Eu tenho a impressão que, neste momento sombrio que vivemos, conservar a alegria chega a ser um gesto revolucionário.
Guimarães Rosa afirmou, encarnado em Dito dando conselho a Miguilim, "que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo". É difícil, mas é importante. E não se trata de autoajuda ou coaching for life e nada disso. É que gente triste, entediada, desesperançosa, essa gente não muda a realidade.
Sábado, quando o grupo Praga de Baiano abriu sua apresentação provocando: "não se assuste pessoa se eu lhe disser que a vida é boa", aquilo mexeu com um monte de coisas dentro de mim. Se a alguns cantar isso pode aparentar maluquice ou alienação, eu tenho a plena certeza de que só assim superamos estas trevas. Só iluminando de sorrisos.
Vejo tanta gente adoecendo o meu redor, de doenças da alma, vejo tanto medo e tanta violência nos atos e nas palavras, que se a gente não tiver a alegria para se acolher, se acalentar, eles vencerão. Tanta gente que se deixa contaminar por esse terror todo e se instrumentaliza de insegurança, de desconfiança, de ensimesmamento para poder sobreviver... Eu penso que tem que ser exatamente o contrário.
Não à toa os artistas se tornaram inimigos a serem combatidos. A alegria é poderosa. A arte é poderosa. A memória é poderosa. A generosidade é poderosa Tentarão destruir tudo isso, mas nós as defenderemos.
"Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas".
(Mario Benedetti)
Música, feminismo, diálogos, política, futebol, crônica e poesia convivendo no mesmo espaço. E sem conflito.
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segunda-feira, 10 de junho de 2019
quinta-feira, 30 de maio de 2019
O Sonho, a Vida, a Roda Viva
Assisti pela TV Brasil o show MPB-4 - O Sonho, a Vida, a Roda Viva - 50 Anos Ao Vivo. Sem medo de recorrer ao senso comum da expressão "eu faço parte disso", eu afirmo emocionadamente que é bem o contrário: o MPB-4 faz parte de muito do que sou e, especialmente, do que me tornei ao trazer a Música para o centro da minha vida.
Eu os escuto encantada desde pequena, quando O Pato me enchia de compaixão porque só se dava mal, mas mesmo depois de ir para a panela, continuava quaquarejando e resmungando coisas que eu não entendia, até a música terminar. Comoveram-me todas as parcerias com o Quarteto em Cy, que amo também, e acho que tudo que interpretaram juntos se tornaram versões definitivas - olha que foram algumas das mais belas obras da nossa Música Popular. Entre os primeiros CDs que comprei, estava lá um da coleção Millenium, Quarteto em Cy e MPB-4. Certamente um dos que eu mais ouvi na vida.
Acompanhando esse lindo show ao qual aqui me refiro, dei-me conta de que a influência deles sobre mim é ainda maior do que eu pensava. Aquele repertório comemorativo - aliás: eles sabem melhor do que ninguém escolher repertório -, traz músicas que falam comigo diretamente ao coração, saem pelo corpo carregando meu sangue e, sei lá como, chegam à garganta, e aí eu canto.
A participação especial de Kleiton e Kledir foi o que sacramentou tal percepção. Por que diabos eu cortei essa do set-list, pensei comigo, referindo-me a Vira Virou, que eu queria ter cantado no lançamento do meu Outras Manhãs, mas foi uma das que precisei riscar para que o show coubesse em uma hora e meia. No pot-pourri do bis, lá estão eles a expor a questão amarga de Sidney Miller, Pois É, Pra Quê?, canção afiada à qual destinei a mesma borracha.
Até o que eu não fiz está presente em mim através deles.
Então, sem ter como agradecer o MPB-4 por todas as aulas que já tive com eles nesta vida; eu precisei vir aqui dizer isso pra vocês que me leem: quem tiver a oportunidade de assistir MPB-4 - O Sonho, a Vida, a Roda Viva - 50 Anos Ao Vivo, agarre-a com um abraço afetuoso.
Eu os escuto encantada desde pequena, quando O Pato me enchia de compaixão porque só se dava mal, mas mesmo depois de ir para a panela, continuava quaquarejando e resmungando coisas que eu não entendia, até a música terminar. Comoveram-me todas as parcerias com o Quarteto em Cy, que amo também, e acho que tudo que interpretaram juntos se tornaram versões definitivas - olha que foram algumas das mais belas obras da nossa Música Popular. Entre os primeiros CDs que comprei, estava lá um da coleção Millenium, Quarteto em Cy e MPB-4. Certamente um dos que eu mais ouvi na vida.
Acompanhando esse lindo show ao qual aqui me refiro, dei-me conta de que a influência deles sobre mim é ainda maior do que eu pensava. Aquele repertório comemorativo - aliás: eles sabem melhor do que ninguém escolher repertório -, traz músicas que falam comigo diretamente ao coração, saem pelo corpo carregando meu sangue e, sei lá como, chegam à garganta, e aí eu canto.
A participação especial de Kleiton e Kledir foi o que sacramentou tal percepção. Por que diabos eu cortei essa do set-list, pensei comigo, referindo-me a Vira Virou, que eu queria ter cantado no lançamento do meu Outras Manhãs, mas foi uma das que precisei riscar para que o show coubesse em uma hora e meia. No pot-pourri do bis, lá estão eles a expor a questão amarga de Sidney Miller, Pois É, Pra Quê?, canção afiada à qual destinei a mesma borracha.
Até o que eu não fiz está presente em mim através deles.
Então, sem ter como agradecer o MPB-4 por todas as aulas que já tive com eles nesta vida; eu precisei vir aqui dizer isso pra vocês que me leem: quem tiver a oportunidade de assistir MPB-4 - O Sonho, a Vida, a Roda Viva - 50 Anos Ao Vivo, agarre-a com um abraço afetuoso.
sábado, 20 de janeiro de 2018
Esverdeia

Esverdeia, meu pai
Esverdeia
Bota cor neste mundo sombrio
Ilumina o meu caminhar
Esverdeia
Bota o gosto doce da fruta
Na boca do povo
Bota o aroma fresco da mata
No coração a pulsar
Esverdeia, meu pai
Pulsa o verde-esperança
Que este mundo precisa de cor
Esverdeia
Alimenta de paz, amor e alegria
Traz inspiração
Na ponta de sua flecha
São essas nossas armas
De o mundo mudar
Ele vai mudar.
