A Cultura está sob ataque em todo o país.
Em São Paulo, o prefeito playboy e higienista estrangula tanto o Clube do Choro quanto a Orquestra do Teatro São Pedro; enquanto o pai político dele, o governador, mata a Banda Sinfônica do estado.
Em Porto Alegre, a Fundação Piratini corre risco sério e iminente de extinção. A TVE e a Rádio FM Cultura são espaços privilegiados para circulação e promoção da produção musical de Porto Alegre.
Em Brasília, amanhecemos todos os dias alertas para evitar que metam a mão no FAC (Fundo de Apoio à Cultura).
No Rio, cidade que abrigou as tias baianas que embalaram o samba nos braços, que concebeu a Santíssima Trindade do Samba; o prefeito quer restringir e controlar quase que pessoalmente a ocupação do espaço público por manifestações culturais - inclusive o sagrado samba da Pedra do Sal.
E por aí vai.
Nessas quatro capitais, citei apenas poucos e representativos exemplos do que está havendo. Há muito muito mais. Há muito mais nas demais cidades, nos demais estados, no Brasil em cujo centro de poder os golpistas se instalaram, e mostram, dia após dia, seu desprezo pela arte e pela cultura popular brasileira. Falo de música porque é o que eu conheço mais, mas situações análogas se verificam nas artes cênicas, plásticas, audiovisuais, literatura, nos investimentos em Educação e formação de público.
Coincidência ou não, a comunidade artística foi das mais combativas na resistência ao golpe. A ponto de reverter o retrocesso máximo, que seria a extinção do Ministério da Cultura.
O pessoal das trevas não brinca em serviço não. Eles sabem que a cultura popular impulsiona um povo forte e consciente de si.
[Há quase um ano, escrevi uma crônica sobre as incessantes tentativas de nos calar e de nos desalojar. Tudo aquilo parece estar se aprofundando. Mas como disse Belchior, a voz resiste, a fala insiste: você me ouvirá!]
Música, feminismo, diálogos, política, futebol, crônica e poesia convivendo no mesmo espaço. E sem conflito.
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terça-feira, 4 de julho de 2017
terça-feira, 17 de maio de 2016
Senhor Samba #2 - Estrela de Madureira
Para exaltar a sua arte, que encantou Madureira
Um lindo samba cantado nas rodas de todo o país é "Estrela de Madureira", de Acyr Pimentel e Cardoso, consagrado na voz do grande Roberto Ribeiro. Hoje em dia, mais de 40 anos depois de sua composição, e quase 60 anos depois a morte da sua musa, pouca gente sabe de quem fala a bela letra.
Trata-se de Záquia Jorge, atriz, cantora e empresária. Atuou nas décadas de 40 e 50, com sucesso, no cinema e no Teatro de Revista (formato dramatúrgico muito comum nas primeiras décadas do século XX, tendo revelado grandes artistas). Mas Záquia fez mais: "foi a pioneira" ao erguer o Teatro de Revista Madureira no bairro de mesmo nome, em frente à estação de trem, com a intenção de compartilhar com o subúrbio a cultura que se disseminava pelo centro e regiões nobres do Rio de Janeiro - inclusive praticando preços mais acessíveis para conquistar aquele público.
Záquia e seu marido, Júlio Leiloeiro, empreenderam muitos esforços para fazer vingar a ideia. Segundo conta Nei Lopes, aquele era um momento em que diversas possibilidades se abriam para Madureira nas áreas de Cultura e de Lazer. O Teatro de Revista começava a experimentar sua decadência, mas mesmo assim, a casa foi inaugurada em 1952 com o espetáculo "Trem de Luxo", mencionado no samba. Durante os dias, o teatro abrigou aulas de artes dramáticas. Porém, não sobreviveu à morte de sua "vedete principal".
Záquia morreu vítima de afogamento na praia da Barra da Tijuca, que era muito pouco frequentada na época, deixando marido, filho e uma legião de fãs e amigos. Seu velório no Teatro de Revista Madureira foi acompanhado por mais de 4 mil pessoas.
Em 1975, a Império Serrano, com justiça e com propriedade, homenageou Záquia. O samba escolhido para isso não foi "Estrela de Madureira", mas sim, um samba de Avarese, "Záquia Jorge, Estrela de Madureira, Vedete do Subúrbio", que rendeu à escola o terceiro lugar no Carnaval daquele ano. Entretanto, antes de ambos, houve "Madureira Chorou", samba de Carvalhinho e Júlio Leiloeiro, gravado por Joel de Almeida em 1958.
Pelo papel desempenhado nos palcos, sets e, especialmente, em Madureira, Záquia é uma personagem à altura da grandiosidade dos sambas que a homenageiam.
Um lindo samba cantado nas rodas de todo o país é "Estrela de Madureira", de Acyr Pimentel e Cardoso, consagrado na voz do grande Roberto Ribeiro. Hoje em dia, mais de 40 anos depois de sua composição, e quase 60 anos depois a morte da sua musa, pouca gente sabe de quem fala a bela letra.
