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terça-feira, 14 de maio de 2019

Em defesa da Cultura Brasileira

Tem gente que se acha super patriota porque chora quando a seleção de futebol masculino perde.

Pra mim, isso tipo foda-se.

O orgulho que eu sinto é da nossa cultura popular, da arte produzida no Brasil, da Clarice Lispector, do Machado de Assis, do Guimarães Rosa, do Drummond, do Manuel Bandeira, da Cecília Meireles, Carolina de Jesus, do Portinari, da Tarsila, do Mário de Andrade, do Aleijadinho. E de Noel Rosa, Tom Jobim, Chiquinha Gonzaga, Carmen Miranda, Chico Buarque, Baden Powell, Caetano Veloso, Cartola, Candeia, Clementina, Clara Nunes, Elis. A Música é aquela deusa à qual todo mundo tem acesso.

A Música tem sua própria cadeia de produção, e muitos que vivem dela. Para fazer meu show no Clube do Choro no último dia 4, eu precisei de mais do que oito músicos. Alguém fez os arranjos, a direção musical. Alguém produziu o show, ou seja, assegurou materialmente que ele acontecesse. Alguém trabalhou para contatar e divulgar via imprensa, via redes sociais e outras formas de contato. Precisou de designer gráfico. Teve o técnico de som, o iluminador. Precisou de alguém na bilheteria, outro na portaria, precisou de uma equipe de limpeza e de garçons. Antes de tudo isso, alguém trabalha para organizar uma programação, alguém coordena esses processos todos, alguém capta recursos para viabilizar tudo isso, porque o Clube do Choro oferece aos artistas da cidade e ao público uma estrutura para que possamos compartilhar Música e Arte. E ainda tem os fornecedores. E ainda tem a Escola de Choro, professores, material didático, estrutura da escola, funcionários da escola.

O show era de lançamento de um disco, que demandou que alguém o gravasse, mixasse, masterizasse. Precisou de fotógrafo, ilustrador. Houve uma empresa de prensagem.

Olha quantos empregos envolvidos diretamente na cadeia de produção da Música! E estamos falando de um único show, de uma única casa, de um único disco.

Brasília forma e exporta grande músicos, artistas maravilhosos que levam nossa arte para o mundo, como Hamilton de Holanda e Zélia Duncan. Pedro Martins tem estado - agora - nos nossos jornais, reconhecido internacionalmente por sua guitarra tão única e inspirada. E é muito mais gente, muito mais. Gente de fora vem conhecer a Música e os músicos de Brasília. Sabe por quê? Porque Brasília tem a Escola de Choro, o Clube do Choro, a Escola de Música. Porque Brasília tem o FAC, tem espaços públicos onde se pode compartilhar a arte que se produz.

Se você acha muito bom ver o nome de uma empresa pública estampada na camisa de um time de futebol e acha muito ruim que haja políticas públicas de cultura que envolvam leis de incentivo, apoio e financiamento público de projetos culturais de interesse social, então, você realmente não merece morar na cidade que Niemeyer desenhou.

Quando um edital do FAC, que foi encaminhado adequadamente segundo as leis do DF, é cancelado, o fora-da-lei não é o artista não. Os fora-da-lei são o governador e o secretário de cultura, que, ainda mais do que exterminar a cultura da cidade, contribuem para tirar emprego de toda essa turma que citamos parágrafos acima.

Todos queremos a reforma do Teatro Nacional. O Governo tem a responsabilidade e o dever de promover a reforma, de devolver o Teatro à comunidade artística e ao povo do Distrito Federal. E ele tem que fazer isso sem desviar dinheiro da comunidade artística e da população. A deputada Érika Kokay, por exemplo, se ofereceu para buscar esses recursos via emenda da bancada federal do DF ao orçamento federal (*). Seus esforços foram rejeitados pelo governador.

Quando um espaço de convivência como o bar A Vizinha sofre uma multa de mais de R$10 mil por proporcionar música aos seus frequentadores durante 4 horas nas tardes de domingo, então estão sendo sacados os empregos dos músicos, dos atendentes, dos cozinheiros. São cancelados contratos com fornecedores de todo tipo, desde a bebida até a tenda. Estão sendo anulados espaços de convivência, de lazer, de arte. Estão nos aplicando um calaboca mesmo.

Um músico, geralmente, é um trabalhador precarizado, que não tem seus direitos trabalhistas assegurados e nenhum tipo de proteção social. Músico, assim como tantos trabalhadores informais ou "free-lancers", quando não trabalha, não recebe. E é a Música do músico que movimenta bares, teatros, centros culturais, que oferece matéria-prima pro rádio, pra festa, pra trilha sonora da sua vida, pro tema do seu romance, pra sua nostalgia. Se você acha isso pouco, então parece que esta sociedade horrível neste momento horrível que vivemos causou danos irreparáveis em você.

Aos que desejam o pleno e absoluto silêncio, recomendo a vida de ermitão. Ficaremos felizes de poder contar com sua ausência. Aos que sabem muito bem o que estão fazendo, recomendo prestarem atenção nas riquíssimas festas que tomam lugar em clubes e estádios, cujo som atravessa a cidade, e contra as quais nunca se move nem uma palha.

Os cachês dos músicos estão congelados há mais de dez anos, quando não retrocederam, em alguns casos. O sujeito paga mais de R$100 pra ir ver seu time no Mané Garrincha, e pede pra tirar da conta o couvert de R$15 da música que ele curtiu a noite toda. O bar não negocia o aluguel de jogos de mesas, a compra de toalhas, as contas de água e de luz, ou com os fornecedores de bebidas e alimentos, mas chora pro músico reduzir seu cachê.

