quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A nova política

Nada mais velho do que se autodeclarar o novo.

Desde que me conheço por ser político, sempre há quem se vista sob o manto da novidade. É um discurso tão sedutor quanto falso.

As agendas políticas que vêm ganhando espaço na esquerda não são novas, e esse espaço é produto da luta, da formulação e da autoorganização de tempos. A reação a essas bandeiras não é nova, tampouco inesperada. A tática da apresentação de empresários, apresentadores de TV ou pseudocelebridades em geral como alternativa aos "políticos" não é nova, porque a negação da política não é nova. Construir um partido com lindo e moderno layout que gira em torno de uma candidatura à Presidência da República não tem absolutamente nada de novo.

Vejo as velhas práticas de sempre em tudo que se autodenomina "o novo". Personalismo, fisiologismo, vale-tudo na disputa interna, centralização de decisões.

Não tenho nenhum fetiche quanto ao "novo". Pra falar a verdade, gosto de um monte de coisas que são velhas, no sentido de terem sido concebidas há muito tempo.

Mas é que, pra mim, certas ideias formuladas há bastante tempo não perderam a validade, não envelheceram, e não porque "os sonhos não envelhecem". Mas sim porque não foram testadas em sua plenitude. Não tiveram chance de serem desenvolvidas.

Estive em muitos espaços políticos em que a intervenção mais inovadora veio do militante mais velho, que, por meio de ideias que nos acolhem desde antes de nascermos, aponta para um lugar ao qual nunca conseguimos chegar, percorrendo um trajeto que, até hoje, nunca ousamos percorrer. Ao mesmo tempo, cansei de ver gente jovem acostumar-se a vícios políticos e degenerações de variadas espécies muito mais e muito antes que aqueles(as) que lá estão há mais tempo.

A chave da "renovação" é válida, mas ela tem limites. É bom que tenhamos novos porta-vozes para o mesmo projeto. Mas quero saber qual o projeto. Quero saber: renovar em que bases?

A dualidade velho/novo, na política, é vazia. Velho e novo não encerram qualidade a priori. Às vezes, é o que chamam de velho que abre caminho para o novo momento.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Prosa do Avião - uma epifania

Com misto de assombramento e encanto, eu percebo, a cada vez que volto a São Paulo, que não a conheço mais. Desoriento-me nos caminhos, esqueço os nomes, falha-me a memória e a esperança de ali criar meus porvires. Caminho por calçadas que já foram tão surradas pelos meus pés, mas agora eles não encontram o fio da meada; olho para o alto da Consolação e não vejo a Paulista; não sei por onde anda o seu Antônio nem a vontade que eu tinha de um dia morar numa casa de vila. Os sons da cidade mais me impressionam do que comovem, e eu me vejo andando em círculo, cercada por flores de um buquê, não de um jardim.

Tudo que manteve seu sentido eu carreguei comigo, errante, mas leal. Meus olhos ainda guardam as manhãs que raiavam na janela do velho apartamento do Largo do Arouche, que hoje, na minha imaginação, é habitado somente pelas lembranças que lá deixei, e que, numa fotografia mental, aparecem-me em cores desbotadas.

Eu nunca mais voltei à USP, desabafava melancólica com a pessoa que mais me conhece na grande metrópole. Quando penso na ECA - Escola de Comunicações e Artes, onde estudei -, sinto o cheiro da grama molhada de chuva mais do que dos cachorros insistentes que dividiam o espaço conosco. Ouço a voz do Steven Tyler dizendo que "something's right with the world today/and everybody knows it's wrong", e os versos fazem mais sentido do que nunca.

Cada visita é uma nova ruptura e um novo começo. Eu encontro a cidade enquanto me perco na nostalgia de não me ver mais numa paisagem que sempre tinha me definido. Há tanta coisa que adormece na gente, que é difícil mensurar o tamanho do que se perdeu. Como se, do alto do Edifício Itália, eu não possuísse mais a cidade, mas sim, pudesse ver no horizonte os lugares onde ela não está e eu estou. Mais fácil, para mim, contemplar aliviada o que ganhei.

Naquela noite de domingo, quando ele abriu a porta e eu vi seu rosto, senti-me outra vez iluminada por aqueles raios que me despertavam nas manhãs da minha juventude, como se outra vez eu me enxergasse no meio do caos cinza, colorido de grafite e de sonhos de gente que vem de todo lugar. Ao emoldurá-lo, São Paulo me acalmou do susto e me devolveu para mim mesma.

E, tranquila, eu voltei para casa.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Sete Desejos

Eu ouvi essa música uma vez, era de uma novela. Não lembro bem. Era adolescente, eu acho. Ela me trazia uma paz gostosa, um conforto, uma sensação de que a vida vai longe, longe mais do que a vista alcança. Onde a vista não alcança, o sonho chega e conta história.

O sonho sempre me contou história nessa música.

Comecei, a certa altura, a dizer para as pessoas próximas que essa era a música da felicidade. O flamboyant vermelho, a mala azul, a réstia da luz amarela. A vida tem cores! Deitada na rede e, sob a fumaça de um cigarro deliciosamente saboreado, pensar que bom é recomeçar das cinzas. Recompor a paisagem. "Você sabe fazer" - me dizia minha professora de canto.