Okê arô, Oxóssi
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
terça-feira, 4 de julho de 2017
Mesmo calado o peito, resta a cuca
A Cultura está sob ataque em todo o país.
Em São Paulo, o prefeito playboy e higienista estrangula tanto o Clube do Choro quanto a Orquestra do Teatro São Pedro; enquanto o pai político dele, o governador, mata a Banda Sinfônica do estado.
Em Porto Alegre, a Fundação Piratini corre risco sério e iminente de extinção. A TVE e a Rádio FM Cultura são espaços privilegiados para circulação e promoção da produção musical de Porto Alegre.
Em Brasília, amanhecemos todos os dias alertas para evitar que metam a mão no FAC (Fundo de Apoio à Cultura).
No Rio, cidade que abrigou as tias baianas que embalaram o samba nos braços, que concebeu a Santíssima Trindade do Samba; o prefeito quer restringir e controlar quase que pessoalmente a ocupação do espaço público por manifestações culturais - inclusive o sagrado samba da Pedra do Sal.
E por aí vai.
Nessas quatro capitais, citei apenas poucos e representativos exemplos do que está havendo. Há muito muito mais. Há muito mais nas demais cidades, nos demais estados, no Brasil em cujo centro de poder os golpistas se instalaram, e mostram, dia após dia, seu desprezo pela arte e pela cultura popular brasileira. Falo de música porque é o que eu conheço mais, mas situações análogas se verificam nas artes cênicas, plásticas, audiovisuais, literatura, nos investimentos em Educação e formação de público.
Coincidência ou não, a comunidade artística foi das mais combativas na resistência ao golpe. A ponto de reverter o retrocesso máximo, que seria a extinção do Ministério da Cultura.
O pessoal das trevas não brinca em serviço não. Eles sabem que a cultura popular impulsiona um povo forte e consciente de si.
[Há quase um ano, escrevi uma crônica sobre as incessantes tentativas de nos calar e de nos desalojar. Tudo aquilo parece estar se aprofundando. Mas como disse Belchior, a voz resiste, a fala insiste: você me ouvirá!]
Em São Paulo, o prefeito playboy e higienista estrangula tanto o Clube do Choro quanto a Orquestra do Teatro São Pedro; enquanto o pai político dele, o governador, mata a Banda Sinfônica do estado.
Em Porto Alegre, a Fundação Piratini corre risco sério e iminente de extinção. A TVE e a Rádio FM Cultura são espaços privilegiados para circulação e promoção da produção musical de Porto Alegre.
Em Brasília, amanhecemos todos os dias alertas para evitar que metam a mão no FAC (Fundo de Apoio à Cultura).
No Rio, cidade que abrigou as tias baianas que embalaram o samba nos braços, que concebeu a Santíssima Trindade do Samba; o prefeito quer restringir e controlar quase que pessoalmente a ocupação do espaço público por manifestações culturais - inclusive o sagrado samba da Pedra do Sal.
E por aí vai.
Nessas quatro capitais, citei apenas poucos e representativos exemplos do que está havendo. Há muito muito mais. Há muito mais nas demais cidades, nos demais estados, no Brasil em cujo centro de poder os golpistas se instalaram, e mostram, dia após dia, seu desprezo pela arte e pela cultura popular brasileira. Falo de música porque é o que eu conheço mais, mas situações análogas se verificam nas artes cênicas, plásticas, audiovisuais, literatura, nos investimentos em Educação e formação de público.
Coincidência ou não, a comunidade artística foi das mais combativas na resistência ao golpe. A ponto de reverter o retrocesso máximo, que seria a extinção do Ministério da Cultura.
O pessoal das trevas não brinca em serviço não. Eles sabem que a cultura popular impulsiona um povo forte e consciente de si.
[Há quase um ano, escrevi uma crônica sobre as incessantes tentativas de nos calar e de nos desalojar. Tudo aquilo parece estar se aprofundando. Mas como disse Belchior, a voz resiste, a fala insiste: você me ouvirá!]
sexta-feira, 26 de maio de 2017
Vidraça
Te acalma
Não deixe que te agridam o coração
Deixa ele aberto,
Que os tiros te ultrapassam
Sem te ferir
Não feche tuas veias,
Que assim o sangue não passa
Não deixe à vista tua laringe tensionada
Para voz passar,
Tu precisas abrir
Os tempos são duros
Não te endureças
Para não pareceres com os tempos
A certeza do caminho
Dá leveza aos nossos passos
As manobras do destino
Não se amarram feito laço
Fiquemos nas ruas!
Nossos sonhos
Não podem ser contidos pelas vidraças
Deles.
Não deixe que te agridam o coração
Deixa ele aberto,
Que os tiros te ultrapassam
Sem te ferir
Não feche tuas veias,
Que assim o sangue não passa
Não deixe à vista tua laringe tensionada
Para voz passar,
Tu precisas abrir
Os tempos são duros
Não te endureças
Para não pareceres com os tempos
A certeza do caminho
Dá leveza aos nossos passos
As manobras do destino
Não se amarram feito laço
Fiquemos nas ruas!
Nossos sonhos
Não podem ser contidos pelas vidraças
Deles.
segunda-feira, 15 de maio de 2017
Ode à Pedra - 2
Por favor
Não criminalizes meus quereres
Eles são o melhor de mim
Não me venhas tu
Do alto do teu amor-perfeito
Amaldiçoar as pedras do meu caminho
Porque eu me afeiçoo a pedras
Tenho uma coleção
E posso atirar-lhe algumas
Não queiras dissuadir-me do amor
Gosto do que me provoca
Gosto do que fracassa
Gosto mais da partida
Que da chegada
Gosto das chagas abertas do que apenas é humano
Gosto da carne abaixo da pele
Não julgues meus desejos
Não me condenes à busca da perfeição
Não sou tua para que me salves
Não sou uma para que me caiba
Nem tu és imune ao vento que carrega balões
E movimenta o ar que respiras
Não te preocupes: eu não caio
Porque me atiro
Convido-te a caminhar de olhos vendados
Sentindo aromas misteriosos
Pisando em texturas esquisitas
Provando sabores fugazes
Amando amores vorazes
Só para sentires a graça que tem
A vida
Quando erra o alvo.