Trata-se de Záquia Jorge, atriz, cantora e empresária. Atuou nas décadas de 40 e 50, com sucesso, no cinema e no Teatro de Revista (formato dramatúrgico muito comum nas primeiras décadas do século XX, tendo revelado grandes artistas). Mas Záquia fez mais: "foi a pioneira" ao erguer o Teatro de Revista Madureira no bairro de mesmo nome, em frente à estação de trem, com a intenção de compartilhar com o subúrbio a cultura que se disseminava pelo centro e regiões nobres do Rio de Janeiro - inclusive praticando preços mais acessíveis para conquistar aquele público.
Záquia e seu marido, Júlio Leiloeiro, empreenderam muitos esforços para fazer vingar a ideia. Segundo conta Nei Lopes, aquele era um momento em que diversas possibilidades se abriam para Madureira nas áreas de Cultura e de Lazer. O Teatro de Revista começava a experimentar sua decadência, mas mesmo assim, a casa foi inaugurada em 1952 com o espetáculo "Trem de Luxo", mencionado no samba. Durante os dias, o teatro abrigou aulas de artes dramáticas. Porém, não sobreviveu à morte de sua "vedete principal".
Záquia morreu vítima de afogamento na praia da Barra da Tijuca, que era muito pouco frequentada na época, deixando marido, filho e uma legião de fãs e amigos. Seu velório no Teatro de Revista Madureira foi acompanhado por mais de 4 mil pessoas.
Em 1975, a Império Serrano, com justiça e com propriedade, homenageou Záquia. O samba escolhido para isso não foi "Estrela de Madureira", mas sim, um samba de Avarese, "Záquia Jorge, Estrela de Madureira, Vedete do Subúrbio", que rendeu à escola o terceiro lugar no Carnaval daquele ano. Entretanto, antes de ambos, houve "Madureira Chorou", samba de Carvalhinho e Júlio Leiloeiro, gravado por Joel de Almeida em 1958.
Pelo papel desempenhado nos palcos, sets e, especialmente, em Madureira, Záquia é uma personagem à altura da grandiosidade dos sambas que a homenageiam.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
O balé das borboletas
Despertei e fui para o quintal, onde alguns raios de sol pareciam tentar resistir às nuvens escuras que avançavam sobre o céu azul. Queria ir à cachoeira pedir a Oxum pelas minhas amigas, mas logo notei, olhando de longe, que a chuva não tardaria a vir, e provavelmente já até estivesse molhando meu altarzinho. Ainda com o coração inconsolado, desisti de assumir o trajeto e me pus a olhar ao longe o vento e o movimento das nuvens.
Foi quando, desde esse longe, vinham duas borboletas brancas naquele balé clássico das borboletas. Foram vindo e vindo, e então estavam já bem perto. Continuaram brincando como se fossem duas crianças no carnaval, bicando-se, afastando-se e voltando a unir-se. Rodopiaram ao meu redor duas vezes, como se tentassem me envolver no balé. Acho que foi o primeiro sorriso sem dor que derramei em trinta horas. Pensei que fossem minhas amigas dizendo pra eu ficar bem.
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Para Rosângela Rigo e Lurdinha Rodrigues, com todo meu amor e minhas saudades para sempre...
Foi quando, desde esse longe, vinham duas borboletas brancas naquele balé clássico das borboletas. Foram vindo e vindo, e então estavam já bem perto. Continuaram brincando como se fossem duas crianças no carnaval, bicando-se, afastando-se e voltando a unir-se. Rodopiaram ao meu redor duas vezes, como se tentassem me envolver no balé. Acho que foi o primeiro sorriso sem dor que derramei em trinta horas. Pensei que fossem minhas amigas dizendo pra eu ficar bem.
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Para Rosângela Rigo e Lurdinha Rodrigues, com todo meu amor e minhas saudades para sempre...quinta-feira, 25 de setembro de 2014
Rainha Carmen Miranda, saravá!
“Mas pra cima de mim, pra quê tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?!
Eu, que nasci com o samba e vivo no sereno
Tocando a noite inteira a velha batucada!”
(Disseram que voltei americanizada, de Luiz Peixoto e Vicente Paiva)
Por mais birra que alguns sustentem pela sua escolha, a certa altura do campeonato, de ir trabalhar nos Estados Unidos, não é possível negar a importância de Carmen Miranda para a música popular brasileira. Nascida em Portugal, Carmen chegou com a família ao Rio de Janeiro antes de completar um ano de idade. Sempre reivindicou o Brasil e sua cultura popular, era apaixonada pelo Carnaval – deu vida a dezenas de marchinhas – e foi figura fundamental para a consolidação do samba como principal gênero musical genuinamente brasileiro.