Essa linda música sempre esteve na minha mente. Às vezes ela se oculta. E volta.

Volta agora de novo. Com o lelelelelelele do Alceu. O destino, o trem que nos transporta. A música como um filme da vida, como uma produtora de imagens mentais, que remexe a alma, busca coisas, salta pra fora, e eu agradeço.

Ao Alceu pela música.

Ao universo, pela generosidade com que tem me tratado.

Que me permita produzir versos tão claros e projetar cada vez mais desejos em cada vez menos cigarros.


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Pro abismo e além

Eu fujo, que nem vampiro foge da luz do dia, de todo tipo de discurso de medo, de esgotamento, de fim dos tempos. Acho importante inserir cada momento num processo histórico, e saber que, na luta de classes, vivemos momentos de ofensiva e momentos de defensiva. É dureza, mas cabe a nós encontrar uma maneira de enfrentar esta desgraceira, com as armas que temos e sem achar que o mundo acabou. A própria História mostra que mundo é maior do que a gente e o nosso tempo.

É óbvio que, pela própria correlação de forças e desigual distribuição de todo tipo de recurso, a capacidade de reação da direita colonialista torna seus momentos de ofensiva mais eficazes que os nossos. Não é óbvio, porém, que nos sintamos amordaçados ou limitados como se fosse essa uma situação imponderável.

Mas confesso a vocês que quando eu leio uma notícia absurda, ofensiva e autoritária do naipe "STF autoriza que aulas de religião em escolas públicas sigam um único credo", é aí que eu mais sinto vontade de deitar na rede e ficar esperando a conjuntura passar. Furar o dedo no fuso de uma roca e dormir cem anos.

No "irônico" (contém ironia) momento em que a corja mais reacionária da sociedade me vem com as churumelas da tal Escola Sem Partido, ou com a ameaça de revogação da lei que determina o ensino de história e cultura indígenas e da África, ou com o fim das aulas de artes, sociologia e filosofia no Ensino Médio; é aí mesmo que essa outra corja, tavez pior ainda que aquela, que é o Judiciário brasileiro, autoriza a doutrinação religiosa nas escolas PÚBLICAS, atropelando de morte o pobre do Estado laico e qualquer mínimo princípio democrático - pra nem falar de liberdade. É inacreditável a cara de pau. Os caras estão com muita certeza de si, mesmo.

Eu sou daquelas que acha que a gente deve fazer como o velho marinheiro, que, durante o nevoeiro, leva o barco devagar. Mas olha, só com muito amor no coração, fé na vida e samba na veia mesmo pra resistir à vontade de dar a mão pro nevoeiro e se atirar no mar com uma bola de chumbo no pé.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

A cólera nos tempos da comunicação em rede

Eu não sou lá muito adepta das teses derivadas da hipótese “gentileza gera gentileza”, porque, submersos na cultura capitalista como estamos, a antiquada lei de Gérson acaba fazendo mais sentido na cabeça de boa parte das pessoas.

Mesmo assim, não perder a esperança é um desafio quase diário. Hoje em dia, então, equivale a enfrentar, por dia, cinco leões malabaristas, halterofilistas e domadores de seres humanos. A direita institucional sabe muito bem aproveitar a onda conservadora que forjou para implementar retrocessos que deixariam impressionados os papas do século XI e industriais do século XVIII. A direita difusa na sociedade aproveita para destilar seu ódio contra pobres, pretos, mulheres, homossexuais, estrangeiros de países pobres (sim, porque europeus e estadunidenses os encontram como tapetes estendidos), e qualquer mínima tentativa de distribuir riqueza neste país campeão em desigualdades históricas violentas.

Acrescente-se a esse lastimável quadro a era da comunicação em tempo real. A necessidade de responder a tudo de imediato. Anunciar aos sete ventos toda primeira impressão como se fosse uma opinião elaborada, e defendê-la com unhas, dentes e um teclado.

Eu sou ansiosa. Eu ando descrente da filosofia do “gentileza gera gentileza”. E até para mim, tudo isso tem sido assustador.

Sobra pra todo mundo. Aquele parente chato que votou no candidato oposto ao seu. Os colegas de trabalho com quem você convive, mas não conversa sobre esses temas pessoalmente. O cara que você não gosta, e aproveita qualquer assunto que apareça para alfinetá-lo. O Chico Buarque. A Sônia Braga. O Gregório Duvivier. As feministas da sua timeline. E por aí vai.

É uma perda coletiva de noção.

Nem ouso pedir “mais amor por favor”. Respeito já estaria bem. Nas aulas de Propaganda Ideológica na faculdade, aprendi que uma técnica fundamental do discurso nazista tanto quanto do discurso de guerra dos EUA é a desumanização do outro. Em frente a você, não há uma pessoa. Você aliena de seu adversário os sentimentos, a trajetória de vida, os pensamentos, como foi seu dia, como foi sua vida. Você cria um cara que poderia ser o adversário dos Transformers. E sendo assim, você pode matá-lo. Quando ele está atrás de um monitor, então, melhor ainda! Sem vê-lo, é mais fácil desumanizá-lo. E então, você pode matá-lo com requintes de crueldade.

Dirijo-me mais aos meus, porque há uma outra premissa em que acredito: viver como se pensa, para não terminar pensando da forma como temos vivido. Coerência é tudo, e creio que, neste triste momento histórico nosso, peito aberto é escudo.

