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terça-feira, 29 de agosto de 2017

A cólera nos tempos da comunicação em rede

Eu não sou lá muito adepta das teses derivadas da hipótese “gentileza gera gentileza”, porque, submersos na cultura capitalista como estamos, a antiquada lei de Gérson acaba fazendo mais sentido na cabeça de boa parte das pessoas.

Mesmo assim, não perder a esperança é um desafio quase diário. Hoje em dia, então, equivale a enfrentar, por dia, cinco leões malabaristas, halterofilistas e domadores de seres humanos. A direita institucional sabe muito bem aproveitar a onda conservadora que forjou para implementar retrocessos que deixariam impressionados os papas do século XI e industriais do século XVIII. A direita difusa na sociedade aproveita para destilar seu ódio contra pobres, pretos, mulheres, homossexuais, estrangeiros de países pobres (sim, porque europeus e estadunidenses os encontram como tapetes estendidos), e qualquer mínima tentativa de distribuir riqueza neste país campeão em desigualdades históricas violentas.

Acrescente-se a esse lastimável quadro a era da comunicação em tempo real. A necessidade de responder a tudo de imediato. Anunciar aos sete ventos toda primeira impressão como se fosse uma opinião elaborada, e defendê-la com unhas, dentes e um teclado.

Eu sou ansiosa. Eu ando descrente da filosofia do “gentileza gera gentileza”. E até para mim, tudo isso tem sido assustador.

Sobra pra todo mundo. Aquele parente chato que votou no candidato oposto ao seu. Os colegas de trabalho com quem você convive, mas não conversa sobre esses temas pessoalmente. O cara que você não gosta, e aproveita qualquer assunto que apareça para alfinetá-lo. O Chico Buarque. A Sônia Braga. O Gregório Duvivier. As feministas da sua timeline. E por aí vai.

É uma perda coletiva de noção.

Nem ouso pedir “mais amor por favor”. Respeito já estaria bem. Nas aulas de Propaganda Ideológica na faculdade, aprendi que uma técnica fundamental do discurso nazista tanto quanto do discurso de guerra dos EUA é a desumanização do outro. Em frente a você, não há uma pessoa. Você aliena de seu adversário os sentimentos, a trajetória de vida, os pensamentos, como foi seu dia, como foi sua vida. Você cria um cara que poderia ser o adversário dos Transformers. E sendo assim, você pode matá-lo. Quando ele está atrás de um monitor, então, melhor ainda! Sem vê-lo, é mais fácil desumanizá-lo. E então, você pode matá-lo com requintes de crueldade.

Dirijo-me mais aos meus, porque há uma outra premissa em que acredito: viver como se pensa, para não terminar pensando da forma como temos vivido. Coerência é tudo, e creio que, neste triste momento histórico nosso, peito aberto é escudo.

Os tempos são duros o suficiente, não nos endureçamos para não parecermos muito com os tempos. Deixem os eu-líricos do Chico Buarque em paz. Sai do grupo de whatsapp da família, que só te irrita. Não xingue nem vocifere contra o pobre que acessou a universidade graças ao sistema de cotas, que foi implementado por um governo legítimo, eleito para executar esse programa. Para com a mania besta de provocar a amiga feminista com meia-dúzia de senso comum besta e machista. Faça um pouco de esforço para entender que a sua vida de pessoa branca é mais fácil que a de qualquer pessoa negra, e a responsabilidade sobre isso não é da pessoa negra. A gente pode discordar sem ser tosco. A gente pode disputar sem ter ódio.

Discurso gandhista à parte, como militante, fui formada numa tradição que entende que o mundo só muda a partir da ação coletiva organizada. Eu entendo, até certo ponto, a necessidade de responder com raiva a todo e qualquer ataque que se faz nas redes sociais contra as políticas e contra as pessoas em quem confiamos. Eu entendo a vontade incontrolável de criticar de imediato uma música sem ouvir duas vezes, sem pensar, sem contextualizar. Eu sei que nossa sensação de impotência diante das enormes injustiças nos traz aquele espírito do “dia de fúria”, e lá vem bomba. Eu chego perto até de entender essa necessidade de criar heróis e vilões, e de transformar heróis em vilões de uma hora para a outra, para a novela ficar mais emocionante.

Mas gente, isto aqui é vida real.