Cheguei a Carmen Miranda por causa de Clara Nunes. No início da década de 1970, então novo produtor de Clara, Adelzon Alves notou que ela guardava um diferencial luminoso: sua relação com a brasilidade em todas as suas expressões. Era uma lacuna que havia ficado vaga desde a morte de Carmen (vejam a ironia: ninguém tinha expressado o Brasil melhor que ela, tão criticada por ter ido viver nos EUA). Clara era mineira, filha de uma família pobre do interior, ex-tecelã, espiritualidade à flor da pele, muita intimidade com a cultura afro-brasileira. Com a observação de que ela tinha as qualidades necessárias para capitanear aquele legado, Clara passou a levar essa brasilidade mestiça no figurino, nos acessórios, nos cabelos, e, mais do que nunca, no repertório. Deu certo. Foi a partir dali que ela estourou.
Carmen Miranda tornou-se cantora aos 20 anos. Seu primeiro grande sucesso foi a marchinha Taí – Pra você gostar de mim, de Joubert de Carvalho, que quebrou recordes de vendas na época. Foi pioneira na arte de cantar interpretando a letra, a ponto de dizerem sobre ela que “parece que a cantora vem dentro do disco”.
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| Assis Valente |
Simpática e generosa, tratava com amizade aqueles que a cercavam. Conviveu com todos os gênios da música brasileira no período, como Pixinguinha, Donga e João da Baiana. Além desses, trabalhou com Ary Barroso, Lamartine Babo, Almirante, Bide, Herivelto Martins, Alcyr Pires Vermelho, Ataulpho Alves, entre muitos outros. No baiano Assis Valente encontrou seu compositor predileto, e consagrou joias como Camisa Listada e E o mundo não se acabou. Quando Carmen regressou de sua primeira temporada nos EUA, em 1940, Assis lhe apresentou Brasil Pandeiro, samba inspirado na trajetória da Pequena Notável em terras estrangeiras. Ela não quis gravá-la por temer que parecesse autoproclamatório. Gravaram-na, então, os Anjos do Inferno. Na ocasião, Carmen deu voz a outra brilhante obra de Assis: Recenseamento.
Embora possa ter se desentendido com (poucas) pessoas, Carmen não guardou inimigos, e sua casa, inclusive em Hollywood, sempre foi ponto de encontro de amigos em torno de música, papo e comida preparada por sua mãe.
A verdade é que Carmen Miranda foi um fenômeno da música brasileira, revelou diversos compositores – caso de Dorival Caymmi e Synval Silva – e, em pleno advento do rádio, contribuiu para que o país prestasse atenção na música que se produzia nos subúrbios da capital federal, sob forte influência daqueles que migravam desde a antiga capital federal. Então, por que essa resistência que alguns insistem em manter contra ela, ao ignorar ou até mesmo negar seu legado?
Carmen cumpriu sua vocação no Brasil durante dez anos até que empresários estadunidenses, ao visitar um cassino onde ela se apresentava no Rio, vissem nela uma mina de ouro. Naquele momento, ela já se apresentava em diversas cidades brasileiras – em São Paulo com certa frequência, mas também em outras, como Salvador e Recife – e da América Latina – os shows em Buenos Aires eram lotados e o povo argentino desenvolveu enorme carinho pela artista.
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| Com sua irmã, também cantora, Aurora |
Carmen Miranda encarou corajosa e vitoriosamente os desafios que recebeu: o de ser a maior cantora brasileira de sua época e o de desbravar o mercado artístico dos EUA. Sua família vinha da classe média baixa, e até começar a ganhar dinheiro com a música, viviam todos no centro do Rio de Janeiro. Desde menina, sonhava com um bom casamento, que lhe desse filhos e realização pessoal. Conscientemente ou não (creio que não), ela subordinou esse sonho à vocação para a arte. Gostava de trabalhar e não se intimidava por jornadas longas ou condições difíceis.
Quando, em 1939, partiu para Nova Iorque, deixou um grande amor no Rio de Janeiro, amor que nunca reaveria. Na terra do tio Sam, relacionou-se com alguns colegas, nenhum que lhe tenha proposto casamento, pois, a rigor, preferiam as moças da alta sociedade e/ou com menos visibilidade que eles. Além disso, ficava implícito ali o velho preconceito dos estadunidenses em relação às mulheres latinas.
Ao mesmo tempo, Carmen se via aprisionada na personagem vestida como baiana estilizada, obrigada a falar inglês com sotaque em personagens cômicos, sem nunca ter realizado plenamente o desejo de explorar suas habilidades de atriz – ainda que, por algum tempo, tenha chegado a ser a mulher mais bem paga de Hollywood. Exposta a jornadas de trabalho massacrantes, com diversas apresentações no mesmo dia, gravações, viagens, tudo numa intensidade frenética que ela não tinha conhecido no Brasil, recorria a “milagrosas” pílulas que a “ajudavam” a dormir, e depois, a acordar. Possivelmente com medo da solidão e dos comentários – lembremo-nos que era a década de 1940 –, casou-se com um homem que nunca amou, com quem teve uma relação tumultuada e infeliz. Viu, impotente, ser frustrado seu sonho de ter filhos. Sofreu, como muitas mulheres, a tristeza de ver seu corpo envelhecer e, por isso, ser diminuída e até descartada.
