terça-feira, 29 de agosto de 2017

A cólera nos tempos da comunicação em rede

Eu não sou lá muito adepta das teses derivadas da hipótese “gentileza gera gentileza”, porque, submersos na cultura capitalista como estamos, a antiquada lei de Gérson acaba fazendo mais sentido na cabeça de boa parte das pessoas.

Mesmo assim, não perder a esperança é um desafio quase diário. Hoje em dia, então, equivale a enfrentar, por dia, cinco leões malabaristas, halterofilistas e domadores de seres humanos. A direita institucional sabe muito bem aproveitar a onda conservadora que forjou para implementar retrocessos que deixariam impressionados os papas do século XI e industriais do século XVIII. A direita difusa na sociedade aproveita para destilar seu ódio contra pobres, pretos, mulheres, homossexuais, estrangeiros de países pobres (sim, porque europeus e estadunidenses os encontram como tapetes estendidos), e qualquer mínima tentativa de distribuir riqueza neste país campeão em desigualdades históricas violentas.

Acrescente-se a esse lastimável quadro a era da comunicação em tempo real. A necessidade de responder a tudo de imediato. Anunciar aos sete ventos toda primeira impressão como se fosse uma opinião elaborada, e defendê-la com unhas, dentes e um teclado.

Eu sou ansiosa. Eu ando descrente da filosofia do “gentileza gera gentileza”. E até para mim, tudo isso tem sido assustador.

Sobra pra todo mundo. Aquele parente chato que votou no candidato oposto ao seu. Os colegas de trabalho com quem você convive, mas não conversa sobre esses temas pessoalmente. O cara que você não gosta, e aproveita qualquer assunto que apareça para alfinetá-lo. O Chico Buarque. A Sônia Braga. O Gregório Duvivier. As feministas da sua timeline. E por aí vai.

É uma perda coletiva de noção.

Nem ouso pedir “mais amor por favor”. Respeito já estaria bem. Nas aulas de Propaganda Ideológica na faculdade, aprendi que uma técnica fundamental do discurso nazista tanto quanto do discurso de guerra dos EUA é a desumanização do outro. Em frente a você, não há uma pessoa. Você aliena de seu adversário os sentimentos, a trajetória de vida, os pensamentos, como foi seu dia, como foi sua vida. Você cria um cara que poderia ser o adversário dos Transformers. E sendo assim, você pode matá-lo. Quando ele está atrás de um monitor, então, melhor ainda! Sem vê-lo, é mais fácil desumanizá-lo. E então, você pode matá-lo com requintes de crueldade.

Dirijo-me mais aos meus, porque há uma outra premissa em que acredito: viver como se pensa, para não terminar pensando da forma como temos vivido. Coerência é tudo, e creio que, neste triste momento histórico nosso, peito aberto é escudo.

Os tempos são duros o suficiente, não nos endureçamos para não parecermos muito com os tempos. Deixem os eu-líricos do Chico Buarque em paz. Sai do grupo de whatsapp da família, que só te irrita. Não xingue nem vocifere contra o pobre que acessou a universidade graças ao sistema de cotas, que foi implementado por um governo legítimo, eleito para executar esse programa. Para com a mania besta de provocar a amiga feminista com meia-dúzia de senso comum besta e machista. Faça um pouco de esforço para entender que a sua vida de pessoa branca é mais fácil que a de qualquer pessoa negra, e a responsabilidade sobre isso não é da pessoa negra. A gente pode discordar sem ser tosco. A gente pode disputar sem ter ódio.

Discurso gandhista à parte, como militante, fui formada numa tradição que entende que o mundo só muda a partir da ação coletiva organizada. Eu entendo, até certo ponto, a necessidade de responder com raiva a todo e qualquer ataque que se faz nas redes sociais contra as políticas e contra as pessoas em quem confiamos. Eu entendo a vontade incontrolável de criticar de imediato uma música sem ouvir duas vezes, sem pensar, sem contextualizar. Eu sei que nossa sensação de impotência diante das enormes injustiças nos traz aquele espírito do “dia de fúria”, e lá vem bomba. Eu chego perto até de entender essa necessidade de criar heróis e vilões, e de transformar heróis em vilões de uma hora para a outra, para a novela ficar mais emocionante.

Mas gente, isto aqui é vida real.

Quem muda a vida real não são personagens. São seres humanos. As leis que nos governam não são posts de facebook. Nossas verdades universais, nossas premissas, nossas convicções merecem que façamos por elas a boa batalha. E nós, mais do que ninguém, sabemos que elas não serão vitoriosas nem por decreto, nem por osmose.

Por favor, saibamos dimensionar nossa raiva.