Quem muda a vida real não são personagens. São seres humanos. As leis que nos governam não são posts de facebook. Nossas verdades universais, nossas premissas, nossas convicções merecem que façamos por elas a boa batalha. E nós, mais do que ninguém, sabemos que elas não serão vitoriosas nem por decreto, nem por osmose.

Por favor, saibamos dimensionar nossa raiva.

Este poderia ser meramente um texto em defesa do seu próprio estômago, para evitarmos sua úlcera. Mas é em defesa de um padrão de civilidade que, se não existir, tornará bem mais difícil realizarmos nossa já difícil tarefa de mudar este mundo desgramado.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Um novo livro vem aí...

Já se completam mais de 3 anos desde que lancei Retratos - E algumas mentirinhas a mais pela Editora Giostri. Foi um processo cheio de alegria e de emoção compilar as poesias, ver o livro impresso, lançá-lo em seis cidades, vender as unidades da primeira edição em um ano. Mandar rodar mais.

Vejo-me às voltas com esse processo novamente, ainda mais feliz, por duas razões: o livro será editado pela Folio Digital, o que me permitirá trabalhar com um amigo querido e companheiro de lutas, Miguel Papi. Outra: terei o prazer de ter amigos e amigas, e pessoas que curtem meu trabalho como parceiras nesse projeto, mais uma vez, como foi no EP Curto Pavio. Mais adiante vocês terão mais informações...



Por ora, já revelo o nome do novo rebento: A estrada e a poetisa. O título vem da inspiração provocada pela música "A estrada e o violeiro", de Sidney Miller, e também das andanças desta pretensa poetisa que tem na estrada - enquanto ato de caminhar, enquanto o deixar-se levar pelas belezas que se veem nos lugares e nos povos -, sua maior fonte de alegrias e inspiração.


"Deixo-me guiar por estrelas sopradas
Por ventos que cantam a estrada,
Em laços recém-desatados,
Em caminhos recém-descobertos.
Porque se eu paro, não fico
Ou fico ali em aberto."

(Alessandra Terribili - A estrada e a poetisa)





sábado, 13 de fevereiro de 2016

Uma chamada

- Alô?

- Oi, tudo bem?

- (murmurando, um pouco brabo) Poxa, Lívia, já não pedi pra não me ligar quando eu estiver em casa?

- Pediu, mas não encontrei um motivo razoável para não fazê-lo.

- Eu estou com minha família, caramba!

- E daí? Você me liga quando eu estou com meus amigos, e eu atendo.

- Que comparação esdrúxula, Lívia.

- Esdrúxulo é que, em pleno século XXI, as pessoas se subordinem a um conceito atrasado como o de família! É uma instituição que acorrenta as pessoas, como se sentimento e convivência pudessem ser coisas coercitivas. Não me venha com essa conversa fiada de que família é um templo sagrado, hein. Pra muita gente, é o espaço da violência e da repressão, sabia?

- (quase implorando) Lívia, por favor, agora não posso falar com você...

- Tem que ser agora sim, Carlos Roberto! Liguei porque quero falar com você, e se você não quer me atender, que arrume uma justificativa melhor que “estou com minha família”.

- Meus filhos e minha mulher estão aqui!

- Seus filhos são adultos, Carlos Roberto!

- A Amanda!

- A Amanda? Aquela sonsa-monga que se faz de mais sonsa ainda para te manter aprisionado, com teus medos e tuas culpas pesando que nem aquelas bolas de ferro? Ora, francamente, Carlos Roberto. Arrume justificativa melhor.

- Eu passo muito tempo fora, eu só...

- (interrompendo) Você passa tempo fora porque é fora de casa que encontra as realizações que seu casamento de fachada não te dá. Em vez de se sentir culpado por isso, deveria buscar formas de se libertar. Você tem uma vida pra viver, deveria ir ser feliz. E deixar a pobre da Amanda ser feliz também, em nome de Jesus!

- Que absurdo você dizer isso!

- Absurdo, Carlos Roberto??? Deixe de hipocrisia, rapaz! Se esse seu casamento fosse bom, você não saía por aí dando suas escapadinhas! Ora! Pronto, falei.