Não criminalizes meus quereres
Eles são o melhor de mim
Não me venhas tu
Do alto do teu amor-perfeito
Amaldiçoar as pedras do meu caminho
Porque eu me afeiçoo a pedras
Tenho uma coleção
E posso atirar-lhe algumas
Não queiras dissuadir-me do amor
Gosto do que me provoca
Gosto do que fracassa
Gosto mais da partida
Que da chegada
Gosto das chagas abertas do que apenas é humano
Gosto da carne abaixo da pele
Não julgues meus desejos
Não me condenes à busca da perfeição
Não sou tua para que me salves
Não sou uma para que me caiba
Nem tu és imune ao vento que carrega balões
E movimenta o ar que respiras
Não te preocupes: eu não caio
Porque me atiro
Convido-te a caminhar de olhos vendados
Sentindo aromas misteriosos
Pisando em texturas esquisitas
Provando sabores fugazes
Amando amores vorazes
Só para sentires a graça que tem
A vida
Quando erra o alvo.
terça-feira, 2 de maio de 2017
Belchior: Queremos tudo outra vez
Convivo com Belchior desde criança, quando me foi apresentado através de Apenas um Rapaz Latino-Americano. Obviamente, tendo menos de dez anos de idade, era impossível que compreendesse bem aquela amargura com que ele observava o tempo e o espaço ao seu redor; tampouco aquela missão, reconhecida nos versos que escancaravam que sons, palavras são navalhas; e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém. Mesmo sem entender nada disso naquela época, passei um bom tempo apresentando-me por aí como apenas uma menina latino-americana sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vinda da capital.
A mim, sempre chamou a atenção a poesia de versos cortantes, a abordagem marcadamente original dos temas cotidianos e da conjuntura. Em 2012, quando comecei a cantar o repertório de Belchior, os estudos me levaram a lugares ainda mais diversos e sonoridades que até então tinham passado despercebidas por mim.
Diversas influências musicais podem ser flagradas em constante diálogo com seus versos intensos, ácidos, e a certeira disposição de contrastar com o que observava. Sua obra é repleta de intertextualidade, o que já o colocou em conversa com Bob Dylan, John Lennon, Caetano Veloso, Stanley Kubrick. Belchior foi alguém que fez Dante Alighieri e Olavo Bilac conviverem na mesma canção – que ele concluía, mais uma vez, demarcando: enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto.
Aliás, até para falar de romance, Belchior conseguia ser original. A Divina Comédia Humana, uma das minhas prediletas, aborda com naturalidade e doçura o que quase todos veem como a triste fatalidade do amor, ao indicar que, sendo que nada é eterno, a certeza do fim não deveria amedrontar ninguém.
A falta que lhe fazia sua casa, o Ceará, foi retratada numa narrativa de saudade que percorreu muitas músicas belas, cada vez empunhando uma tonalidade diferente da mesma dor. A América Latina pulsava nele, a ponto de A Palo Seco tornar-se quase um hino da latinoamericanidade, num país que poucas vezes se lembra de que é esse o contexto no qual está inserido. E ali, outra vez, ele revela: eu quero é que este canto torto, feito faca, corte a carne de vocês.
Era atento observador do seu tempo, com quem sempre brigou. Exibindo as cicatrizes que marcam aqueles e aquelas que têm que deixar sua terra natal, ele deixava escapar sua melancolia de mãos dadas com sua ânsia de futuro. Sendo ele um crítico dos modismos e do entusiasmo exacerbado, quando esboçava um sorriso de esperança em meio ao marasmo que via, ninguém era capaz de fazer melhor, e com tão singela grandeza. A música que vinha concentrando minha atenção nos últimos dias era justamente Tudo Outra Vez, onde ele diz que viveria as coisas novas, que também são boas, o amor, o humor das praças cheias de pessoas. E agora nós é que queremos tudo, tudo outra vez.
O cara angustiado para superar o “velho”; avesso a reverências e obediências. Quem conhece a obra de Belchior tem a impressão de estar diante de uma inquietação sem limites, que talvez tenha encontrado na referida missão um alento na busca de paz e dias melhores. Sua ironia era de uma riqueza extraordinária, porque contida no universo sem fronteiras do filósofo-artista que, assim como Drummond, tinha o tempo como sua matéria.
Belchior não existiu. Foi uma Alucinação que a gente teve.
A mim, sempre chamou a atenção a poesia de versos cortantes, a abordagem marcadamente original dos temas cotidianos e da conjuntura. Em 2012, quando comecei a cantar o repertório de Belchior, os estudos me levaram a lugares ainda mais diversos e sonoridades que até então tinham passado despercebidas por mim.
Diversas influências musicais podem ser flagradas em constante diálogo com seus versos intensos, ácidos, e a certeira disposição de contrastar com o que observava. Sua obra é repleta de intertextualidade, o que já o colocou em conversa com Bob Dylan, John Lennon, Caetano Veloso, Stanley Kubrick. Belchior foi alguém que fez Dante Alighieri e Olavo Bilac conviverem na mesma canção – que ele concluía, mais uma vez, demarcando: enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto.
Aliás, até para falar de romance, Belchior conseguia ser original. A Divina Comédia Humana, uma das minhas prediletas, aborda com naturalidade e doçura o que quase todos veem como a triste fatalidade do amor, ao indicar que, sendo que nada é eterno, a certeza do fim não deveria amedrontar ninguém.