Mas fez a alegria de pessoas pelo mundo (também chegou a se apresentar na Europa), cativou aqueles que com ela conviveram, conquistou o carinho e a admiração de centenas de milhares de pessoas. Foi figura decisiva para a música brasileira no crucial momento em que o samba deixava a marginalidade e se consolidava, enquanto mudavam decisivamente os padrões de gravação e de apresentações musicais públicas.
Sua morte tão prematura comoveu o Brasil em agosto de 1955. Seu povo, que a amava e não a condenou pela opção profissional que fez, recebeu-a para o último adeus com um grande Carnaval, sua grande e verdadeira paixão. Milhares de pessoas carregaram seu caixão pelas ruas do Rio de Janeiro.
Talvez, aquela opção feita em 1940 tenha ladrilhado um triste caminho para seu fim. No ótimo documentário “Carmen Miranda – Banana is my business” (de Helena Solberg, 1995), diz-se que deveríamos tê-la guardado aqui, nunca tê-la deixado ir.
Eu, respeitosamente, divirjo. A grandeza de Carmen não podia ser contida. Se era seu desejo voar o
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| Com os músicos da Rádio Mayrink Veiga. Pixinguinha está de pé, segundo da direita para a esquerda. |
mais alto que pudesse, que assim fosse. Uma pena que as viagens de navio eram longas e custosas, e assim, combinado com sua estressante rotina de trabalho, ela não podia vir beber da água brasileira sempre que quisesse ou precisasse. Seu voo, para mim, é fonte de orgulho, na mesma proporção em que a dinâmica à qual ela foi atirada é fonte de indignação e de tristeza. Não se trata de “castigo”, mas sim, de ela ter pagado preço alto demais pelas escolhas que fez, numa época em que as mulheres não tinham muita escolha. E, infelizmente, os males que abateram Carmen Miranda rondam a humanidade até hoje: o machismo; a mercantilização da arte e da vida; a medicalização irresponsável e crônica das dores do corpo e da alma.
Muito de Carmen Miranda continua – e sempre estará – na música brasileira. Ela está no seu próprio repertório, cantado até hoje nos palcos, quadras e rodas de samba, ela está nos compositores que revelou, está no canto das cantoras, está nas ruas da Lapa, nos arredores do antigo Café Nice. Ela está, com certeza, no Carnaval de rua, no sucesso das marchinhas, na alegria da cultura popular brasileira, que tão bem representou.
Se depender de mim, seu trabalho sempre será lembrado e reverenciado, com todo carinho e gratidão. Saravá, Carmen Miranda!
Bibliografia
CASTRO, Ruy. Carmen: Uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. 600 p.
DINIZ, André. Almanaque do Samba. 3ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. 312 p.
FERNANDES, Vagner. Clara Nunes: Guerreira da Utopia. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007. 320 p.
sexta-feira, 4 de março de 2011
A evolução da liberdade?
O Carnaval é das festas mais tradicionais e aguardadas no Brasil. Em cada estado, as pessoas festejam a seu modo, e a alegria unifica tudo numa coisa só. Essa é a imagem bela que temos do Carnaval: bailes, blocos de rua, festas populares, muita gente feliz que, por 4 dias, consegue esquecer seus problemas e se irmana com desconhecidos e desconhecidas que estão sob a mesma condição.
O problema é que, como tudo, o Carnaval não é só beleza não. Todo ano, relatos de excessos cometidos por foliões Brasil afora deixam de orelha em pé qualquer pessoa que tenha algum apreço pelos direitos humanos. Entre tanta prática de barbárie, uma apresenta-se bastante comum: o desprezo pelas mulheres, seus direitos e sua autonomia.
Quem nunca ficou sabendo de uma história carnavalesca que envolveu violência sexual? Pra nem ir tão longe: quantas vezes você soube que, no meio da festa, passaram a mão em fulana ou beltrana? Quantas vezes você viu mulheres serem agarradas à força nessas situações? Pior: quantas vezes você ouviu, diante disso tudo, que “não se leve a mal, hoje é Carnaval”?
A celebração vira justificativa para uma porção de absurdos que, algumas vezes, nem são tolerados fora do contexto de Carnaval, mas sob ele são aceitos como se fossem práticas sociais recorrentes e até premiadas.
Há mulheres que deixam de freqüentar alguns espaços por causa do assédio fora de qualquer limite. Ficam constrangidas diante da imposição de um beijo, de um abraço, de uma mão em seu peito ou em sua bunda. Essas mulheres são mais numerosas do que se imagina.