Os tempos são duros o suficiente, não nos endureçamos para não parecermos muito com os tempos. Deixem os eu-líricos do Chico Buarque em paz. Sai do grupo de whatsapp da família, que só te irrita. Não xingue nem vocifere contra o pobre que acessou a universidade graças ao sistema de cotas, que foi implementado por um governo legítimo, eleito para executar esse programa. Para com a mania besta de provocar a amiga feminista com meia-dúzia de senso comum besta e machista. Faça um pouco de esforço para entender que a sua vida de pessoa branca é mais fácil que a de qualquer pessoa negra, e a responsabilidade sobre isso não é da pessoa negra. A gente pode discordar sem ser tosco. A gente pode disputar sem ter ódio.

Discurso gandhista à parte, como militante, fui formada numa tradição que entende que o mundo só muda a partir da ação coletiva organizada. Eu entendo, até certo ponto, a necessidade de responder com raiva a todo e qualquer ataque que se faz nas redes sociais contra as políticas e contra as pessoas em quem confiamos. Eu entendo a vontade incontrolável de criticar de imediato uma música sem ouvir duas vezes, sem pensar, sem contextualizar. Eu sei que nossa sensação de impotência diante das enormes injustiças nos traz aquele espírito do “dia de fúria”, e lá vem bomba. Eu chego perto até de entender essa necessidade de criar heróis e vilões, e de transformar heróis em vilões de uma hora para a outra, para a novela ficar mais emocionante.

Mas gente, isto aqui é vida real.

Quem muda a vida real não são personagens. São seres humanos. As leis que nos governam não são posts de facebook. Nossas verdades universais, nossas premissas, nossas convicções merecem que façamos por elas a boa batalha. E nós, mais do que ninguém, sabemos que elas não serão vitoriosas nem por decreto, nem por osmose.

Por favor, saibamos dimensionar nossa raiva.

Este poderia ser meramente um texto em defesa do seu próprio estômago, para evitarmos sua úlcera. Mas é em defesa de um padrão de civilidade que, se não existir, tornará bem mais difícil realizarmos nossa já difícil tarefa de mudar este mundo desgramado.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Mesmo calado o peito, resta a cuca

A Cultura está sob ataque em todo o país.

Em São Paulo, o prefeito playboy e higienista estrangula tanto o Clube do Choro quanto a Orquestra do Teatro São Pedro; enquanto o pai político dele, o governador, mata a Banda Sinfônica do estado.

Em Porto Alegre, a Fundação Piratini corre risco sério e iminente de extinção. A TVE e a Rádio FM Cultura são espaços privilegiados para circulação e promoção da produção musical de Porto Alegre.

Em Brasília, amanhecemos todos os dias alertas para evitar que metam a mão no FAC (Fundo de Apoio à Cultura).

No Rio, cidade que abrigou as tias baianas que embalaram o samba nos braços, que concebeu a Santíssima Trindade do Samba; o prefeito quer restringir e controlar quase que pessoalmente a ocupação do espaço público por manifestações culturais - inclusive o sagrado samba da Pedra do Sal.

E por aí vai.

Nessas quatro capitais, citei apenas poucos e representativos exemplos do que está havendo. Há muito muito mais. Há muito mais nas demais cidades, nos demais estados, no Brasil em cujo centro de poder os golpistas se instalaram, e mostram, dia após dia, seu desprezo pela arte e pela cultura popular brasileira. Falo de música porque é o que eu conheço mais, mas situações análogas se verificam nas artes cênicas, plásticas, audiovisuais, literatura, nos investimentos em Educação e formação de público.

Coincidência ou não, a comunidade artística foi das mais combativas na resistência ao golpe. A ponto de reverter o retrocesso máximo, que seria a extinção do Ministério da Cultura.

O pessoal das trevas não brinca em serviço não. Eles sabem que a cultura popular impulsiona um povo forte e consciente de si.

[Há quase um ano, escrevi uma crônica sobre as incessantes tentativas de nos calar e de nos desalojar. Tudo aquilo parece estar se aprofundando. Mas como disse Belchior, a voz resiste, a fala insiste: você me ouvirá!]

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Futuros Militantes

Não se afobe não, que nada é pra já.

A História pode até parecer estranha, mas, uma hora, ela revelará com nitidez todos os meandros, manobras, manipulações e tudo que foi promovido em silêncio, num fundo de armário, com objetivos camuflados em camisetinhas amarelas, pato pateta, interesses escusos fantasiados de patriotismo. Não serão necessários milênios, milênios no ar. Algumas décadas serão suficientes.

E quem sabe, então, o Brasil será algum país submerso.

Os escafandristas virão explorar nossas casas. Encontrarão os computadores, celulares, reavivarão nossas contas nas redes sociais, nossas almas desnudas, raivosas ou assustadas. Encontrarão as expressões do ódio de classe, o desfile dos preconceitos sórdidos, e não encontrarão autocrítica em lado nenhum. Mas calma. Não haverá um deus para julgar ou punir. Quem faz isso é a História.

Sábios decifrarão com facilidade o eco daquelas palavras incisivas que alguns derramaram como se não houvesse amanhã. Fragmentos de panfletos, revistas semanais, mentiras, retratos. Vestígios de estranha civilização.

