quinta-feira, 2 de julho de 2009

Uns dias

“O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso” – Mário Quintana.

Tem aqueles dias que podiam não existir. Aqueles dias que você deseja passar dormindo, pra não ver, e quando acordar, passou de uma vez. Aqueles dias em que seu time perde (o pior não é seu time perder, é o time dos outros ganhar), que você passa horas procurando a chave de casa e a descobre no seu bolso, que você se atrasa por isso e perde valiosos minutos das zilhões de coisas que têm acumuladas pra fazer, aqueles dias em que você não consegue telefonar pra quem precisa, não consegue entrar no site que precisa, aqueles dias chuvosos, feios, tristes, em que você queima o dedo cozinhando, aqueles dias em que você está naquele humor que nem você se suporta.

Dá um ódio sem precedentes do bom humor dos outros, especialmente aqueles que sempre estão exageradamente de bom humor, fazendo gracinha, soltando piadas sem graça. Dá mais raiva ainda dos demais mal humorados, porque se você mal pode conviver com seu próprio mau humor, imagina com o alheio! Como dizem meus amigos do Ceará, eu não sou nem obrigada!

Dá vontade de saber quem diabos inventou a merda do telefone celular e seus toques terríveis – sim, porque, hoje em dia, nenhum toque pode ser um simples “trim, trim”, precisam ser elaborados sons eletrônicos combinados com sei lá o quê, piadinhas de todos os tipos e músicas que não necessariamente quem convive com o dono do celular aprecia.

As costas doem mais do que o normal e a gente se sente mais lesado do que nunca pelo tanto que nos exploram, que são folgados, que são inconvenientes, que são chatos mesmo.

Daí, é melhor ficarmos sozinhos, pra não ter que incomodar ninguém com nosso próprio mau humor, mas mais do que isso, para que ninguém acentue nosso mau humor. Sem perguntas, sem explicações, sem queixas, sem nada. Ser a Bela Adormecida e dormir 100 anos.

Só tem um jeito de melhorar o humor na marra.

Se tem alguém de humor pior que o seu. Com muitos motivos de ter o humor ruim. Falando seco no telefone, monossílabos e monossílabos, e evitando os tônicos, que isso já seria um sinal de definição. Cabeça na lua, raiva de tudo, pressa de tudo. Palavras ríspidas, incomodando-se com a companhia de si mesmo. Incomodando todo ser vivo que houver ao redor, e alguns seres não vivos também. Mastigando sem engolir todos os motivos que a vida oferece para que o humor se mantenha ruim. Seguindo até o enjôo, vomitando seu tédio sobre a cidade.

E se essa pessoa é especial. Se quando pensa nela, muda seu dia. E se você sente cada coisa que essa pessoa sente. Essa pessoa é aquela que lhe desperta um sentimento meio incondicional, e você não admite que seres vivos, não vivos, os reinos animal, vegetal e mineral façam alguma coisa de mal pra ela. O reino da tecnologia, então, nem se fale, craque em tirar qualquer um(a) do sério.

E aí você recolhe seu mau humor, seu time, o time dos outros, os outros, a chave, os minutos, os motivos. Você não anula. Você recolhe porque isso tudo é menor do que você pensava. E quer cuidar para que o mau humor daquela pessoa não faça mal a ela mesma, para que as razões do seu mau humor tenham seus efeitos minimizados. Para fazer um carinhozinho, ou só pra ficar quieto(a) mesmo. Para a pessoa saber que você está do lado.

A Bela Adormecida acorda de seu sono de 100 anos. E vê que o mundo continua lá, no mesmo lugar, não adiantou prolongar a noite. E isso nem chega a ser assustador.

Então, eu vou ter que discordar do gaúcho Quintana, desta vez... o maior dos alívios da gente é que as pessoas podem ter a ver com nossos problemas. Se elas quiserem. E se a gente permitir.

***
100º post!

4 comentários:

João Gabriel disse...

ainda bem que de vez em quando, as pessoas decidem falar do seu humor, pra outros de mau se deliciarem e existirem melhor - UFA! OUTRA PESSOAS ÓDEIA O MUNDO DE VEZ EM QUANDO OU EM SEMPRE.

Um brinde aos dias cinzas, aos dias que nem sempre a gente quer existir!! rsrsrs

Gabriel

Lívia Fernandes disse...

Alê, você realmente tem o dom... lindo texto querida! Saudades!

Liv

Marta disse...

Ola Alessandra,

Me chamo Marta e sou estudante inglesa, mas estou agora no Rio, onde estou fazendo a minha pesquisa do mestrado. Estou escrevendo a minha tese sobre a midia alternativa no Brasil, principalmente como as mulheres usam o Internet e os blogs para criar novos espacos de debate e neutralizzar as representacoes prinicpais da midia brasileira.

Eu gosto muito do seu blogs, e seria otimo pra mim se voce gostaria participar numa entrevista por email.

Se ha' alguma outra pessoa (ou blogger) com quem voce acha que eu preciso de entrar contato, e' so' dizer.

Espero que possamos falar em breve!

Ate mais,
Marta

m.r.cooper@lse.ac.uk

Regina Luiza Terribili Santos disse...

Sem palavras e tudo que temos vontade de dizer, mas não conseguimos só sentimos.