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terça-feira, 9 de maio de 2017

Quando o rabo abana o cachorro

O filme estadunidense Wag The Dog (tradução literal: Abane o cachorro), de 1997, conta a história de um presidente que, envolvido em um escândalo sexual, contrata um cineasta para produzir uma guerra fictícia a fim de desviar a atenção da população. O início do filme explica o título: “Você sabe por que o cachorro abana o rabo? Porque ele é mais inteligente que o rabo. Mas se o rabo fosse mais inteligente...”. O letreiro entra em seguida, sugerindo: abane o cachorro.

Um ano atrás, se concretizava, no Brasil, um golpe de Estado jurídico-parlamentar-midiático que poderia ter sido filmado no lugar da história criada por Hilary Henkin e David Mamet.

Derrotado nas eleições presidenciais de 2014, o candidato da direita ameaça não reconhecer o resultado das urnas, iniciando ali um movimento visível a olho nu para quem prestou atenção nos livros de história que estudou na adolescência. Àquela altura, a Operação Lava-Jato já avançava, capitaneada por um juiz com nítida vocação para super-man (com as mesmas cores, inclusive). Embora lidando com um objeto fundamental de ser examinado – as relações promíscuas entre poder público e grandes empresas a partir do financiamento de campanhas eleitorais -, a iniciativa já mostrara a que veio: servir de instrumento para carimbar de corrupto apenas um setor da disputa política. Adaptando-se à conjuntura diariamente, a operação evolui selecionando investigações a serem conduzidas, vazamentos a serem feitos para a imprensa e a própria direção dos fatos.

Estão criadas as condições para um roteiro surreal no qual a corrupção no Brasil começa com a eleição de Lula, e nunca antes na história deste país havia acontecido nada semelhante. Quinhentos e quatorze anos de história são, então, reescritos, e apagam-se todos os escândalos de desvio de recursos públicos, tráfico de influência, privatizações, compra de votos e, especialmente, o enriquecimento ilícito de coronéis, donos da mídia, latifundiários, empresários e outros que até pouco tempo atrás oligopolizavam o fazer política no Brasil. E nunca foram presos.

O toque final é a abordagem da mídia, que, tão seletiva quanto as investigações do juiz fanfarrão, elabora sob medida uma narrativa cuja consequência óbvia e planejada é um discurso de ódio acéfalo contra o PT e a esquerda. Tal discurso encontra terreno propício para germinar: a paupérrima cultura política brasileira. O efeito colateral é o descrédito generalizado contra todos os políticos e a satanização da atividade política. Mas não tem problema, porque a despolitização sempre favoreceu os donos do poder, e eles sempre souberam reinventar sua própria embalagem para parecerem novos e atraentes. Assim, fantasiam-se de empresários bem-sucedidos ou apresentadores de televisão e continuam a fazer o que sempre fizeram.

Cria-se, então, uma acusação contra a presidenta: as “pedaladas fiscais”, que muitos governadores haviam praticado no mesmo período. Meses depois, num ato de vingança contra o PT, que contribuíra para que ele fosse investigado, o presidente da Câmara, com largo histórico de envolvimento em práticas controversas (digamos assim), inicia o processo de impedimento da presidenta da República. O vice-presidente publica carta na qual rompe com o governo, lamentando ter assumido posição somente “decorativa” (sic).

Chegamos, então, ao ápice do roteiro: com olhos em chamas, setores médios e elites vão às varandas de seus apartamentos bater panela. Grandes manifestações são convocadas por esses segmentos, por meio de movimentos laranja e partidos de oposição, financiadas pela Fiesp e grupos empresariais, com grande alarde na mídia, que também convoca e promove com cobertura em tempo real. Milhares de pessoas atendem ao chamado vestindo camisetinhas amarelas, tendo um pato gigante como símbolo e privatizando (eles têm know-how) o hino nacional.

Diante de tal comoção, em meio à qual as pessoas que vestem vermelho correm risco de serem agredidas na rua, a presidenta é afastada numa sessão da Câmara que se torna antológica pelas dedicatórias dos votos dos deputados e deputadas às suas mães, filhos, às suas namoradas, ao cãozinho da família. Assim, Michel Temer, o golpista usurpador decorativo, assume interinamente a Presidência, e monta o governo provisório com aqueles que tinham sido derrotados nas eleições de dois anos antes, e também com personagens necessários para qualquer enredo dessa monta: os traidores.

A partir daí, começam a executar o programa que tinha sido derrotado nas urnas quatro vezes, num nível de agilidade que sequer Fernando Henrique Cardoso (que vencera duas eleições) tivera coragem de encaminhar. Abrem caminho para a entrega do pré-sal brasileiro às potências estrangeiras; congelam investimentos públicos em saúde e educação por vinte anos; extinguem órgãos de governo e programas centrais para o desenvolvimento de políticas de distribuição de renda e combate a desigualdades históricas; reformam o ensino médio sem dialogar com nenhum dos setores envolvidos, destituindo-lhe de qualquer mísera perspectiva transformadora; apresentam uma reforma da previdência e outra trabalhista para retirar direitos do povo, mantendo e ampliando direitos dos banqueiros e grandes empresários; legalizam a terceirização irrestrita; atuam para “estancar a sangria” (sic) provocada pela Operação Lava-Jato, para que não sejam atingidos; e disparam balas de borracha e gás lacrimogêneo contra índios, jovens, trabalhadores, e quem quer que ouse levantar-se contra o golpe em curso. Colocam em xeque o direito de greve e o direito à livre manifestação, com a bênção do Poder Judiciário, que, afinal, é peça fundamental do enredo.

O final do filme ainda não está escrito. Há algumas possibilidades: temendo nova derrota nas urnas, que jogaria por terra o processo encaminhado até agora, prendem o ex-presidente Lula e/ou cancelam as eleições nacionais de 2018 – qualquer das opções escancarará o que muitos já perceberam: que vivemos sob um regime de exceção. Outra hipótese: por falta de quadro melhor, elegem o pato gigante presidente da República, e ele governará como terceirizado sob ordens da Casa Branca.

Ou o cachorro assume que fez cocô no lugar errado e recupera sua habilidade de abanar o rabo.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Não à truculência, ao autoritarismo e à mordaça!

Na noite de 25 de maio, em Audiência Pública na Câmara Legislativa, dirigentes do Sindicato dos Professores no DF (Sinpro-DF) foram expulsos das galerias com agressividade, o que provocou o repúdio e a retirada em bloco de todos os professores e professoras que compareceram ao evento, inclusive do dirigente sindical que compunha a mesa.

A presidenta da sessão era a deputada Sandra Faraj (Partido Solidariedade), autora do projeto então em pauta. Na ocasião, a deputada levara uma claque para aplaudi-la e saudar o projeto, ainda que boa parte daquelas pessoas tenha demonstrado total desconhecimento quanto ao conteúdo. A mesa era composta por defensores das ideias ali contempladas, com a exceção única do dirigente do Sinpro-DF, que, afinal, teve de se retirar como forma de protesto contra a agressão sofrida por seus colegas.

Partiu de Sandra Faraj a ordem para que os seguranças retirassem à força os professores do local. Para isso, ela utilizou o mesmo microfone com o qual presidiu a sessão. A atitude autoritária e truculenta da deputada representa com muita coerência o projeto que ela defende. É importante saber do que trata o PL 01/2015 para conhecer a grave ameaça à qual as escolas do Distrito Federal e do Brasil estão sujeitas, e para entender por que é fundamental mobilizar-se para defender uma educação laica, democrática e de qualidade para formar cidadãos e cidadãs.

“Escola Sem Partido”

Em primeiro lugar, é preciso revelar que o PL 01/2015 que tramita na Câmara Legislativa do DF não é exatamente de autoria de Sandra Faraj. O mesmo conteúdo tem sido apresentado em diversas Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais, e são todos derivados do PL 867/2015, apresentado à Câmara Federal pelo deputado Izalci (PSDB/DF). Mas também não é ele o autor original da ideia.