Não se afobe não, que nada é pra já. Um dia, tudo estará descortinado. As gerações futuras entenderão perfeitamente que foi golpe. Os protetores das vidraças não passarão. Futuros militantes, quiçá, marcharão - sabendo bem - pra coroar todo o esforço que um dia deixamos para eles.

E essa parte é agora.



SEXTA-FEIRA É GREVE GERAL.

[Que o marido da Ana Hickman nos perdoe o transtorno. A História, felizmente, registrará que estivemos em lados opostos.]

sábado, 17 de junho de 2017

Deja vu

Tive um deja vu estranho no último domingo, no aeroporto JK.

Ao regressar de Porto Alegre, os alto-falantes do local onde parei para um café tocavam a música “Regina, Let’s Go”, da banda paulista CPM 22 (nem sei se ainda existe ou a quantas anda, mas lembro que o Japinha era nosso colega na Ciências Sociais da USP).

Transportei-me imediatamente para 2001. As tarefas militantes me traziam a Brasília com alguma frequência, e não era raro parar para um lanche em qualquer lugar da rodoferroviária (depois das quatorze horas de ônibus que separam São Paulo e Brasília) e deparar com “Regina, Let’s Go” bombando na rádio.

Nas festas, quando a música rolava, eu gostava de gritar bem alto “eu não vou mais me importaaaaar”. Quando você supera os vinte anos, percebe que cada vez você se importará menos, o que, como tudo na vida, tem um lado bom e um lado ruim. Você se fere menos na medida em que menos se importa. Mas o mundo muda menos também.

Quando era do movimento estudantil, vir a Brasília significava combater as políticas neoliberais de FHC e sua turma, DEM à frente. Greve nas universidades federais, rejeição ao “provão” (lembram?), resistência a todas as tentativas de privatização. Reforma da Previdência e Trabalhista estavam sempre em pauta, mas eles não conseguiram executar – pelo menos, não plenamente.

Agora era eu, numa tarde de domingo, regressando de Porto Alegre, minha cidade adotiva, para a cidade onde vivo, Brasília. O vocalista do CPM 22 continuava a declarar “eu não vou mais me importaaaaar”. Chegou a dar um frio na barriga. Não existe mais aquela MTV que me apresentou essa música. Eu continuo me metendo nas confusões que jorram gás lacrimogêneo e spray de pimenta, que atormentavam a mente da minha mãe naquela época. Voltamos a estar sob fortes ataques a direitos trabalhistas e até a qualquer avanço cívico. A ânsia de destruição parece pior agora, depois de catorze anos de governos progressistas. A dor no peito de sentir-se ora acuada, ora perdida, e sempre indignada, também aperta mais forte.

E, tendo vivido dezesseis anos mais, o verso que incomoda não é “eu não vou mais me importaaaar”. Mas sim aquele que fecha a música: “daqui a pouco é tarde demais”.

A gente precisa se achar logo.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Vidraça

Te acalma
Não deixe que te agridam o coração
Deixa ele aberto,
Que os tiros te ultrapassam
Sem te ferir

Não feche tuas veias,
Que assim o sangue não passa
Não deixe à vista tua laringe tensionada
Para voz passar,
Tu precisas abrir

Os tempos são duros
Não te endureças
Para não pareceres com os tempos

A certeza do caminho
Dá leveza aos nossos passos
As manobras do destino
Não se amarram feito laço

Fiquemos nas ruas!

Nossos sonhos
Não podem ser contidos pelas vidraças
Deles.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Algo está faltando


Semana passada, eu extraí uma pinta. Uma pinta, uma marca do rosto, que ficava na lateral da minha face, praticamente no meio do caminho entre o olho e a orelha.

Ela não existia quando eu era criança. Foi depois da adolescência que a bicha começou a se apresentar, e aumentar de tamanho até ensaiar tornar-se uma verruga. Uma verruguinha, vai, pequenina, tão inofensiva quanto indefesa. Feia porque em alto-relevo. Da outra pinta, no mesmo lado da face, mas abaixo, na altura do queixo, dessa eu gosto. Ela é marrom e não é pretuberante - e sempre esteve ali. A outra confundia-se com a pele pela cor, mas formava um pequeno monte em meio à planície. Não gostava dela desde que ela começou a se fazer notar.

Ameaço eliminá-la há meses já. Semana passada, encontrei tempo, disposição e coragem ao mesmo tempo e lá fomos nós. Não demorou, não doeu, foram dois pontinhos só.

Hoje cedo eu tirei o ponto que restara (um já havia sido removido). Olhei meu novo rosto, já sem a marca. O local onde ela existia está avermelhado, recuperando-se, cicatrizando, até não haver mais sinal nenhum de que ali houve, um dia, uma pinta com cara de verruga.

Veio uma sensação esquisita de não reconhecer meu rosto. Onde está aquela coisa? Eu não gostava dela, mas ela sempre esteve ali. Ok, não sempre. Não sempre. Mas um dia ela chegou, sei lá quando, e desde então - faz tempo - ela estava ali, assombrando todas as minhas fotos de perfil. Tão inofensiva quanto indefesa.