É assim mesmo, desse jeitinho aí.

Cancelar editais do FAC, bem como recusar-se a rever a absurda e antiquada Lei do Silêncio, é censura, é calaboca, é emudecer a cultura e gerar desemprego. Tudo isso orna muito bem com os tempos que vivemos, de subserviência, vira-latice e ignorância relinchante.

Mas sabe outra coisa que orna também? Gritar. Porque calado (a), como nos querem, a gente não fica não.

(*) Nota da deputada Érika Kokay:
"Entrei em contato com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), na última sexta-feira (10/5) para sugerir que ele mantivesse os recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), com o compromisso desta parlamentar de construir junto à bancada federal do Distrito Federal uma emenda de bancada, para 2020, com o objetivo de reformar o Teatro Nacional. A proposta foi um dos encaminhamentos de audiência pública, realizada na Câmara Federal, no último dia 2 de maio, que discutiu o FAC e a Lei Orgânica da Cultura (LOC).


De forma rude e grosseira, o governador respondeu que as emendas seriam bem-vindas, mas iria, sim, retirar os recursos do FAC para a reforma do Teatro, impedindo o prosseguimento de qualquer diálogo sobre o assunto."

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Prosa do Avião - uma epifania

Com misto de assombramento e encanto, eu percebo, a cada vez que volto a São Paulo, que não a conheço mais. Desoriento-me nos caminhos, esqueço os nomes, falha-me a memória e a esperança de ali criar meus porvires. Caminho por calçadas que já foram tão surradas pelos meus pés, mas agora eles não encontram o fio da meada; olho para o alto da Consolação e não vejo a Paulista; não sei por onde anda o seu Antônio nem a vontade que eu tinha de um dia morar numa casa de vila. Os sons da cidade mais me impressionam do que comovem, e eu me vejo andando em círculo, cercada por flores de um buquê, não de um jardim.

Tudo que manteve seu sentido eu carreguei comigo, errante, mas leal. Meus olhos ainda guardam as manhãs que raiavam na janela do velho apartamento do Largo do Arouche, que hoje, na minha imaginação, é habitado somente pelas lembranças que lá deixei, e que, numa fotografia mental, aparecem-me em cores desbotadas.

Eu nunca mais voltei à USP, desabafava melancólica com a pessoa que mais me conhece na grande metrópole. Quando penso na ECA - Escola de Comunicações e Artes, onde estudei -, sinto o cheiro da grama molhada de chuva mais do que dos cachorros insistentes que dividiam o espaço conosco. Ouço a voz do Steven Tyler dizendo que "something's right with the world today/and everybody knows it's wrong", e os versos fazem mais sentido do que nunca.

Cada visita é uma nova ruptura e um novo começo. Eu encontro a cidade enquanto me perco na nostalgia de não me ver mais numa paisagem que sempre tinha me definido. Há tanta coisa que adormece na gente, que é difícil mensurar o tamanho do que se perdeu. Como se, do alto do Edifício Itália, eu não possuísse mais a cidade, mas sim, pudesse ver no horizonte os lugares onde ela não está e eu estou. Mais fácil, para mim, contemplar aliviada o que ganhei.

Naquela noite de domingo, quando ele abriu a porta e eu vi seu rosto, senti-me outra vez iluminada por aqueles raios que me despertavam nas manhãs da minha juventude, como se outra vez eu me enxergasse no meio do caos cinza, colorido de grafite e de sonhos de gente que vem de todo lugar. Ao emoldurá-lo, São Paulo me acalmou do susto e me devolveu para mim mesma.

E, tranquila, eu voltei para casa.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

A estrada e a poetisa estão a caminho!

A experiência de lançar meu primeiro livro foi intensa. Em Retratos - E algumas mentirinhas a mais, lançado em 2013 pela Editora Giostri, estavam reunidos poemas meus desde tempos imemoriais até o fim de 2012. Claro que os recentes eram maioria, mas os da origem também estavam lá.



Agora é diferente. A estrada e a poetisa é resultado das andanças, especialmente entre Porto Alegre, Brasília e São Paulo, mas também Rio e Fortaleza, cidades que me cativam, e uma pitada de Salvador, porque a Bahia está no sangue e na alma. Pretendo atingir a meta de arrecadação para poder lançar meu livros nessas seis cidades, pelo menos, para agradecer pela inspiração e pelos motivos de viver com que fui e sou contemplada.

Você pode ser parte desse projeto: A estrada e a poetisa será lançado pela Folio Digital, em sistema de financiamento coletivo. Uma produção colaborativa, na qual você adquire seu livro antecipadamente para ajudar a financiá-lo. Assim:

Com R$ 30,00, você recebe seu livro autografado com muito carinho na sua casa!

Com R$ 60,00, você recebe o livro autografado com o mesmo carinho, e ainda leva Retratos e meu EP Curto Pavio!


Com R$ 100,00, você recebe seu exemplar autografado e com carinho, e ainda mais três para você dar de presente a quem quiser!


Quer fazer parte desse projeto? Clica aqui!

Conto com vocês em mais essa empreitada de artista independente, que sofre e sua pra bancar sua arte, mas que a realiza com amor e esperança nos novos tempos que, demore o que demorar, virão. Nossa estrada leva pra lá.

