Eu tenho a impressão que, neste momento sombrio que vivemos, conservar a alegria chega a ser um gesto revolucionário.
Guimarães Rosa afirmou, encarnado em Dito dando conselho a Miguilim, "que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo". É difícil, mas é importante. E não se trata de autoajuda ou coaching for life e nada disso. É que gente triste, entediada, desesperançosa, essa gente não muda a realidade.
Sábado, quando o grupo Praga de Baiano abriu sua apresentação provocando: "não se assuste pessoa se eu lhe disser que a vida é boa", aquilo mexeu com um monte de coisas dentro de mim. Se a alguns cantar isso pode aparentar maluquice ou alienação, eu tenho a plena certeza de que só assim superamos estas trevas. Só iluminando de sorrisos.
Vejo tanta gente adoecendo o meu redor, de doenças da alma, vejo tanto medo e tanta violência nos atos e nas palavras, que se a gente não tiver a alegria para se acolher, se acalentar, eles vencerão. Tanta gente que se deixa contaminar por esse terror todo e se instrumentaliza de insegurança, de desconfiança, de ensimesmamento para poder sobreviver... Eu penso que tem que ser exatamente o contrário.
Não à toa os artistas se tornaram inimigos a serem combatidos. A alegria é poderosa. A arte é poderosa. A memória é poderosa. A generosidade é poderosa Tentarão destruir tudo isso, mas nós as defenderemos.
"Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas".
(Mario Benedetti)
Música, feminismo, diálogos, política, futebol, crônica e poesia convivendo no mesmo espaço. E sem conflito.
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segunda-feira, 10 de junho de 2019
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
A nova política
Nada mais velho do que se autodeclarar o novo.
Desde que me conheço por ser político, sempre há quem se vista sob o manto da novidade. É um discurso tão sedutor quanto falso.
As agendas políticas que vêm ganhando espaço na esquerda não são novas, e esse espaço é produto da luta, da formulação e da autoorganização de tempos. A reação a essas bandeiras não é nova, tampouco inesperada. A tática da apresentação de empresários, apresentadores de TV ou pseudocelebridades em geral como alternativa aos "políticos" não é nova, porque a negação da política não é nova. Construir um partido com lindo e moderno layout que gira em torno de uma candidatura à Presidência da República não tem absolutamente nada de novo.
Vejo as velhas práticas de sempre em tudo que se autodenomina "o novo". Personalismo, fisiologismo, vale-tudo na disputa interna, centralização de decisões.
Não tenho nenhum fetiche quanto ao "novo". Pra falar a verdade, gosto de um monte de coisas que são velhas, no sentido de terem sido concebidas há muito tempo.
Mas é que, pra mim, certas ideias formuladas há bastante tempo não perderam a validade, não envelheceram, e não porque "os sonhos não envelhecem". Mas sim porque não foram testadas em sua plenitude. Não tiveram chance de serem desenvolvidas.
Estive em muitos espaços políticos em que a intervenção mais inovadora veio do militante mais velho, que, por meio de ideias que nos acolhem desde antes de nascermos, aponta para um lugar ao qual nunca conseguimos chegar, percorrendo um trajeto que, até hoje, nunca ousamos percorrer. Ao mesmo tempo, cansei de ver gente jovem acostumar-se a vícios políticos e degenerações de variadas espécies muito mais e muito antes que aqueles(as) que lá estão há mais tempo.
A chave da "renovação" é válida, mas ela tem limites. É bom que tenhamos novos porta-vozes para o mesmo projeto. Mas quero saber qual o projeto. Quero saber: renovar em que bases?
A dualidade velho/novo, na política, é vazia. Velho e novo não encerram qualidade a priori. Às vezes, é o que chamam de velho que abre caminho para o novo momento.
Desde que me conheço por ser político, sempre há quem se vista sob o manto da novidade. É um discurso tão sedutor quanto falso.
As agendas políticas que vêm ganhando espaço na esquerda não são novas, e esse espaço é produto da luta, da formulação e da autoorganização de tempos. A reação a essas bandeiras não é nova, tampouco inesperada. A tática da apresentação de empresários, apresentadores de TV ou pseudocelebridades em geral como alternativa aos "políticos" não é nova, porque a negação da política não é nova. Construir um partido com lindo e moderno layout que gira em torno de uma candidatura à Presidência da República não tem absolutamente nada de novo.