Sei lá por quê senti essa espécie de vazio interior. Por que diabos eu quis extrair uma marca dessas, que a natureza pôs ali? Logo eu, que tenho centenas de restrições a intervenções cirúrgicas com finalidade estética. Não sei, essa pergunta não tem resposta. É estranho arrancar algo do seu próprio corpo sem ter necessidade. Olhar-se no espelho e não alcançar aquela marca.

Vai ver que é coisa do tempo também. O tempo põe marcas no nosso corpo: linhas de expressão, cicatrizes, manchas. Mas ele tira também: ele tira porque ele te traz a iniciativa de tirar.

Acho que em algum momento eu vou deixar de sentir falta da tal pintinha, e vou até esquecer, porque em seu lugar, a pele nova chegará e inundará o vazio que tinha ficado. O que eu não vou esquecer é essa sensação louca de arrancar algo de si mesma e depois perguntar-se onde está aquilo. Com todas as metáforas e analogias que isso pode gerar. Ser humano é um troço muito louco mesmo.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Ode à Pedra - 2

Por favor
Não criminalizes meus quereres
Eles são o melhor de mim

Não me venhas tu
Do alto do teu amor-perfeito
Amaldiçoar as pedras do meu caminho
Porque eu me afeiçoo a pedras
Tenho uma coleção
E posso atirar-lhe algumas

Não queiras dissuadir-me do amor
Gosto do que me provoca
Gosto do que fracassa
Gosto mais da partida
Que da chegada

Gosto das chagas abertas do que apenas é humano
Gosto da carne abaixo da pele

Não julgues meus desejos
Não me condenes à busca da perfeição
Não sou tua para que me salves
Não sou uma para que me caiba
Nem tu és imune ao vento que carrega balões
E movimenta o ar que respiras

Não te preocupes: eu não caio
Porque me atiro

Convido-te a caminhar de olhos vendados
Sentindo aromas misteriosos
Pisando em texturas esquisitas
Provando sabores fugazes
Amando amores vorazes
Só para sentires a graça que tem
A vida
Quando erra o alvo.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Quando o rabo abana o cachorro

O filme estadunidense Wag The Dog (tradução literal: Abane o cachorro), de 1997, conta a história de um presidente que, envolvido em um escândalo sexual, contrata um cineasta para produzir uma guerra fictícia a fim de desviar a atenção da população. O início do filme explica o título: “Você sabe por que o cachorro abana o rabo? Porque ele é mais inteligente que o rabo. Mas se o rabo fosse mais inteligente...”. O letreiro entra em seguida, sugerindo: abane o cachorro.

Um ano atrás, se concretizava, no Brasil, um golpe de Estado jurídico-parlamentar-midiático que poderia ter sido filmado no lugar da história criada por Hilary Henkin e David Mamet.

Derrotado nas eleições presidenciais de 2014, o candidato da direita ameaça não reconhecer o resultado das urnas, iniciando ali um movimento visível a olho nu para quem prestou atenção nos livros de história que estudou na adolescência. Àquela altura, a Operação Lava-Jato já avançava, capitaneada por um juiz com nítida vocação para super-man (com as mesmas cores, inclusive). Embora lidando com um objeto fundamental de ser examinado – as relações promíscuas entre poder público e grandes empresas a partir do financiamento de campanhas eleitorais -, a iniciativa já mostrara a que veio: servir de instrumento para carimbar de corrupto apenas um setor da disputa política. Adaptando-se à conjuntura diariamente, a operação evolui selecionando investigações a serem conduzidas, vazamentos a serem feitos para a imprensa e a própria direção dos fatos.

Estão criadas as condições para um roteiro surreal no qual a corrupção no Brasil começa com a eleição de Lula, e nunca antes na história deste país havia acontecido nada semelhante. Quinhentos e quatorze anos de história são, então, reescritos, e apagam-se todos os escândalos de desvio de recursos públicos, tráfico de influência, privatizações, compra de votos e, especialmente, o enriquecimento ilícito de coronéis, donos da mídia, latifundiários, empresários e outros que até pouco tempo atrás oligopolizavam o fazer política no Brasil. E nunca foram presos.

O toque final é a abordagem da mídia, que, tão seletiva quanto as investigações do juiz fanfarrão, elabora sob medida uma narrativa cuja consequência óbvia e planejada é um discurso de ódio acéfalo contra o PT e a esquerda. Tal discurso encontra terreno propício para germinar: a paupérrima cultura política brasileira. O efeito colateral é o descrédito generalizado contra todos os políticos e a satanização da atividade política. Mas não tem problema, porque a despolitização sempre favoreceu os donos do poder, e eles sempre souberam reinventar sua própria embalagem para parecerem novos e atraentes. Assim, fantasiam-se de empresários bem-sucedidos ou apresentadores de televisão e continuam a fazer o que sempre fizeram.

Cria-se, então, uma acusação contra a presidenta: as “pedaladas fiscais”, que muitos governadores haviam praticado no mesmo período. Meses depois, num ato de vingança contra o PT, que contribuíra para que ele fosse investigado, o presidente da Câmara, com largo histórico de envolvimento em práticas controversas (digamos assim), inicia o processo de impedimento da presidenta da República. O vice-presidente publica carta na qual rompe com o governo, lamentando ter assumido posição somente “decorativa” (sic).