Este poderia ser meramente um texto em defesa do seu próprio estômago, para evitarmos sua úlcera. Mas é em defesa de um padrão de civilidade que, se não existir, tornará bem mais difícil realizarmos nossa já difícil tarefa de mudar este mundo desgramado.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Mesmo calado o peito, resta a cuca

A Cultura está sob ataque em todo o país.

Em São Paulo, o prefeito playboy e higienista estrangula tanto o Clube do Choro quanto a Orquestra do Teatro São Pedro; enquanto o pai político dele, o governador, mata a Banda Sinfônica do estado.

Em Porto Alegre, a Fundação Piratini corre risco sério e iminente de extinção. A TVE e a Rádio FM Cultura são espaços privilegiados para circulação e promoção da produção musical de Porto Alegre.

Em Brasília, amanhecemos todos os dias alertas para evitar que metam a mão no FAC (Fundo de Apoio à Cultura).

No Rio, cidade que abrigou as tias baianas que embalaram o samba nos braços, que concebeu a Santíssima Trindade do Samba; o prefeito quer restringir e controlar quase que pessoalmente a ocupação do espaço público por manifestações culturais - inclusive o sagrado samba da Pedra do Sal.

E por aí vai.

Nessas quatro capitais, citei apenas poucos e representativos exemplos do que está havendo. Há muito muito mais. Há muito mais nas demais cidades, nos demais estados, no Brasil em cujo centro de poder os golpistas se instalaram, e mostram, dia após dia, seu desprezo pela arte e pela cultura popular brasileira. Falo de música porque é o que eu conheço mais, mas situações análogas se verificam nas artes cênicas, plásticas, audiovisuais, literatura, nos investimentos em Educação e formação de público.

Coincidência ou não, a comunidade artística foi das mais combativas na resistência ao golpe. A ponto de reverter o retrocesso máximo, que seria a extinção do Ministério da Cultura.

O pessoal das trevas não brinca em serviço não. Eles sabem que a cultura popular impulsiona um povo forte e consciente de si.

[Há quase um ano, escrevi uma crônica sobre as incessantes tentativas de nos calar e de nos desalojar. Tudo aquilo parece estar se aprofundando. Mas como disse Belchior, a voz resiste, a fala insiste: você me ouvirá!]

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Futuros Militantes

Não se afobe não, que nada é pra já.

A História pode até parecer estranha, mas, uma hora, ela revelará com nitidez todos os meandros, manobras, manipulações e tudo que foi promovido em silêncio, num fundo de armário, com objetivos camuflados em camisetinhas amarelas, pato pateta, interesses escusos fantasiados de patriotismo. Não serão necessários milênios, milênios no ar. Algumas décadas serão suficientes.

E quem sabe, então, o Brasil será algum país submerso.

Os escafandristas virão explorar nossas casas. Encontrarão os computadores, celulares, reavivarão nossas contas nas redes sociais, nossas almas desnudas, raivosas ou assustadas. Encontrarão as expressões do ódio de classe, o desfile dos preconceitos sórdidos, e não encontrarão autocrítica em lado nenhum. Mas calma. Não haverá um deus para julgar ou punir. Quem faz isso é a História.

Sábios decifrarão com facilidade o eco daquelas palavras incisivas que alguns derramaram como se não houvesse amanhã. Fragmentos de panfletos, revistas semanais, mentiras, retratos. Vestígios de estranha civilização.

Não se afobe não, que nada é pra já. Um dia, tudo estará descortinado. As gerações futuras entenderão perfeitamente que foi golpe. Os protetores das vidraças não passarão. Futuros militantes, quiçá, marcharão - sabendo bem - pra coroar todo o esforço que um dia deixamos para eles.

E essa parte é agora.



SEXTA-FEIRA É GREVE GERAL.

[Que o marido da Ana Hickman nos perdoe o transtorno. A História, felizmente, registrará que estivemos em lados opostos.]

sábado, 17 de junho de 2017

Deja vu

Tive um deja vu estranho no último domingo, no aeroporto JK.

Ao regressar de Porto Alegre, os alto-falantes do local onde parei para um café tocavam a música “Regina, Let’s Go”, da banda paulista CPM 22 (nem sei se ainda existe ou a quantas anda, mas lembro que o Japinha era nosso colega na Ciências Sociais da USP).

Transportei-me imediatamente para 2001. As tarefas militantes me traziam a Brasília com alguma frequência, e não era raro parar para um lanche em qualquer lugar da rodoferroviária (depois das quatorze horas de ônibus que separam São Paulo e Brasília) e deparar com “Regina, Let’s Go” bombando na rádio.

Nas festas, quando a música rolava, eu gostava de gritar bem alto “eu não vou mais me importaaaaar”. Quando você supera os vinte anos, percebe que cada vez você se importará menos, o que, como tudo na vida, tem um lado bom e um lado ruim. Você se fere menos na medida em que menos se importa. Mas o mundo muda menos também.