A falta que lhe fazia sua casa, o Ceará, foi retratada numa narrativa de saudade que percorreu muitas músicas belas, cada vez empunhando uma tonalidade diferente da mesma dor. A América Latina pulsava nele, a ponto de A Palo Seco tornar-se quase um hino da latinoamericanidade, num país que poucas vezes se lembra de que é esse o contexto no qual está inserido. E ali, outra vez, ele revela: eu quero é que este canto torto, feito faca, corte a carne de vocês.
Era atento observador do seu tempo, com quem sempre brigou. Exibindo as cicatrizes que marcam aqueles e aquelas que têm que deixar sua terra natal, ele deixava escapar sua melancolia de mãos dadas com sua ânsia de futuro. Sendo ele um crítico dos modismos e do entusiasmo exacerbado, quando esboçava um sorriso de esperança em meio ao marasmo que via, ninguém era capaz de fazer melhor, e com tão singela grandeza. A música que vinha concentrando minha atenção nos últimos dias era justamente Tudo Outra Vez, onde ele diz que viveria as coisas novas, que também são boas, o amor, o humor das praças cheias de pessoas. E agora nós é que queremos tudo, tudo outra vez.
O cara angustiado para superar o “velho”; avesso a reverências e obediências. Quem conhece a obra de Belchior tem a impressão de estar diante de uma inquietação sem limites, que talvez tenha encontrado na referida missão um alento na busca de paz e dias melhores. Sua ironia era de uma riqueza extraordinária, porque contida no universo sem fronteiras do filósofo-artista que, assim como Drummond, tinha o tempo como sua matéria.
Belchior não existiu. Foi uma Alucinação que a gente teve.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
Uma outra eu
Algo em mim precisa morrer
Para que eu possa viver
Em paz
Dos escombros do velho castelo
Que nunca ergui
Sei que há de emergir
Uma outra eu
Nas linhas a mais
Que hei de escrever
Em dias libertos
De peito aberto
Sem pressa demais
Algo em mim precisa brotar
Para que eu possa optar
Sem dor
Por deixar-te no velho caminho
Em que me perdi
Sei que vou conseguir
Ser outra eu
Nos versos de amor
Que hei de escrever
Em dias inquietos
De peito desperto
Sem dó nem rancor
Para que eu possa viver
Em paz
Dos escombros do velho castelo
Que nunca ergui
Sei que há de emergir
Uma outra eu
Nas linhas a mais
Que hei de escrever
Em dias libertos
De peito aberto
Sem pressa demais
Algo em mim precisa brotar
Para que eu possa optar
Sem dor
Por deixar-te no velho caminho
Em que me perdi
Sei que vou conseguir
Ser outra eu
Nos versos de amor
Que hei de escrever
Em dias inquietos
De peito desperto
Sem dó nem rancor
sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
Caminhada
Determinada, segue o exemplo das mulheres que a lideraram a vida toda, trilha seus passos e repete seus mantras, mesmo quando eles não lhe querem falar. Caminha longamente sem olhar para trás, não sabe bem das coisas que ficaram pelo caminho, pois o próprio caminho a conduz agora, e é nele que confia com amor e fé. Os passos firmes, os olhos fixos na linha do horizonte, que, como lhe antecipara Galeano, se movimentam sempre para mais distante, fazendo-a apressar o passo temendo não chegar jamais. De algumas flores, retira a essência que bebe para suportar a dor de não parar. No cair da tarde, as nuvens lhe nublam a vista e os olhos ameaçam chover, o horizonte ainda chama mas agora está como que embaçado diante dela, lindamente misturado no conjunto da paisagem que vê em tons de azul escuro, cinza e roxo. Não demora e o preto domina o espaço todo, e agora os olhos não chovem e não veem, as pernas só fazem andar. Sem enxergar, sente a presença de alguém que se aproxima, vindo do sentido oposto. Os passos leves e o olhar doce indicam que o final do percurso é bonito. Mais uma vez, como as ancestrais, deixa-se guiar pela beleza que vê por entre os olhos amordaçados. É por isso que segue, já sem dor, já sem medo.
***
Feliz 2017. :)
***
Feliz 2017. :)
domingo, 18 de dezembro de 2016
Minha falta
A sua falta já não é sua
É minha, agora
Fico à vontade com ela
Conversamos, bebemos
Às vezes compomos
E ela descarta o que não gosta
Porque se é minha é alegre
Desbocada e displicente
Não chora nem grita
Não lastima
Não implora
A sua falta é minha
E tem a minha cara agora.
É minha, agora
Fico à vontade com ela
Conversamos, bebemos
Às vezes compomos
E ela descarta o que não gosta
Porque se é minha é alegre
Desbocada e displicente
Não chora nem grita
Não lastima
Não implora
A sua falta é minha
E tem a minha cara agora.
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
O menino e a lua
Séculos atrás, um menino se apaixonou pela lua. Já tinha mais de 20 anos de idade, e sabia um pouco como a vida funcionava. Nunca esperou da lua o que a lua não lhe pudesse oferecer, mas a felicidade plena se realizava nele quando a lua cumpria seu esplendoroso potencial de despertá-lo. Conheciam-se bem, o menino sabia das fases, entendia quando a lua preferia encobrir-se sob nuvens. Os eclipses eram seu show para o mundo, a lua não havia de exibir-se só para ele. Entendia. Era assim a relação, de expectativas comedidas, compreensão e explosões de amor.
Quantas vezes se não lhe disseram que aquele amor não prosperaria, que era impossível manter-se enamorado pela lua? Mas o menino trazia um céu de serenidade nos olhos, e, se sentia saudades ao longo do dia, a chegada da noite o acalentava como abraço nenhum neste mundo. Conversavam, trocavam confidências, cuidavam-se, beijavam-se silenciosos, banhavam-se em leves águas prateadas, e ele se deixava levar, às vezes, mais do que devia. Claro que doía o trajeto de volta ao ponto de onde não é permitido ultrapassar. Mas sentir dor é coisa da vida. No plano dos sentimentos, não há experiência que não cause dor. E se houver, há de ser coisa infeliz, porque incapaz de sentir com o corpo e a alma inteiros de uma vez.