Vejo as velhas práticas de sempre em tudo que se autodenomina "o novo". Personalismo, fisiologismo, vale-tudo na disputa interna, centralização de decisões.
Não tenho nenhum fetiche quanto ao "novo". Pra falar a verdade, gosto de um monte de coisas que são velhas, no sentido de terem sido concebidas há muito tempo.
Mas é que, pra mim, certas ideias formuladas há bastante tempo não perderam a validade, não envelheceram, e não porque "os sonhos não envelhecem". Mas sim porque não foram testadas em sua plenitude. Não tiveram chance de serem desenvolvidas.
Estive em muitos espaços políticos em que a intervenção mais inovadora veio do militante mais velho, que, por meio de ideias que nos acolhem desde antes de nascermos, aponta para um lugar ao qual nunca conseguimos chegar, percorrendo um trajeto que, até hoje, nunca ousamos percorrer. Ao mesmo tempo, cansei de ver gente jovem acostumar-se a vícios políticos e degenerações de variadas espécies muito mais e muito antes que aqueles(as) que lá estão há mais tempo.
A chave da "renovação" é válida, mas ela tem limites. É bom que tenhamos novos porta-vozes para o mesmo projeto. Mas quero saber qual o projeto. Quero saber: renovar em que bases?
A dualidade velho/novo, na política, é vazia. Velho e novo não encerram qualidade a priori. Às vezes, é o que chamam de velho que abre caminho para o novo momento.
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
Prosa do Avião - uma epifania
Com misto de assombramento e encanto, eu percebo, a cada vez que volto a São Paulo, que não a conheço mais. Desoriento-me nos caminhos, esqueço os nomes, falha-me a memória e a esperança de ali criar meus porvires. Caminho por calçadas que já foram tão surradas pelos meus pés, mas agora eles não encontram o fio da meada; olho para o alto da Consolação e não vejo a Paulista; não sei por onde anda o seu Antônio nem a vontade que eu tinha de um dia morar numa casa de vila. Os sons da cidade mais me impressionam do que comovem, e eu me vejo andando em círculo, cercada por flores de um buquê, não de um jardim.
Tudo que manteve seu sentido eu carreguei comigo, errante, mas leal. Meus olhos ainda guardam as manhãs que raiavam na janela do velho apartamento do Largo do Arouche, que hoje, na minha imaginação, é habitado somente pelas lembranças que lá deixei, e que, numa fotografia mental, aparecem-me em cores desbotadas.
Eu nunca mais voltei à USP, desabafava melancólica com a pessoa que mais me conhece na grande metrópole. Quando penso na ECA - Escola de Comunicações e Artes, onde estudei -, sinto o cheiro da grama molhada de chuva mais do que dos cachorros insistentes que dividiam o espaço conosco. Ouço a voz do Steven Tyler dizendo que "something's right with the world today/and everybody knows it's wrong", e os versos fazem mais sentido do que nunca.
Cada visita é uma nova ruptura e um novo começo. Eu encontro a cidade enquanto me perco na nostalgia de não me ver mais numa paisagem que sempre tinha me definido. Há tanta coisa que adormece na gente, que é difícil mensurar o tamanho do que se perdeu. Como se, do alto do Edifício Itália, eu não possuísse mais a cidade, mas sim, pudesse ver no horizonte os lugares onde ela não está e eu estou. Mais fácil, para mim, contemplar aliviada o que ganhei.
Naquela noite de domingo, quando ele abriu a porta e eu vi seu rosto, senti-me outra vez iluminada por aqueles raios que me despertavam nas manhãs da minha juventude, como se outra vez eu me enxergasse no meio do caos cinza, colorido de grafite e de sonhos de gente que vem de todo lugar. Ao emoldurá-lo, São Paulo me acalmou do susto e me devolveu para mim mesma.
E, tranquila, eu voltei para casa.
Tudo que manteve seu sentido eu carreguei comigo, errante, mas leal. Meus olhos ainda guardam as manhãs que raiavam na janela do velho apartamento do Largo do Arouche, que hoje, na minha imaginação, é habitado somente pelas lembranças que lá deixei, e que, numa fotografia mental, aparecem-me em cores desbotadas.