- (sussurrando de novo) Você sabe que a vida não é essa simplicidade antropológica que você vive pregando, já falamos sobre isso. A gente casa, a gente forma uma família, a gente tem que ter responsabilidade com as decisões que se tomam. Ninguém aqui é adolescente mais.

- Claro que não. Adolescentes são curiosos e corajosos, e você é um covarde. Que conversa é essa de "responsabilidade com as decisões"?! Toda decisão humana é reversível. Ainda mais essas que precisam de contrato para se firmar. Amor não precisa de contrato não, Carlos Roberto. Nem de testemunha.

- (suspirando, rendido) Ok, Lívia. O que você quer.

- Te mandei um e-mail com dois relatórios para mandar para a matriz, um enxuto e um bem completo. Preciso que você leia os dois, sugira o que achar conveniente em cada um deles, veja o que falta e opine sobre qual enviar. Ainda hoje!

- Ok.

- Aguardo então. Beijão, bom fim de semana!

terça-feira, 18 de agosto de 2015

De ressaca

Adoro esta crônica do Luis Fernando Veríssimo. Conheci com o maravilhoso MPB-4 "interpretando" um trecho dela num show.
***


Hoje, existem pílulas milagrosas, mas eu ainda sou do tempo das grandes ressacas. As bebedeiras de antigamente eram mais dignas, porque você as tomava sabendo que no dia seguinte estaria no inferno. Além de saúde era preciso coragem. As novas gerações não conhecem ressaca, o que talvez explique a falência dos velhos valores. A ressaca era a prova de que a retribuição divina existe e que nenhum prazer ficará sem castigo.

Cada porre era um desafio ao céu e às suas feras. E elas vinham: Náusea, Azia, Dor de Cabeça, Dúvidas Existenciais - as golfadas. Hoje, as bebedeiras não têm a mesma grandeza. São inconseqüentes, literalmente. Não é que eu fosse um bêbado, mas me lembro de todos os sábados de minha adolescência como uma luta desigual entre a cuba-libre e o meu instinto de autopreservação. A cuba-libre ganhava sempre. Já dos domingos me lembro de muito pouco, salvo a tontura e o desejo de morte.

Jurava que nunca mais ia beber, mas, antes dos trinta, "nunca mais" dura pouco. Ou então o próximo sábado custava tanto a chegar que parecia mesmo uma eternidade. Não sei o que a cuba-libre fez com meu organismo, mas até hoje quando vejo uma garrafa de rum os dedos do meu pé encolhem.

Tentava-se de tudo para evitar a ressaca. Eu preferia um Alka-Seltzer e duas aspirinas antes de dormir. Mas no estado em que chegava nem sempre conseguia completar a operação. Às vezes dissolvia as aspirinas num copo de água, engolia o Alka-Seltzer e ia borbulhando para a cama, quando encontrava a cama. Mas os métodos variavam.

Por exemplo:

Um cálice de azeite antes de começar a beber - O estômago se revoltava, você ficava doente e desistia de beber.

Tomar um copo de água entre cada copo de bebida - O difícil era manter a regularidade. A certa altura, você começava a misturar a água com a bebida, e em proporções cada vez menores. Depois, passava a pedir um copo de outra bebida entre cada copo de bebida.

Suco de tomate, limão, molho inglês, sal e pimenta - Para ser tomado no dia seguinte, de jejum. Adicionando vodca ficava um bloody-mary, mas isto era para mais tarde um pouco.

Sumo de uma batata, sementes de girassol e folhas de gelatina verde dissolvidas em querosene - Misturava-se tudo num prato pirex forrado com velhos cartões do sabonete Eucalol. Embebia-se um algodão na testa e deitava-se com os pés na direção da ilha de Páscoa. Ficava-se imóvel durante três dias, no fim dos quais o tempo já teria curado a ressaca de qualquer maneira.

Uma cerveja bem gelada na hora de acordar - Por alguma razão o método mais popular.

Canja - Acreditava-se que uma boa canja de galinha de madrugada resolveria qualquer problema. Era preciso especificar que a canja era para tomar. No entanto, muitos mergulhavam o rosto no prato e tinham de ser socorridos às pressas antes do afogamento.

Minha experiência maior era com a cuba-libre, mas conheço outros tipos de ressaca, pelo menos de ouvir falar. Você sabia que o uísque escocês que tomara na noite anterior era paraguaio quando acordava se sentindo como uma harpa guarani. Quando a bebedeira com uísque falsificado era muito grande, você acordava se sentindo como uma harpa guarani e no depósito de instrumentos da boate Catito's em Assunção.

