitaram passivamente o papel da submissão, que ousaram desnaturalizar a opressão e reagir. Muitas morreram, muitas sofreram represálias de todos os tipos. E mesmo quem abre a boca estúpida para dizer "não sou feminista, sou feminina", deve muito a todas essas que lutaram sem medo. Neste 8 de março, essas aí deviam ajoelhar e reverenciar.

Eu farei isso. Com a sorte de ter ao meu lado pessoas que acreditam na mesma coisa, poderei saudar as mulheres do mundo, as guerreiras de todos os lugares, por meio das mulheres do samba. Que enfrentaram mundos e fundos para fazer valer sua vontade e pôr sua voz no mundo. Que superaram obstáculos ferozes para triunfar. Que experimentaram a desigualdade em sua trajetória, e foram em frente com autenticidade, sem se render a padrões perversos que só aprofundam as injustiças. Que entenderam que sua voz e sua música podem sim contribuir pra mudar o mundo, e a vida de tantas outras que vieram depois, e não precisaram esconder seu nome feminino para assinar uma composição, como D. Ivone Lara teve de fazer.

Peço a benção a Clara Nunes, mineira guerreira, primeira mulher a estourar em venda de discos no Brasil. Mulher como tantas mulheres do nosso país, de origem pobre, trabalhadora desde criança, matando um leão por dia. Destemida, correu atrás de um sonho, passando por cima de caras feias, esteriótipos e preconceitos. Resgatou a diversidade da cultura brasileira, chamou a África para a nossa música, cantou a vida das pessoas. Para quem acha que o povo só se identifica com "ai se eu te pego" e afins, Clara é uma prova viva de que o povo não é bobo coisa nenhuma. Mesmo que a mídia tente forçá-lo a ser, engolindo enlatados descartáveis e enriquecendo mentes vazias todos os anos, a cada verão.


Quem puder ir ao 512 hoje, vai encontrar uma banda que se encontrou exatamente na batalha diária por encontrar seu lugar, e não fugiu do desafio de fazer diferente. Vai encontrar uma cantora feliz da vida, cantando como que estivesse orando. A elas, a todas elas. E especialmente, ao que virá. Mulher tem mais é que carregar bandeira, porque - a história mostra - o mundo depende de que a gente se movimente. Salve o 8 de março! Saravá!

Alcione canta "Maria da Penha".

Clara, a mineira guerreira, grande inspiração.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Violência de "gênero" é o escambau

Para combater a violência contra as mulheres, é preciso tratá-la como elemento da vida real, e mostrar que o agressor é um homem e a agredida é uma mulher.


Nestes dias, o Brasil acompanha o julgamento do assassino de Eloá Pimentel, uma menina de 15 anos morta pelo ex-namorado. O motivo: ela rompeu com ele. Inconformado, e valendo-se do machismo que não aceita que as mulheres tenham as rédeas da própria vida, o rapaz sequestrou a moça e a manteve em cárcere privado por dias. Ao final, ela foi assassinada em rede nacional.

A atuação desastrosa da polícia paulista no caso é memorável. Basta lembrar que mandou de volta ao cativeiro uma vítima que havia sido libertada pelo sequestrador, a menina Naiara, que, ao final, teve como saldo a perda da melhor amiga e um tiro no rosto. Eloá pagou com a vida. Foi atingida por dois tiros que o sequestrador disparou quando a polícia invadiu o local.

Outra característica daquela situação foi a cobertura em tempo real. Enquanto Eloá e Naiara estavam sob a mira do revólver de Lindenberg, também estavam sob os holofotes da mídia. É certo que a cobertura jornalística deve haver. Para informação da população, para divulgação dos casos e para oferecer um olhar atento que intimide o criminoso. Mas o que se viu ali foi uma cobertura que, de tão sensacionalista, quase chegou a confundir vida real e ficção.

