sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Intolerável

Não existem palavras que definam o que foi o comportamento daquele monte de trogloditas estudantes da Uniban São Bernardo.

A história da menina vestida “com pouca roupa”, que praticamente foi atacada pelos colegas, agredida, perseguida, assediada, humilhada, é de chorar. Que tipo de gente promove um tumulto com o objetivo de violentar alguém? Que tipo de gente faz isso como quem vai à esquina comprar cigarros?

A confusão foi tamanha que a polícia foi acionada. A estudante só conseguiu sair da faculdade enrolada num jaleco e escoltada, e ainda assim, sob vaias e xingamentos. Não vi o famigerado vídeo no YouTube, não tenho estômago pra isso. Imaginar a cena já me faz passar suficientemente mal. Mas há quem tenha estômago de aço pra essas coisas, e esses fotografaram e fizeram vídeos pelo celular da cena bizarra que a Uniban presenciava.

Não há nada que justifique isso, nada. Nenhuma história anterior, nenhum contexto de conflito – que não parece haver. “Agiram mal, mas ela provocou”, li em alguns depoimentos de colegas. E certamente é o que muitos pensaram.

O que dizer de um torcedor do Palmeiras, vestido a caráter, que é agredido violentamente por torcedores do Corínthians? Que ele provocou??? A animalidade que algumas pessoas podem assumir, a possibilidade de o insano acontecer, não é motivo para atribuir à vítima o papel de cúmplice da violência que ela mesma sofreu. O normal não é isso. Nosso paradigma tem que ser o da normalidade, o das pessoas que convivem socialmente, e não o de animais incapazes de ter discernimento ou de ter a razão prevalecendo ao instinto.

Não me importa que roupa a moça vestia. Importa que ela foi duramente violentada, e isso não podemos tolerar.

Deveria importar para os julgadores de plantão que o que mais se vê neste mundo de comunicação globalizada e instantânea é milhares de listas de mulheres mais sexy, mais desejadas, mais bem-sucedidas por terem seu corpo “em forma”. As mulheres mais festejadas pela mídia são as que cumprem padrões estéticos, não éticos, profissionais, políticos ou morais. As que são expostas como referências para as meninas são as que são desejadas, as que vestem pouca roupa, as que deixam marmanjos babando pela sua sensualidade, exaustivamente explorada por tudo que é revista masculina, feminina, canal de TV privado ou não. Todas as meninas querem ser bem-sucedidas, aceitas. Pra isso, ensinaram-lhes que devem ser desejadas. Devem ter belos corpos e expô-los.

Não quero fazer um debate determinista sobre o que levou a garota a se vestir de forma x, y ou z. Muito menos pretendo justificar a ação de lado a lado a partir daí. Mas questionemos, portanto, qual a ética e qual a moral de um mundo que apresenta esse caminho para as mulheres, o de serem objetos a serem expostos e usufruídos, como um caminho possível para "o sucesso". Quantas não fazem isso? Quantos não acompanham as “mulheres-fruta”, as globais de capa de revista masculina, etc etc etc? Quem há de julgar a estudante da Uniban, ou atirar a tal da primeira pedra? Ou atirar o mesmo que atiraram em Geni?

O que cabe julgamento é ao comportamento daqueles estudantes que a perseguiram. Isso sim. Há referência ética pra isso. Pra eles, é preciso apresentar algum desfecho. Não podemos tolerar a impunidade de um bando de trogloditas que agride assim a uma mulher.

E alguém se pergunta o que vai ser da vida dessa menina agora? Se ela vai continuar estudando, se vai ter os mesmos colegas? Incrível como os fatalmente punidos não são os criminosos em alguns casos...

***
Tem me chamado muita atenção a quantidade de casos de estupro praticados por adolescentes e contra adolescentes que se noticiam nos últimos dias. A violência não está encontrando limites.

4 comentários:

Fábio Mexicano disse...

Concordo com tudo o que disse, e foi o que pensei desde o início.

Mas a questão de fundo que você coloca, a da exposição da mulher, eu acho muito mais complicada de se resolver num momento em que até o homem começa a ser exposto. É a mídia impondo a igualdade nivelando por baixo. Como homem, me sinto sinceramente constrangido por não me adequar ao "padrão de beleza"...

Mas o fato é que essa exposição toda não impede o comportamento civilizado de ninguém. Um erro não justifica o outro e nem há relação de causa e consequencia. O que aconteceu na Uniban foi o "bom e velho" machismo mesmo, que já existe desde o tempo em que mulher era para ficar escondida em casa.

Alexandra Peixoto disse...

Ale, eu sou Ale tb, rs. Cheguei nesse blog por intermedio de uma twitada da Léa. Conheço sua irmã, a Ju (bem, eu acho que ela é suar irmã, né? mas pode ser prima,:)
Bom, gostei muito do texto, e tava faltando realmente um artigo na blogosfera que mostrasse bastante indignação com esse episódio animalesco. Dai que tomei a liberdade de colocar seu texto no meu blog Boca no Trombone, ok? Dê uma passada lá, vc vai curtir. Abs,
Alê

www.muitasbocasnotrombone.blogspot.com

Isabella disse...

É um absurdo o que aconteceu na Uniban. Estou chocada...

É reflexo de um problema muito maior: os estudantes saíram da sala de aula para humilhar a moça.

Fico imaginando os professores dando aula... E a galera vazando! E o professor dizendo: "Não, espera aí! Estamos tendo aula!". E os alunos: "Professor, a gente precisa sair pra ver uma menina que veio com um vestido minúsculo!".

Oi?

Qual é a dessa faculdade? A desses alunos? Quantos anos eles têm? DOZE? O que deveria ser a "elite pensante" do Brasil, quem deveria estar contestando os preconceitos, está lá... Validando todos!

Que tipo de educação universitária é essa? Que tipo de gente? Mais uns 120 mil anos pra gente se entender nesse mundinho, viu? Ai...

Anônimo disse...

Aparentemente a estudante agora virou ex-estudante, empresária de moda cor-de-rosa e arroz-de-festa de tudo quanto é balada e presença marcante em programas da Record e da RedeTV, o que ela acha muito chique. Ah sim, também posou para a revista Sexy, isso depois de ter ganho várias sessões de lipo. E também participou de um reality show e criticou todas as mulheres que usavam seus corpos para se promoverem.
Quem diria? Ela fez o mesmo.
Agora, estudar? Oi?