Os projetos exaltam as premissas da ONG “Escola Sem Partido”, dirigida pelo advogado Miguel Nagib, “mentor intelectual” da empreitada. O site da ONG apresenta artigos de figuras como Rodrigo Constantino, Olavo de Carvalho, Luís Felipe Pondé e Reinaldo de Azevedo, cuja identidade político-ideológica é reconhecida e assumida. Nagib também é articulista do Instituto Millenium, conhecido espaço de organização, articulação e elaboração da direita brasileira, que reúne as mencionadas figuras e representa interesses políticos e econômicos mais que evidentes. Entre os porta-vozes de seus ideais estão políticos de partidos como PSDB e DEM (1).

O site do Instituto traz um interessante artigo sob o título Por uma escola que promova os valores do Millenium, datado de agosto de 2009. O texto defende que as escolas promovam os princípios particulares dessa organização, como, por exemplo, a filosofia da propriedade privada e da meritocracia, que estão bem distante de serem consensos históricos e, principalmente, “apartidários”. O mesmo artigo destaca, inclusive, cinco itens que considera “deveres do professor”... Surpresa! Esses itens vêm sendo apresentado dentro dos PLs encaminhados nas casas legislativas Brasil afora.

Cai a máscara e fica nítido, então, que o projeto não é “Escola Sem Partido”, mas sim, “Escola Com O Partido Deles”.

O PL da Mordaça

Conhecendo desde já essa profunda contradição de origem, vamos examinar atentamente o texto do projeto.

O artigo 1º já anuncia o festival de horrores que se seguirá: “assegurar os princípios e diretrizes do ‘Programa Escola Sem Partido’”. Ou seja: o PL pretende estabelecer para a Educação no DF princípios e diretrizes formulados por uma ONG identificada com o Instituto Millenium.

O artigo 3º traz os “deveres do professor” que um artigo desse Instituto já antecipara há 6 anos, conforme vimos. Chama atenção o inciso V: “[o professor, o coordenador e a direção] deverá (sic) abster-se de introduzir, em disciplina obrigatória, conteúdos que possam estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos estudantes ou dos seus pais”. O texto proíbe, por exemplo, que um professor ou professora explique para sua turma a Teoria da Evolução de Darwin, caso haja ali um estudante cujos pais defendem o Criacionismo.

No parágrafo único do artigo 4º, o projeto determina que cartazes com os tais deveres do professor sejam afixados nas salas de aula. Mais uma violência desferida contra uma categoria que luta muito para defender a escola pública e a Educação como direito de todos e todas. A humilhação contida em tal gesto reside na afirmação implícita, que permeia todo o projeto de lei, de que professores e professoras são entes potencialmente nocivos, que exercerão seu poder sobre os estudantes para manipulá-los e impô-los suas ideias particulares. Como se não trabalhassem com conteúdos científicos. Como se sua prática cotidiana não se baseasse em premissas pedagógicas e metodológicas. Como se não vivenciassem todos os dias dezenas de violências à liberdade de ensinar, muitas vindas do próprio GDF, outras, inclusive, vindas de estudantes e outros membros da comunidade escolar.

Na justificativa do PL, Sandra Faraj afirma que a razão de ser do projeto é a necessidade de “informar” aos estudantes o direito deles de não serem “doutrinados” por seus professores. Para isso, propõe que estes sejam fiscalizados.

O PL da Mordaça em âmbito federal

No PL 867/2015, que tramita na Câmara Federal sob autoria do deputado Izalci, o desrespeito e o autoritarismo com que são tratados professores e professoras estão expostos de forma ainda mais completa.

No parágrafo 2º do artigo 3º, o nobre deputado propõe que “as escolas deverão apresentar e entregar aos pais ou responsáveis pelos estudantes material informativo que possibilite o conhecimento dos temas ministrados e dos enfoques adotados”. Isso quer dizer censura prévia de conteúdos. Anteriormente, citamos como exemplo a Teoria da Evolução. A perigosa brecha que o PL abre pode impedir os estudantes de terem acesso ao conhecimento nas mais diversas disciplinas. E se as aulas de História não puderem abordar o Holocausto? E se as aulas de Geografia não puderem discutir as crises econômicas e militares no Oriente Médio? E se Carlos Drummond de Andrade for considerado inadequado para aulas de Literatura Brasileira? Por que o deputado Izalci quer restringir o acesso de crianças e adolescentes ao conhecimento produzido ao longo da história do Brasil e da humanidade?

Entre os famigerados “deveres do professor”, o PL da Mordaça Federal traz um item a mais em relação ao projeto apresentado no DF. O inciso VI do artigo 4º ameaça responsabilizar o professor ou professora pela ação de terceiros: “[o professor] não permitirá que os direitos assegurados nos itens anteriores sejam violados pela ação de terceiros, dentro da sala de aula”. Daí infere-se que desde um recado do Grêmio Estudantil até um debate de ideias entre alunos poderá incorrer na responsabilização do professor ou professora, caso o conteúdo do recado ou do debate não esteja de acordo com as opiniões do deputado Izalci.

Os próprios proponentes do PL assumem que a intenção de responsabilização de professores e professoras não pretende se restringir à fiscalização e à censura, o que já seria suficientemente grave. Nos textos publicados no site da ONG Escola Sem Partido, mencionam-se processos civis por danos morais e punições administrativas como forma de coagir docentes.

A gravidade da proposta é tamanha, que ela pode influenciar a proposição de projetos ainda mais terríveis. O deputado federal Rogério Marinho (PSDB/RN), por exemplo, apresentou à Câmara Federal, há poucas semanas, um PL que pretende criminalizar e colocar sob pena de reclusão o que ele classifica de “assédio ideológico”. Mais uma vez, o alvo é o Magistério.

Conclusão

Sob a falsa alegação de evitar “doutrinação ideológica” nas escolas, os PLs de Sandra Faraj e Izalci pretendem, na verdade, estabelecer uma mordaça para professores(as) e uma rédea para estudantes, a fim de, justamente, promover sua própria doutrinação. O projeto é uma nítida afronta à liberdade de ensinar e à liberdade de aprender, garantidas na Constituição Federal, uma vez que propõe censura prévia de conteúdos e coação da atividade docente.

Para atingir seu objetivo, esses parlamentares pretendem interferir no trabalho de professores e professoras, colocando-o sob suspeição e permanente ameaça. Mais um fator de deterioração das condições de trabalho da categoria, já tão prejudicadas pelos graves ataques que seus direitos têm sofrido nos últimos meses.

As escolas devem formar cidadãos críticos, aptos a formar sua visão de mundo de maneira autônoma, livre da imposição do mercado ou de religião X, Y ou Z. Democracia pressupõe pensamento livre, e pensamento livre pressupõe livre acesso ao conhecimento. É isso que os PLs 01/2015 e 867/2015, respectivamente em tramitação na Câmara Legislativa do DF e na Câmara Federal, querem destruir.

Todas as justificativas relativas à apresentação desses projetos trazem em si um indissociável autoritarismo, ao outorgar-se a prerrogativa de definir o que os estudantes podem ou não saber, e o que os professores podem ou não ensinar. Mais do que isso, referem-se com desprezo e preconceito à atividade de professores e professoras, ignorando que são profissionais que frequentaram as universidades; que se dispõem a jornadas de trabalho estafantes; que procuram se aperfeiçoar em pós-graduações, cursos e vivências; e que se mantêm em permanente processo de formação. Sugerir que tudo isso tem o objetivo de promover doutrinação e manipulação é um insulto descabido, que demonstra o desconhecimento dos autores de tais projetos sobre os processos pedagógicos, o dia-a-dia das escolas e a rotina do Magistério.