A pior ressaca era de gim. Na manhã seguinte, você não conseguia abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Abria um e quando abria o outro, o primeiro se fechava. Ficava com o ouvido tão aguçado que ouvia até os sinos da catedral de São Pedro, em Roma.

Ressaca de martini doce: você ia se levantar da cama e escorria para o chão como óleo. Pior é que você chamava a sua mãe, ela entrava correndo no quarto, escorregava em você e deslocava a bacia.

Ressaca de vinho. Pior era a sede. Você se arrastava até a cozinha, tentava alcançar a garrafa de água e puxava todo o conteúdo da geladeira em cima de você. Era descoberto na manhã seguinte imobilizado por hortigranjeiros e laticínios e mastigando um chuchu para alcançar a umidade. Era deserdado na hora.

Ressaca de cachaça. Você acordava sem saber como, de pé num canto do quarto. Levava meia hora para chegar até a cama porque se esquecera como se caminhava: era pé ante pé ou mão ante mão? Quando conseguia se deitar, tinha a sensação que deixara as duas orelhas e uma clavícula no canto. Olhava para cima e via que aquela mancha com uma forma vagamente humana no teto finalmente se definira. Era o Peter Pan e estava piscando para você.

Ressaca de licor de ovos. Um dos poucos casos em que a lei brasileira permite a eutanásia.

Ressaca de conhaque. Você acordava lúcido. Tinha, de repente, resposta para todos os enigmas do universo. A chave de tudo estava no seu cérebro. Devia ser por isso que aqueles homenzinhos estavam tentando arrombar a sua caixa craniana. Você sabia que era alucinação, mas por via das dúvidas, quando ouvia falar em dinamite, saltava da cama ligeiro.

Hoje não existe mais isto. As pessoas bebem, bebem e não acontece nada. No dia seguinte estão saudáveis, bem-dispostas e fazem até piadas a respeito.

De vez em quando alguns dos nossos se encontram e se saúdam em silêncio. Somos como veteranos de velhas guerras lembrando os companheiros caídos e o nosso heroísmo anônimo.

Estivemos no inferno e voltamos, inteiros.

Um brinde. E um Engov.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

A morte do celular

Meu telefone móvel veio a falecer e levou consigo minhas memórias. Uma meia-dúzia de fotos dessas que a gente tira quando o superego já está altamente flexibilizado. Aquelas risadas exageradas, que, depois, você vai descobrir que tinham motivo torpe. Umas que você estava guardando para sacanear alguém na hora certa.

Também, uma lista de músicas favoritas de Chico Buarque. Como eu não brincaria com poesia, cada esboço de verso que ali estava já tinha morada fixa, no papel ou no computador: eu jamais os abandonaria num veículo tão pouco confiável como o celular.

E claro: toda a minha agenda, que teimo em recompor a cada troca de aparelho. Não tem problema, chance de atualizar o círculo de amizades, quem foi embora, quem chegou... É interessante notar os telefones que se tonaram imprescindíveis desde a última atualização da agenda, e aqueles que você nem utiliza mais. Parece que foi de repente. Mas foi não.

A série de exercícios da fonoterapia ("você tem algum problema com celulares, não é?" - observou sabiamente minha querida fono). Aqueles convites para festas e sambas que eu guardava para ver depois - quase todos vencidos, mas com valor sentimental em voga ainda. Os memes que eu guardava na expectativa de serem oportunos.

Aquela conversa gravada no zap, nunca apagada porque você gostava de sentir o frio na barriga que ela provocava. O sorriso bobo guardadinho num diálogo. A conta do cara que você precisa pagar; a gravação original do "Pagode Caboclo", em meio às risadas das felizes testemunhas daquela criação pelos dedos do outro amigo.

Não adianta chorar, lamentar. É bola pra frente. Superar as irreparáveis perdas, despedir-se das velhas memórias e comprar um outro aparelho para gravar as memórias novas. E deixá-las ali, charmosamente suscetíveis a desaparecer a qualquer momento. Porque memória não foi feita pra ser física. Eu gosto do gostinho da nostalgia impresso no desbotado da foto mental.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Um ano de Brasília

Cheguei há um ano, e meu avião pousou junto com as nuvens de chuva. Caiu muita água do céu naquela noite, e eu gostava de pensar que era Brasília dizendo pra mim: "eu sabia que você voltaria".

