quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Um ano

Hoje este blog completa 1 ano...

Até que é bastante coisa. A internet tem essa democracia de abrir espaço pra quem quer falar, mas ainda não oferece a democracia do acesso ao que se fala...

Pensei em festejar o ato de escrever, de opinar, a língua portuguesa, as palavras, os conteúdos, os instrumentos... mas decidi falar sobre "ser livre".

No blog, posso escrever minhas crônicas, meus artigos de opinião, reproduzir textos de informação, sem que ninguém me considere uma criminosa por escrever sem ter diploma de jornalista. Aqui eu não sou perseguida pelos guardiães do corporativismo, que priorizam a batalha por reserva de mercado que a luta por regulamentação da imprensa, do exercício da profissão, na perspectiva da democratização da comunicação. Ninguém, aqui, pode pedir pro provedor me excluir pelo fato de estar escrevendo sem ser formada em jornalismo.

Enquanto isso, jornalistas diplomados escrevem suas matérias reproduzindo os velhos preconceitos e a mesma hierarquização que se vê há décadas e décadas. O sensacionalismo tosco diante de tragédias particulares e coletivas, a abordagem viciada de temas polêmicos, a prioridade editorializada da opinião de uns poucos sobre tudo e mais um pouco. Mas os leads estão perfeitos! (mentira, muitas e muitas vezes não estão) As entrevistas estão impecáveis e as fotos estão bem escolhidas! (como se isso fosse produto, meramente, de uma técnica pretensamente "neutra")

Ora, vão destruir o excelente jornalismo que temos no Brasil ao acabar com a obrigatoriedade do diploma de jornalista!!! A solução é... colocar na Constituição!

Quanta bobagem.

Quero, antes, ver uma nova Lei de Imprensa ser elaborada democraticamente e aprovada pelo Congresso Nacional, dentro de paradigmas muito distintos dos que embasaram a Lei anterior. Quero ver regulamentado o direito de resposta, quero que a imprensa seja imprensa e não Poder Judiciário, quero que não haja impunidade, quero que não haja censura. Quero que se regulamente o exercício do jornalismo, e não que se resuma isso a uma formação particular. E quero, principalmente, que tudo isso se dê a partir do princípio da democratização da comunicação, do incentivo a veículos comunitários e populares, do fim da propriedade cruzada, do controle social. Repito, em letras garrafais: CONTROLE SOCIAL. De novo, pra não ter dúvida: CONTROLE SOCIAL.

A liberdade de imprensa não é uma liberdade de empresa. E nem liberdade SÓ da imprensa. Muito menos SÓ de ALGUMA imprensa.

Pra usar a sabedoria popular, a liberdade de um termina onde começa a do outro... Desde os meus tempos de Enecos (Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social - contra a obrigatoriedade do diploma), sabíamos que só podemos ser livres juntos.

Pela democratização da liberdade!

“Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”
(Cecília Meirelles)

domingo, 8 de novembro de 2009

Manifestação Contra a Violência Sexista

São Paulo - Vá à Uniban protestar!

Os Movimentos Feminista, Sindical e Estudantil convocam um ato contra a violência sexista ocorrida na UNIBAN, que neste momento tem como agravante a expulsão da aluna que recentemente sofreu violência, ou seja, a vítima foi transformada em ré, os agressores estão impunes. A UNIBAN, com essa conduta, banaliza, estimula e justifica a violência contra a Mulher.

NÃO podemos nós calar!

ATO nesta segunda-feira, 9 de novembro, às 18 horas na porta da UNIBAN São Bernardo do Campo.

Endereço: São Bernardo do Campo – Avenida Rudge Ramos, 1501 (fica no KM 12 da Via Anchieta) para quem sai de são Paulo é necessário fazer o retorno.

Saudações feministas
Marcha Mundial das Mulheres

Mensagem da UNE:

UNE protesta contra discriminação por uso de vestido curto

Nós, mulheres estudantes brasileiras, vimos a público repudiar todas as forma de opressão e violência contra as mulheres. No dia 22 de outubro deste ano, uma aluna da Uniban (campus ABC – São Paulo), com a falsa justificativa de ter ido à aula de "vestido curto", é seguida, encurralada, xingada e agredida por seus "colegas estudantes".