Quem se apaixonava por estrelas cadentes ou seres humanos, casava-se, gerava herdeiros, dividia contas, problemas e soluções, jamais conseguia entender aquele amor. É fadado ao fracasso, evidente!, acusavam.
E são diferentes as estrelas cadentes e os seres humanos?, perguntava ele, curioso. São perfeitamente harmoniosos esses encontros? Você consegue suportar as contradições imprevisíveis como eu posso suportar as previsíveis? E via pelo mundo traição, violência, mentira e desamor. Por que meu amor é menos real do que isso? Por que temem pelo meu sofrimento se ele é comum a todos nós?
Ora, já se apaixonaram pela lua antes, respondiam-lhe. Nunca vingou, é história pré-determinada: acaba triste.
E o menino assistiu, ao longo de décadas, romances de estrelas cadentes e seres humanos se acabarem tristes. Por traição, violência, mentira, desamor, ou mesmo pela morte. No renascer das almas, aqueles seres não se reconheciam mais. Enquanto isso, o fim jamais chegou para ele e a lua. O menino renasce em flor, coruja, pássaro, borboleta e ser humano, sempre no mesmo amor, e a lua continua iluminando-o risonha em prateado, como se fosse a primeira vez.
Quantas vezes se não lhe disseram que aquele amor não prosperaria, que era impossível manter-se enamorado pela lua? Mas o menino trazia um céu de serenidade nos olhos, e, se sentia saudades ao longo do dia, a chegada da noite o acalentava como abraço nenhum neste mundo. Conversavam, trocavam confidências, cuidavam-se, beijavam-se silenciosos, banhavam-se em leves águas prateadas, e ele se deixava levar, às vezes, mais do que devia. Claro que doía o trajeto de volta ao ponto de onde não é permitido ultrapassar. Mas sentir dor é coisa da vida. No plano dos sentimentos, não há experiência que não cause dor. E se houver, há de ser coisa infeliz, porque incapaz de sentir com o corpo e a alma inteiros de uma vez.
Quem se apaixonava por estrelas cadentes ou seres humanos, casava-se, gerava herdeiros, dividia contas, problemas e soluções, jamais conseguia entender aquele amor. É fadado ao fracasso, evidente!, acusavam.
E são diferentes as estrelas cadentes e os seres humanos?, perguntava ele, curioso. São perfeitamente harmoniosos esses encontros? Você consegue suportar as contradições imprevisíveis como eu posso suportar as previsíveis? E via pelo mundo traição, violência, mentira e desamor. Por que meu amor é menos real do que isso? Por que temem pelo meu sofrimento se ele é comum a todos nós?
Ora, já se apaixonaram pela lua antes, respondiam-lhe. Nunca vingou, é história pré-determinada: acaba triste.
E o menino assistiu, ao longo de décadas, romances de estrelas cadentes e seres humanos se acabarem tristes. Por traição, violência, mentira, desamor, ou mesmo pela morte. No renascer das almas, aqueles seres não se reconheciam mais. Enquanto isso, o fim jamais chegou para ele e a lua. O menino renasce em flor, coruja, pássaro, borboleta e ser humano, sempre no mesmo amor, e a lua continua iluminando-o risonha em prateado, como se fosse a primeira vez.
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| Leonid Tishkov, Private Moon |
terça-feira, 20 de setembro de 2016
O Samba e as Lutas do Povo
A vida do nosso povo é a alma do samba. Aquele que sai da batalha, entra no botequim, pede uma cerva gelada e agita na mesa uma batucada. O povo que canta em versos suas dores, seus amores, suas lutas, mesmo naquela época em que alguém poderia ser preso simplesmente por portar um violão ou um pandeiro. Era um Brasil de Delegados Chico Palha, sem alma nem coração, querendo banir o samba e a corimba de sua jurisdição. Mas o violão e pandeiro ganharam os corações e os salões irreversivelmente, sob olhares furiosos dos senhores, que os queriam mudos ou domesticados, que queriam o samba "com livro de ponto, expediente, protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor". E tantos foram calados, e tantos foram banidos, e tantos foram esquecidos.
Hoje, nesta Brasília amordaçada, cidade-arte, cidade-artista, reprimida, silenciada, onde ninguém ouviu o soluçar da dor no canto do Brasil, as coisas não mudaram tanto assim. A cidade emudecida, que já foi alegria. A cidade que já foi palco de Cássia, Zélia e Ednardo, a cidade que foi um sonho do Oscar, a cidade-borboleta. A cidade que hoje abriga aqueles que querem calar nossos sonhos com um golpe baixo na boca do coração.
Mas aqueles e aquelas que nos abriram os caminhos também nos ensinaram a seguir. É para eles que oramos, e com eles contamos ao nos defrontar com gente infeliz, que diz que a raça não melhora, que a vida piora por causa do samba. Valei-nos Nara Leão, Clara Nunes, João Nogueira, Noel Rosa, Chico Buarque, Cartola, Elis Regina, João Bosco, Aldir Blanc! Socorram-nos Zé Kéti, Gonzaguinha, Alcione, Paulo César Pinheiro, Nelson Sargento!
Nossa carne é feita da carne de todos aqueles que desde o início do século passado usaram notas musicais como armas em combate, que encantaram multidões a preferir um verso de samba do que escutar som de tiro. Eles e elas, que jamais se intimidaram, jamais aceitaram a imposição do silêncio, a proibição de pensar. Nós nos levantamos e eles vêm junto, fazer do nosso canto um canto mais forte. No nosso sangue tem a luta do nosso povo, nossas lágrimas contêm nossa ânsia de futuro, nossos passos apontam nosso gosto pela vida. Nossos instrumentos produzem o som do nosso amor e da nossa luta. Enquanto houver quem tente abafar o voz do oprimido com a dor e o gemido, nós cantaremos. Ninguém vai nos acorrentar, enquanto pudermos cantar, enquanto pudermos sorrir. A gente samba para resistir. A gente canta para não permitir. A gente batuca para conseguir. Afinal, uma dor assim, pungente, não há de ser inutilmente.
Não adianta nos matar: somos herdeiros e herdeiras de um povo que não morre nunca.