Um ano é bem pouco tempo, mas suficiente para afirmar que muito do que eu imaginava nunca foi do jeito que eu pensei, mas foi por imaginar daquele jeito que eu cresci tanto nestes últimos 365 dias. A imaginação quem me deu foi Porto Alegre. A régua e o compasso, no meu caso, veio da cidade imaginada (e executada) por Niemeyer e Lúcio Costa. E agora eu, arquiteta das minhas próprias escolhas, posso dizer também que muito do que se me apresenta eu não imaginava. É muito bom ser surpreendida.

Só tenho a agradecer a Brasília e às pessoas incríveis que aqui habitam. Desejaria brindar com a água da chuva, mas, infelizmente, acho que isso ela vai ficar me devendo por hoje. Vai ter que ser com cerveja mesmo.



segunda-feira, 6 de maio de 2013

A poesia...


Não tente ler, nas poesias, o(a) poeta como um ente individual. Ainda que, para usar palavras do mestre Belchior, o seu delírio sejam as experiências com coisas reais, a inspiração tem diversas fontes, canais, espelhos. A poesia extrapola os limites de um sentir simples, de uma história contada. É sempre a partir do olhar de alguém - o do(a) poeta -, mas os motivos de sua inspiração, de sua imaginação, de sua criação... Podem ser mais complexos do que parecem.

Por isso, não trate a poesia como se fosse o "meu querido diário" do(a) poeta!!!

terça-feira, 15 de junho de 2010

"O mito da maternidade é um saco"

Alberto:
(...) Então tá, vejo isso e te retorno. Ah! Como tá seu sobrinho?

Mariana:
Tá ótimo. Mas os pais são dementes.

Alberto:
hehehe... por quê?

Mariana:
Fico enojada de ficar perto deles com o pobre bebê.

Alberto:
O que foi desta vez?

Mariana:
Nada demais. O mito da maternidade é um saco.

Alberto:
Ahn?

Mariana:
Aquilo de corujice, imbecilidade, entende? Conhece a fábula da coruja que teve filhotes?

Alberto:
Não.

Mariana:
Claro que conhece. Todo mundo conhece. Olha eles: “O Miguel sorriu pra nós hoje! Vamos pintar um quadro, depois, vamos fazer uma exposição no Pátio do Colégio, afinal, é inacreditável”. Porra.

Alberto:

hahaha, não exagera, vai... você está sem paciência porque são vizinhos.

Mariana:
É sério. Você não se enoja? Eles acham que são pais de um ET. Devem estar comprando um telefone e uma casa pra ver se a criança se identifica.

Alberto:
“Enojar” é um pouco demais... acho meio besta, mas enfim. Quem sou eu? Quero ter os meus, um dia.

Mariana:
Besta? É muito chato! Bicho, é uma criança rindo. Crianças riem, isso não tem nada demais. Não faz de ninguém um ser extraordinário, acima do normal, tocado por Deus. Não precisa ser filho do sol pra rir.

Alberto:
Mas se ele não for especial pros pais, vai ser pra quem? Pais são assim mesmo, ficam bobos.

Mariana:
“Bobos” é generosidade sua. Filhos sempre são especiais, ok, não tô discordando. Mas tem limite. Credo. Coitada da criança. Imagina se um dia alguém disser pra ele que ele não é rei do continente. Vai ser a primeira grande decepção da sua vida. Nunca vai se recuperar. Haja terapia.

Alberto:
Mas você também elogia sorrisos bonitos, até de atores de televisão.

Mariana:
Uma coisa é você achar um sorriso bonito. Outra coisa é você achar que é espetacular, extraordinário, prova da existência de Deus e da capacidade extraterrena de uma criatura. Porra, todo mundo ri! Não tem nada demais nisso.

Alberto:
Hahahahaha... quantos adjetivos...