Eu nunca mais voltei à USP, desabafava melancólica com a pessoa que mais me conhece na grande metrópole. Quando penso na ECA - Escola de Comunicações e Artes, onde estudei -, sinto o cheiro da grama molhada de chuva mais do que dos cachorros insistentes que dividiam o espaço conosco. Ouço a voz do Steven Tyler dizendo que "something's right with the world today/and everybody knows it's wrong", e os versos fazem mais sentido do que nunca.
Cada visita é uma nova ruptura e um novo começo. Eu encontro a cidade enquanto me perco na nostalgia de não me ver mais numa paisagem que sempre tinha me definido. Há tanta coisa que adormece na gente, que é difícil mensurar o tamanho do que se perdeu. Como se, do alto do Edifício Itália, eu não possuísse mais a cidade, mas sim, pudesse ver no horizonte os lugares onde ela não está e eu estou. Mais fácil, para mim, contemplar aliviada o que ganhei.
Naquela noite de domingo, quando ele abriu a porta e eu vi seu rosto, senti-me outra vez iluminada por aqueles raios que me despertavam nas manhãs da minha juventude, como se outra vez eu me enxergasse no meio do caos cinza, colorido de grafite e de sonhos de gente que vem de todo lugar. Ao emoldurá-lo, São Paulo me acalmou do susto e me devolveu para mim mesma.
E, tranquila, eu voltei para casa.
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
Pro abismo e além
Eu fujo, que nem vampiro foge da luz do dia, de todo tipo de discurso de medo, de esgotamento, de fim dos tempos. Acho importante inserir cada momento num processo histórico, e saber que, na luta de classes, vivemos momentos de ofensiva e momentos de defensiva. É dureza, mas cabe a nós encontrar uma maneira de enfrentar esta desgraceira, com as armas que temos e sem achar que o mundo acabou. A própria História mostra que mundo é maior do que a gente e o nosso tempo.
É óbvio que, pela própria correlação de forças e desigual distribuição de todo tipo de recurso, a capacidade de reação da direita colonialista torna seus momentos de ofensiva mais eficazes que os nossos. Não é óbvio, porém, que nos sintamos amordaçados ou limitados como se fosse essa uma situação imponderável.
Mas confesso a vocês que quando eu leio uma notícia absurda, ofensiva e autoritária do naipe "STF autoriza que aulas de religião em escolas públicas sigam um único credo", é aí que eu mais sinto vontade de deitar na rede e ficar esperando a conjuntura passar. Furar o dedo no fuso de uma roca e dormir cem anos.
No "irônico" (contém ironia) momento em que a corja mais reacionária da sociedade me vem com as churumelas da tal Escola Sem Partido, ou com a ameaça de revogação da lei que determina o ensino de história e cultura indígenas e da África, ou com o fim das aulas de artes, sociologia e filosofia no Ensino Médio; é aí mesmo que essa outra corja, tavez pior ainda que aquela, que é o Judiciário brasileiro, autoriza a doutrinação religiosa nas escolas PÚBLICAS, atropelando de morte o pobre do Estado laico e qualquer mínimo princípio democrático - pra nem falar de liberdade. É inacreditável a cara de pau. Os caras estão com muita certeza de si, mesmo.
Eu sou daquelas que acha que a gente deve fazer como o velho marinheiro, que, durante o nevoeiro, leva o barco devagar. Mas olha, só com muito amor no coração, fé na vida e samba na veia mesmo pra resistir à vontade de dar a mão pro nevoeiro e se atirar no mar com uma bola de chumbo no pé.
É óbvio que, pela própria correlação de forças e desigual distribuição de todo tipo de recurso, a capacidade de reação da direita colonialista torna seus momentos de ofensiva mais eficazes que os nossos. Não é óbvio, porém, que nos sintamos amordaçados ou limitados como se fosse essa uma situação imponderável.
Mas confesso a vocês que quando eu leio uma notícia absurda, ofensiva e autoritária do naipe "STF autoriza que aulas de religião em escolas públicas sigam um único credo", é aí que eu mais sinto vontade de deitar na rede e ficar esperando a conjuntura passar. Furar o dedo no fuso de uma roca e dormir cem anos.