No entanto, mais uma vez, a Educação não se calará. Que seja feito o debate público, livre de amarras, censuras e truculência. Com certeza, todo o Distrito Federal rejeitará a mordaça que querem impor à categoria.



(1)  O Fórum da Liberdade 2015, evento organizado pelo Instituto Millenium anualmente, contou com a presença do senador Ronaldo Caiado (DEM/GO) como palestrante no painel sobre “Caminhos para o Brasil”. Em 2014, o então pré-candidato à Presidência da República Aécio Neves (PSDB/MG) foi palestrante no painel sobre “Competitividade”. As referidas programações encontram-se disponíveis no site do Instituto.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Professoras e professores em luta no Distrito Federal

Fotos do Sinpro-DF

No mesmo dia em que dez mil professores e professoras decidiram, em assembleia, indicar greve para 9 de abril - data em que deve ser percebido o pagamento do reajuste à categoria, de acordo com a lei 5.105/2013 -; o Ministério Público se prestou ao lastimável papel de acionar a Justiça para impedir que tal reajuste seja pago. A tese é de que falta previsão orçamentária para honrar os compromissos assumidos pelo GDF.

Por sua vez, o Correio Braziliense apresenta essas informações de forma tendenciosa e sem o devido rigor na apuração. O texto nitidamente coaduna com a ação do MP, e atribui a concessão dos reajustes e a aprovação do plano de carreira à necessidade de parlamentares e do então governador de "capitalizar" a decisão. Nenhuma abordagem poderia ser mais rasa.



Ora, não é necessária memória de muitos gigabytes para recuperar a histórica greve dos professores e professoras em 2012. Cruzaram os braços por 52 dias, acamparam na Praça do Buriti e o enfrentamento com o GDF chegou a momentos de tensionamento extremo, como quando da ocupação de salas do sexto andar do Palácio e da interrupção das negociações por parte do governo.

Sendo assim, também não precisa de muitas habilidades de análise política para relacionar as coisas e saber que a conquista do plano de carreira foi vitória de uma árdua mobilização dos professores e professoras do Distrito Federal, não um presente concedido ou uma iniciativa eleitoreira.

Não que eu ache que o Ministério Público tenha chegado sozinho a essa "ideia". Mas, convenhamos: na ocasião, um amplo debate público foi realizado, seja via imprensa, seja via o diálogo direto da categoria com a comunidade escolar e a população em geral, seja via iniciativas institucionais, como audiências públicas. A greve contou, inclusive, com a solidariedade do então senador Rodrigo Rollemberg, registrada em discursos que podem ser conferidos em seu site(1). Onde estava o Ministério Público em todas aquelas ocasiões? Por que somente dois anos depois da aprovação da lei 5.105 ele apresenta esse questionamento?

Surpreendente não é. A mesma Justiça que não titubeou ao declarar ilegal a mobilização dos professores e professoras, permitindo corte de ponto e impondo severa multa ao sindicato; é a mesma que mantém sem encaminhamento a ação do Sindicato dos Professores no TJDFT em relação ao pagamento dos atrasados. Ou seja: deixar os professores sem salário não é ilegal; mas mobilizar-se para garantir esse direito, sim.

A mim, tranquiliza notar, nessa história toda, que o Sinpro-DF nunca fugiu do embate com qualquer governo. Não vai ser a Justiça que vai intimidar essa aguerrida categoria dos professores e professoras.



(1) "Isso não pode fazer parte de uma negociação, isso é uma obrigação de o Governo pagar essas questões". - extraído do discurso de R. Rollemberg proferido no Senado em 19 de abril de 2012.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Sobre os secadores, os intolerantes, os babacas e o que a mídia tem a ver com tudo isso

 

Estou absolutamente embasbacada com a quantidade de estupidezes anti-Argentina que inundaram a minha TL nos últimos dois dias. Acho bastante triste que um dos legados desta sensacional Copa do Mundo seja o acirramento idiota de uma intolerância injustificável entre brasileiros e argentinos. Vejam que eu cuidei bem da palavra a ser usada: INTOLERÂNCIA não é rivalidade.

Estive em Buenos Aires duas vezes. Meu pai assistiu às finais da Copa de 1998 lá. Tenho amigos e amigas que vivem, viveram ou viverão lá. Tenho amigas e amigos argentinos que vivem aqui. É com base nessa experiência que desde que me conheço por gente acho essa "rivalidade" uma babaquice, sabe por quê? Porque sempre me pareceu que ela faz mais sentido pra nós que pra eles. E não precisa me dar exemplo do fulano, do beltrano ou do ciclano pra me contradizer. Poupe seu tempo.

Nunca embarquei nessa. Ao contrário, sempre me incomodaram as propagandas monotemáticas de época de Copa, reafirmando essa palhaçada; sempre me incomodou a abordagem de boa parte do jornalismo, alimentando essa palhaçada; sempre me incomodaram as exclamações galvãobuenescas dramatizando essa palhaçada.

No dia seguinte da derrota vexaminosa que o Brasil sofreu para a Alemanha, uma repórter da SporTV suspirava: "É... Agora é torcer contra os 'hermanos'". Não sei se fui só eu, mas achei de uma idiotice milenar. Afinal, é a naturalização da palhaçada. Tornou-se automático de tal forma, que o Lancenet!, do qual deixei de ser leitora, cobriu a final da Copa do Mundo no twitter com a hashtag ‪#‎SomosTodosAlemanha‬. Quando os questionei, recebi a seguinte resposta: não somos isentos, somos brasileiros antes de tudo.

Ser brasileiro tornou-se sinônimo de ser anti-Argentina para essa mídia tosca e semeadora de toda espécie de ódio e rancor. Eles mesmos: esse jornalismo esportivo de merda que alguns fazem por aqui - tomando cuidado para evitar generalizações, afinal, nem todo veículo embarca nessa linha editorial de merda e nem todo(a) repórter compra essa abordagem de merda -, e essa publicidade de quinta categoria, que tem a criatividade de um caramujo.


Eu lhes afirmo que essa richa boba faz mais sentido aqui que lá. E se você espernear e contestar e achar um absurdo e contar do dia que você encontrou um argentino na rua e não foi bem assim, tudo bem. Eu responderia: mesmo que fosse uma coisa mútua, de mesma dimensão de lado a lado, ainda é muita cretinice permitir que uma rivalidade de futebol ultrapasse os limites da brincadeira com o esporte.

A torcida anti-Argentina por parte de alguns era tão voluptuosa quanto num clássico brasileiro. Estou certa de que os hermanos não esperavam essa rejeição toda. Mas o pior vem depois: eu realmente temo que, finalmente, como tanto provocou a mídia brasileira, ela se torne visceral de lado a lado.

Cada um torce pra quem quiser. Não estou cobrando nada de ninguém. Nunca usei o argumento da solidariedade latinoamericana, afinal, minha solidariedade é tão grande que eu a distribuo a baciada pelo mundo, e, no futebol, eu a dedico aos holandeses, que são europeus, ricos, e nunca ganharam uma Copa, como vocês sabem. Eu torci para a Argentina na final por causa do Messi. Tem gente que torceu por solidariedade latina, e tá certo também, cada um com seus critérios. Teve gente que não queria a Alemanha campeã por nos ter imposto tamanha humilhação nas semis. E teve gente que torceu para a Alemanha por x, y, z também. Tranquilo. A questão é: como ouvi de um jovem advogado argentino outro dia, eu também não entendo como num campeonato de seleções nacionais alguém saia de casa para torcer contra o time do outro. Percebam: não a favor de um, mas contra o outro. E com tanta raiva.

Ah, mas eles fizeram uma musiquinha escrota contra nós! Gente. Quase tenho vontade de cantar música de ninar pra quem se ofendeu com a musiquinha. Eles reivindicam a Copa de 90, que nem ganharam, e desde a qual o Brasil foi campeão duas vezes. Se eu fosse você, eu ria da musiquinha enquanto tomava uma boa gelada no bar.