Mariana:
Eles passaram horas falando das habilidades extrassensoriais, dos talentos irrefutáveis e dos poderes inacreditáveis de um bebê de 3 meses! Eles pensam que geraram Einstein! Porra, como assim??? É uma criança normal, como outra qualquer, que faz coisas que toda criança faz quando tem essa idade. Imagina quando o menino começar a andar! Eles vão achar que todos os planetas do Sistema Solar vão bater na porta pra saudar o feito inacreditável. Que nem os reis magos, mas mais cintilantes.

Alberto:
Você tá certa, é uma criança normal... só tem um detalhe que você esquece: é o FILHO deles.

Mariana:
E daí? Poderia ser de outra pessoa qualquer. Ia ser igual e fazer as mesmas coisas que qualquer criança faz.

Alberto:
Mari, Deus a perdoe.

Mariana:
Bem lembrado. Nem Deus trata assim seus filhos. Logo o primogênito já foi expulso do Paraíso!

Alberto:
hahahahahahaha

Mariana:
Bom, vou desligar. Tá chiando. ODEIO este telefone. Que nojo.

Alberto:
Você tá com nojo de tudo hoje, hein.

Mariana:
Olha, vou te repassar um e-mail que enviei há alguns minutos pra um devedor da firma. Daí você vai ver o tamanho do meu nojo hoje. (...)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Viver como se pensa

- Oi, Marcinho.
- Oi.
- Por que você sumiu?
- Ah, tenho andado ocupado.
- Poxa, o que pode ser mais importante que nós pra você desaparecer assim?
- Ah, sabe, coisas pra fazer, família, umas coisas pra resolver.
- Entendo... sentimos sua falta.
- É, eu faço vocês rirem.
- Não seja bobo, menino.
- Não faço falta, Lu, por isso achei que podia dar um tempo.
- Como assim???
- Ué.
- Precisamos de você no grupo, e não é pra rir.
- Estive pensando um pouco, Lu, precisava desse tempo.
- Ah, agora sim. Fale a verdade. Diga: em que pensava?
- Eu preciso cuidar da vida um pouco... ser bom em alguma coisa. Arranjar o que fazer.
- Mais ainda pra fazer??
- É.
- Não tens o bastante com o grupo?
- Não, não faço nada lá.
- Hum, fale sobre isso.
- Olha, Lu, você, por exemplo. Você fala muito bem.
- Obrigada... mas e daí?
- Você fala bem, é importante pra um grupo político. Tem o dom da palavra. As pessoas prestam atenção quando você começa a discursar, você consegue tornar claras coisas que todo mundo acha difícil ou que ninguém sabe como explicar. Você consegue emocionar as pessoas. Você é fundamental pra nós porque sabe fazer isso.
- Estou sem jeito.
- Tentei fazer igual... mas não consigo, não tenho essa vocação. Então tentei ser como a Maria.
- E o que tem a Maria?
- A Maria tem o respeito das pessoas do bairro, todo mundo conhece ela. Ela não fala bem em público como você, mas fala bem em particular. As pessoas confiam nela, procuram por ela. É impressionante. Mas eu sou tímido demais, nem isso posso fazer.
- Tô achando esta conversa tão estranha...
- E tem o Leão.
- Que é tímido como você.
- É, mas sempre tem boas ideias. Ele que inventa quase tudo que a gente faz.
- Um cara criativo.
- Elaborador.
- Sim.
- A Iara e o João parece que são de aço, não têm medo de trabalho, não têm medo de ninguém. Vão e fazem, sem tempo feio. Trabalham muito! Sempre terminam o que começam. E eu, que sou tão disperso...
- Marcinho, onde você quer chegar?
- Eu não tenho função, Lu. Eu não sei falar em público, não sei falar em privado, não sou criativo e sou disperso. Às vezes acho que sou carregado por vocês...
- Quanta bobagem, Marcinho. Somos um grupo político composto por pessoas.
- Sim, pessoas talentosas. Qual o meu talento?
- Manter a gente como grupo.
- Ahn?
- Não vê? Um grupo de pessoas não é uma engrenagem. Não tem máquina a ser programada ou parafuso a ser apertado. Mas tem conflito a ser moderado, ego a ser controlado, tensão a ser amenizada... gente pra ser entendida, gente pra levar bronca e elogio. Política é lado humano, se não, não funciona.
- E daí?
- Você dá essa liga. A nossa coesão tem em você um impulsionador essencial. Percebe?
- Isso não é trabalho.
- Por quê? Trabalho é o que você pode classificar numa profissão? Que você pode quantificar em reais?
- Eu nunca estudei, como vocês estudaram para fazerem o que fazem. Eu sou assim e pronto.
- Por isso é que deve ser mais difícil cumprir esse papel... ninguém ensina.