Quando era do movimento estudantil, vir a Brasília significava combater as políticas neoliberais de FHC e sua turma, DEM à frente. Greve nas universidades federais, rejeição ao “provão” (lembram?), resistência a todas as tentativas de privatização. Reforma da Previdência e Trabalhista estavam sempre em pauta, mas eles não conseguiram executar – pelo menos, não plenamente.

Agora era eu, numa tarde de domingo, regressando de Porto Alegre, minha cidade adotiva, para a cidade onde vivo, Brasília. O vocalista do CPM 22 continuava a declarar “eu não vou mais me importaaaaar”. Chegou a dar um frio na barriga. Não existe mais aquela MTV que me apresentou essa música. Eu continuo me metendo nas confusões que jorram gás lacrimogêneo e spray de pimenta, que atormentavam a mente da minha mãe naquela época. Voltamos a estar sob fortes ataques a direitos trabalhistas e até a qualquer avanço cívico. A ânsia de destruição parece pior agora, depois de catorze anos de governos progressistas. A dor no peito de sentir-se ora acuada, ora perdida, e sempre indignada, também aperta mais forte.

E, tendo vivido dezesseis anos mais, o verso que incomoda não é “eu não vou mais me importaaaar”. Mas sim aquele que fecha a música: “daqui a pouco é tarde demais”.

A gente precisa se achar logo.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Vidraça

Te acalma
Não deixe que te agridam o coração
Deixa ele aberto,
Que os tiros te ultrapassam
Sem te ferir

Não feche tuas veias,
Que assim o sangue não passa
Não deixe à vista tua laringe tensionada
Para voz passar,
Tu precisas abrir

Os tempos são duros
Não te endureças
Para não pareceres com os tempos

A certeza do caminho
Dá leveza aos nossos passos
As manobras do destino
Não se amarram feito laço

Fiquemos nas ruas!

Nossos sonhos
Não podem ser contidos pelas vidraças
Deles.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Algo está faltando


Semana passada, eu extraí uma pinta. Uma pinta, uma marca do rosto, que ficava na lateral da minha face, praticamente no meio do caminho entre o olho e a orelha.

Ela não existia quando eu era criança. Foi depois da adolescência que a bicha começou a se apresentar, e aumentar de tamanho até ensaiar tornar-se uma verruga. Uma verruguinha, vai, pequenina, tão inofensiva quanto indefesa. Feia porque em alto-relevo. Da outra pinta, no mesmo lado da face, mas abaixo, na altura do queixo, dessa eu gosto. Ela é marrom e não é pretuberante - e sempre esteve ali. A outra confundia-se com a pele pela cor, mas formava um pequeno monte em meio à planície. Não gostava dela desde que ela começou a se fazer notar.

Ameaço eliminá-la há meses já. Semana passada, encontrei tempo, disposição e coragem ao mesmo tempo e lá fomos nós. Não demorou, não doeu, foram dois pontinhos só.

Hoje cedo eu tirei o ponto que restara (um já havia sido removido). Olhei meu novo rosto, já sem a marca. O local onde ela existia está avermelhado, recuperando-se, cicatrizando, até não haver mais sinal nenhum de que ali houve, um dia, uma pinta com cara de verruga.

Veio uma sensação esquisita de não reconhecer meu rosto. Onde está aquela coisa? Eu não gostava dela, mas ela sempre esteve ali. Ok, não sempre. Não sempre. Mas um dia ela chegou, sei lá quando, e desde então - faz tempo - ela estava ali, assombrando todas as minhas fotos de perfil. Tão inofensiva quanto indefesa.

Sei lá por quê senti essa espécie de vazio interior. Por que diabos eu quis extrair uma marca dessas, que a natureza pôs ali? Logo eu, que tenho centenas de restrições a intervenções cirúrgicas com finalidade estética. Não sei, essa pergunta não tem resposta. É estranho arrancar algo do seu próprio corpo sem ter necessidade. Olhar-se no espelho e não alcançar aquela marca.

Vai ver que é coisa do tempo também. O tempo põe marcas no nosso corpo: linhas de expressão, cicatrizes, manchas. Mas ele tira também: ele tira porque ele te traz a iniciativa de tirar.

Acho que em algum momento eu vou deixar de sentir falta da tal pintinha, e vou até esquecer, porque em seu lugar, a pele nova chegará e inundará o vazio que tinha ficado. O que eu não vou esquecer é essa sensação louca de arrancar algo de si mesma e depois perguntar-se onde está aquilo. Com todas as metáforas e analogias que isso pode gerar. Ser humano é um troço muito louco mesmo.