Isso sem contar que o turismo sexual corre solto nessa época, ainda mais que em outras. Afinal, a propaganda que se faz do Brasil lá fora parece dizer que é a terra das mulheres gostosas e do sexo fácil e descompromissado. Milhares de mulheres sambando peladas, closes ginecológicos nas coberturas de TVs, fotos pornográficas em qualquer site de internet. Isso pra nem falar de como são retratadas as mulatas, pois o Carnaval é mais um momento em que o preconceito e a opressão das mulheres negras se reafirmam com muito mais força.
“Não seja exagerada ou moralista” é algo que certamente ouvirei (ou lerei) por conta desta opinião. Evidente que o Carnaval não é só a parte da falta de limites e da agressão de mulheres, seja pela mercantilização do seu corpo, pela vulgarização da sua imagem ou pela coerção física mesmo. Mas é conveniente tratar deste assunto agora, este ano, mais do que nunca, porque 8 de março de 2011 – Dia Internacional da Mulher – será terça-feira de Carnaval.
“Ô sua mal amada, que tem inveja das mulheres que podem ficar nuas na frente de todo mundo porque são belas”; ou “Deixa de ser histérica, que a maioria das mulheres nem se sente ofendida por nada disso que você está falando”. Mas é que este blog tem um público de esquerda, consciente da vida real, das desigualdades, da opressão, que sabe que as coisas não acontecem por acaso.
A luta das mulheres no Brasil e no mundo é histórica, conquistou muita coisa, transformou o mundo todo. Mas ainda falta muito. Nem precisamos nos alongar pra justificar essa afirmação, basta olhar os conhecidos dados acerca da violência contra mulheres, desigualdade salarial, atribuições domésticas, etc.
Bandeiras caras ao feminismo, como aquela contra a exploração do corpo das mulheres, contra a mercantilização, em defesa do livre exercício da sexualidade e contra todo tipo de violência são altamente contrariadas durante o Carnaval, em salões, blocos e TVs do país inteiro. Não pode ser um momento de exceção: a humilhação, coação e opressão das mulheres devem ser combatidas todos os dias do ano.
E pra quem fica indignada ou indignado diante da completa banalização que se faz do corpo feminino nessa época, que é exposto como se fosse uma lata de sardinha no supermercado, ou um frango assado girando em volta de si mesmo numa padaria, não se sinta ultrapassado ou moralista. Anacrônica é essa forma de ver as mulheres. E uma indignação coletiva e em voz alta pode ajudar a alterar as coisas como estão – porque, como disse Paulo Freire, o mundo não é, o mundo está sendo.
Neste 8 de março, além de guerrear contra a indústria de cosméticos e seus afins, que não se conforma enquanto não tornar nosso dia de luta em mais um dia de comércio, temos esse forte adversário pela frente: a naturalização da opressão e a ideia de “período de exceção”. Mas nós, feministas, que tantas batalhas já vencemos, não tememos essa não. E viva o dia internacional da mulher!
O problema é que, como tudo, o Carnaval não é só beleza não. Todo ano, relatos de excessos cometidos por foliões Brasil afora deixam de orelha em pé qualquer pessoa que tenha algum apreço pelos direitos humanos. Entre tanta prática de barbárie, uma apresenta-se bastante comum: o desprezo pelas mulheres, seus direitos e sua autonomia.
Quem nunca ficou sabendo de uma história carnavalesca que envolveu violência sexual? Pra nem ir tão longe: quantas vezes você soube que, no meio da festa, passaram a mão em fulana ou beltrana? Quantas vezes você viu mulheres serem agarradas à força nessas situações? Pior: quantas vezes você ouviu, diante disso tudo, que “não se leve a mal, hoje é Carnaval”?
A celebração vira justificativa para uma porção de absurdos que, algumas vezes, nem são tolerados fora do contexto de Carnaval, mas sob ele são aceitos como se fossem práticas sociais recorrentes e até premiadas.
Há mulheres que deixam de freqüentar alguns espaços por causa do assédio fora de qualquer limite. Ficam constrangidas diante da imposição de um beijo, de um abraço, de uma mão em seu peito ou em sua bunda. Essas mulheres são mais numerosas do que se imagina.
Isso sem contar que o turismo sexual corre solto nessa época, ainda mais que em outras. Afinal, a propaganda que se faz do Brasil lá fora parece dizer que é a terra das mulheres gostosas e do sexo fácil e descompromissado. Milhares de mulheres sambando peladas, closes ginecológicos nas coberturas de TVs, fotos pornográficas em qualquer site de internet. Isso pra nem falar de como são retratadas as mulatas, pois o Carnaval é mais um momento em que o preconceito e a opressão das mulheres negras se reafirmam com muito mais força.