No "irônico" (contém ironia) momento em que a corja mais reacionária da sociedade me vem com as churumelas da tal Escola Sem Partido, ou com a ameaça de revogação da lei que determina o ensino de história e cultura indígenas e da África, ou com o fim das aulas de artes, sociologia e filosofia no Ensino Médio; é aí mesmo que essa outra corja, tavez pior ainda que aquela, que é o Judiciário brasileiro, autoriza a doutrinação religiosa nas escolas PÚBLICAS, atropelando de morte o pobre do Estado laico e qualquer mínimo princípio democrático - pra nem falar de liberdade. É inacreditável a cara de pau. Os caras estão com muita certeza de si, mesmo.
Eu sou daquelas que acha que a gente deve fazer como o velho marinheiro, que, durante o nevoeiro, leva o barco devagar. Mas olha, só com muito amor no coração, fé na vida e samba na veia mesmo pra resistir à vontade de dar a mão pro nevoeiro e se atirar no mar com uma bola de chumbo no pé.
terça-feira, 29 de agosto de 2017
A cólera nos tempos da comunicação em rede
Eu não sou lá muito adepta das teses derivadas da hipótese “gentileza gera gentileza”, porque, submersos na cultura capitalista como estamos, a antiquada lei de Gérson acaba fazendo mais sentido na cabeça de boa parte das pessoas.
Mesmo assim, não perder a esperança é um desafio quase diário. Hoje em dia, então, equivale a enfrentar, por dia, cinco leões malabaristas, halterofilistas e domadores de seres humanos. A direita institucional sabe muito bem aproveitar a onda conservadora que forjou para implementar retrocessos que deixariam impressionados os papas do século XI e industriais do século XVIII. A direita difusa na sociedade aproveita para destilar seu ódio contra pobres, pretos, mulheres, homossexuais, estrangeiros de países pobres (sim, porque europeus e estadunidenses os encontram como tapetes estendidos), e qualquer mínima tentativa de distribuir riqueza neste país campeão em desigualdades históricas violentas.
Acrescente-se a esse lastimável quadro a era da comunicação em tempo real. A necessidade de responder a tudo de imediato. Anunciar aos sete ventos toda primeira impressão como se fosse uma opinião elaborada, e defendê-la com unhas, dentes e um teclado.
Eu sou ansiosa. Eu ando descrente da filosofia do “gentileza gera gentileza”. E até para mim, tudo isso tem sido assustador.
Sobra pra todo mundo. Aquele parente chato que votou no candidato oposto ao seu. Os colegas de trabalho com quem você convive, mas não conversa sobre esses temas pessoalmente. O cara que você não gosta, e aproveita qualquer assunto que apareça para alfinetá-lo. O Chico Buarque. A Sônia Braga. O Gregório Duvivier. As feministas da sua timeline. E por aí vai.
É uma perda coletiva de noção.
Nem ouso pedir “mais amor por favor”. Respeito já estaria bem. Nas aulas de Propaganda Ideológica na faculdade, aprendi que uma técnica fundamental do discurso nazista tanto quanto do discurso de guerra dos EUA é a desumanização do outro. Em frente a você, não há uma pessoa. Você aliena de seu adversário os sentimentos, a trajetória de vida, os pensamentos, como foi seu dia, como foi sua vida. Você cria um cara que poderia ser o adversário dos Transformers. E sendo assim, você pode matá-lo. Quando ele está atrás de um monitor, então, melhor ainda! Sem vê-lo, é mais fácil desumanizá-lo. E então, você pode matá-lo com requintes de crueldade.
Dirijo-me mais aos meus, porque há uma outra premissa em que acredito: viver como se pensa, para não terminar pensando da forma como temos vivido. Coerência é tudo, e creio que, neste triste momento histórico nosso, peito aberto é escudo.
Os tempos são duros o suficiente, não nos endureçamos para não parecermos muito com os tempos. Deixem os eu-líricos do Chico Buarque em paz. Sai do grupo de whatsapp da família, que só te irrita. Não xingue nem vocifere contra o pobre que acessou a universidade graças ao sistema de cotas, que foi implementado por um governo legítimo, eleito para executar esse programa. Para com a mania besta de provocar a amiga feminista com meia-dúzia de senso comum besta e machista. Faça um pouco de esforço para entender que a sua vida de pessoa branca é mais fácil que a de qualquer pessoa negra, e a responsabilidade sobre isso não é da pessoa negra. A gente pode discordar sem ser tosco. A gente pode disputar sem ter ódio.
