quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A nova política

Nada mais velho do que se autodeclarar o novo.

Desde que me conheço por ser político, sempre há quem se vista sob o manto da novidade. É um discurso tão sedutor quanto falso.

As agendas políticas que vêm ganhando espaço na esquerda não são novas, e esse espaço é produto da luta, da formulação e da autoorganização de tempos. A reação a essas bandeiras não é nova, tampouco inesperada. A tática da apresentação de empresários, apresentadores de TV ou pseudocelebridades em geral como alternativa aos "políticos" não é nova, porque a negação da política não é nova. Construir um partido com lindo e moderno layout que gira em torno de uma candidatura à Presidência da República não tem absolutamente nada de novo.

Vejo as velhas práticas de sempre em tudo que se autodenomina "o novo". Personalismo, fisiologismo, vale-tudo na disputa interna, centralização de decisões.

Não tenho nenhum fetiche quanto ao "novo". Pra falar a verdade, gosto de um monte de coisas que são velhas, no sentido de terem sido concebidas há muito tempo.

Mas é que, pra mim, certas ideias formuladas há bastante tempo não perderam a validade, não envelheceram, e não porque "os sonhos não envelhecem". Mas sim porque não foram testadas em sua plenitude. Não tiveram chance de serem desenvolvidas.

Estive em muitos espaços políticos em que a intervenção mais inovadora veio do militante mais velho, que, por meio de ideias que nos acolhem desde antes de nascermos, aponta para um lugar ao qual nunca conseguimos chegar, percorrendo um trajeto que, até hoje, nunca ousamos percorrer. Ao mesmo tempo, cansei de ver gente jovem acostumar-se a vícios políticos e degenerações de variadas espécies muito mais e muito antes que aqueles(as) que lá estão há mais tempo.

A chave da "renovação" é válida, mas ela tem limites. É bom que tenhamos novos porta-vozes para o mesmo projeto. Mas quero saber qual o projeto. Quero saber: renovar em que bases?

A dualidade velho/novo, na política, é vazia. Velho e novo não encerram qualidade a priori. Às vezes, é o que chamam de velho que abre caminho para o novo momento.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Prosa do Avião - uma epifania

Com misto de assombramento e encanto, eu percebo, a cada vez que volto a São Paulo, que não a conheço mais. Desoriento-me nos caminhos, esqueço os nomes, falha-me a memória e a esperança de ali criar meus porvires. Caminho por calçadas que já foram tão surradas pelos meus pés, mas agora eles não encontram o fio da meada; olho para o alto da Consolação e não vejo a Paulista; não sei por onde anda o seu Antônio nem a vontade que eu tinha de um dia morar numa casa de vila. Os sons da cidade mais me impressionam do que comovem, e eu me vejo andando em círculo, cercada por flores de um buquê, não de um jardim.

Tudo que manteve seu sentido eu carreguei comigo, errante, mas leal. Meus olhos ainda guardam as manhãs que raiavam na janela do velho apartamento do Largo do Arouche, que hoje, na minha imaginação, é habitado somente pelas lembranças que lá deixei, e que, numa fotografia mental, aparecem-me em cores desbotadas.

Eu nunca mais voltei à USP, desabafava melancólica com a pessoa que mais me conhece na grande metrópole. Quando penso na ECA - Escola de Comunicações e Artes, onde estudei -, sinto o cheiro da grama molhada de chuva mais do que dos cachorros insistentes que dividiam o espaço conosco. Ouço a voz do Steven Tyler dizendo que "something's right with the world today/and everybody knows it's wrong", e os versos fazem mais sentido do que nunca.

Cada visita é uma nova ruptura e um novo começo. Eu encontro a cidade enquanto me perco na nostalgia de não me ver mais numa paisagem que sempre tinha me definido. Há tanta coisa que adormece na gente, que é difícil mensurar o tamanho do que se perdeu. Como se, do alto do Edifício Itália, eu não possuísse mais a cidade, mas sim, pudesse ver no horizonte os lugares onde ela não está e eu estou. Mais fácil, para mim, contemplar aliviada o que ganhei.