Obrigada desde já!

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Um novo livro vem aí...

Já se completam mais de 3 anos desde que lancei Retratos - E algumas mentirinhas a mais pela Editora Giostri. Foi um processo cheio de alegria e de emoção compilar as poesias, ver o livro impresso, lançá-lo em seis cidades, vender as unidades da primeira edição em um ano. Mandar rodar mais.

Vejo-me às voltas com esse processo novamente, ainda mais feliz, por duas razões: o livro será editado pela Folio Digital, o que me permitirá trabalhar com um amigo querido e companheiro de lutas, Miguel Papi. Outra: terei o prazer de ter amigos e amigas, e pessoas que curtem meu trabalho como parceiras nesse projeto, mais uma vez, como foi no EP Curto Pavio. Mais adiante vocês terão mais informações...



Por ora, já revelo o nome do novo rebento: A estrada e a poetisa. O título vem da inspiração provocada pela música "A estrada e o violeiro", de Sidney Miller, e também das andanças desta pretensa poetisa que tem na estrada - enquanto ato de caminhar, enquanto o deixar-se levar pelas belezas que se veem nos lugares e nos povos -, sua maior fonte de alegrias e inspiração.


"Deixo-me guiar por estrelas sopradas
Por ventos que cantam a estrada,
Em laços recém-desatados,
Em caminhos recém-descobertos.
Porque se eu paro, não fico
Ou fico ali em aberto."

(Alessandra Terribili - A estrada e a poetisa)





sábado, 27 de fevereiro de 2016

A casa no morro

A mãe sempre gritava por causa da demora no banheiro, mas nem imaginava que o menino passava minutos infinitos (para menino, tudo é infinito) de pé em cima do vaso sanitário, de onde seus olhos podiam alcançar a janela que ficava quase na altura do chuveiro. A janelinha era pequena, mas dela, via-se o topo do morro ao longe, e ali o menino ficava vagando sem pressa de voltar.

O morro parecia que tocava o céu. Não tinha nada acima dele. Da janela, não enxergava o chão, só o alto, onde havia uma casinha branca e o céu. O que via da janela era uma combinação do verde-marrom do morro, com o azul do céu e o branco da casinha pequenina. Pensava que queria ir morar naquela casinha. Imaginava risonho a vista que teria da cidade: talvez, de lá pudesse ver o rio!

Não precisaria de cerca, porque ninguém que chegasse ao alto do morro mereceria ser temido. Seriam bem-vindos na sua casa, ele ofereceria café, chimarrão, bolo de laranja. Plantaria árvores em volta da casa, e assim, poderia também oferecer frutas frescas para quem o visitasse. Haveria uma horta! Com certeza, teria um cachorro. Não para guardar a casa, para brincar na casa.

Saía da casinha só quando a mãe gritava, pensando que o filho estava enrolando no banho, gastando muita energia.

Conforme os anos se passavam, a casinha branca ganhava mais adereços, animais, árvores, cores e até cômodos: quando decidiu ser arquiteto, achou que a casa teria de abrigar seu atelier.

No aniversário de 13 anos, pediu de presente um binóculo. Recebeu o agrado com muita alegria, e correu para o banheiro enxergar a casa onde moraria um belo dia. Quando subiu no vaso (ele tinha espichado bastante desde os seis anos, mas não o suficiente para alcançar a janelinha) e olhou pelo binóculo, sua decepção foi flagrante: a casinha branca não era uma casa. Era um letreiro que exibia o nome do morro: Apamecor.

Ficou cabisbaixo por alguns momentos, ninguém entendeu por quê. Mas era como se a casinha branca tivesse sucumbido a um terremoto, uma tempestade, um furacão. Foi tragada pela terra. Quando fechava os olhos via os escombros de tudo, isso doeu, e ele sentiu falta de ser criança de novo.

Mas daqui a pouco, uma luz se fez em seu rosto e ele voltou a ser feliz como antes. Dia seguinte, ligou o chuveiro e postou-se sobre o vaso sanitário, olhando atento pelo binóculo. Começou ali a projetar a construção da sua casa de infância.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Dois anos de Brasília

Há um ano, eu completava um ano de Brasília. Até então, eu não estava entendendo bem, mas nunca deixei de confiar nas minhas escolhas. A mudança para o cerrado foi, talvez, um pouco brusca, motivações meio nubladas, mas alguma coisa aqui tinha sobrado pra eu fazer desde que parti, naquele fevereiro de 2011, depois de insuficientes dez meses. Há um ano, eu não entendia bem.

"Brasília é viva como os seres que têm vida", eu escrevi num poema muitos anos antes de sonhar que moraria na capital federal um dia. E ela segue me dando motivos para lhe escrever mais poemas e canções. A inspiração que eu colho aqui floresce até sem chuva. Precisa só destas cores lindas, do traço do arquiteto, deste céu absurdo e, principalmente, das pessoas maravilhosas que esta cidade jogou irreversivelmente na minha vida. Nunca terei agradecido o suficiente...

Mesmo com os tempos difíceis que temos vivido, fico tranquila porque sei que aqui também floresce inspiração para a luta. E hoje eu tenho mais que certeza: tenho amor. A ponto de usar este post celebrativo para agradecer até a JK por aquela ideia maluca de fazer este lugar existir. Mas agradecer principalmente a vocês, gente que colore, umedece e faz tanto sentido na minha história. Ah! E ao querido Niemeyer, por tudo, mas especialmente pela Torre de TV Digital. Nunca terei agradecido o suficiente, mesmo.



domingo, 19 de julho de 2015

O amor em tempos sem Gabo

Eu tinha andado por Cartagena antes, de mãos dadas com Gabriel García Márquez, acompanhando com os olhos e o palpitar do coração a história de Florentino e Fermina, mas então eram outros tempos. A cidade hoje está muito mudada.