Ah, mas eles dizem que Maradona é melhor que Pelé! - Putz, fodeu. Vamos ter que tratar disso no Tribunal de Haia.

Ah, mas eles são arrogantes! - Essa é a melhor. Porque é tipo o roto falando do rasgado, como dizia a minha avó. Afinal, humildade não é propriamente uma das habilidades do futebol brasileiro, torcida inclusa.

Ah, mas eles são racistas! - Ok, fale mais sobre como é torcer para a Alemanha com essa justificativa.

Enfim, só peço que pense um pouquinho se essa intolerância toda faz sentido, ou se você não foi contaminado por um clima que "alguém" inventou com uma única intenção: vender produtos e jornais. A crítica aqui é mais à mídia que a você, mas se você quiser vestir a carapuça também, tranquilo. Só não me responda com a mesma raiva que jogaram sobre nossos vizinhos do Cone Sul, porque eu moro aqui, você vai acabar me encontrando e eu vou te desafiar para um duelo de musiquinhas do qual somente um sairá com a honra intacta.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Brazuca pra frente!

"Alegria é viver assim de mansinho, sem se importar DEMAIS com nada". 
(Guimarães Rosa)

Sobre o futebol de dentro do campo, não há muito a acrescentar. Está claro que o Brasil perdeu para uma seleção superior, e entrou loucamente despreparado para enfrentá-la. É interessante notar que todas as goleadas que aconteceram nesta Copa se deram entre grandes e/ou médias seleções. As menos tradicionais entravam em campo preparadas para enfrentar gigantes, e assim fizeram suar cada uma delas. Como Gana contra a Alemanha, como o Irã contra a Argentina, como a Costa Rica contra a Holanda.


Superado esse tópico - perdemos porque o outro time é melhor -, vamos para outro. "Pôxa, precisava ser de SETE"?!! Foi constrangedor ver os jogadores brasileiros tão desorientados, perdidos, derrubados em campo. Daí, algumas pessoas que acharam "uma graça" que a Copa inteira nossos jogadores chorassem ao som do hino nacional, que compreenderam condescendentemente que o capitão do time não tenha conseguido ASSISTIR à disputa de pênaltis que conduziu o Brasil às quartas-de-final, que entraram no clima proposto pela HORROROSA (como sempre) cobertura da mídia sobre a Copa, de tratar um craque contundido como um mártir tombado em batalha... Essas pessoas não podem AGORA reclamar da instabilidade emocional da seleção brasileira. É muita cara de pau que haja apresentador de TV e narrador de jogo reclamando agora da construção que ELES MESMOS encabeçaram.

Eu aprendi com Telê Santana a ser mais uma brasileira apaixonada por futebol. Vivi minha infância e adolescência ouvindo sobre a alegria expressa nos pés dos craques do Brasil. A irreverência de Garrincha ao tocar a bola com suas pernas tortas, o gingado do Zizinho, a ousadia de Pelé, que gostava de desafiar o impossível. Mas não precisa parar nos anos 60 não. Nossa seleção de 1982 é lembrada até hoje por amantes do futebol em todo o planeta, independentemente de não ter conquistado aquela Copa. Zico é idolatrado mundo afora (que o diga Wesley Sneijder), Sócrates é referência eterna, e Telê segue ensinando futebol por aí (é ou não é, Pep Guardiola)?

Claro que há um processo complexo de apropriação indébita da seleção brasileira por uma turma da qual a CBF é só um instrumento. Tem bastante coisa envolvida. Mas isso daria outra crônica. Aqui, só quero dizer que, para mim, o mais triste é justamente isso: afanaram-nos a alegria! E não foi hoje não, isso já leva alguns anos. Nesta Copa, ficava clara essa lacuna no fardo carregado pelos jogadores em campo, esse fardo de ser "a Pátria de chuteiras". Não são, não podem ser e acho complicado que se tenha essa expectativa. As lágrimas durante a execução do hino. A camisa do Neymar em campo na final. Ah, gente, pára, vai. Nada contra a sensibilidade - ao contrário! -, mas tudo a favor de que a alegria e a leveza voltem a ser marcas nossas. Parecem-me uma expressão melhor da nossa sensibilidade que a resignação e a autopiedade. Parece que até a velha Alemanha do jogo truncado aprendeu isso. Nunca imaginei que a alegria que eles demonstraram em solo brasileiro nos faria tanta falta.

Parece-me que enquanto houver essa adesão coletiva ao midiático discurso de que o futebol é a nação, de que a nossa dignidade está em jogo, nada vai mudar. Enquanto houver "família Scolari", enquanto houver o acesso privilegiado da dona Globo à nossa seleção (o que a torna mediadora quase que exclusiva da relação torcida-time), enquanto houver essa absurda confusão entre jogo e vida, travestida de metáfora, enquanto houver tudo isso, haverá instabilidade emocional até do mais duro volante em campo.


Se eu pudesse dizer alguma coisa, eu diria ao David Luiz. Querido, fique tranquilo, você não destruiu os sonhos de ninguém. Fique tranquilo, você não merece arcar com essa responsabilidade. Eu me orgulho por ser sua conterrânea porque você realiza seu trabalho tão bem que se tornou um dos melhores do mundo, independentemente de vencer a Copa. Eu me orgulho por ser sua conterrânea porque você sabe que seus gestos fora de campo influenciam pessoas, e procura ser um bom exemplo. Você é.

"Não deu, galera". Simples assim. Temos a melhor - e mais cara - dupla de zaga do mundo. Mas não temos um meio-de-campo sequer razoável e uma terrível "crise de quadros" no ataque. Temos um treinador que sempre teve esse mesmo estilo de jogo, e não adianta levantar bandeira de "ousadia e alegria" porque não há treinadores brasileiros que trabalhem com essa insígnia atualmente. Porque taticamente tomamos um nó, porque não tínhamos uma boa jogada para além do "passa pro Neymar". É só futebol, gente. Não é a vingança dos povos, não é a redenção dos oprimidos, não é a justiça histórica. É um campeonato muito legal, que acontece de quatro em quatro anos.

Se tivesse havido mais leveza, mais alegria, menos lágrimas e menos fardo, ainda teríamos perdido para a Alemanha. Mas não de sete.

PS 1: Valeu, Klose, a cara do Ronaldo foi impagável!!!!

PS 2: Eu não torço pelo Brasil, eu milito por ele. No futebol, minha torcida é para que vença a beleza, pra ter espetáculos, pra resgatar aquela coisa de que o Telê me ensinou a gostar. Se a ideia de que isso é possível sagrar-se vitoriosa dentro de campo, eu me sentirei realizada. Pode chamar de saudosismo, que eu nem ligo! 

sexta-feira, 11 de março de 2011

A culpa é das mulheres

Que o Jornal da Globo não deve ser referência para a construção de opinião de ninguém, isso já sabemos. Willian Waack e sua disposição extraordinária para o imperialismo e a direita, com frases de efeito e caras amarradas, são o testemunho principal de que se trata do telejornal mais posicionado politicamente na Rede Globo. Está à direita e não abre mão. Nem a cobertura do futebol escapa.

Ontem, mais uma demonstração disso. Para este artigo, vou me basear no texto disponível no sítio eletrônico do famigerado jornal, porque, obviamente, não decorei a matéria que vi na TV esta madrugada. 

A chamada anunciava uma tal pesquisa que dizia que as mulheres não pedem aumento, ou pedem aumento menos que os homens. A relação imediata e automática feita pelo jornal foi exatamente essa: as mulheres ganham menos porque não pedem aumento!

Não sei quem fez a pesquisa, o texto no site não diz. Ela afirma que 44% das mulheres entrevistadas já pediram aumento, contra 48% dos homens. Oh, enorme diferença! Eis aí o motivo da histórica desigualdade salarial. Um número mais expressivo revelava que 28% das mulheres pensam em pedir promoção, contra 39% dos homens.