Chegamos, então, ao ápice do roteiro: com olhos em chamas, setores médios e elites vão às varandas de seus apartamentos bater panela. Grandes manifestações são convocadas por esses segmentos, por meio de movimentos laranja e partidos de oposição, financiadas pela Fiesp e grupos empresariais, com grande alarde na mídia, que também convoca e promove com cobertura em tempo real. Milhares de pessoas atendem ao chamado vestindo camisetinhas amarelas, tendo um pato gigante como símbolo e privatizando (eles têm know-how) o hino nacional.

Diante de tal comoção, em meio à qual as pessoas que vestem vermelho correm risco de serem agredidas na rua, a presidenta é afastada numa sessão da Câmara que se torna antológica pelas dedicatórias dos votos dos deputados e deputadas às suas mães, filhos, às suas namoradas, ao cãozinho da família. Assim, Michel Temer, o golpista usurpador decorativo, assume interinamente a Presidência, e monta o governo provisório com aqueles que tinham sido derrotados nas eleições de dois anos antes, e também com personagens necessários para qualquer enredo dessa monta: os traidores.

A partir daí, começam a executar o programa que tinha sido derrotado nas urnas quatro vezes, num nível de agilidade que sequer Fernando Henrique Cardoso (que vencera duas eleições) tivera coragem de encaminhar. Abrem caminho para a entrega do pré-sal brasileiro às potências estrangeiras; congelam investimentos públicos em saúde e educação por vinte anos; extinguem órgãos de governo e programas centrais para o desenvolvimento de políticas de distribuição de renda e combate a desigualdades históricas; reformam o ensino médio sem dialogar com nenhum dos setores envolvidos, destituindo-lhe de qualquer mísera perspectiva transformadora; apresentam uma reforma da previdência e outra trabalhista para retirar direitos do povo, mantendo e ampliando direitos dos banqueiros e grandes empresários; legalizam a terceirização irrestrita; atuam para “estancar a sangria” (sic) provocada pela Operação Lava-Jato, para que não sejam atingidos; e disparam balas de borracha e gás lacrimogêneo contra índios, jovens, trabalhadores, e quem quer que ouse levantar-se contra o golpe em curso. Colocam em xeque o direito de greve e o direito à livre manifestação, com a bênção do Poder Judiciário, que, afinal, é peça fundamental do enredo.

O final do filme ainda não está escrito. Há algumas possibilidades: temendo nova derrota nas urnas, que jogaria por terra o processo encaminhado até agora, prendem o ex-presidente Lula e/ou cancelam as eleições nacionais de 2018 – qualquer das opções escancarará o que muitos já perceberam: que vivemos sob um regime de exceção. Outra hipótese: por falta de quadro melhor, elegem o pato gigante presidente da República, e ele governará como terceirizado sob ordens da Casa Branca.

Ou o cachorro assume que fez cocô no lugar errado e recupera sua habilidade de abanar o rabo.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Belchior: Queremos tudo outra vez

Convivo com Belchior desde criança, quando me foi apresentado através de Apenas um Rapaz Latino-Americano. Obviamente, tendo menos de dez anos de idade, era impossível que compreendesse bem aquela amargura com que ele observava o tempo e o espaço ao seu redor; tampouco aquela missão, reconhecida nos versos que escancaravam que sons, palavras são navalhas; e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém. Mesmo sem entender nada disso naquela época, passei um bom tempo apresentando-me por aí como apenas uma menina latino-americana sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vinda da capital.

A mim, sempre chamou a atenção a poesia de versos cortantes, a abordagem marcadamente original dos temas cotidianos e da conjuntura. Em 2012, quando comecei a cantar o repertório de Belchior, os estudos me levaram a lugares ainda mais diversos e sonoridades que até então tinham passado despercebidas por mim.


Diversas influências musicais podem ser flagradas em constante diálogo com seus versos intensos, ácidos, e a certeira disposição de contrastar com o que observava. Sua obra é repleta de intertextualidade, o que já o colocou em conversa com Bob Dylan, John Lennon, Caetano Veloso, Stanley Kubrick. Belchior foi alguém que fez Dante Alighieri e Olavo Bilac conviverem na mesma canção – que ele concluía, mais uma vez, demarcando: enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto.

Aliás, até para falar de romance, Belchior conseguia ser original. A Divina Comédia Humana, uma das minhas prediletas, aborda com naturalidade e doçura o que quase todos veem como a triste fatalidade do amor, ao indicar que, sendo que nada é eterno, a certeza do fim não deveria amedrontar ninguém.

A falta que lhe fazia sua casa, o Ceará, foi retratada numa narrativa de saudade que percorreu muitas músicas belas, cada vez empunhando uma tonalidade diferente da mesma dor. A América Latina pulsava nele, a ponto de A Palo Seco tornar-se quase um hino da latinoamericanidade, num país que poucas vezes se lembra de que é esse o contexto no qual está inserido. E ali, outra vez, ele revela: eu quero é que este canto torto, feito faca, corte a carne de vocês.

Era atento observador do seu tempo, com quem sempre brigou. Exibindo as cicatrizes que marcam aqueles e aquelas que têm que deixar sua terra natal, ele deixava escapar sua melancolia de mãos dadas com sua ânsia de futuro. Sendo ele um crítico dos modismos e do entusiasmo exacerbado, quando esboçava um sorriso de esperança em meio ao marasmo que via, ninguém era capaz de fazer melhor, e com tão singela grandeza. A música que vinha concentrando minha atenção nos últimos dias era justamente Tudo Outra Vez, onde ele diz que viveria as coisas novas, que também são boas, o amor, o humor das praças cheias de pessoas. E agora nós é que queremos tudo, tudo outra vez.