Hoje, nesta Brasília amordaçada, cidade-arte, cidade-artista, reprimida, silenciada, onde ninguém ouviu o soluçar da dor no canto do Brasil, as coisas não mudaram tanto assim. A cidade emudecida, que já foi alegria. A cidade que já foi palco de Cássia, Zélia e Ednardo, a cidade que foi um sonho do Oscar, a cidade-borboleta. A cidade que hoje abriga aqueles que querem calar nossos sonhos com um golpe baixo na boca do coração.
Mas aqueles e aquelas que nos abriram os caminhos também nos ensinaram a seguir. É para eles que oramos, e com eles contamos ao nos defrontar com gente infeliz, que diz que a raça não melhora, que a vida piora por causa do samba. Valei-nos Nara Leão, Clara Nunes, João Nogueira, Noel Rosa, Chico Buarque, Cartola, Elis Regina, João Bosco, Aldir Blanc! Socorram-nos Zé Kéti, Gonzaguinha, Alcione, Paulo César Pinheiro, Nelson Sargento!
Nossa carne é feita da carne de todos aqueles que desde o início do século passado usaram notas musicais como armas em combate, que encantaram multidões a preferir um verso de samba do que escutar som de tiro. Eles e elas, que jamais se intimidaram, jamais aceitaram a imposição do silêncio, a proibição de pensar. Nós nos levantamos e eles vêm junto, fazer do nosso canto um canto mais forte. No nosso sangue tem a luta do nosso povo, nossas lágrimas contêm nossa ânsia de futuro, nossos passos apontam nosso gosto pela vida. Nossos instrumentos produzem o som do nosso amor e da nossa luta. Enquanto houver quem tente abafar o voz do oprimido com a dor e o gemido, nós cantaremos. Ninguém vai nos acorrentar, enquanto pudermos cantar, enquanto pudermos sorrir. A gente samba para resistir. A gente canta para não permitir. A gente batuca para conseguir. Afinal, uma dor assim, pungente, não há de ser inutilmente.
Não adianta nos matar: somos herdeiros e herdeiras de um povo que não morre nunca.
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| Foto de Karla Gamba. |
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
Não sambe
As palavras ruins se associam por afinidade. Tristeza, ódio, golpe, obscurantismo, autoritarismo. A imposição do silêncio; e nós sabemos que paz sem voz não é paz, é medo. O toque de recolher. Os assuntos proibidos, as desavenças gratuitas: preconceito, violência, cultura do ódio a todo vapor. O cara nem sabe por que odeia, pensa que ele mesmo formulou o ódio ao outro, sem notar que ele comprou um ódio prontinho de fábrica, de segunda mão, único dono. Mas meu senhor, por que tanto rancor? Por que me agride sem me conhecer?
A resposta é o silêncio que atravessa a madrugada. O escuro da noite é belo, mas querem tonar sombrio. A beleza dos nossos sonhos e das nossas lutas, nossos punhos cerrados, nossos braços erguidos, tudo isso virou ofensa. A democracia virou ofensa.
Não pode. Não vá. Não cante. Não pule. Não torça. Não vaie. Não fale de amor. Não erga sua bandeira. Não vista vermelho. Não expresse sua opinião. Há um grito parado no ar, eu não vejo, mas posso senti-lo.
Não sambe. Não sambe. Não sambe. Mas senhor, o samba não agride ninguém. No início do século passado, a gente era criminalizado, samba era vadiagem, João da Baiana foi preso somente por portar um pandeiro. Delegados sem alma e sem coração que não querem samba nem corimba na sua jurisdição. Tinha ficado no passado, mas não. Quando o ódio é maior que o amor, o samba não encontra seu lugar mesmo. Já fomos criminosos. Já fomos vagabundos. Já fomos baderneiros. Tudo bêbado. Mas por que, senhor? É que mesmo calado o peito, resta a cuca.
Somos de novo vagabundos. Artista é vagabundo. Outra vez, somos baderneiros. Vamos acabar com o samba, madame não gosta que ninguém sambe. Mas por que, senhor? Tanta alegria ofende. Juntar gente é perigoso.
Meu samba está sem casa. Mas ainda tem gente que canta, ainda tem gente que brinca. Não podem tolerar gente que canta, somos perigosos. Silêncio, silêncio. Já não há lugar, vamos fechar, vamos esvaziar, vamos interromper. Mandou parar a cuíca: é coisa dos hóme. A fome e a raiva é coisa dos hóme.
Meu samba está sem casa. Mas o samba não se aprisiona em casa nenhuma, não senhor. Quem suportar uma paixão, saberá que a casa do samba é o coração. E em nossos corações vocês não vão poder mandar. Quero ver quem haverá de calar a música que ecoa aqui dentro da minha cabeça.
Meu samba está sem casa, mas o samba é da rua, o samba é sem rumo, o samba é do povo, do amor e de todo lugar. Nós não vamos ficar na saudade: o samba é a nossa casa. E sempre haverá casa para quem tem amor.
"É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar
Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva"
(MORDAÇA - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro)
A resposta é o silêncio que atravessa a madrugada. O escuro da noite é belo, mas querem tonar sombrio. A beleza dos nossos sonhos e das nossas lutas, nossos punhos cerrados, nossos braços erguidos, tudo isso virou ofensa. A democracia virou ofensa.
Não pode. Não vá. Não cante. Não pule. Não torça. Não vaie. Não fale de amor. Não erga sua bandeira. Não vista vermelho. Não expresse sua opinião. Há um grito parado no ar, eu não vejo, mas posso senti-lo.
Não sambe. Não sambe. Não sambe. Mas senhor, o samba não agride ninguém. No início do século passado, a gente era criminalizado, samba era vadiagem, João da Baiana foi preso somente por portar um pandeiro. Delegados sem alma e sem coração que não querem samba nem corimba na sua jurisdição. Tinha ficado no passado, mas não. Quando o ódio é maior que o amor, o samba não encontra seu lugar mesmo. Já fomos criminosos. Já fomos vagabundos. Já fomos baderneiros. Tudo bêbado. Mas por que, senhor? É que mesmo calado o peito, resta a cuca.