Simplismo e machismo

Independentemente de se ter ou não acesso a dados e a uma reflexão um pouco mais profunda que um pires, parece-me, no mínimo, estúpido atribuir a desigualdade salarial a quem tem mais ou menos coragem de pedir aumento. E pra fechar com chave de ouro, a reportagem apresentava uma gerente de marketing que confirmava o raciocínio a partir do qual a matéria foi organizada: “Eu acho que quem coloca limitação é a própria pessoa. O mercado, hoje, está aberto”, ela dizia, categórica.

A grande mídia adora usar as exceções que confirmam a regra para culpar o excluído ou excluída pela sua própria exclusão. Mas a reportagem e a edição deveriam ter pesquisado um pouquinho mais. Considerar quando e de que forma as mulheres acessaram o mercado de trabalho. Em quais condições. Em que espaços. Em que contexto econômico. Vamos lá, não é tão sofisticado assim. Seria o bom jornalismo.

Na década de 90, por exemplo, auge da globalização neoliberal, enquanto nos países do centro do capitalismo o emprego feminino se expandiu em atividades de jornada parcial, como medida de flexibilização; nos países da periferia, o emprego feminino cresceu como precário e vulnerável, o que acompanhou e acentuou a tendência de informalização e perda de direitos. Esses postos estavam, principalmente, no setor de comércio e serviços, mais instáveis e mal remunerados (vide “Por quem os sinos dobram?”, artigo de Helena Hirata disponível no sítio da SOF).

Segundo dados divulgados pela Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo Federal em seu relatório anual 2009/2010, o rendimento médio de homens empregados com carteira de trabalho assinada é de R$1.117,77; enquanto o das mulheres, na mesma posição, é de R$884,82. Entre trabalhadores domésticos sem carteira assinada, no caso dos homens, o rendimento médio é de R$408,96; e o das mulheres, R$301,12. Sabe-se muito bem que, nesta última situação, falamos de um mercado muito majoritariamente feminino.

E é por que elas não pedem aumento que essa situação se mantém?

Vejamos outros dados a serem cruzados com esses primeiros. De acordo com o mesmo relatório, 46% dos homens realizam afazeres domésticos. Entre as mulheres, esse número é de 88%. As mulheres gastam cerca de 25 horas semanais nesses afazeres, enquanto os homens gastam 10.

A taxa de atividade para os homens (proporção da população economicamente ativa em relação à população em idade ativa; considerando-se pessoas com 16 anos de idade ou mais) é de quase 82%. Para as mulheres, 58,5%. E quase 65% das mulheres empregadas estão na informalidade. Todos os dados são da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios).

Lé com cré

Será que esses dados simplesmente não se relacionam? E que finalmente o Jornal da Globo nos deu a razão de toda desigualdade e exploração: a timidez das mulheres para pedir aumento???

É de amplo conhecimento que os salários das mulheres são, em média, 75% do dos homens, ocupando mesma função. Não precisam se esforçar muito pra perceber que elas são a camada mais desprotegida da classe trabalhadora, porque ocupam os postos menos valorizados, em espaços de maior instabilidade, e porque estão majoritariamente em empregos informais, sem qualquer garantia de direito. Quando a mulher é negra, a situação fica ainda mais complicada. A exploração da mão-de-obra feminina precisa ser observada desde um prisma mais completo do que a reportagem simplista e machista propõe.

Este humilde artigo não pretende mostrar historicamente como o mercado de trabalho brasileiro se compôs. Recuperar a entrada das mulheres no mercado de trabalho ajuda a entender por que o salário é desigual. Olhar ao mundo ao redor e ver que o machismo ainda é dos seus pilares estruturantes também ajuda. A inserção subordinada no mercado de trabalho não será resolvida por ação individual de mulher nenhuma, nem por benevolência dos patrões. O combate à desigualdade tem que se dar por política pública e por ação organizada das mulheres, que afinal, sempre foi o que levou às conquistas e à transformação do mundo.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Apesar de você

O editorial da Folha de hoje (1º de setembro) é uma aula de autoritarismo e prepotência. A turma da ditabranda publicou em sua página 2, sob o título de "Lula e a imprensa", texto que repudia e "analisa" de forma preconceituosa, elitista e arrogante as críticas feitas pelo presidente à grande mídia nacional (em geral, ele costuma destacar o tratamento desigual dispensado aos dois principais candidatos à presidência da República e a má vontade com seu governo).

Ao longo de todo o texto, o que a Folha quer dizer é que Lula critica a imprensa porque não aceita críticas. Ora, fica claro para qualquer leitor menos desatento que, ao agir dessa forma, é a Folha que não aceita ser contestada.

Vejamos. Ao longo das malfadadas linhas a que me refiro, a Folha autointitula-se "imprensa crítica", "jornalismo livre" e, explicitamente, coloca-se como 4º poder - lado a lado com executivo, legislativo e judiciário, mesmo não tendo sido eleita por ninguém para exercer essa tutela dos nossos direitos e do nosso "livre" pensamento.

Ora, a Folha é livre sim, mas num país de amordaçados. Muito mais livre do que deveria. Sim, liberdade tem limite. Quem nunca ouviu a velha história de "a liberdade de um termina onde começa a do outro"? De maneira que se a Folha é absolutamente livre, a liberdade de muita gente está invadida e cassada por ela.

E mesmo essa liberdade excessiva não implica que seu jornalismo seja livre. Muito pelo contrário. Ele é absolutamente preso às suas opções políticas e à sua visão elitista e conservadora do mundo. Ele é preso porque desde a montagem da pauta, passando pela abordagem da matéria, relação de entrevistados e escolha de fotografias para ilustração, tudo isso são escolhas políticas. Ingenuidade acreditar que não.

A Folha não foi eleita para representar a sociedade civil em espaço algum. Não tem concessão de "vigilância" dos poder. Faz isso como a empresa que é, que quer vender seus jornais, conquistar mais e mais patrocinadores e disputar consciências para construir sua opinião - ou fortalecer a opinião do conjunto que a inlcui. Faz isso movimentada pelos seus próprios interesses e o dos "seus". Eu sei bem quem são os "seus". Fica claro a cada página, a cada dia.

Em dado momento, o jornal retoma o preconceito odiável contra Lula e sua escolaridade, referindo-se irônica e cinicamente à falta de "habilitação conceitual" do presidente para entender a imprensa. Mas, ao que tudo indica, tem faltado habilitação conceitual e moral à Folha para compreender que Lula é muito melhor comunicador que ela.

Portanto, se eu pudesse falar com a Folha, eu diria: menos. Não me parece que as críticas de Lula à imprensa tenham qualquer origem em medo de nenhuma espécie. Mas sim, me parece que a Folha - embora tenha sido bastante poupada pela ausência total de políticas que visem à democratizar as comunicações neste governo - pode percorrer o mesmo caminho que levou ao triste fim da revista Veja: a opção consciente por abrir mão de assinantes para poder se tornar um panfleto reacionário.

A arrogância elitista da Folha, num editorial como esse, meramente demonstra seu incômodo por tentar, em vão, mudar o curso da história no país. Imagina só como ela vai se amargar vendo o dia raiar sem lhe pedir licença.


***
É um grande desafio propor a democratização das comunicações como uma questão central para o próximo período. Esse monopólio precisa acabar. Direito à comunicação significa que não precisamos só ouvir, podemos falar. Sem mais amor reprimido, grito contido, samba no escuro.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Aborto no "Fantástico": sensacionalismo e superficialidade

O "Fantástico" de ontem (01/08) exibiu uma péssima reportagem sobre a prática clandestina de aborto no Brasil. Sem pé nem cabeça, a matéria serviu mais pra alimentar a desinformação do que contribuir para um debate tão importante. Muitos aspectos foram deixados de lado e, para garantir seu posicionamento de propaganda antilegalização do aborto, a reportagem tornou-se um imenso emaranhado de informações que não se relacionaram entre si.