Discurso gandhista à parte, como militante, fui formada numa tradição que entende que o mundo só muda a partir da ação coletiva organizada. Eu entendo, até certo ponto, a necessidade de responder com raiva a todo e qualquer ataque que se faz nas redes sociais contra as políticas e contra as pessoas em quem confiamos. Eu entendo a vontade incontrolável de criticar de imediato uma música sem ouvir duas vezes, sem pensar, sem contextualizar. Eu sei que nossa sensação de impotência diante das enormes injustiças nos traz aquele espírito do “dia de fúria”, e lá vem bomba. Eu chego perto até de entender essa necessidade de criar heróis e vilões, e de transformar heróis em vilões de uma hora para a outra, para a novela ficar mais emocionante.
Mas gente, isto aqui é vida real.
Quem muda a vida real não são personagens. São seres humanos. As leis que nos governam não são posts de facebook. Nossas verdades universais, nossas premissas, nossas convicções merecem que façamos por elas a boa batalha. E nós, mais do que ninguém, sabemos que elas não serão vitoriosas nem por decreto, nem por osmose.
Por favor, saibamos dimensionar nossa raiva.
Este poderia ser meramente um texto em defesa do seu próprio estômago, para evitarmos sua úlcera. Mas é em defesa de um padrão de civilidade que, se não existir, tornará bem mais difícil realizarmos nossa já difícil tarefa de mudar este mundo desgramado.
Mesmo assim, não perder a esperança é um desafio quase diário. Hoje em dia, então, equivale a enfrentar, por dia, cinco leões malabaristas, halterofilistas e domadores de seres humanos. A direita institucional sabe muito bem aproveitar a onda conservadora que forjou para implementar retrocessos que deixariam impressionados os papas do século XI e industriais do século XVIII. A direita difusa na sociedade aproveita para destilar seu ódio contra pobres, pretos, mulheres, homossexuais, estrangeiros de países pobres (sim, porque europeus e estadunidenses os encontram como tapetes estendidos), e qualquer mínima tentativa de distribuir riqueza neste país campeão em desigualdades históricas violentas.
Acrescente-se a esse lastimável quadro a era da comunicação em tempo real. A necessidade de responder a tudo de imediato. Anunciar aos sete ventos toda primeira impressão como se fosse uma opinião elaborada, e defendê-la com unhas, dentes e um teclado.
Eu sou ansiosa. Eu ando descrente da filosofia do “gentileza gera gentileza”. E até para mim, tudo isso tem sido assustador.
Sobra pra todo mundo. Aquele parente chato que votou no candidato oposto ao seu. Os colegas de trabalho com quem você convive, mas não conversa sobre esses temas pessoalmente. O cara que você não gosta, e aproveita qualquer assunto que apareça para alfinetá-lo. O Chico Buarque. A Sônia Braga. O Gregório Duvivier. As feministas da sua timeline. E por aí vai.
É uma perda coletiva de noção.
Nem ouso pedir “mais amor por favor”. Respeito já estaria bem. Nas aulas de Propaganda Ideológica na faculdade, aprendi que uma técnica fundamental do discurso nazista tanto quanto do discurso de guerra dos EUA é a desumanização do outro. Em frente a você, não há uma pessoa. Você aliena de seu adversário os sentimentos, a trajetória de vida, os pensamentos, como foi seu dia, como foi sua vida. Você cria um cara que poderia ser o adversário dos Transformers. E sendo assim, você pode matá-lo. Quando ele está atrás de um monitor, então, melhor ainda! Sem vê-lo, é mais fácil desumanizá-lo. E então, você pode matá-lo com requintes de crueldade.
Dirijo-me mais aos meus, porque há uma outra premissa em que acredito: viver como se pensa, para não terminar pensando da forma como temos vivido. Coerência é tudo, e creio que, neste triste momento histórico nosso, peito aberto é escudo.
Os tempos são duros o suficiente, não nos endureçamos para não parecermos muito com os tempos. Deixem os eu-líricos do Chico Buarque em paz. Sai do grupo de whatsapp da família, que só te irrita. Não xingue nem vocifere contra o pobre que acessou a universidade graças ao sistema de cotas, que foi implementado por um governo legítimo, eleito para executar esse programa. Para com a mania besta de provocar a amiga feminista com meia-dúzia de senso comum besta e machista. Faça um pouco de esforço para entender que a sua vida de pessoa branca é mais fácil que a de qualquer pessoa negra, e a responsabilidade sobre isso não é da pessoa negra. A gente pode discordar sem ser tosco. A gente pode disputar sem ter ódio.