Naquela noite de domingo, quando ele abriu a porta e eu vi seu rosto, senti-me outra vez iluminada por aqueles raios que me despertavam nas manhãs da minha juventude, como se outra vez eu me enxergasse no meio do caos cinza, colorido de grafite e de sonhos de gente que vem de todo lugar. Ao emoldurá-lo, São Paulo me acalmou do susto e me devolveu para mim mesma.

E, tranquila, eu voltei para casa.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Sete Desejos

Eu ouvi essa música uma vez, era de uma novela. Não lembro bem. Era adolescente, eu acho. Ela me trazia uma paz gostosa, um conforto, uma sensação de que a vida vai longe, longe mais do que a vista alcança. Onde a vista não alcança, o sonho chega e conta história.

O sonho sempre me contou história nessa música.

Comecei, a certa altura, a dizer para as pessoas próximas que essa era a música da felicidade. O flamboyant vermelho, a mala azul, a réstia da luz amarela. A vida tem cores! Deitada na rede e, sob a fumaça de um cigarro deliciosamente saboreado, pensar que bom é recomeçar das cinzas. Recompor a paisagem. "Você sabe fazer" - me dizia minha professora de canto.

Essa linda música sempre esteve na minha mente. Às vezes ela se oculta. E volta.

Volta agora de novo. Com o lelelelelelele do Alceu. O destino, o trem que nos transporta. A música como um filme da vida, como uma produtora de imagens mentais, que remexe a alma, busca coisas, salta pra fora, e eu agradeço.

Ao Alceu pela música.

Ao universo, pela generosidade com que tem me tratado.

Que me permita produzir versos tão claros e projetar cada vez mais desejos em cada vez menos cigarros.


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Pro abismo e além

Eu fujo, que nem vampiro foge da luz do dia, de todo tipo de discurso de medo, de esgotamento, de fim dos tempos. Acho importante inserir cada momento num processo histórico, e saber que, na luta de classes, vivemos momentos de ofensiva e momentos de defensiva. É dureza, mas cabe a nós encontrar uma maneira de enfrentar esta desgraceira, com as armas que temos e sem achar que o mundo acabou. A própria História mostra que mundo é maior do que a gente e o nosso tempo.

É óbvio que, pela própria correlação de forças e desigual distribuição de todo tipo de recurso, a capacidade de reação da direita colonialista torna seus momentos de ofensiva mais eficazes que os nossos. Não é óbvio, porém, que nos sintamos amordaçados ou limitados como se fosse essa uma situação imponderável.

Mas confesso a vocês que quando eu leio uma notícia absurda, ofensiva e autoritária do naipe "STF autoriza que aulas de religião em escolas públicas sigam um único credo", é aí que eu mais sinto vontade de deitar na rede e ficar esperando a conjuntura passar. Furar o dedo no fuso de uma roca e dormir cem anos.

No "irônico" (contém ironia) momento em que a corja mais reacionária da sociedade me vem com as churumelas da tal Escola Sem Partido, ou com a ameaça de revogação da lei que determina o ensino de história e cultura indígenas e da África, ou com o fim das aulas de artes, sociologia e filosofia no Ensino Médio; é aí mesmo que essa outra corja, tavez pior ainda que aquela, que é o Judiciário brasileiro, autoriza a doutrinação religiosa nas escolas PÚBLICAS, atropelando de morte o pobre do Estado laico e qualquer mínimo princípio democrático - pra nem falar de liberdade. É inacreditável a cara de pau. Os caras estão com muita certeza de si, mesmo.

Eu sou daquelas que acha que a gente deve fazer como o velho marinheiro, que, durante o nevoeiro, leva o barco devagar. Mas olha, só com muito amor no coração, fé na vida e samba na veia mesmo pra resistir à vontade de dar a mão pro nevoeiro e se atirar no mar com uma bola de chumbo no pé.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

A cólera nos tempos da comunicação em rede

Eu não sou lá muito adepta das teses derivadas da hipótese “gentileza gera gentileza”, porque, submersos na cultura capitalista como estamos, a antiquada lei de Gérson acaba fazendo mais sentido na cabeça de boa parte das pessoas.