A cena de horror é filmada, encaminhada à Internet e vira notícia por todo o país. Não aceitaremos que casos de machismo como esse passem despercebidos ou que se tornem notícia despolitizada nos meios de comunicação.

O fato em questão revela a opressão que as mulheres sofrem cotidianamente, ao serem consideradas mercadoria e tratadas como se estivessem sempre disponíveis para cantadas e para o sexo. Não toleramos comentários que digam que a estudante "deu motivo" para ser agredida. Nenhuma mulher deve ser vítima de violência, nem por conta da roupa que usa nem por qualquer outra condição. Nada justifica a violência contra a mulher.

Sendo assim, nós, mulheres estudantes brasileiras, organizadas na luta pelo fim do machismo, racismo e homofobia, denunciamos a violência sexista ocorrida contra a aluna da Uniban, nos solidarizamos com as mulheres vitimizadas por esses crimes e queremos punição a todos os agressores envolvidos nesse episódio e em outros tantos que acontecem e não repercutem na mídia. Não vamos nos calar perante o machismo e a violência.

Somos Mulheres e não Mercadoria!

Diretoria de Mulheres da União Nacional dos Estudantes


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Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do Governo Federal cobra explicações da Uniban.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Sensação de casa de férias

Quando me mudei para o Largo do Arouche, para morar na companhia do amigo Anderson Campos, comentávamos entre nós que aquela nossa casa nova parecia uma casa de férias. Eu lembro da sensação. Eu nunca tinha morado sozinha, e parecia uma coisa tão cheia de liberdade, e uma felicidade sortuda de dividir um apartamento no centro com um amigo querido, com que isso trazia essa coisa gostosa de sensação de casa de férias. Como todas férias, dá medo de que acabe logo...

Mistura-se com isso o fato de que nos mudamos num dezembro. Fim de ano também dá sensação boa. Pelo menos, pra mim. Não é de nostalgia, de melancolia. É de vontade de viver mais, em paz com o mundo e comigo... é aquela trivialidade de retomada da esperança, de mudar o que não gostamos, de fazer promessa de sermos melhores por termos vontade disso, de fato. Um tempinho pra descansar, pra ter expectativas. Sensação de dever cumprido e disposição de encarar os desafios novos. Depois de uma certa idade, você torce para que os desafios sejam novos. Mas isso é outra história.

Enfim. O Anderson, quando saí de casa, me disse que aprendeu em Jericoacoara (nossa viagem de ano novo, entre amigos) que sempre haverá casas de férias. Isso não acaba.

Domingo último acordei com essa sensação. Esquisito. Lembro que, ano passado, só me dei conta do fim do ano quando ele já estava quase no fim mesmo. Este ano é diferente. Este ano foi tão intenso que eu estou sentindo ele acabar desde agora. Talvez não com todas aquelas sensações que descrevi acima, pelo menos, ainda não na sua plenitude. Mas com a alegria que elas trazem.

Acordei domingo como se fosse dia de Natal. Aquela coisa gostosa de só encontrar quem você quer encontrar. De não ter horário de acordar e de dormir. Uma sensação de mandar no próprio tempo. Era um contexto de felicidade que trouxe mais bons sentimentos. Não sei. Uma epifania.

Eu queria ser capaz de prolongar essa sensação de felicidade ao máximo. Sempre ter uma casa de férias. Mas isso todo mundo quer, não? Controlar medo, ansiedade, controlar tudo que é ruim e amplificar o que é bom. Naquela manhã de domingo, foi a percepção de que isso é mesmo possível que tornou o dia tão feliz quanto um 31 de dezembro de ano de missão cumprida.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Intolerável

Não existem palavras que definam o que foi o comportamento daquele monte de trogloditas estudantes da Uniban São Bernardo.

A história da menina vestida “com pouca roupa”, que praticamente foi atacada pelos colegas, agredida, perseguida, assediada, humilhada, é de chorar. Que tipo de gente promove um tumulto com o objetivo de violentar alguém? Que tipo de gente faz isso como quem vai à esquina comprar cigarros?