O mar continua lá, mas as águas são outras. Jogar-se nelas permite uma navegação tão sem fim, que dá medo de não voltar. Não medo. Mais aquele frio na barriga. O receio sedutor do que é desconhecido e irremediável. O azul está aturdido pelo cinza dos dias nublados de inverno, mas acaba que me faz lembrar o verde escuro de Copacabana, ou, com esforço, até o verde-marrom dos mares da minha infância. Mas o infinito do mar é sempre o mesmo, e é assim pra mim como foi pra Florentino também. E há de ser para muito mais gente que vai vir navegar em outras águas do mesmo mar.

Embriagada de poesia e amor pelo ar que um dia Gabo respirou, é como se não fosse permitido sair sem escrever. Escrever é sentir tanto que precisa transbordar pelas pontas dos dedos num teclado, para não explodir. E o que eu sinto é tão igual, mas as águas são outras. Passou muito tempo. Mas nem tudo muda tanto assim. "A sabedoria nos chega quando já não serve para nada". Mas ela fica aí, servindo para quem vem depois e a apanha no ar.


"Coisa bem diferente teria sido a vida para ambos se tivessem sabido a tempo que era mais fácil contornar as grandes catástrofes matrimoniais do que as misérias minúsculas de cada dia. Mas se alguma coisa haviam aprendido juntos era que a sabedoria nos chega quando já não serve para nada". 

(Gabriel García Márquez - O amor nos tempos do cólera)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Brasília

Da minha casa, eu vejo o céu
Do céu, eu vejo tudo

Subo até lá e assisto a cidade acordar
Viver, cansar-se, dormir
Adormece numa cama vermelha
Com riscos laranja, amarelo, rosa

No movimento da noite, uma flor se ergue
Brilha
E me leva para casa

De onde eu vejo o céu
E respiro o mundo.


***
#Brasilia55anos

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A Vila Matilde

Às vezes, é a Vila Matilde.

Ela cruza o caminho e chega num sorteio de bicicleta dum programa vespertino na TV. Nas caminhadas longas em pernas curtas até um mercadinho ou uma banca de jornal. Até o correio.

A Vila Matilde vem e traz um mundo que era muito grande, quando a casa era um sobrado e a rua era pacata, mas mesmo assim, a gente tem medo.

A vizinha curandeira
A vizinha alcóolatra
Os meninos jogando bola, fazendo barulho no portão

Uma tartaruga e um cachorro convivendo (mal)
Carpete
Quintal
E um camundongo eternamente perdido no quarto dos fundos

A sensação de que a vida será imensa
Uma pulsação de coração que joga seu próprio som pra fora e além
Uma paz que ficou ali, perdida
Presa numa ratoeira
Esquecida que nem brinquedo velho

Sempre que eu esqueço como faz pra ter paz,
Penso que preciso ir lá na Vila Matilde procurar.

sábado, 22 de novembro de 2014

Céu de Brasília

Gosto demais de perceber o quanto sou pequena. Me encantam todas as coisas que me jogam na cara a pequenez.

Ser pequena é um alívio. Nenhum fardo, nenhuma tristeza, nenhuma responsabilidade pode ser tão grande se eu não puder carregar. Eu sei o meu tamanho.

É por isso que me faz tão bem estar diante do mar, olhando até onde a vista alcança, e saber que tem muito muito muito mais lá na frente. É por isso que o samba é minha forma de me relacionar com a vida, porque com seus cem anos de história, me põe a nadar numa piscina infinita de acordes, poesia e batucada. E eu sou só uma gotinha ali.

É por isso que o céu de Brasília me fascina. Ele se estende para cima, quase toca o chão, vai prum lado e pro outro até que eu não possa mais ter noção da grandeza. Quando o sol está brilhando, ofuscando a visão. Quando as nuvens escuras o decoram com desenhos e muito mais que três dimensões. O céu de Brasília, quando nublado, te mostra que você nem sabe quantas dimensões podem existir.

Sou eu pequena aqui embaixo olhando pra toda imensidão que sempre me lembra que nada é definitivo, que nada é irreversível, que nada está finalizado, que nada pode ser tão pesado. O céu é maior, e é tão leve.


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Um ano de Brasília

Cheguei há um ano, e meu avião pousou junto com as nuvens de chuva. Caiu muita água do céu naquela noite, e eu gostava de pensar que era Brasília dizendo pra mim: "eu sabia que você voltaria".

Um ano é bem pouco tempo, mas suficiente para afirmar que muito do que eu imaginava nunca foi do jeito que eu pensei, mas foi por imaginar daquele jeito que eu cresci tanto nestes últimos 365 dias. A imaginação quem me deu foi Porto Alegre. A régua e o compasso, no meu caso, veio da cidade imaginada (e executada) por Niemeyer e Lúcio Costa. E agora eu, arquiteta das minhas próprias escolhas, posso dizer também que muito do que se me apresenta eu não imaginava. É muito bom ser surpreendida.