Diante de um problema de enorme complexidade, o programa resolveu abordar apenas a ponta do iceberg: a existência de clínicas clandestinas no Rio, em Salvador, em Belém; e a venda de Citotec no "mercado paralelo". Com câmeras escondidas, adentrou as clínicas, questionou médicos(as) e atendentes sobre o procedimento, sobre o número de abortos realizados por mês, sobre riscos e preço. Exibiu rostos e nomes de médicos(as) e pessoas que trabalham nesses locais. Nenhuma mulher foi entrevistada - apenas uma que fez uso de Citotec há um mês.

A reportagem optou por não relacionar nitidamente dados expostos por ela mesma: de um lado, as clínicas existem, e as mulheres procuram por elas. Há riscos importantes para a mulher, provenientes das condições inseguras em que o aborto é realizado nesses locais. De outro lado, pesquisa realizada pela Universidade de Brasília aponta que uma em cada cinco mulheres, aos 40 anos, já fez aborto; e que a mulher que faz aborto no Brasil é absolutamente normal: tem religião, é trabalhadora, às vezes é casada, às vezes já até tem filhos. Poderia ser vizinha, prima, amiga, irmã, colega de qualquer telespectador(a) do "Fantástico".

Nenhuma palavra sobre o fato de ser exatamente a criminalização que gera essa clandestinidade e, por consequência, os riscos aos quais as mulheres estão expostas. A não legalização as leva a buscarem métodos caseiros improvisados e clínicas clandestinas sem nenhuma condição de higiene e segurança. Ambas as "alternativas" submetem essas mulheres à possibilidade de prisão, de sofrer sequelas profundas ou mesmo de morrer. Muitas acabam no SUS, para finalizar o procedimento mal feito, e são tratadas com crueldade por médicos e enfermeiros. Porém, certamente, há clínicas clandestinas bem equipadas, onde o aborto pode ser realizado com segurança e higiene. A essas, somente tem acesso quem pode pagar caro. Isso significa que a criminalização do aborto no Brasil é uma hipocrisia tão grande que condena aos riscos mencionados especialmente as mulheres mais pobres. Disso, a reportagem não tratou.

Uma reportagem, no mínimo, razoável, daria mais espaço à antropóloga da UnB que dissertou sobre os resultados da pesquisa mencionada do que os míseros 30 segundos a que ela teve direito; e com edição menos "malandra". A reportagem poderia ter falado da experiência de países que têm o aborto legalizado (por exemplo, mostrar que é fantasiosa a ideia de que a prática de aborto aumenta com a legalização) ou das diferenças que há entre um aborto realizado com segurança e outro, o clandestino.

A responsabilidade por evitar uma gravidez indesejada é integralmente da mulher: é ela quem deve tomar pílulas anticoncepcionais; é ela quem tem dificuldade de negociar com seu parceiro o uso da camisinha; são dela todos os ônus de eventuais falhas de métodos contraceptivos; é dela a vida que mais muda com o nascimento de uma criança, muitas vezes, sem pai. Apenas uma coisa não é dela: o direito de escolher levar a cabo ou não uma gravidez. A matéria também não falou disso.

Ou seja: a resportagem do "Fantástico" tratou a questão do aborto com superficialidade, sensacionalismo e preconceito. Falou do tema como se as mulheres que sofrem essas consequências fossem vítimas de profissionais mal-intencionados, e não da hipocrisia e do anacronismo. Se o aborto fosse legalizado, não haveria mercado clandestino. Aquelas que têm religião e crença poderiam segui-las livremente. Aquelas que optam por interromper sua gestação, também teriam liberdade.


***
Conheça o conteúdo da pesquisa da UnB clicando aqui.

A "revista eletrônica" dominical global deu um show de jornalismo rasteiro, mais do que de defesa de uma opinião conservadora. Não foi além de uma pseudo-denúncia e abordou muito mal o tema que escolheu tratar.

Para quem quer saber mais sobre aborto e criminalização, sugiro o filme "O aborto dos outros", de Carla Gallo. Trailer abaixo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Dunga X Imprensa

Não sei vocês, mas a minha opinião foi de que o tal "editorial" dado por Tadeu Schmidt no Fantástico, em crítica ostensiva ao técnico Dunga, foi pedante e covarde.

A imprensa se considera o quarto poder, e de fato, a grande imprensa exerce um poder que muitos ainda não conseguiram mensurar. Reivindica sua "liberdade de imprensa" pra poder fazer o que bem quiser com quem quiser e como quiser, sem ter que arcar com a responsabilidade de seus atos, sem ter que responder por eles, sem se submeter a limite ou controle algum. No caso de rádios e TVs, ignoram e apagam da cabeça do povo que se trata de concessão pública, e portanto, eles têm sim satisfações a prestar, ainda mais.

Essa novela com o Dunga é muito enjoada. Eu não me empolgo com a seleção brasileira, não me mobilizo na torcida, morro de raiva do Galvão narrando um gol. Mas pera lá, dá vontade de torcer pro Dunga vencer só para, a la Zagallo - que não chegou a ser tão perseguido -, esses terem que engolir.

Aquele papo de jornalista magoado porque não pode cobrir treino já estava me aborrecendo há horas, como dizem no Rio Grande do Sul. Era inacreditável o número de matérias produzidas com o único objetivo de choramingar a ausência da imprensa no treino da seleção. Quando viram que não venceriam esse duelo, mudaram o tom: "Tá bom, Dunga pode determinar que o treino é fechado, mas o método foi bem ruim", cheguei a ouvir num telejornal.

Vem cá, o que importa a um leitor, ouvinte ou telespectador se a imprensa entrou no treino ou não e de que forma isso foi definido? Querem fazer disso uma pauta, ou (mais) um elemento de desagrado na opinião pública. O jornalista pode fazer bem seu trabalho sem esse acesso ilimitado. Porque, afinal, ninguém terá acesso ilimitado. Será que é por isso que alguns estão tão desapontados com Dunga??!

O quarto poder foi desafiado. Como reage? Se não se cumpre sua vontade, aí vem retaliação com os meios de que dispõe. A questão é que esses meios são públicos, em larga medida, e o bem com que lidam - a informação - também não lhes pertence. Isso é covardia. E é, no mínimo, pedante demais não aceitar limites. Ou pra Globo não vale o velho dito popular: "Quem fala o que quer, ouve o que não quer"?

segunda-feira, 8 de março de 2010

8 de março de 2010

Um grande amigo me aborda hoje – “Devo dar parabéns pelo Dia Internacional da Mulher?”. Respondo que sim, já que ele conhece o significado. É parabenizar pela luta das mulheres contra a opressão, pelas vitórias conquistadas, por não se abaterem diante dos enormes desafios que ainda há... é difícil combater uma coisa que tanta gente acha que nem existe. É um absurdo, mas é verdade. E mesmo alguns que até aceitam a existência da desigualdade, desqualificam a luta quando lhes interessa. Interesses de natureza variada.

Este ano, são 100 anos do Dia Internacional da Mulher. A data veio da luta de mulheres trabalhadoras, e foi definida em uma conferência de mulheres socialistas. Não é pra vender perfume ou roupa íntima. Não é pra dar flores e ser gentil por um dia. É para, pelo menos, provocar reflexão. E se esse maldito capitalismo não conseguiu fazer do Dia Internacional da Mulher, até hoje, mais uma de suas datas comerciais, isso se deve à luta das feministas, que continuam indo para as ruas, que continuam dando a cara a tapa, pautando, propondo, lutando. Ainda há muito o que fazer.