Somos de novo vagabundos. Artista é vagabundo. Outra vez, somos baderneiros. Vamos acabar com o samba, madame não gosta que ninguém sambe. Mas por que, senhor? Tanta alegria ofende. Juntar gente é perigoso.
Meu samba está sem casa. Mas ainda tem gente que canta, ainda tem gente que brinca. Não podem tolerar gente que canta, somos perigosos. Silêncio, silêncio. Já não há lugar, vamos fechar, vamos esvaziar, vamos interromper. Mandou parar a cuíca: é coisa dos hóme. A fome e a raiva é coisa dos hóme.
Meu samba está sem casa. Mas o samba não se aprisiona em casa nenhuma, não senhor. Quem suportar uma paixão, saberá que a casa do samba é o coração. E em nossos corações vocês não vão poder mandar. Quero ver quem haverá de calar a música que ecoa aqui dentro da minha cabeça.
Meu samba está sem casa, mas o samba é da rua, o samba é sem rumo, o samba é do povo, do amor e de todo lugar. Nós não vamos ficar na saudade: o samba é a nossa casa. E sempre haverá casa para quem tem amor.
"É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar
Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva"
(MORDAÇA - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro)
domingo, 7 de agosto de 2016
Chega
Chega de tentar me enganar
Eu já não caio mais
Nas armadilhas que eu mesma fiz
Não vou fingir
Que eu não sabia que isso tudo
Só podia ser assim
Foi o abismo de onde me atirei
A sorrir
Chega de tentar te encontrar
Nas cartas doces que eu mesma escrevi
Nas ruas loucas onde eu me consumi
Pr'onde fugi para me esconder
De mim
Chega de ampliar o universo
E reduzir o meu espaço
De ser uma mulher do avesso
Em qualquer passo, eu recomeço
Eu reconheço
Que desconexa é que desconecto
De você
Chega de falar, de procurar
Eu já não tenho mais papel
Perdi o céu
Perdi o navio
Eu já não sei qual era mesmo o rio
Onde boiou meu corpo
À mercê
Eu já não tenho mais saúde
Para sustentar
Este sentimento por você
Eu já não caio mais
Nas armadilhas que eu mesma fiz
Não vou fingir
Que eu não sabia que isso tudo
Só podia ser assim
Foi o abismo de onde me atirei
A sorrir
Chega de tentar te encontrar
Nas cartas doces que eu mesma escrevi
Nas ruas loucas onde eu me consumi
Pr'onde fugi para me esconder
De mim
Chega de ampliar o universo
E reduzir o meu espaço
De ser uma mulher do avesso
Em qualquer passo, eu recomeço
Eu reconheço
Que desconexa é que desconecto
De você
Chega de falar, de procurar
Eu já não tenho mais papel
Perdi o céu
Perdi o navio
Eu já não sei qual era mesmo o rio
Onde boiou meu corpo
À mercê
Eu já não tenho mais saúde
Para sustentar
Este sentimento por você
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
Demora
DEMORA
(Alessandra Terribili)
Por que você demorou?
Olha se isso são horas
Você só me chega agora
Eu já tinha desistido de esperar
Chega aqui toda contente
Pois que seja convincente
Pr'eu poder acreditar
O tempo não foi perdido
O caminho percorrido
Traz bem mais pra gente andar
Vai que a vida surpreende
Se for esperar pra sempre
O infinito é o meu lugar
Não sei se veio de barca
Fazendo escalas
Saiu atrasada
Ou se veio a pé
Se correu a vida afora
Não quis ir embora
Chegou com a aurora
Nem sabe onde é
Não sei se perdeu o caminho
Errou o sentido
Brigou com destino
Veio dando olé
Não sei se tava buscando
Em cada passo, o meu abraço
O tempo tava passando
Você nem sentiu cansaço
Ou se veio vacilando
Por uma estrada comprida
Por que você demorou tanto
Pra chegar na minha vida?
domingo, 3 de julho de 2016
Senhor Samba #3 - No rancho fundo
"No Rancho Fundo" não é música sertaneja, nem é de Chitãozinho e Xororó. É um samba-canção composto por Ary Barroso para musicar poema do caricaturista e poeta José Carlos de Brito Cunha. e foi apresentado por Aracy Côrtes numa peça do Teatro de Revista. Nasceu como "Esse mulato vai ser meu", com subtítulo "Na grota funda":
Na grota funda
Na virada da montanha
Só se conta uma façanha
Do mulato da Reimunda
Pois Lamartine Babo ficou muito impressionado com a música, mas não gostou da letra. Reza a lenda que pediu permissão para Ary, que não a concedeu, para botar outros versos na canção. Ignorou a negativa e criou a nova letra mesmo assim, substituindo a Grota Funda por um Rancho Fundo. Mas não há consenso se houve o pedido e se foi negada ou não a autorização. Fato é que foi a letra de Lamartine que ficou para a posteridade; e que na primeira gravação, com Elisinha Coelho, em 1931, Ary tocou piano.
Detalhe: Chitãozinho e Xororó alteraram o final da letra. Trocaram a cabrocha por uma morena, e, para manter a rima, recriaram os versos: "O sol queimando / Se uma flor lá desabrocha / A montanha vai gelando / Lembra o aroma da cabrocha".
Na grota funda
Na virada da montanha
Só se conta uma façanha
Do mulato da Reimunda
Pois Lamartine Babo ficou muito impressionado com a música, mas não gostou da letra. Reza a lenda que pediu permissão para Ary, que não a concedeu, para botar outros versos na canção. Ignorou a negativa e criou a nova letra mesmo assim, substituindo a Grota Funda por um Rancho Fundo. Mas não há consenso se houve o pedido e se foi negada ou não a autorização. Fato é que foi a letra de Lamartine que ficou para a posteridade; e que na primeira gravação, com Elisinha Coelho, em 1931, Ary tocou piano.