Mesmo assim, não perder a esperança é um desafio quase diário. Hoje em dia, então, equivale a enfrentar, por dia, cinco leões malabaristas, halterofilistas e domadores de seres humanos. A direita institucional sabe muito bem aproveitar a onda conservadora que forjou para implementar retrocessos que deixariam impressionados os papas do século XI e industriais do século XVIII. A direita difusa na sociedade aproveita para destilar seu ódio contra pobres, pretos, mulheres, homossexuais, estrangeiros de países pobres (sim, porque europeus e estadunidenses os encontram como tapetes estendidos), e qualquer mínima tentativa de distribuir riqueza neste país campeão em desigualdades históricas violentas.

Acrescente-se a esse lastimável quadro a era da comunicação em tempo real. A necessidade de responder a tudo de imediato. Anunciar aos sete ventos toda primeira impressão como se fosse uma opinião elaborada, e defendê-la com unhas, dentes e um teclado.

Eu sou ansiosa. Eu ando descrente da filosofia do “gentileza gera gentileza”. E até para mim, tudo isso tem sido assustador.

Sobra pra todo mundo. Aquele parente chato que votou no candidato oposto ao seu. Os colegas de trabalho com quem você convive, mas não conversa sobre esses temas pessoalmente. O cara que você não gosta, e aproveita qualquer assunto que apareça para alfinetá-lo. O Chico Buarque. A Sônia Braga. O Gregório Duvivier. As feministas da sua timeline. E por aí vai.

É uma perda coletiva de noção.

Nem ouso pedir “mais amor por favor”. Respeito já estaria bem. Nas aulas de Propaganda Ideológica na faculdade, aprendi que uma técnica fundamental do discurso nazista tanto quanto do discurso de guerra dos EUA é a desumanização do outro. Em frente a você, não há uma pessoa. Você aliena de seu adversário os sentimentos, a trajetória de vida, os pensamentos, como foi seu dia, como foi sua vida. Você cria um cara que poderia ser o adversário dos Transformers. E sendo assim, você pode matá-lo. Quando ele está atrás de um monitor, então, melhor ainda! Sem vê-lo, é mais fácil desumanizá-lo. E então, você pode matá-lo com requintes de crueldade.

Dirijo-me mais aos meus, porque há uma outra premissa em que acredito: viver como se pensa, para não terminar pensando da forma como temos vivido. Coerência é tudo, e creio que, neste triste momento histórico nosso, peito aberto é escudo.

Os tempos são duros o suficiente, não nos endureçamos para não parecermos muito com os tempos. Deixem os eu-líricos do Chico Buarque em paz. Sai do grupo de whatsapp da família, que só te irrita. Não xingue nem vocifere contra o pobre que acessou a universidade graças ao sistema de cotas, que foi implementado por um governo legítimo, eleito para executar esse programa. Para com a mania besta de provocar a amiga feminista com meia-dúzia de senso comum besta e machista. Faça um pouco de esforço para entender que a sua vida de pessoa branca é mais fácil que a de qualquer pessoa negra, e a responsabilidade sobre isso não é da pessoa negra. A gente pode discordar sem ser tosco. A gente pode disputar sem ter ódio.

Discurso gandhista à parte, como militante, fui formada numa tradição que entende que o mundo só muda a partir da ação coletiva organizada. Eu entendo, até certo ponto, a necessidade de responder com raiva a todo e qualquer ataque que se faz nas redes sociais contra as políticas e contra as pessoas em quem confiamos. Eu entendo a vontade incontrolável de criticar de imediato uma música sem ouvir duas vezes, sem pensar, sem contextualizar. Eu sei que nossa sensação de impotência diante das enormes injustiças nos traz aquele espírito do “dia de fúria”, e lá vem bomba. Eu chego perto até de entender essa necessidade de criar heróis e vilões, e de transformar heróis em vilões de uma hora para a outra, para a novela ficar mais emocionante.

Mas gente, isto aqui é vida real.

Quem muda a vida real não são personagens. São seres humanos. As leis que nos governam não são posts de facebook. Nossas verdades universais, nossas premissas, nossas convicções merecem que façamos por elas a boa batalha. E nós, mais do que ninguém, sabemos que elas não serão vitoriosas nem por decreto, nem por osmose.

Por favor, saibamos dimensionar nossa raiva.

Este poderia ser meramente um texto em defesa do seu próprio estômago, para evitarmos sua úlcera. Mas é em defesa de um padrão de civilidade que, se não existir, tornará bem mais difícil realizarmos nossa já difícil tarefa de mudar este mundo desgramado.