O diálogo é imaginário. As pessoas são fictícias, e a história é, obviamente, uma caricatura. Na política e na vida, ninguém faz uma coisa só. Mas é verdade que é importante que haja as pessoas que “dão a liga”. Aquelas que mantêm o grupo coeso porque entendem. Porque mediam. Porque dedicam seu tempo a coisinhas que não são “trabalho” strictu senso, mas cansam igual e exigem habilidade, em larga medida.

Mas até entre nós, que queremos mudar o mundo, hierarquizamos diferenças. Reproduzimos o machismo, o racismo, a homofobia, o preconceito de classe... e valoramos as coisas, os trabalhos, as pessoas da mesma forma que o mundo que queremos mudar faz. E daí, quem tem algumas dificuldades e outras facilidades tem mais obstáculos para seguir na caminhada.

O Marcinho não saiu do grupo porque a Lu percebeu isso a tempo. Foi uma reflexão coletiva que o grupo fez. É uma questão de ter vontade de não reproduzir, mesmo se a situação nos favorece, nos valoriza. Já que defendemos a solidariedade entre os povos, entre os trabalhadores e trabalhadoras, podemos exercitar a solidariedade entre nós. Podemos nos desafiar, desde a nossa experiência militante, a pensar trabalho como algo para além do que o mercado de trabalho nos apresenta. A questionar o valor que tem cada coisa, e quem deu, e com base em quê.

Agora, o pessoal não sai da sala ou começa a conversar durante uma fala do Marcinho na reunião. Agora, procuram consultar o que ele acha. Agora, tentam envolvê-lo também nas coisas que ele quer fazer, não só na tarefa que sobra pra ele. Contribuem para a formação dele não só o inscrevendo em cursos e atividades que às vezes ele não entende. Fazem disso um esforço cotidiano. É um exercício, pro Marcinho e pra eles. Mas tem dado certo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Variações do mesmo tema

Dizem que há males que vêm para o bem.
Mas há males que vêm para outros males.
Há malas que vêm de trem.
E se há males que vêm para bem, também há malas que vêm para o DEM.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

De mudança

Pessoa - Alê, você vai mesmo se mudar pra Porto Alegre?
Ale - Vou.
Pessoa - Tem certeza?
Ale - Não. Mas vou mesmo assim.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Sobre humor e índole

Ale Terribili
Ficar de mau humor incomoda os outros e a gente mesmo.

José Xavier
Incomoda não é bem a palavra... mau humor é um estado de espírito, que atola quem o tem. Incomodar os outros é ser chato, incoveniente, mau hálito, estas coisas. Mau humor é pra si mesmo.


Ale Terribili
Mas quando a gente fica de mau humor, fica chato e inconveniente. Mas não chega a ter mau hálito necessariamente.

José Xavier
Mas tem gente que se diz de bom humor que fica chato e inconveniente. Mau humor é outra coisa, é coisa consigo mesmo.


Ale Terribili
É que tem gente que, antes de ter humor qualquer, é chato e inconveniente intrinsecamente. Tem vários casos!

José Xavier
Tem vários casos!!! Uma praga que assola a humanidade. Mas mau humor é outra coisa...

humor
Datação
sXIII cf. FichIVPM

Acepções
■ substantivo masculino
1 Rubrica: história da medicina.
líquido secretado pelo corpo e que era tido como determinante das condições físicas e mentais do indivíduo [Na Antiguidade Clássica contavam-se quatro humores: sangue, bile amarela, fleuma ou pituíta e bile negra ou atrabílis].


Ale Terribili
Ok, então, no mínimo, vamos combinar que a pior coisa do mundo é um chato de mau humor!