Detalhe: Chitãozinho e Xororó alteraram o final da letra. Trocaram a cabrocha por uma morena, e, para manter a rima, recriaram os versos: "O sol queimando / Se uma flor lá desabrocha / A montanha vai gelando / Lembra o aroma da cabrocha".
quinta-feira, 28 de abril de 2016
A estrada e a poetisa estão a caminho!
A experiência de lançar meu primeiro livro foi intensa. Em Retratos - E algumas mentirinhas a mais, lançado em 2013 pela Editora Giostri, estavam reunidos poemas meus desde tempos imemoriais até o fim de 2012. Claro que os recentes eram maioria, mas os da origem também estavam lá.
Agora é diferente. A estrada e a poetisa é resultado das andanças, especialmente entre Porto Alegre, Brasília e São Paulo, mas também Rio e Fortaleza, cidades que me cativam, e uma pitada de Salvador, porque a Bahia está no sangue e na alma. Pretendo atingir a meta de arrecadação para poder lançar meu livros nessas seis cidades, pelo menos, para agradecer pela inspiração e pelos motivos de viver com que fui e sou contemplada.
Você pode ser parte desse projeto: A estrada e a poetisa será lançado pela Folio Digital, em sistema de financiamento coletivo. Uma produção colaborativa, na qual você adquire seu livro antecipadamente para ajudar a financiá-lo. Assim:
Com R$ 30,00, você recebe seu livro autografado com muito carinho na sua casa!
Com R$ 60,00, você recebe o livro autografado com o mesmo carinho, e ainda leva Retratos e meu EP Curto Pavio!
Com R$ 100,00, você recebe seu exemplar autografado e com carinho, e ainda mais três para você dar de presente a quem quiser!
Quer fazer parte desse projeto? Clica aqui!
Conto com vocês em mais essa empreitada de artista independente, que sofre e sua pra bancar sua arte, mas que a realiza com amor e esperança nos novos tempos que, demore o que demorar, virão. Nossa estrada leva pra lá.
Obrigada desde já!
Agora é diferente. A estrada e a poetisa é resultado das andanças, especialmente entre Porto Alegre, Brasília e São Paulo, mas também Rio e Fortaleza, cidades que me cativam, e uma pitada de Salvador, porque a Bahia está no sangue e na alma. Pretendo atingir a meta de arrecadação para poder lançar meu livros nessas seis cidades, pelo menos, para agradecer pela inspiração e pelos motivos de viver com que fui e sou contemplada.
Você pode ser parte desse projeto: A estrada e a poetisa será lançado pela Folio Digital, em sistema de financiamento coletivo. Uma produção colaborativa, na qual você adquire seu livro antecipadamente para ajudar a financiá-lo. Assim:
Com R$ 30,00, você recebe seu livro autografado com muito carinho na sua casa!
Com R$ 60,00, você recebe o livro autografado com o mesmo carinho, e ainda leva Retratos e meu EP Curto Pavio!
Com R$ 100,00, você recebe seu exemplar autografado e com carinho, e ainda mais três para você dar de presente a quem quiser!
Quer fazer parte desse projeto? Clica aqui!
Conto com vocês em mais essa empreitada de artista independente, que sofre e sua pra bancar sua arte, mas que a realiza com amor e esperança nos novos tempos que, demore o que demorar, virão. Nossa estrada leva pra lá.
Obrigada desde já!
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Epa Baba
É tempo de homens e mulheres partidos
Nem leis, nem lírios
Tempo de seguirmos cabisbaixos
Ensimesmados
Ignorantes e ignorados
Com medo ou com ódio
E vice-versa
É difícil, mas eu não me rendo
Porque Oxalá me ajuda
Porque Oxalá me chama:
Nenhuma chama vai queimar
Nossa história
Nem a memória
Do que ainda vamos criar
Não adianta incendiar
Sou herdeira de um povo que não morre nunca.
Nem leis, nem lírios
Tempo de seguirmos cabisbaixos
Ensimesmados
Ignorantes e ignorados
Com medo ou com ódio
E vice-versa
É difícil, mas eu não me rendo
Porque Oxalá me ajuda
Porque Oxalá me chama:
Nenhuma chama vai queimar
Nossa história
Nem a memória
Do que ainda vamos criar
Não adianta incendiar
Sou herdeira de um povo que não morre nunca.
quarta-feira, 6 de abril de 2016
Um novo livro vem aí...
Já se completam mais de 3 anos desde que lancei Retratos - E algumas mentirinhas a mais pela Editora Giostri. Foi um processo cheio de alegria e de emoção compilar as poesias, ver o livro impresso, lançá-lo em seis cidades, vender as unidades da primeira edição em um ano. Mandar rodar mais.
Vejo-me às voltas com esse processo novamente, ainda mais feliz, por duas razões: o livro será editado pela Folio Digital, o que me permitirá trabalhar com um amigo querido e companheiro de lutas, Miguel Papi. Outra: terei o prazer de ter amigos e amigas, e pessoas que curtem meu trabalho como parceiras nesse projeto, mais uma vez, como foi no EP Curto Pavio. Mais adiante vocês terão mais informações...
Vejo-me às voltas com esse processo novamente, ainda mais feliz, por duas razões: o livro será editado pela Folio Digital, o que me permitirá trabalhar com um amigo querido e companheiro de lutas, Miguel Papi. Outra: terei o prazer de ter amigos e amigas, e pessoas que curtem meu trabalho como parceiras nesse projeto, mais uma vez, como foi no EP Curto Pavio. Mais adiante vocês terão mais informações...
Por ora, já revelo o nome do novo rebento: A estrada e a poetisa. O título vem da inspiração provocada pela música "A estrada e o violeiro", de Sidney Miller, e também das andanças desta pretensa poetisa que tem na estrada - enquanto ato de caminhar, enquanto o deixar-se levar pelas belezas que se veem nos lugares e nos povos -, sua maior fonte de alegrias e inspiração.
"Deixo-me guiar por estrelas sopradas
Por ventos que cantam a estrada,
Em laços recém-desatados,
Em caminhos recém-descobertos.
Porque se eu paro, não fico
Ou fico ali em aberto."
(Alessandra Terribili - A estrada e a poetisa)
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