Para mim, o Dia Internacional da Mulher, em 2010, teve um gosto especial. Pela data em si; por ser seu aniversário de cem anos; pelo fato de minhas companheiras da Marcha Mundial das Mulheres estarem realizando uma iniciativa ousada – literalmente, uma marcha entre Campinas e São Paulo, parte de uma ação internacional -; porque a SOF (Sempreviva Organização Feminista), junto com a editora Expressão Popular, vai lançar um livro que recupera a origem e o sentido do 8 de março, com cuja produção eu tive o prazer e a honra de colaborar. Por tudo isso... e mais uma coisa.

Acordei cedo e me dirigi à Delegacia Regional do Trabalho hoje. Parece planejado, mas juro que não foi. Fui buscar meu registro profissional de jornalista – o MTB. Quem me acompanha com mais atenção sabe minha opinião sobre diploma em jornalismo. Quem senta numa mesa de bar comigo sabe o que aconteceu nos últimos meses de 2009 sobre esse assunto, concretamente. O reconhecimento legal da profissão que eu exerço há quase dez anos veio hoje, aos cem anos do Dia Internacional da Mulher. E veio carregado de muitas lutas – pelo menos abstratamente, para mim. A luta que primeiro deu significado à minha militância política, a defesa da democratização da comunicação. Ela puxou outra coisa, exatamente o meu repúdio ao corporativismo e à reserva de mercado. E a luta feminista, sem a qual eu não sei quem sou, simbolizada neste 8 de março de 2010.

O exercício do jornalismo, para mim, sempre esteve comprometido com essas duas lutas. Mais do que isso: o jornalismo se colocou para mim a partir dessas duas lutas. É meu instrumento. Deveria ser instrumento de luta mais do que é da transmissão do mais do mesmo que observamos no tal evento dos donos da mídia, semana passada. Eles são os donos da mídia, eles comandam a imprensa, os veículos de comunicação, o entretenimento, o jornalismo, os que para eles trabalham. Eles falam em liberdade de imprensa e em combate à censura apenas para defender seu direito individual de falar o que quiser sem ter consequências – mas perguntem onde eles estavam durante os “anos de chumbo”. Eles têm a pachorra de se dizerem porta-vozes do povo, mas eles são 9 famílias, e nós somos milhões e milhões. Eles acham que têm um poder divino, e só eles têm, ninguém mais pode ter: o de comunicar.

Quisera eu que os ideais de verdade e de justiça que movem muitos e muitas que decidem ser jornalistas sobrevivessem aos ímpetos da competição de mercado e da compra de dignidade que muitos veículos promovem. Conheço, felizmente, uma porção – com ou sem diploma em jornalismo – que seguem movidos por aqueles ideais. Que esses ideais se pintem de lilás. Que continuemos nos indignando. Que não nos cansemos de brigar com quem usa argumentos de mercado para justificar a opressão das mulheres. A imprensa precisa de mais feministas.

Hoje, além da felicidade de cem anos de história, eu sinto a felicidade de quem renova um compromisso. Meu MTB sempre será esse instrumento. A luta das mulheres pode contar com ele.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Práticas antissindicais, perseguição e censura

Na contramão do sindicalismo combativo, e resumindo suas ações ao corporativismo puro e simples, sindicatos de jornalistas de diversos estados brasileiros têm promovido perseguições e chantagens contra organizações sindicais ou da esquerda de maneira geral, pela demissão de jornalistas, trabalhadores dessas instituições, que não tenham sua formação específica em jornalismo.

Esse é um bom lead para uma matéria que visa a informar o que alguns sindicatos de jornalistas vêm fazendo para impedir jornalistas de trabalhar.

Eu sei de situações revoltantes no Rio Grande do Sul, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Goste o sindicato de jornalistas ou não, esses profissionais estão exercendo sua profissão legalmente, a despeito do corporativismo raso da intervenção desse movimento “pró-diploma”, que se diz “pró-regulamentação”, mas não é.

Em vez disso, a ação tem sido reforçar o discurso de que a qualidade do jornalismo depende da formação universitária específica (premissa muito fácil de se contrariar). Os sindicatos de jornalistas não querem sindicalizar os trabalhadores que exercem sua profissão sem o diploma específico. Não querem protegê-los de abusos e violações de direito. Querem ser mais um agente na precarização do trabalho desses, ao que tudo indica.

A história chega ao cúmulo de plenárias de forças políticas apreciarem a situação de funcionário cuja cabeça está sendo pedida pelo sindicato de jornalistas. Em alguns lugares, eles ameaçam de retaliação a instituição empregadora, ou em outros, sugerem que vão expor o trabalhador ou trabalhadora a constrangimentos. Às vezes, são as duas coisas combinadas. Mas isso não é assédio moral? Ou é bancar a polícia?

Se uma central sindical é solidária à luta corporativa dos sindicatos de jornalistas em defesa da reserva de mercado, jamais poderá ser condescendente com práticas de assédio moral ou com a subordinação preconceituosa de determinados(as) trabalhadores(as) a critérios absolutamente controversos.

Outro dia, chegou até mim a boataria, pela boca de colegas não tão próximos da vida sindical. Um jornalista, cujo nome protejo, disse: “Eu soube que tal lugar contratou jornalista sem diploma! O nome do dito-cujo é Fulano!”. O coitado do Fulano ficou assustado com a repercussão de um assunto que é, simplesmente, seu trabalho cotidiano há mais de dez anos. E então, cria-se um cordão de isolamento em torno da pobre criatura... tratada como criminosa, como se fosse um traficante de animais selvagens, sei lá.

Além de serem repudiáveis as práticas recentes encaminhadas pelos sindicatos de jornalistas de alguns estados, há que se reforçar que a opinião deles NÃO é um consenso. A cruzada deles pela reserva de mercado NÃO é a opinião de toda a esquerda, NÃO é a opinião de todos os que trabalham. É preciso romper com esse falso consenso que paira no ar, que, muitas vezes, justifica essas ações de perseguição, preconceito e anti-sindicalismo que se vê por aí.

Ass: Adelaide de Julinho

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Um ano

Hoje este blog completa 1 ano...

Até que é bastante coisa. A internet tem essa democracia de abrir espaço pra quem quer falar, mas ainda não oferece a democracia do acesso ao que se fala...

Pensei em festejar o ato de escrever, de opinar, a língua portuguesa, as palavras, os conteúdos, os instrumentos... mas decidi falar sobre "ser livre".

No blog, posso escrever minhas crônicas, meus artigos de opinião, reproduzir textos de informação, sem que ninguém me considere uma criminosa por escrever sem ter diploma de jornalista. Aqui eu não sou perseguida pelos guardiães do corporativismo, que priorizam a batalha por reserva de mercado que a luta por regulamentação da imprensa, do exercício da profissão, na perspectiva da democratização da comunicação. Ninguém, aqui, pode pedir pro provedor me excluir pelo fato de estar escrevendo sem ser formada em jornalismo.

Enquanto isso, jornalistas diplomados escrevem suas matérias reproduzindo os velhos preconceitos e a mesma hierarquização que se vê há décadas e décadas. O sensacionalismo tosco diante de tragédias particulares e coletivas, a abordagem viciada de temas polêmicos, a prioridade editorializada da opinião de uns poucos sobre tudo e mais um pouco. Mas os leads estão perfeitos! (mentira, muitas e muitas vezes não estão) As entrevistas estão impecáveis e as fotos estão bem escolhidas! (como se isso fosse produto, meramente, de uma técnica pretensamente "neutra")

Ora, vão destruir o excelente jornalismo que temos no Brasil ao acabar com a obrigatoriedade do diploma de jornalista!!! A solução é... colocar na Constituição!

Quanta bobagem.