Só tenho a agradecer a Brasília e às pessoas incríveis que aqui habitam. Desejaria brindar com a água da chuva, mas, infelizmente, acho que isso ela vai ficar me devendo por hoje. Vai ter que ser com cerveja mesmo.



sábado, 25 de janeiro de 2014

São São Paulo, meu amor...

A borboleta e o avião

Jardim América, Jardim Ângela, Jardim Japão

A Ponte Estaiada e o Minhocão

Um quadro no MASP
Um grafite na Amaral Gurgel

O rio e a bica
O parque e o complexo industrial
Chuva. Sol.

Gente diferenciada
Gente marginalizada
Gente diferente
Gente

A intolerância que leva à morte
O sonho que leva à morte da intolerância

Cavalera
Adonyran

Sashimi e Baião de Dois

A Águia de Haia
voando sobre a cabeça
do Engenheiro Berrini

Estádio do Morumbi
Campinho do Ceret

Três horas para chegar
Três minutos para terminar

Trem da CPTM e barquinho do Playcenter

O Bixiga e a Liberdade
O paraíso e a consolação


O Museu da Língua
A língua se reinventando
no baile dos sotaques 
e neologismos

A Paulista enfeitada
A Paulista ensanguentada
A Paulista manifestante

Guarapiranga e Carandiru

Pulsa, pulsa, pulsa, pulsa...

Quase cinco séculos.
Parece que foi ontem.









sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Eu vejo cores em você

Adoro Brasília
                      amarela
                      azul
                      ou cinza
                                  com verde.



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Três Apitos

Eu tenho a sorte de não ser de um lugar só.

Sinto-me do mundo, e do Brasil, como um mundo em si. Olho e meus olhos se enchem de cores, às vezes, elas caem dos olhos em forma de água salgada. Mas é porque nasceram no peito mesmo, e meu peito é de água do mar.

Nasci na maior cidade da América do Sul, uma linda e louca que me ensinou justamente isso: a gostar do mundo. Me deu os olhos que veem e o peito que sente e fabrica palavras e emoções com a mesma força.



Renasci na minha Porto Alegre, de quem tenho saudades todos os dias. Não sei quem eu sou sem essa eu que nasceu lá.


E a minha Brasília amarela, que tem céu infinito e tanta vida e flores no meio do poder e do concreto, que chega a ofuscá-los. Ela fica bem no meio, não imagino lugar melhor pra ressignificar e reordenar caminhos.


De cada uma eu levo uma porção de coisas. Eu tenho três casas. Tenho a sorte de não ser de um lugar só.

"A tua raça quer partir,
guerrear, sofrer, vencer, voltar.
A minha, não quer ir nem vir.
A minha raça quer passar".
(Cecília Meireles)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

11 de setembro: Salve a Catalunya!

Certamente, hoje, com muita razão, muitos(as) lembram Allende e uma parte obscura da história da América Latina. Peço licença a todos(as) para, ao mesmo tempo em que faço coro com vcs, que não deixam o mundo esquecer, lembrar outra história que também tem palco num 11 de setembro.

Em homenagem à histórica luta do povo catalão por liberdade, autonomia e independência, segue abaixo trecho de um modesto poema meu sobre a Catalunha e sua capacidade extraordinária de nunca estar vencida. Llibertat!



BRASIL-CATALUNHA

Com a precisão de uma história bem contada,
No grito forte e na alma lavada,
A sardana e a ciranda se deram as mãos.

Quatro colunas cantam como flautas,
E, como um cavaco na nota exata,
Mergulham a memória na canção.

Na beira do céu, vejo o mestre Telê sorridente,
Celebrando com toda essa gente
Que está protegida por Ogum!
Pois quem souber olhar além do espelho
Pode ser que veja o Sol Vermelho
A bronzear o Abaporu...

Eu queria compor um lindo samba
Que pudesse cantar esse encanto
Para a inspiração dar o recado:
A luta de um povo por liberdade
Não cessa, nem quer piedade
Brilha feliz em vermelho e dourado.

Eu queria recitar os meus versos
Com a leveza do peso da história
Para a melodia ter traços e cores:
Dizer que a beleza é capaz de ganhar
Da dor e da dúvida
E a arte é uma arma de libertar.

Assim, passam-se séculos de peleia,
E se os jornais temerem o fim das cadeias
As ruas em festa, dançando, testemunharão
Pois quem precisa de notícia?
Eu prefiro mesmo a poesia...
Para compor um lindo samba em catalão.

Però qui necessita la notícia?
Jo prefereixo la poesia
Per compondre um bell samba en català.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Retrato

Os olhos são o sul.
Se alegres, no verão.
Profundo e feliz mar azul
Que se pinta de marrom.

Contrariados, porém,
São inverno cortante.
Um frio desdém
Que fere o semblante
E deixa, em degradê,
O charme hesitante
De se proteger.

Pela cabeça, passam conflitos,
Confusões, grandezas e sonhos,
Soluções, problemas e mitos.
É São Paulo pulsando nos trilhos
Da sem métrica canção
Do imprevisível da vida,
Da fonte da contradição.

O peito é de terra vermelha,
Que tem a aspereza da seca
E vontade da nova estação.

As mãos são de Rio de Janeiro,
Que fazem os próprios tambores
Do corpo, a sua extensão.

A boca é Recife.
Quando em sorriso,
É brisa suave
Que sopra em tons graves
E se esparrama
Num doce improviso.

Mas, quando em beijo,
É o rio vibrante
Que passa com a calma
E a leveza das águas,
Fazendo-se a cama
Do navegante.