A confusão foi tamanha que a polícia foi acionada. A estudante só conseguiu sair da faculdade enrolada num jaleco e escoltada, e ainda assim, sob vaias e xingamentos. Não vi o famigerado vídeo no YouTube, não tenho estômago pra isso. Imaginar a cena já me faz passar suficientemente mal. Mas há quem tenha estômago de aço pra essas coisas, e esses fotografaram e fizeram vídeos pelo celular da cena bizarra que a Uniban presenciava.

Não há nada que justifique isso, nada. Nenhuma história anterior, nenhum contexto de conflito – que não parece haver. “Agiram mal, mas ela provocou”, li em alguns depoimentos de colegas. E certamente é o que muitos pensaram.

O que dizer de um torcedor do Palmeiras, vestido a caráter, que é agredido violentamente por torcedores do Corínthians? Que ele provocou??? A animalidade que algumas pessoas podem assumir, a possibilidade de o insano acontecer, não é motivo para atribuir à vítima o papel de cúmplice da violência que ela mesma sofreu. O normal não é isso. Nosso paradigma tem que ser o da normalidade, o das pessoas que convivem socialmente, e não o de animais incapazes de ter discernimento ou de ter a razão prevalecendo ao instinto.

Não me importa que roupa a moça vestia. Importa que ela foi duramente violentada, e isso não podemos tolerar.

Deveria importar para os julgadores de plantão que o que mais se vê neste mundo de comunicação globalizada e instantânea é milhares de listas de mulheres mais sexy, mais desejadas, mais bem-sucedidas por terem seu corpo “em forma”. As mulheres mais festejadas pela mídia são as que cumprem padrões estéticos, não éticos, profissionais, políticos ou morais. As que são expostas como referências para as meninas são as que são desejadas, as que vestem pouca roupa, as que deixam marmanjos babando pela sua sensualidade, exaustivamente explorada por tudo que é revista masculina, feminina, canal de TV privado ou não. Todas as meninas querem ser bem-sucedidas, aceitas. Pra isso, ensinaram-lhes que devem ser desejadas. Devem ter belos corpos e expô-los.

Não quero fazer um debate determinista sobre o que levou a garota a se vestir de forma x, y ou z. Muito menos pretendo justificar a ação de lado a lado a partir daí. Mas questionemos, portanto, qual a ética e qual a moral de um mundo que apresenta esse caminho para as mulheres, o de serem objetos a serem expostos e usufruídos, como um caminho possível para "o sucesso". Quantas não fazem isso? Quantos não acompanham as “mulheres-fruta”, as globais de capa de revista masculina, etc etc etc? Quem há de julgar a estudante da Uniban, ou atirar a tal da primeira pedra? Ou atirar o mesmo que atiraram em Geni?

O que cabe julgamento é ao comportamento daqueles estudantes que a perseguiram. Isso sim. Há referência ética pra isso. Pra eles, é preciso apresentar algum desfecho. Não podemos tolerar a impunidade de um bando de trogloditas que agride assim a uma mulher.

E alguém se pergunta o que vai ser da vida dessa menina agora? Se ela vai continuar estudando, se vai ter os mesmos colegas? Incrível como os fatalmente punidos não são os criminosos em alguns casos...

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Tem me chamado muita atenção a quantidade de casos de estupro praticados por adolescentes e contra adolescentes que se noticiam nos últimos dias. A violência não está encontrando limites.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Raul Pont, aliado das lutas das mulheres de luta

Como disse o próprio Raul, “a violência veio daqueles que rasgaram a Constituição”.

O povo gaúcho assistiu com perplexidade a reunião derradeira da comissão especial que avaliava o pedido de impeachment contra Yeda Crusius, governadora do Rio Grande do Sul. Mesmo sabendo que a opinião dos gaúchos e gaúchas era pelo impeachment da governadora, por a considerarem culpada (como atestou a última pesquisa do Ibope), a conclusão orquestrada pela maioria governista na comissão e lido em reunião pela relatora e então presidenta estadual do PSDB, Zilá Breitenbach, foi pela absolvição da governadora.

Assim como ao longo de todo o processo de denúncias, tentativas de investigação (sempre sabotadas pelo governo e pela base governista na Assembleia Legislativa), naquela reunião, mais uma vez, os deputados aliados manobraram para impedir questionamentos da ordem do mérito e do método que ali estava colocado - ou melhor, imposto. E independentemente do que a oposição argumentava, o relatório seguia sendo lido pela deputada tucana, e a sessão era mantida com mãos de ferro pelo deputado Pedro Westphalen (PP), presidente da comissão. O alvoroço entre deputados do governo e da oposição, incrementado pela manifestação popular que tomava conta da A.L. e pelos correligionários da governadora tornou-se inevitável.