“Não seja exagerada ou moralista” é algo que certamente ouvirei (ou lerei) por conta desta opinião. Evidente que o Carnaval não é só a parte da falta de limites e da agressão de mulheres, seja pela mercantilização do seu corpo, pela vulgarização da sua imagem ou pela coerção física mesmo. Mas é conveniente tratar deste assunto agora, este ano, mais do que nunca, porque 8 de março de 2011 – Dia Internacional da Mulher – será terça-feira de Carnaval.
“Ô sua mal amada, que tem inveja das mulheres que podem ficar nuas na frente de todo mundo porque são belas”; ou “Deixa de ser histérica, que a maioria das mulheres nem se sente ofendida por nada disso que você está falando”. Mas é que este blog tem um público de esquerda, consciente da vida real, das desigualdades, da opressão, que sabe que as coisas não acontecem por acaso.
A luta das mulheres no Brasil e no mundo é histórica, conquistou muita coisa, transformou o mundo todo. Mas ainda falta muito. Nem precisamos nos alongar pra justificar essa afirmação, basta olhar os conhecidos dados acerca da violência contra mulheres, desigualdade salarial, atribuições domésticas, etc.
Bandeiras caras ao feminismo, como aquela contra a exploração do corpo das mulheres, contra a mercantilização, em defesa do livre exercício da sexualidade e contra todo tipo de violência são altamente contrariadas durante o Carnaval, em salões, blocos e TVs do país inteiro. Não pode ser um momento de exceção: a humilhação, coação e opressão das mulheres devem ser combatidas todos os dias do ano.
E pra quem fica indignada ou indignado diante da completa banalização que se faz do corpo feminino nessa época, que é exposto como se fosse uma lata de sardinha no supermercado, ou um frango assado girando em volta de si mesmo numa padaria, não se sinta ultrapassado ou moralista. Anacrônica é essa forma de ver as mulheres. E uma indignação coletiva e em voz alta pode ajudar a alterar as coisas como estão – porque, como disse Paulo Freire, o mundo não é, o mundo está sendo.
Neste 8 de março, além de guerrear contra a indústria de cosméticos e seus afins, que não se conforma enquanto não tornar nosso dia de luta em mais um dia de comércio, temos esse forte adversário pela frente: a naturalização da opressão e a ideia de “período de exceção”. Mas nós, feministas, que tantas batalhas já vencemos, não tememos essa não. E viva o dia internacional da mulher!
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Quaresma
Uma respiração daquela não podia ser de dia de Carnaval. Alheia ao mundo ao redor, ela só dialogava com um mundo que não estava ali, e nem estava em lugar nenhum. Porque o mundo que ela procurava nem existia, existiria só depois, depois no tempo. Era um diálogo etéreo com esse mundo, que nem se fosse sobre uma mesa branca às avessas.
Branco estava o dia, aliás. Os deuses também pareciam alheios ao Carnaval. E, andando tão devagar como estava, e sem uma referência aonde chegar, branco era o seu caminho.
Os passos eram leves. Pensava na noite que viria, esse mundo que nem existia. Precisava construir aquela noite inteira, moldá-la, emoldurá-la, preenchê-la de si mesma. Se ela já tivesse pronta a história da noite, a ansiedade e o medo a consumiriam menos. Mas isso era engano.
Porque, afinal, quando se tem uma história fechada para preencher um tempo vindouro, todo mundo sabe que ela, caprichosamente, não se aplicará. Tudo sairá errado, desviará do caminho já colorido, bolhas e mais bolhas de vento aparecerão. E por causa disso, é como se o sangue passasse por veias e artérias ora quase as explodindo, ora numa má vontade tamanha que dá até pra sobrar ar.
É que tem duas coisas que parecem desinteresseiras, mas que funcionam como derradeiras vilãs a produzir melancolia: subterfúgio e esperança. E, normalmente, eles se associam para aprofundar a luz do dia, quando o dia é branco e claro o suficiente para não se poder ver.
Esperança, quando é boa, é sempre acompanhada. Mas andando sozinha, ela se enamora de um subterfúgio e dão à luz uma frustração, filha não planejada.
Mas era aí que estava o grande trunfo da moça: ela tinha aprendido a enganar a esperança. Estava, pelas ruas do centro, caminhando leve, respirando meio sequencialmente e olhando para um ponto tão distante que nem existia. O mundo ao redor não estava lá. E ela tramava a noite como quem planeja um assalto, mas sem mão armada. O planejamento dela, não é que incluía a hipótese do desvio. O desvio era a única hipótese.
Então, quando o branco do dia se converteu em cinza e o céu se descuidou a ponto de chover, a noite já estava combinada com a moça, e seria uma noite, em essência, errada. Deixou, um pouco, a chuva molhar seu rosto, o caminho se coloriu de cores escuras, e agora já havia um ponto próximo pra olhar e seguir. Lá foi ela rumo à sua noite errada. Carnaval seguia sem existir.