Quero, antes, ver uma nova Lei de Imprensa ser elaborada democraticamente e aprovada pelo Congresso Nacional, dentro de paradigmas muito distintos dos que embasaram a Lei anterior. Quero ver regulamentado o direito de resposta, quero que a imprensa seja imprensa e não Poder Judiciário, quero que não haja impunidade, quero que não haja censura. Quero que se regulamente o exercício do jornalismo, e não que se resuma isso a uma formação particular. E quero, principalmente, que tudo isso se dê a partir do princípio da democratização da comunicação, do incentivo a veículos comunitários e populares, do fim da propriedade cruzada, do controle social. Repito, em letras garrafais: CONTROLE SOCIAL. De novo, pra não ter dúvida: CONTROLE SOCIAL.

A liberdade de imprensa não é uma liberdade de empresa. E nem liberdade SÓ da imprensa. Muito menos SÓ de ALGUMA imprensa.

Pra usar a sabedoria popular, a liberdade de um termina onde começa a do outro... Desde os meus tempos de Enecos (Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social - contra a obrigatoriedade do diploma), sabíamos que só podemos ser livres juntos.

Pela democratização da liberdade!

“Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”
(Cecília Meirelles)

segunda-feira, 30 de março de 2009

A nossos(as) eleitores(as) e apoiadores(as), muito obrigado!

Mensagem da chapa 2, que disputou o Sindicato dos Jornalistas de SP.

Encerrado o processo eleitoral no Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, nós, membros da Chapa 2, "Enfrentar a Crise, Sindicato é Pra Lutar!", agradecemos a todos/as aqueles/as que con fiaram na nossa disposição de luta e nosso Programa e apostaram na proposta de renovação do Sindicato. Não conseguimos vencer, mas reafirmamos nesta campanha a grande vitalidade da Oposição e o respaldo que continua a merecer na maioria das grandes redações.

Nesta eleição, 1.168 jornalistas tiveram seus votos validados.

A Chapa 2 recebeu 515 votos, 44% dos votos válidos. A Chapa 1, da situação, recebeu 653 votos, 56%.

Apesar da derrota, a Chapa 2 foi a mais votada na capital: somadas as urnas 1 (sede) e 2 a 6 (volantes), recebemos 303 votos, mais do que os 283 votos recebidos pela Chapa 1.

É um resultado histórico, que indica a existência de uma crescente insatisfação dos/as jornalistas com a apatia e o abandono que vitimam nosso Sindicato. Insatisfação que não se manifesta apenas nas redações, mas também é encontrada entre assessores/as de imprensa e colegas aposentados/as.

Nas regionais, bem como na urna de votos por correspondência, fomos derrotados. Mas vencemos em Bauru (34 x 19) e obtivemos resultados importantes em Piracicaba (14 x 15), Sorocaba (17 x 20) e Santos (43 x 78).

Continuaremos batalhando para fortalecer nosso Sindicato e dar-lhe um perfil combativo, capaz de defender a categoria da ganância dos patrões e de torná-lo um protagonista atuante na sociedade brasileira, em especial na luta pela democratização das mídias. Para tanto, a sindicalização de milhares de jornalistas é um passo indispensável.

Como temos feito ao longo dos últimos anos, procuraremos, com a ajuda da categoria, fiscalizar a diretoria eleita e exigir que cumpra seus compromissos de campanha, além de prestar os esclarecimentos necessários quanto a denúncias recentes que ainda não foram respondidas satisfatoriamente.

A tod@s que nos apoiaram, reiteramos nosso muito obrigado!

Chapa 2, "Enfrentar a Crise, Sindicato é Pra Lutar!"

segunda-feira, 23 de março de 2009

Jornalistas: sindicato é pra lutar!

ELEIÇÕES 24 a 26 de MARÇO
Conheça mais: www.sindicatopralutar.com.br


O Movimento Sindicato é Pra Lutar! foi criado em abril de 2002, reunindo profissionais que, inconformados com os rumos tomados pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, decidiram organizar-se com a finalidade de levar a categoria a refletir sobre a difícil situação da entidade, e a agir para superar a crise.

Sabíamos que qualquer mudança real no Sindicato dependeria de uma nova atitude dos colegas. Pois o Sindicato só retomará uma posição mais combativa em defesa dos interesses e direitos dos jornalistas, só cumprirá seu papel, quando for reconquistado por aqueles que trabalham nas redações de jornais e revistas, nas emissoras de televisão e rádio, portais da Internet, assessorias de imprensa.

Vários dos que se engajaram na iniciativa haviam participado, nas eleições de março de 2000, da Chapa 2-Sindicato Vivo, que só foi derrotada porque a Chapa 1, da Diretoria, praticou todo tipo de manobra antidemocrática: preencheu sozinha todas as vagas da comissão eleitoral, nomeou todos os mesários, ofereceu vacinação gratuita aos sócios nas datas da eleição (e no recinto de votação) e ainda lançou um plano de saúde eleitoreiro (o PSS) — que garantiu a vitória do grupo situacionista, mas quebrou financeiramente a entidade.

Em março de 2003 o Sindicato passou por um novo processo eleitoral. Mas, desta vez, o grupo que controla a entidade não quis correr nenhum risco. A Chapa 2, apresentada por nós, não conseguiu sequer inscrever-se, embora contasse com nada menos do que 54 jornalistas de dez cidades diferentes. Foi impugnada sob o pretexto de que não apresentara candidatos para a diretoria regional de Piracicaba — que, à época, simplesmente não existia como tal, pois não possuia sede, endereço, telefones ou mesmo filiados em número suficiente para formar chapas.

Nem por isso nosso coletivo desistiu. Pelo contrário, continuou a participar de todas as atividades importantes para o Sindicato e para a categoria. Logo após as eleições, o fatídico plano de saúde encerrou de modo drástico as suas atividades, tal como havíamos previsto, deixando uma dívida imensa para a entidade e prejuízos para centenas de usuários.

Nossa atuação nas assembléias orçamentárias, que discutem a aplicação dos recursos financeiros do Sindicato, tem-se pautado pela apresentação de propostas alternativas, que contemplam a necessidade de modificar o sistema de financiamento da entidade (abolindo as taxas compulsórias e implantando a mensalidade proporcional aos salários) e — ao mesmo tempo — procuram reorientar a aplicação dos recursos. Estamos exigindo que a Diretoria cumpra o dispositivo do Estatuto do Sindicato que resguarda os interesses da categoria em dotações específicas (rubricas) para as atividades de campanha salarial e negociação coletiva, campanha de sindicalização e outras.

Temos participado também de todas as campanhas salariais, desde as assembléias que definem a pauta e o planejamento até, na condição de membros eleitos das comissões de mobilização e negociação, a própria execução das atividades. Desta forma, estamos contribuindo, em alguma medida, com a luta que a categoria vem travando, a cada data-base, para manter o poder de compra de seus salários, diante da voracidade dos patrões. Infelizmente, a Diretoria prima por descumprir a linha das campanhas salariais e as ações definidas em assembléia.

Vamos continuar brigando, guiados pelos princípios históricos da Central Única dos Trabalhadores, tais como a independência frente aos patrões e frente aos governos, a necessidade de organização no local de trabalho, a defesa intransigente dos interesses dos trabalhadores contra a exploração praticada pelos empregadores — exploração que, no setor de comunicação, assumiu proporções de um verdadeiro massacre.

Queremos participar das próximas eleições, que ocorrerão em março de 2006, para que os jornalistas tenham o direito de escolher uma alternativa ao grupo que está à frente do Sindicato há 15 anos e que, nesse período, conseguiu produzir desfiliações em massa e o maior desastre financeiro da história da entidade.

***
Por luta, entenda-se: resistir às arbitrariedades e imposições dos patrões, assumir a liderança dos protestos, informar amplamente a categoria, convocá-la, representá-la como porta-voz de suas reivindicações legítimas. Em resumo: enfrentar o arrocho salarial, as jornadas excessivas, as péssimas condições de trabalho, as demissões, o desemprego.