Discurso gandhista à parte, como militante, fui formada numa tradição que entende que o mundo só muda a partir da ação coletiva organizada. Eu entendo, até certo ponto, a necessidade de responder com raiva a todo e qualquer ataque que se faz nas redes sociais contra as políticas e contra as pessoas em quem confiamos. Eu entendo a vontade incontrolável de criticar de imediato uma música sem ouvir duas vezes, sem pensar, sem contextualizar. Eu sei que nossa sensação de impotência diante das enormes injustiças nos traz aquele espírito do “dia de fúria”, e lá vem bomba. Eu chego perto até de entender essa necessidade de criar heróis e vilões, e de transformar heróis em vilões de uma hora para a outra, para a novela ficar mais emocionante.
Mas gente, isto aqui é vida real.
Quem muda a vida real não são personagens. São seres humanos. As leis que nos governam não são posts de facebook. Nossas verdades universais, nossas premissas, nossas convicções merecem que façamos por elas a boa batalha. E nós, mais do que ninguém, sabemos que elas não serão vitoriosas nem por decreto, nem por osmose.
Por favor, saibamos dimensionar nossa raiva.
Este poderia ser meramente um texto em defesa do seu próprio estômago, para evitarmos sua úlcera. Mas é em defesa de um padrão de civilidade que, se não existir, tornará bem mais difícil realizarmos nossa já difícil tarefa de mudar este mundo desgramado.
terça-feira, 4 de julho de 2017
Mesmo calado o peito, resta a cuca
A Cultura está sob ataque em todo o país.
Em São Paulo, o prefeito playboy e higienista estrangula tanto o Clube do Choro quanto a Orquestra do Teatro São Pedro; enquanto o pai político dele, o governador, mata a Banda Sinfônica do estado.
Em Porto Alegre, a Fundação Piratini corre risco sério e iminente de extinção. A TVE e a Rádio FM Cultura são espaços privilegiados para circulação e promoção da produção musical de Porto Alegre.
Em Brasília, amanhecemos todos os dias alertas para evitar que metam a mão no FAC (Fundo de Apoio à Cultura).
No Rio, cidade que abrigou as tias baianas que embalaram o samba nos braços, que concebeu a Santíssima Trindade do Samba; o prefeito quer restringir e controlar quase que pessoalmente a ocupação do espaço público por manifestações culturais - inclusive o sagrado samba da Pedra do Sal.
E por aí vai.
Nessas quatro capitais, citei apenas poucos e representativos exemplos do que está havendo. Há muito muito mais. Há muito mais nas demais cidades, nos demais estados, no Brasil em cujo centro de poder os golpistas se instalaram, e mostram, dia após dia, seu desprezo pela arte e pela cultura popular brasileira. Falo de música porque é o que eu conheço mais, mas situações análogas se verificam nas artes cênicas, plásticas, audiovisuais, literatura, nos investimentos em Educação e formação de público.
Coincidência ou não, a comunidade artística foi das mais combativas na resistência ao golpe. A ponto de reverter o retrocesso máximo, que seria a extinção do Ministério da Cultura.
O pessoal das trevas não brinca em serviço não. Eles sabem que a cultura popular impulsiona um povo forte e consciente de si.
[Há quase um ano, escrevi uma crônica sobre as incessantes tentativas de nos calar e de nos desalojar. Tudo aquilo parece estar se aprofundando. Mas como disse Belchior, a voz resiste, a fala insiste: você me ouvirá!]
Em São Paulo, o prefeito playboy e higienista estrangula tanto o Clube do Choro quanto a Orquestra do Teatro São Pedro; enquanto o pai político dele, o governador, mata a Banda Sinfônica do estado.
Em Porto Alegre, a Fundação Piratini corre risco sério e iminente de extinção. A TVE e a Rádio FM Cultura são espaços privilegiados para circulação e promoção da produção musical de Porto Alegre.
Em Brasília, amanhecemos todos os dias alertas para evitar que metam a mão no FAC (Fundo de Apoio à Cultura).