O cara angustiado para superar o “velho”; avesso a reverências e obediências. Quem conhece a obra de Belchior tem a impressão de estar diante de uma inquietação sem limites, que talvez tenha encontrado na referida missão um alento na busca de paz e dias melhores. Sua ironia era de uma riqueza extraordinária, porque contida no universo sem fronteiras do filósofo-artista que, assim como Drummond, tinha o tempo como sua matéria.

Belchior não existiu. Foi uma Alucinação que a gente teve.

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Dia 3 de agosto repetiremos o show Belchior - Alucinação e outras coisas reais, desta vez, no Espaço Cultural Canteiro Central, em Brasília. Projeto iniciado há dois anos, o show será como originalmente foi concebido: uma celebração da obra de Belchior. Não queremos tristeza, nem homenagem póstuma. Queremos tudo outra vez.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Greve Geral: E lá vamos nós de novo!

       Nunca vou me esquecer do professor Antônio Cândido dizendo que toda greve é vitoriosa, pelo grau de reflexão e mobilização que proporciona. Era então minha primeira greve, ano 2000, quando estudante da Escola de Comunicações e Artes da USP.



Lembro vividamente que acordávamos diariamente para impedir a privatização das universidades públicas. Queríamos cotas, ampliação do acesso, assistência estudantil, contratação de professores e técnico-administrativos com salários decentes. Queríamos verba para pesquisa e extensão. Queríamos votar para reitor. Mas, antes de mais nada, queríamos que não privatizassem as universidades, pois, sem isso, todo o resto ficaria inviabilizado.

Em 2001, uma das mais lindas experiências de resistência que vivenciei: greve das universidades federais. À nossa geração, coube protagonizar o enfrentamento à política educacional de FHC, e assim, contribuir para derrotar programática e eleitoralmente aquele projeto de sabotagem, sucateamento e privatização da educação superior pública no Brasil.

Em 2002, acompanhei encantada a greve dos estudantes da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP. A força do movimento estudantil parou uma das mais importantes e reconhecidas faculdades de ciências humanas do país, para exigir mais professores. Foram 106 dias de paralisação, que abriram caminho para a contratação de 92 docentes.

Hoje, dezessete anos e muitas greves depois, tenho consciência e orgulho da importância que aqueles movimentos tiveram, e sua incidência na conjuntura que depois se abriria – ainda que, no calor do momento, muitos discursos de frustração ganhassem forma por não ver o atendimento integral das demandas que apresentávamos.

Há oito anos assessora sindical, minha mais recente experiência de greve se concluiu poucos dias atrás. Foi um mês de paralisação dos professores e professoras da rede pública do DF, numa árdua batalha contra um governador que parece não ter nenhuma ambição na gestão da coisa pública: não quer governar, não quer resolver problemas, não quer respeitar os servidores (as), não quer propor nada, não quer se reeleger.

Fazer greve não é nada fácil. Governos e patrões lançam mão de ameaças, chantagens, assédio, perseguições, violências as mais diversas, e quase sempre contam com o Poder Judiciário para legitimar seus absurdos.

Neste momento de crise econômica, institucional e até moral, a ofensiva ao direito de greve vem dos três poderes. O governo usurpador, com seu Parlamento golpista, seu Judiciário acovardado, e a elite econômica colonialista que o fomenta, mostram muita disposição para avançar sobre o principal recurso da classe trabalhadora contra os profundos e variados ataques que ela vem sofrendo desde que derrubaram a Presidenta da República.

A inquietação está por todos os lados. Mas se, por um lado, parece que regredimos àqueles anos de resistência, também sabemos que o Brasil já não é o mesmo daquele longínquo ano 2000. Por mais limites que houvesse, os governos de Lula e de Dilma levaram nosso país a outros patamares socioeconômicos e culturais. Além disso, as tecnologias trouxeram os smart-phones e as redes sociais, que revolucionaram o modo de fazer e discutir política. O mundo mudou também, deu voltas e parou num lugar que já conheceu: o fantasma do fascismo assola a todos, vestido de roupa nova e de grife. A apatia, o conformismo, a cultura do ódio nos pesam como bola de chumbo presa ao tornozelo.

        Agora, é preciso “trocar de roupa andando”, como se diz. Para produzir um novo momento político, enquanto ainda estamos compreendendo as mudanças que o mundo sofreu, e reelaborando programa, táticas e estratégias, é preciso agir. Recorrer ao bom e velho recurso da greve, que ainda nos vale, para protegê-lo do avanço conservador, e para, sob ele, como um escudo, defendermo-nos da ânsia de destruição do governo usurpador, sua base e seus aliados.

Dia 28 é dia de parar. Convocada pelas centrais sindicais, a greve geral pretende sacudir o país e a cabeça de quem ainda não entendeu a gravidade do momento. Porque, para além das vitórias que temos condições de arrancar-lhes, creio que eles temem o grau de mobilização e reflexão que atingimos numa greve. Porque isso é capaz de durar uma geração inteira.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Senhor Samba #4 - A arquiduquesa do Encantado

"Noel foi quem acreditou em mim, desde o primeiro dia em que eu vi um microfone na vida.