Um dos desdobramentos daquela triste tarde de 8 de outubro foi a acusação descabida que Zilá Breitenbach aplicou a Raul Pont. Indignadas, quase 300 mulheres de várias regiões do Rio Grande do Sul e de fora dele, militantes dos movimentos de mulheres e de diversos movimentos sociais, educadoras, sindicalistas, psicólogas, advogadas, médicas, jornalistas, estudantes, escreveram para o gabinete do deputado perguntando: ninguém vai fazer nada? Queriam manifestar seu apoio ao deputado Raul Pont por sua história reconhecidamente solidária à luta das mulheres.

Leia a nota apresentada por essas mulheres em apoio ao deputado Raul Pont, em defesa de sua trajetória de proximidade com o feminismo e de sua luta em defesa dos direitos humanos.

Raul Pont, um aliado das lutas das mulheres

Ao escrever, em sua Pagu, que "nem toda feiticeira é corcunda", Rita Lee lançou um apelo implícito: por favor, não nos generalizem pela simples condição feminina. Muito antes da cantora e compositora brasileira, a filósosa francesa Simone de Beauvoir concluía: "não se nasce mulher, torna-se mulher".

Com a ascensão do movimento feminista, uma nova palavra de ordem incorporou-se à luta pela igualdade: "não basta ser mulher". Era um posicionamento demarcador do propalado "feminismo da diferença" e que entendia o movimento feminista não como contrário aos homens, mas como um apelo para que homens e mulheres caminhassem lado a lado, construindo a igualdade de condições e oportunidades.

Esse chamado vem conquistando homens e mulheres através dos séculos, contabilizando incontáveis avanços das mulheres nas mais diferentes esferas de atuação. Nós, que fazemos parte dessa história, reconhecemos no deputado estadual Raul Pont um aliado da nossa luta.

Raul Pont, um militante dos direitos humanos e das liberdades políticas, ainda estudante universitário enfrentou a ditadura militar. Foi preso e torturado e conhece muito bem as marcas que a violência deixa e que o tempo não apaga.

Enquanto parlamentar e prefeito esteve sempre atento às reivindicações dos movimentos de mulheres, presente em nossos atos e defendendo a eqüidade de participação das mulheres nas mais diversas esferas. Os avanços das políticas públicas para as mulheres em Porto Alegre passaram por sua administração. A busca de mais recursos no orçamento do Estado, conta com sua voz na defesa permanente.

Ao contrário de Raul Pont, a deputada Zilá, do PSDB, votou contra emendas importantes que ampliavam recursos para as mulheres no orçamento público. Além disso, sua figura é ausente nas atividades e debates promovidos pelos movimentos de mulheres.

Assim, não podemos aceitar caladas à tentativa de vitimização da parlamentar. Que a deputada se sinta agredida pelo gesto de baixar o microfone quando a sessão estava interrompida é um sentimento seu – pessoal. Não é - e nem seria em hipótese alguma - uma agressão "a todas mulheres gaúchas" como, de maneira pretensiosa, declarou Zilá. Ela está muito longe de representar todas as mulheres gaúchas. Ela não representa sequer todas as parlamentares do Legislativo Gaúcho.

Na defesa da história militante de Raul Pont.

No reconhecimento à sua presença na luta das mulheres.

Na convicção de que a verdade é revolucionária.

Repudiamos todas as tentativas de transformar o deputado Raul Pont no desvio de foco da CPI.

Porque a calúnia pode ser uma violência maior. Ela não fere a carne, mas atinge a honra.

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Eu, particularmente, tenho nojo desse povo que instrumentaliza a luta das mulheres para finalidades tão espúrias quanto esta da deputada Zilá. É gente que tem por hábito desqualificar o feminismo, desdenhar das demandas das mulheres, mas que adora usar como pauta em momentos de puro oportunismo!
O Raul mais do que merece a mobilização feminista em sua defesa. A gente o conhece bem.