E quando ri,
É o mar aberto
Sem perto
Sem longe
Sem fim.


***
Embora meu livro Retratos - E algumas mentirinhas a mais tenha sido publicado em fevereiro/2013, este poema não poderia ter outro nome que não "Retrato".

terça-feira, 4 de junho de 2013

Lado a Lado

Quando entrei,
Olhou-me desconfiada e vaidosa.
Arrogância, um pouco, até,
De quem se sabe tão bela
Que sofre da dor infinita
Da parte de si que não vê.

Eu Rio,
Ela sabe que não.
E seguimos,
Como uma da outra
O par e a contradição.
Ela sem me cortejar,
Eu sem lhe dar minha mão.

E havendo mais nada a esperar,
Que melhor amor existe
Que fazê-lo sem notar?

Consequência natural
De uma mútua atração
De querer sem precisar
De pisar o mesmo chão
Que a vida
Um dia
'Inda há de juntar...


***
Poema batizado pelo amigo Gustavo Cossi!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O ódio, a náusea e uma flor para romper o asfalto


Nos 110 anos de Drummond e nos 3 dias da eleição de Fernando Haddad em São Paulo.
***

Eu me lembro bem da eleição da Erundina, em 1988. Tinha 9 anos. Ela era a terceira colocada nas pesquisas, mas surpreendeu e superou Paulo Maluf (na época, no PDS, a velha Arena da ditadura) e João Leiva (que era do PMDB do então governador Quércia). Uma mulher paraibana foi a segunda a chefiar a Prefeitura da maior cidade do Brasil depois do regime militar, época de prefeitos biônicos.

Depois dela, vieram 8 anos de malufismo. Primeiro, o próprio. Depois, seu sucessor, Celso Pitta, cassado por corrupção. A crise na cidade somou-se a outros fatores da conjuntura - inclusive, nacional - e abriu espaço para uma nova liderança que se projetava, Marta Suplicy. Em 2000, ela venceu as eleições e foi a segunda prefeita do PT em São Paulo. Dos quatro anos que se sucederam, eu me lembro perfeitamente bem. A criação do bilhete único, os corredores de ônibus, os CEUs na educação municipal, a política habitacional avançadíssima, políticas para as mulheres, para a juventude, combate ao racismo e à homofobia. Foi um baita governo.

Em 2000, aliás, o Governo Federal do PSDB comemorava 500 anos do "descobrimento" do Brasil, como quem passa asfalto sobre a nossa história. Afinal, nesses 500 anos, eram eles legítimos representantes dos que sempre mandaram e desmandaram no país, desde D. Pedro I, desde antes. Definiram que o Brasil estava fadado a ser dependente, que Universidade não era para todo mundo mesmo, que nem todo lugar poderia ter energia elétrica mesmo, que o latifúndio era a única forma de produção mesmo. Asfaltaram esse caminho e seguiram. Mas veio 2002.

Em 2002, José Serra foi o porta-voz do projeto político que propunha o tédio para o Brasil. Vamos continuar onde sempre estivemos, não há por que mudar. O caminho está asfaltado e nós estamos percorrendo. Nada de novo pode acontecer. Não há esperança. Precisa haver medo de mudar. E tédio para continuar.

Mas ele perdeu. Finalmente, ganhávamos a Presidência da República.

Em 2004, não conseguimos reeleger Marta em São Paulo, mesmo com a periferia ao seu lado. E lá veio o Serra com seu tédio. Não terminou seu mandato, virou governador, não terminou seu mandato, tentou ser presidente de novo, perdeu.

Quis voltar à prefeitura agora, em 2012. Depois de ter deixado a cidade com Kassab e, assim, contribuído para a criação de mais esse ilustre personagem do cenário político nacional, o homem ainda quis voltar. O Maluf, quando quis voltar depois do Pitta, disse que só ele poderia consertar a cagada que ele mesmo fez. Pelo menos, era engraçado. O Serra nem isso.



E aí vem o ódio. Esse ódio que começou a ser cultivado em 2002. Ódio que, em 2004 em São Paulo, quando da nossa derrota, fazia alguns dizerem que pobre não sabe votar. O ódio expresso na fala de Borhausen em 2005, que anunciava que se livrariam da "nossa raça" por 30 anos. O ódio que eu sentia nos bairros de classe média em São Paulo, quando fazia campanha para Lula e Mercadante em 2006. Chamavam-nos de ladrões, faltava cuspir-nos na cara. Esse ódio que se travestiu de fé cristã e permeou todinha a campanha do Serra em 2010. E em 2012.

Esse ódio praticado por pessoas que me acusam de mensaleira sem me conhecer, mas não sabem o que é o tal processo do mensalão, nem fazem ideia. É um ódio que tá nos olhos e na boca de gente que dirige agressões e ofensas a amigos e amigas que tenho, que votaram e apoiaram Haddad. Ódio transbordado de pessoas que dizem que o socialismo mata e o capitalismo salva, pessoas que não conhecem bem a história e costumam reproduzir acriticamente ideias vagas e deturpadas sobre países, eventos, conceitos, políticas. Ódio que percorre as palavras de imbecis do naipe de Azevedo, Mainardi, Pondé, Jabor, Waack.

O ódio contra o PT não é pelos seus erros. É pelos seus acertos.