José Xavier
Rubrica: medicina.
estado afetivo durável que depende da constituição psicofisiológica do organismo como um todo, constituindo o pano de fundo sobre o qual diferentes conteúdos psíquicos tomam uma tonalidade afetiva, p.ex., de irritabilidade, impassibilidade, tristeza etc., que ultrapassa sua ação imediata

Ver índole no dicionário do Houaiss, tb:

Sinônimos
alma, ânimo, aptidão, bofes, caráter, catadura, condição, cunho, disposição, espírito, estrutura, feição, feitio, fígado, gênio, humor, interior, natureza, têmpera, temperamento; ver tb. sinonímia de propensão


Ale Terribili
Índole = Humor. Vixe, agora fodeu então. As pessoas de mau humor são mau caráter!!!Ainda bem que eu tô de bom humor então.

José Xavier
índole
Datação
1548 FOlP 80

Acepções
■ substantivo feminino
1 conjunto de traços e qualidades inerentes ao indivíduo desde o seu nascimento; caráter, inclinação, temperamento
Ex.: moça de í. amável
2 Derivação: sentido figurado.
conjunto de traços ou características; tipo específico; feitio, natureza

- VOCÊ NÃO TEM MAU HUMOR!!!!

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Fragmentos

"Perdida na avenida
Canta seu enredo
Fora do Carnaval..."
(Chico Buarque - "Dura na queda")


***
Fragmentos de diálogos inacabados. Envolvem álcool, em alguma medida. Nada demais.


Pessoa 1 - Tenho medo, viu.
Pessoa 2 - Tenha, não é nada demais.


Pessoa 3 - Beber é bom. E chorar nem é tão ruim assim. Eu acho que chorar bebendo é tipo redução de danos.


Pessoa 4 - Não é feio não... pena que é um porre, né.


Pessoa 5 - Ai ai ai, é melhor você ir beber logo e largar a fixação.
Pessoa 6 - Tenho reunião antes de beber.


Pessoa 7 - Oi, amiga. Tô vendo aqui teu e-mail.
Pessoa 8 - Vê aí e me aconselha de novo, por favor.
Pessoa 7 - Só vi a versão 2 depois...
Pessoa 8 - Tudo bem, nem tem taaanta diferença.
Pessoa 7 - É. Eu consegui identificar as adições que você fez.
Pessoa 8 - Por isso que eu te amo, amiga. Além de meu superego, você identifica minhas adições!


Pessoa 9 - Não vou fazer nada e vou esperar. Que é o que eu mais tenho feito nesse último período. Depois, vou ficar aqui segurando a onda. A segunda coisa que eu mais faço. A terceira é beber!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Menos política hoje

Outro dia, falava com um amigo sobre a vida. A minha e a dele. Reparamos a quantidade de vezes que subterfúgios aparecem para nos tirar o foco, ou nos jogar completamente para outro foco:

A – Já reparou quantas vezes usamos a palavra “subterfúgio” hoje?
R – Verdade...
A – Impressionante como esses malditos sempre estão lá. Normalmente, para atrapalhar alguma coisa.

É que o assunto eram situações das nossas vidas. De variadas naturezas: família, trabalho, política... até futebol. Essencialmente, relacionamentos - claro. Que permeiam todo o resto.

A – Já dá pra perceber que subterfúgios, na realidade, não são subterfúgios. São mesmo os verdadeiros culpados!

Subterfúgios são aqueles elementos que são coadjuvantes na história, mas, exatamente por isso, nos levam até eles para que não vejamos os reais protagonistas. A palavra vem do latim, subterfugere, e significa, de acordo com os dicionários, um “pretexto”, ou um “ardil para fugir às dificuldades”.

Você está lá, mergulhada em um mar de incertezas e de (im)possibilidades. Daí, na escuridão desse mar, tem um pontinho iluminado, que não vai te salvar do escuro, mas se você prestar toda a sua atenção nele, ele te encanta por algum tempo, como se fosse capaz de lhe tirar dali... mas, no fundo, não é. Mas não estamos no fundo ainda, então, não percebemos que não é! E deixamos nossa atenção se concentrar naquele pontinho de luz...

Só tem duas saídas. Chegar ao fundo, e ver que o pontinho de luz é só um pontinho de luz, e não tem nada a ver com o resto da escuridão. Ou apagar essa luzinha intrometida, e produzir a luzona que vai, de fato, iluminar a escuridão inteira.

Mas e se a gente conseguir transformar o pontinho de luz em uma chama voraz???

A – Não se tem notícia de que isso aconteceu um dia...
R – Então aproveitemos enquanto não sabemos disso.