Deu tudo errado na noite. A noite errada deu errado, e acabou certa. O Carnaval saiu, discreto, e quando a manhã furou o cerco, o desvio se rendeu a um caminho colorido, conforme o organizado clandestinamente em porões trancafiados do fundo do coração. O planejamento oficial fora derrotado.
Era tudo uma questão de estratégia. E o Carnaval-discreto nem foi o contexto, foi o exército-surpresa - do outro.
E aquela respiração, que não era de Carnaval, até que era. Mas, no começo da história, ninguém sabia. O Carnaval, afinal, passou, conformado com a discrição. Mas algumas das cores saíram dele pra colorir o caminho. E o dia. Um dia branco é pra ser preenchido.
Branco estava o dia, aliás. Os deuses também pareciam alheios ao Carnaval. E, andando tão devagar como estava, e sem uma referência aonde chegar, branco era o seu caminho.
Os passos eram leves. Pensava na noite que viria, esse mundo que nem existia. Precisava construir aquela noite inteira, moldá-la, emoldurá-la, preenchê-la de si mesma. Se ela já tivesse pronta a história da noite, a ansiedade e o medo a consumiriam menos. Mas isso era engano.
Porque, afinal, quando se tem uma história fechada para preencher um tempo vindouro, todo mundo sabe que ela, caprichosamente, não se aplicará. Tudo sairá errado, desviará do caminho já colorido, bolhas e mais bolhas de vento aparecerão. E por causa disso, é como se o sangue passasse por veias e artérias ora quase as explodindo, ora numa má vontade tamanha que dá até pra sobrar ar.
É que tem duas coisas que parecem desinteresseiras, mas que funcionam como derradeiras vilãs a produzir melancolia: subterfúgio e esperança. E, normalmente, eles se associam para aprofundar a luz do dia, quando o dia é branco e claro o suficiente para não se poder ver.
Esperança, quando é boa, é sempre acompanhada. Mas andando sozinha, ela se enamora de um subterfúgio e dão à luz uma frustração, filha não planejada.
Mas era aí que estava o grande trunfo da moça: ela tinha aprendido a enganar a esperança. Estava, pelas ruas do centro, caminhando leve, respirando meio sequencialmente e olhando para um ponto tão distante que nem existia. O mundo ao redor não estava lá. E ela tramava a noite como quem planeja um assalto, mas sem mão armada. O planejamento dela, não é que incluía a hipótese do desvio. O desvio era a única hipótese.
Então, quando o branco do dia se converteu em cinza e o céu se descuidou a ponto de chover, a noite já estava combinada com a moça, e seria uma noite, em essência, errada. Deixou, um pouco, a chuva molhar seu rosto, o caminho se coloriu de cores escuras, e agora já havia um ponto próximo pra olhar e seguir. Lá foi ela rumo à sua noite errada. Carnaval seguia sem existir.
Deu tudo errado na noite. A noite errada deu errado, e acabou certa. O Carnaval saiu, discreto, e quando a manhã furou o cerco, o desvio se rendeu a um caminho colorido, conforme o organizado clandestinamente em porões trancafiados do fundo do coração. O planejamento oficial fora derrotado.
Era tudo uma questão de estratégia. E o Carnaval-discreto nem foi o contexto, foi o exército-surpresa - do outro.
E aquela respiração, que não era de Carnaval, até que era. Mas, no começo da história, ninguém sabia. O Carnaval, afinal, passou, conformado com a discrição. Mas algumas das cores saíram dele pra colorir o caminho. E o dia. Um dia branco é pra ser preenchido.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Fragmentos
"Perdida na avenida
Canta seu enredo
Fora do Carnaval..."
(Chico Buarque - "Dura na queda")
***
Fragmentos de diálogos inacabados. Envolvem álcool, em alguma medida. Nada demais.
Pessoa 1 - Tenho medo, viu.
Pessoa 2 - Tenha, não é nada demais.
Pessoa 3 - Beber é bom. E chorar nem é tão ruim assim. Eu acho que chorar bebendo é tipo redução de danos.
Pessoa 4 - Não é feio não... pena que é um porre, né.
Pessoa 5 - Ai ai ai, é melhor você ir beber logo e largar a fixação.
Pessoa 6 - Tenho reunião antes de beber.
Pessoa 7 - Oi, amiga. Tô vendo aqui teu e-mail.
Pessoa 8 - Vê aí e me aconselha de novo, por favor.
Pessoa 7 - Só vi a versão 2 depois...
Pessoa 8 - Tudo bem, nem tem taaanta diferença.
Pessoa 7 - É. Eu consegui identificar as adições que você fez.
Pessoa 8 - Por isso que eu te amo, amiga. Além de meu superego, você identifica minhas adições!
Pessoa 9 - Não vou fazer nada e vou esperar. Que é o que eu mais tenho feito nesse último período. Depois, vou ficar aqui segurando a onda. A segunda coisa que eu mais faço. A terceira é beber!