Não devolvo com mais ódio. Fico com um certo nojo, confesso. Chega a dar enjoo. Ouvi e li cada coisa nos últimos dias pré-eleição em São Paulo, bem como nestes poucos dias pós-eleição, que me fez ter vontade de vomitar. Agressões, ofensas, preconceitos de toda sorte. Não devemos seguir até o enjoo total, mas nem vomitar nossas palavras sobre quem jamais as aceitaria. Melhor traduzir esse nojo numa sonora gargalhada comemorativa: nós vencemos.

Na disputa de projetos em São Paulo, venceu o PT. E venceu para executar sua vocação transformadora, para peitar as desigualdade históricas, como fizeram Erundina e Marta. Para olhar para as periferias com respeito, não com clientelismo-coronelista. Para fortalecer os serviços públicos. Para que nunca mais se admita que uma pessoa seja agredida ou morta na rua por exercer sua livre orientação sexual. Essa é a nossa flor: o nosso programa de mudança.

Uma flor nasceu na rua! E ainda que a execução desse programa acentue o ódio de classe em alguns, que sempre nos odiarão por termos questionado sua propriedade sobre nossa cidade e nosso país, que sempre nos odiarão por termos retirado-lhes o poder que pensaram ser exclusivo deles, que sempre nos odiarão porque, sob nossos olhos, não poderão saquear o povo brasileiro como sempre fizeram (e ainda querem vir falar de mensalão)... Ainda assim, muitos outros e outras se encantarão. A flor é nossa arma para esse encantamento. A massa cheirosa vai ficar isolada, vendo passar na avenida Paulista um samba popular.

Se a esperança pôde vencer o medo, o que poderia vencer o ódio? Essa flor nossa. Ela é capaz de furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.



***
Muito feliz por ter visto a vitória de Fernando Haddad domingo em São Paulo. Gargalhando para curar a náusea e cultivando flores para vencer o ódio.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Rio Grande do Sul...

Alguns anos atrás, eu tinha escrito um poema que era mais ou menos assim:


Eu queria ser gaúcha
Porque de tanta coisa linda que vi no sul
As pessoas são a melhor delas
Porque sua capital é vermelha
Porque seu pôr-do-sol despretensioso e belo
Parece que se converte em notas musicais.

Mas não posso ficar longe do Rio

Ir até lá respirar de vez em quando
Só pra sentir a paz de estar abraçada pela Guanabara

Também não dá pra abrir mão do Recife

Vê-lo transbordar cultura, sabedoria
História e consciência de si
Respeitar seu próprio sotaque,
E permitir que você tire forças da Praia de Boa Viagem.

E nunca vou esquecer que foi a jovem capital federal

Que mudou a minha vida
Ao me ver em mim
E me mostrar pra mim mesma.

Recentemente passei a amar minha São Paulo.

Foi ela que me ensinou a ver esse mundareu de coisa boa.


Não lembro bem, eu meio que perdi o original. Ao tentar recompô-lo, creio que escrevi outro. Mas a ideia era essa.

Pensei nesse poema por causa do início dele, e porque hoje moro em Porto Alegre. Dia 20 de setembro é feriado no Rio Grande do Sul, data que recupera a Revolução Farroupilha. Eu não tenho lá muito apreço pelo bairrismo mítico, prefiro vê-lo na sua expressão simpática de "rir de si mesmo".

E adoro essa coisa polarizada do Rio Grande do Sul. Ou morre de calor ou passa muito frio. Ou é Inter ou é Grêmio. Esquerda ou direita. Gosto da forma como o povo de Porto Alegre habituou-se a ocupar o espaço público, entendendo como seu, mas não só seu. Sinto isso ao passear pela Redenção num domingo, pelo Gasômetro, pela zona sul. Gosto da forma como fui acolhida pelos que já me esperavam chegar, mas especialmente, pelos que nem sabiam que eu chegaria e me puseram pra dentro de suas vidas.

Ainda falta muito pra ver. Mas os pampas de Bagé, as ladeiras (lombas!) da Serra Gaúcha, o mar marrom do litoral, o charme tão peculiar das cidades na beira da Lagoa e a diversidade da vida na região metropolitana compõem um cenário tão plural que não pode ser simplificado nisso que se propagandeia como "a" tradição gaúcha. A que desfila no 20 de setembro é só uma das facetas. O Rio Grande do Sul é muito mais.

Eu não ligo quando chove, eu me aborreço muito quando faz 2ºC, eu torço pra chegar o verão, eu imagino muitas coisas que poderiam acontecer, e busco me inserir nas que acontecem. Vou à feirinha de orgânicos, adoro comer xis, acho o Beira-Rio o estádio mais bem-posicionado que eu conheço e acho que dividir um chimarrão na sala de aula é um gesto sutil de dizer ao outro que você é amigo dele. Atitudes simples que fazem brilhar um cotidiano. É isso, é tudo isso: o Rio Grande não te deixa ser indiferente. Ele é um convite a se posicionar.

Obrigada por me receberem.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O caminho de Alice

"O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?"

"Isso depende muito de para onde você quer ir", respondeu o Gato.


Alice chegou a um país esquisito e logo quis saber: "Senhor, é aqui o País das Maravilhas?". "É não", Rafael respondeu. Rafael era anjo e tinha logo nome de anjo que era pra ninguém achar de duvidar. Notou o estranhamento de Alice e completou: "Tem maravilha em lugar nenhum não, moça".