É importante que duas coisas fiquem claras. Uma, a violência contra a mulher não é ficção, não é tragédia de teatro e não acontece só com mulheres bem distantes da vida real. Casos como o de Eloá acontecem o tempo todo. Quem não se lembra da morte da cabelereira Maria Islaine, registrada pelas câmeras de segurança que ela mesma instalou para defender-se do ex-marido? Ou não percebe as incontáveis histórias de mulheres mantidas em cárcere privado por ex-maridos ou ex-namorados? Por que isso acontece? Os homens têm uma tendência "natural" à violência e as mulheres têm predisposição para ser vítima?

Desde sempre essas histórias acontecem (recuperei essa ideia em texto sobre o caso Elisa Samudio). O machismo é uma coisa integral que se manifesta em esferas diversas: na desigualdade salarial, em expressões culturais que subordinam as mulheres, nos atos de violência sexista, em ditas "tradições" que aprisionam as mulheres à vida doméstica de modo a cumprir dupla jornada e realizar gratuitamente uma massa de trabalho infinita. Isso tudo é uma coisa só, cada esfera retroalimenta a outra e assim vai. Combater o machismo é ter um olhar integral e integrado sobre tudo isso.

É por isso que não toleramos as famosas "brincadeirinhas" machistas, sem nos importar em sermos classificadas como "sem senso de humor". É por isso que repudiamos a mercantilização dos corpos das mulheres. É por isso que não aceitamos que homens que lutam dentro de partidos de esquerda e de movimentos sociais reproduzam, no âmbito privado, relações de dominação sobre as mulheres.

E, fundamentalmente, é por isso que não dá pra falar em "violência de gênero" e expressões derivadas. A violência é contra a mulher. Invisibilizar o alvo da violência é não contribuir para o seu enfrentamento. É preciso que se diga quem é a vítima e quem é o agressor. Gênero é categoria de análise, gênero não é sujeito de nada. Quem está exposta à violência são as mulheres, assim como quem se organiza para enfrentá-la são as mulheres.

O caminho para não permitir que haja mais moças de 15 anos que têm a vida interrompida nas mãos de um ex-namorado, mais mulheres e senhoras vítimas de violência doméstica, de cárcere privado, de assassinato, é entender que essa violência é cometida por homens sobre mulheres. É importante ter políticas para a prevenção e o enfrentamento. É importante que as pessoas entendam que é inaceitável, intolerável. É importante desnaturalizar as bases culturais dessa opressão. É importante desconstruir a base material da desigualdade. E pra tudo isso acontecer, uma coisa bem simples precede: é preciso deixar explícito que a violência é produto do machismo - aquele de todo dia, que não é nenhum espetáculo de TV. Chamar de "violência de gênero" significa andar dez passos para trás nessa caminhada.

domingo, 22 de janeiro de 2012

A Fonte das Mulheres

Acho que a melhor decisão que tomei desde que o ano começou foi entrar no cinema nesta tarde de domingo para ver A Fonte das Mulheres. Isso não desmerece as demais decisões de 2012. É que o filme é realmente muito bom.



Eu não tinha ouvido falar dele, mas, como vocês devem supor, o nome me chamou a atenção. Em tempos de pós "Primavera (?) Árabe", o filme ganha ainda mais atualidade. A história se passa numa pequena comunidade islâmica, situada em local desértico entre o norte africano e o oriente médio. Sob um olhar superficial, as mulheres se rebelam contra os homens, porque cabe a elas o trabalho pesado de ir buscar água para abastecer a vila, sem nenhuma ajuda de seus maridos, pais e irmãos.

Entretanto, o enredo se apropria dessa "limitada" questão para lançar luz sobre muito mais. A protagonista da história, a jovem Leila, é das raras mulheres que sabem ler e escrever. Ao lado da experiente Velho Fuzil, as duas questionam a interpretação que se faz do Alcorão, alegando que Alah espera que homens e mulheres sejam iguais. Denunciam que as mulheres realizam todo o trabalho, enquanto os homens somente as exploram. Mobilizam as demais e se organizam para enfrentar a situação por meio de uma greve de sexo, que atinge enorme repercussão. Muitas mulheres acabam estupradas pelos maridos, sofrem violência, inclusive diante dos filhos, sem ter a quem recorrer. Em meio a tudo isso, a omissão da Igreja e a corrupção das autoridades.