Canta seu enredo
Fora do Carnaval..."
(Chico Buarque - "Dura na queda")
***
Fragmentos de diálogos inacabados. Envolvem álcool, em alguma medida. Nada demais.
Pessoa 1 - Tenho medo, viu.
Pessoa 2 - Tenha, não é nada demais.
Pessoa 3 - Beber é bom. E chorar nem é tão ruim assim. Eu acho que chorar bebendo é tipo redução de danos.
Pessoa 4 - Não é feio não... pena que é um porre, né.
Pessoa 5 - Ai ai ai, é melhor você ir beber logo e largar a fixação.
Pessoa 6 - Tenho reunião antes de beber.
Pessoa 7 - Oi, amiga. Tô vendo aqui teu e-mail.
Pessoa 8 - Vê aí e me aconselha de novo, por favor.
Pessoa 7 - Só vi a versão 2 depois...
Pessoa 8 - Tudo bem, nem tem taaanta diferença.
Pessoa 7 - É. Eu consegui identificar as adições que você fez.
Pessoa 8 - Por isso que eu te amo, amiga. Além de meu superego, você identifica minhas adições!
Pessoa 9 - Não vou fazer nada e vou esperar. Que é o que eu mais tenho feito nesse último período. Depois, vou ficar aqui segurando a onda. A segunda coisa que eu mais faço. A terceira é beber!
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Feliz Carnaval!
Recebi este e-mail do Guilherme Vargues, uma pessoa muito querida que tem cara de samba e de Carnaval e de tanta coisa boa que a terra dele, o Rio, tem lá. Tomei a liberdade de colocar aqui, pra afirmar a alegria do momento, mas também, lembrar que até a alegria tem seu sentido político. Feliz Carnaval!
"E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval"
O ano começou feliz, porém as bombas caíram.
Esse ano também é o primeiro sem Jamelão agitando a verde e rosa.
As coisas andam complicadas, por aqui, por lá e precisamos pensar em tudo isso.
Mas como diria meu amigo Diogo Coelho:
"Já é verão aqui no Rio de Janeiro, finalmente fevereiro, a cidade em alto astral ..."
Nessa época as flores jorram confetes, as nuvens soltam serpentinas
A cerveja gelada
O sorriso e a alegria
Voltando no tempo, em 1936, Paulo da Portela foi eleito "Cidadão Momo" do Rio de Janeiro, a imprensa publicou o primeiro decreto de Paulo para o período do carnaval:
"Eu, Cidadão Momo de 1936, eleito pelos foliões desta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, de acordo com os poderes que me foram conferidos para governar durante o tríduo da folia,considerando que o nosso regime republicano não se coaduna com um reinado, nem mesmo carnavalesco, considerando que o samba nasceu no morro e rei não freqüenta morro, considerando que no carnaval não pode haver vassalagem, considerando que a monarquia, pelas próprias extravagâncias do rei, por mais popular que seja , não pode encarnar o samba, a verdadeira alma do carnaval, resolvo destronar o rei, que terá a sua cidade como menage, ficando sem efeito todo e qualquer decreto lavrado pelo monarca, a estas horas reduzido à expressão mais simples".
Que sirva para nos reciclar, para repensar a vida e a força de se sentir livre por alguns dias...
Feliz Carnaval!
(Guilherme Vargues - RJ)
"E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval"
O ano começou feliz, porém as bombas caíram.
Esse ano também é o primeiro sem Jamelão agitando a verde e rosa.
As coisas andam complicadas, por aqui, por lá e precisamos pensar em tudo isso.
Mas como diria meu amigo Diogo Coelho:
"Já é verão aqui no Rio de Janeiro, finalmente fevereiro, a cidade em alto astral ..."
Nessa época as flores jorram confetes, as nuvens soltam serpentinas
A cerveja gelada
O sorriso e a alegria
Voltando no tempo, em 1936, Paulo da Portela foi eleito "Cidadão Momo" do Rio de Janeiro, a imprensa publicou o primeiro decreto de Paulo para o período do carnaval:
"Eu, Cidadão Momo de 1936, eleito pelos foliões desta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, de acordo com os poderes que me foram conferidos para governar durante o tríduo da folia,considerando que o nosso regime republicano não se coaduna com um reinado, nem mesmo carnavalesco, considerando que o samba nasceu no morro e rei não freqüenta morro, considerando que no carnaval não pode haver vassalagem, considerando que a monarquia, pelas próprias extravagâncias do rei, por mais popular que seja , não pode encarnar o samba, a verdadeira alma do carnaval, resolvo destronar o rei, que terá a sua cidade como menage, ficando sem efeito todo e qualquer decreto lavrado pelo monarca, a estas horas reduzido à expressão mais simples".
Que sirva para nos reciclar, para repensar a vida e a força de se sentir livre por alguns dias...
Feliz Carnaval!
(Guilherme Vargues - RJ)
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