Levou muitos conselhos de Rafael na mochila discreta, e seguiu andando pra enfrentar o tal país, rumo ao das Maravilhas. Sabia que existia, já tinha lido e imaginado, em algum lugar estava. Seguiu a travessia e viu Clarissa, que era agitada e sorridente como uma rainha mesmo, mas era forte e de pouca vaidade, como pouca rainha e rei consegue combinar. Alice pensou que rainha que é rainha não precisa ficar provando poder toda hora, porque não tem dúvida do que pode. Clarissa disse a Alice que maravilha é onde se está, e depende menos do que está à volta do que dos olhos que veem à volta. Continuou sorrindo.

"Mas ninguém aqui conhece o país que busco? Ou estão ignorando porque talvez seja perigoso ir até lá?". Joaquim ouviu essa indagação em voz alta, e disse pra Alice que País de Maravilhas não conhecia não, mas o caminho que talvez apontasse pra lá era perigoso, com curvas, cruzamentos, pedras. Ele falou com serenidade tal que Alice não teve medo de seguir o caminho, só ficou desconfiada de si mesma, de não desistir na metade. E Carlos contou que era árduo sim o caminho, mas que era muito melhor saber logo a verdade do que ser enganado e descobrir só depois. Porque você só enfrenta uma realidade ruim se conhecê-la sem medo.

Tentando manter-se sem medo e com os olhos abertos para a verdade, viu Débora colhendo flores. "A verdade vale a pena, Alice". Débora sabia bem porque ela mesma parecia com a verdade, de tão bonita e intempestuosa.

Era bom que esse País das Maravilhas valesse a pena, porque tanta confusão no coração, um pouco de medo e insegurança e desconfiança de si mesma faziam-se curvas, cruzamentos e pedras no caminho de Alice. E seguiu mais e mais e chegou a Eduardo, e o reconheceu e se reconheceu. Ele falava que pra evitar errar, às vezes, a gente tem que se deixar transbordar. A gente erra muito, mas não tem problema, porque vida é uma só, mas verdades são muitas.

A gente acerta e erra, mas Alice precisava acertar o caminho, praquela viagem não ser em vão e ela vencer a vontade de desistir que o cansaço e a falta de esperança trazem quando aparecem obstáculos ou um não-saber-aonde-ir. Pensava nisso quando ouviu, de longe, duas fadinhas brigando, e brigavam porque não entendiam que erro e acerto nem sempre são absolutos, e queriam acertar sempre, desprezando que só quem acerta sempre é o deus de cada um, que a gente sempre imagina que é perfeito, mas nunca se provou pra gente que haja alguém perfeito. E elas não se perdoavam pela falta de perfeição...

Alice beijou as duas fadinhas e seguiu sua jornada. Passou por dois guerreiros, eram Gabriel e Elisabete. Naquele país esquisito, guerreiros não usavam lanças, nem armas de fogo. Não se protegiam muito também porque todo o seu povo os protegia. Às vezes choravam, mas depois abriam largos sorrisos de esperança e força. Sempre venciam. Alice lhes pediu uma indicação de caminho e revelou seu medo de errar - "Não posso errar justo agora, não tenho tempo". Eles disseram que todo caminho tem mão-dupla e que tempo nunca temos, então, o jeito é desprezá-lo pra que ele não aja contra nós.

Continuou andando Alice, mais corajosa agora, porque não ia viver pra sempre, mas não precisava atropelar todo o agora por causa do depois. E só porque ficou corajosa, pôde conhecer Ângela, que não era anjo porque não queria, e acabou sendo uma criatura inexplicável e indefinível. Ela ria aqueles risos escapados, e gostava de não se preocupar com o que poderia ter sido, pra não perder o tempo atual de amar as pessoas. Ângela era exatamente como o amor devia ser: leve, alegre, intenso.

Alice já não sabia mais o que esperar do País das Maravilhas que estava buscando. Aquele caminho longo a fez ver outras coisas que relativizaram em sua cabeça o que, afinal, haveria de maravilhoso num País de Maravilhas. Como aquelas peças que os momentos pregam às vezes, deparou com uma placa que dizia: é por aqui. O medo de errar o caminho se foi, porque sim, ela estava no rumo certo. Apertou o passo feliz, mas com um pouco de nostalgia. Leu a placa porque naquele país esquisito aprendeu a ler. Parecia duro, mas era mole que nem massa de modelar.

"A gente modela, Alice, o país aqui e os países lá fora não estão terminados. São modeláveis", era voz de Arlete, que tinha um olhar distante mas pés bem presos no chão. Não caía e andava leve. Alice partiu sabendo que o País das Maravilhas também haveria de ser modelável, mas sua vontade de encontrá-lo nunca seria modelável.

Encheu-se de si mesma e, com olhar de festa, viu Jonatas e Bruno acenando, e de ver acenos felizes pensou que até logo não é adeus, e que poderia levar consigo alguns dos doces que eles lhe jogavam enquanto ela saía. Alice acabou chorando, mas tinha doces, conselhos, varinhas de condão e óculos bem limpinhos em sua mochila, porque os levava do país esquisito. Acenou de volta e foi correndo, porque agora sabia bem aonde ia chegar. E todo aquele pessoal, entre anjos, rainhas, fadas, guerreiros, estrelas, afagos, doces, todos sentiram saudades de Alice, mas torceram muito pra que ela chegasse ao seu País das Maravilhas. Não porque ele de fato existisse. Mas porque eles sabiam bem que foram eles que a ajudaram a encontrar o que ela sempre esteve buscando.

Uma homenagem a uma terra esquisita, cheia de pessoas maravilhosas, de onde eu, certamente, sentirei muita falta.