Leila é perseguida pela sogra, que demonstra discriminá-la pelo fato de ser estrangeira. Ao mesmo tempo, o marido, professor, dos mais intelectualizados da aldeia, procura apoiar sua luta, mas recua muitas vezes. Teme que as mulheres queiram ir além de conquistar ajuda no ato de ir buscar água.

Num diálogo entre homens, que se reúnem para encontrar solução para o impasse, alguém se lembra que a tarefa, executada pelas mulheres, deveria ser garantida pelo Estado. Porém, pouco ou nada fazem para fortalecer a luta feminina - que, a princípio, buscara a divisão da tarefa com os homens. Os mais conservadores sugerem explicitamente que elas sejam controladas por meio de violência. Porém, destemidas, elas seguem com sua luta, utilizando de todos os poucos artíficios de que dispõem.

Engana-se quem assiste ao filme com desprendimento científico. Ali, fala-se sobre um local perdido entre o norte da Árica e o Oriente Médio, e sobre a religião dos muçulmanos. Entretanto, respeitadas as proporções, aquela é a realidade de todas as mulheres do mundo. A divisão sexual do trabalho, que responsabiliza exclusivamente as mulheres pelo trabalho doméstico e de cuidados, continua escravizando milhões delas em todo o mundo, seguidoras de todas as religiões. A violência é um meio de controlá-las em toda a parte. O estupro dentro do casamento é uma cruel realidade global. A organização das mulheres no feminismo continua sendo combatida por muitos, por meio da desqualificação política e da truculência. A liberdade ainda não é uma realidade, e a luta feminista continua necessária.

As falas e as músicas cantadas por Leila e Velho Fuzil são, muitas vezes, emocionantes. Não porque rebuscadas ou carregadas de metáforas, pelo contrário: exatamente porque falam de coisas concretas de forma literal, com inteligência e coragem.

Um belo filme, uma boa história, uma importante lição: as mulheres não vão aguentar caladas a opressão que sofrem.





LE SOURCE DES FEMMES 
Diretor: Radu Mihaileanu
Elenco: Leïla Bekhti, Hafsia Herzi, Biyouna, Sabrina Ouazani
Duração: 135 min
Ano: 2011

Em Porto Alegre, o filme está em cartaz no Unibanco Arteplex
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Todas Elas - samba é substantivo feminino

Mais um sambinha... a parceira Bibiana Petek, da Feira de Mangaio, está colocando a música... Em breve vocês ouvirão. Espero que gostem desta também.


TODAS ELAS

Eu não peço licença
Pra entrar
O lugar é meu também
É aqui que eu vou ficar

Sou maior do que pensa
Vim lutar
Sou visível, sou alguém
O mundo todo é o meu lar

Você pode me tirar
Pra dançar
Mas se eu quiser
Canto, toco, organizo
Faço chover granizo
Se convier

Dançar conforme a música
Andar na linha de corte
Não preciso só de sorte
Não preciso ser a única

Eu sou muitas, sou todas elas
E pra elas vou cantar
Salve Chiquinha, Leci, Clementina
Maria Rita e Jovelina
Vou chegando pra ficar

Eu não peço licença
Pra entrar
O lugar é meu também
É aqui que eu vou ficar

Minha alegria imensa
Não acaba
Irreverência de quem
Conquista a sua vaga

Você pode me tirar
Pra dançar
Mas sou capaz
De escrever letra e melodia
Pra descrever a ferida
Que você traz

Dançar conforme a música
Desde os tempos mais antigos
Eu sei que Clara está comigo
Eu sei que não sou a única

Eu sou muitas, sou todas elas
E pra elas vou cantar
Salve Beth, Elis, dona Ivone
Mariene, Teresa, Alcione
Sou valente como o mar

Salve todas as que não couberam nesta humilde canção, mas que todas trazemos no coração! É a nossa história, a memória, é a senhora do tempo, de todo povo brasileiro, da cultura, da desenvoltura, da vida dura, das grandes figuras... Salve Clara Guerreira pela inspiração, salve toda mulher do samba, salve toda mulher do mundo, salve quem quer um futuro de igualdade pra todos nós! Saravá!

E ninguém vai nos calar.