Eu morava no Encantado, um subúrbio um pouco longe, e vivia cantando em festinhas... Eu cantei no candomblé da Paulina, na rua Borges Reis. Cantei na escola de samba 'Somos de pouco falar', no largo da Abolição. Cantei em coro de igreja protestante, no Méier. Mas isso tudo não rendia dinheirinho, e eu estava precisando de arrumar uma nota. Já estava farta de cantar de graça, e quem canta de graça é galo, mas tem certos direitos no terreiro.

Aracy de Almeida
Diante disso, eu estava louca para ir para o rádio, porque o rádio era a sensação daquela época, lá
pelas bandas de 1932, 33, né? E apareceu lá um rapaz, um matusquela lá no Encantado, que era amigo de Custódio Mesquita. Eu arrumei uma roupinha melhorzinha que eu tinha, que não era lá muito legal, mas servia, né?, e fui até a avenida Rio Branco, pela primeira vez na minha vida, que eu não conhecia a cidade, nem nada. Era um verdadeiro xavante.

Custódio Mesquita estava lá, e me ensaiou um samba. Mas eu não estava dando no couro, porque eu estava muito nervosa, a primeira vez com um piano na minha frente pra me acompanhar! Eu aí resolvi partir pra marcha, porque marcha era mais fácil, era uma espécie de bossa-nova, qualquer tom servia e era naquela base, né?

Custódio aí disse:

- Tá bom Aracy, eu vou te levar então até a Rádio Educadora do Brasil.

Quando acabei de cantar aquela marchinha no programa de Pinóquio, eu... apareceu uma figurinha formidável, assim magrinha, assim, de terno de flanela branca, assim, uma gravata branca, camisa azul-marinho, sapato branco, muito bem vestido. Apareceu o Noel Rosa. E parece que foi pra me dar assim um pouco de alento, uma colherzinha de chá, vamos dizer assim, né? Disse:

- Aracy, eu gostei muito. Você cantou muito bem e tal...

Nós ficamos batendo um papo, coisa e loisa.... Nessas alturas, o Noel disse pra mim assim:

- Ô, Aracy?! Vamos tomar uma cerveja Cascatinha na Taberna da Glória?

Lá fui eu pra Taberna da Glória com o Noel, de bonde. Sentamos, encontramos uma porção de malandros conhecidos do Noel: Saturnino, Brancura, Zeca Meia-noite... Ele tinha uns amigos espetaculares, o Noel. Os malandros mais [gargalhando], mais gloriosos da época eram amigos de Noel Rosa. De maneira que, naquela turminha, fiquei eu ali botando as minhas banca, né?, cantando muito, porque eu cantava desde que acordava até que ia dormir. E aconteceu o seguinte: eu fiquei bebendo até de manhã cedo, naquela roda, parecia até que eu já conhecia eles e tal. E afinal de contas, cheguei em casa num porre que não tinha mais tamanho, né? E depois desse porre que eu tomei, eu me emendei com os da Glória:

- Eu pretendo hoje tomar um daqueles gloriosos às onze e meia.”

[Monólogo de Aracy de Almeida extraído do disco "O Samba Pede Passagem" (1965) registro dos melhores momentos do show de mesmo nome realizado em 1965.]


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Uma outra eu

Algo em mim precisa morrer
Para que eu possa viver
Em paz
Dos escombros do velho castelo
Que nunca ergui
Sei que há de emergir

Uma outra eu
Nas linhas a mais
Que hei de escrever
Em dias libertos
De peito aberto
Sem pressa demais

Algo em mim precisa brotar
Para que eu possa optar
Sem dor
Por deixar-te no velho caminho
Em que me perdi
Sei que vou conseguir

Ser outra eu
Nos versos de amor
Que hei de escrever
Em dias inquietos
De peito desperto
Sem dó nem rancor

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Caminhada

Determinada, segue o exemplo das mulheres que a lideraram a vida toda, trilha seus passos e repete seus mantras, mesmo quando eles não lhe querem falar. Caminha longamente sem olhar para trás, não sabe bem das coisas que ficaram pelo caminho, pois o próprio caminho a conduz agora, e é nele que confia com amor e fé. Os passos firmes, os olhos fixos na linha do horizonte, que, como lhe antecipara Galeano, se movimentam sempre para mais distante, fazendo-a apressar o passo temendo não chegar jamais. De algumas flores, retira a essência que bebe para suportar a dor de não parar. No cair da tarde, as nuvens lhe nublam a vista e os olhos ameaçam chover, o horizonte ainda chama mas agora está como que embaçado diante dela, lindamente misturado no conjunto da paisagem que vê em tons de azul escuro, cinza e roxo. Não demora e o preto domina o espaço todo, e agora os olhos não chovem e não veem, as pernas só fazem andar. Sem enxergar, sente a presença de alguém que se aproxima, vindo do sentido oposto. Os passos leves e o olhar doce indicam que o final do percurso é bonito. Mais uma vez, como as ancestrais, deixa-se guiar pela beleza que vê por entre os olhos amordaçados. É por isso que segue, já sem dor, já sem medo.

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Feliz 2017. :)