No Rio, cidade que abrigou as tias baianas que embalaram o samba nos braços, que concebeu a Santíssima Trindade do Samba; o prefeito quer restringir e controlar quase que pessoalmente a ocupação do espaço público por manifestações culturais - inclusive o sagrado samba da Pedra do Sal.
E por aí vai.
Nessas quatro capitais, citei apenas poucos e representativos exemplos do que está havendo. Há muito muito mais. Há muito mais nas demais cidades, nos demais estados, no Brasil em cujo centro de poder os golpistas se instalaram, e mostram, dia após dia, seu desprezo pela arte e pela cultura popular brasileira. Falo de música porque é o que eu conheço mais, mas situações análogas se verificam nas artes cênicas, plásticas, audiovisuais, literatura, nos investimentos em Educação e formação de público.
Coincidência ou não, a comunidade artística foi das mais combativas na resistência ao golpe. A ponto de reverter o retrocesso máximo, que seria a extinção do Ministério da Cultura.
O pessoal das trevas não brinca em serviço não. Eles sabem que a cultura popular impulsiona um povo forte e consciente de si.
[Há quase um ano, escrevi uma crônica sobre as incessantes tentativas de nos calar e de nos desalojar. Tudo aquilo parece estar se aprofundando. Mas como disse Belchior, a voz resiste, a fala insiste: você me ouvirá!]
quarta-feira, 28 de junho de 2017
Futuros Militantes
Não se afobe não, que nada é pra já.
A História pode até parecer estranha, mas, uma hora, ela revelará com nitidez todos os meandros, manobras, manipulações e tudo que foi promovido em silêncio, num fundo de armário, com objetivos camuflados em camisetinhas amarelas, pato pateta, interesses escusos fantasiados de patriotismo. Não serão necessários milênios, milênios no ar. Algumas décadas serão suficientes.
E quem sabe, então, o Brasil será algum país submerso.
Os escafandristas virão explorar nossas casas. Encontrarão os computadores, celulares, reavivarão nossas contas nas redes sociais, nossas almas desnudas, raivosas ou assustadas. Encontrarão as expressões do ódio de classe, o desfile dos preconceitos sórdidos, e não encontrarão autocrítica em lado nenhum. Mas calma. Não haverá um deus para julgar ou punir. Quem faz isso é a História.
Sábios decifrarão com facilidade o eco daquelas palavras incisivas que alguns derramaram como se não houvesse amanhã. Fragmentos de panfletos, revistas semanais, mentiras, retratos. Vestígios de estranha civilização.
Não se afobe não, que nada é pra já. Um dia, tudo estará descortinado. As gerações futuras entenderão perfeitamente que foi golpe. Os protetores das vidraças não passarão. Futuros militantes, quiçá, marcharão - sabendo bem - pra coroar todo o esforço que um dia deixamos para eles.
E essa parte é agora.
SEXTA-FEIRA É GREVE GERAL.
[Que o marido da Ana Hickman nos perdoe o transtorno. A História, felizmente, registrará que estivemos em lados opostos.]
A História pode até parecer estranha, mas, uma hora, ela revelará com nitidez todos os meandros, manobras, manipulações e tudo que foi promovido em silêncio, num fundo de armário, com objetivos camuflados em camisetinhas amarelas, pato pateta, interesses escusos fantasiados de patriotismo. Não serão necessários milênios, milênios no ar. Algumas décadas serão suficientes.
E quem sabe, então, o Brasil será algum país submerso.
Os escafandristas virão explorar nossas casas. Encontrarão os computadores, celulares, reavivarão nossas contas nas redes sociais, nossas almas desnudas, raivosas ou assustadas. Encontrarão as expressões do ódio de classe, o desfile dos preconceitos sórdidos, e não encontrarão autocrítica em lado nenhum. Mas calma. Não haverá um deus para julgar ou punir. Quem faz isso é a História.
Sábios decifrarão com facilidade o eco daquelas palavras incisivas que alguns derramaram como se não houvesse amanhã. Fragmentos de panfletos, revistas semanais, mentiras, retratos. Vestígios de estranha civilização.
Não se afobe não, que nada é pra já. Um dia, tudo estará descortinado. As gerações futuras entenderão perfeitamente que foi golpe. Os protetores das vidraças não passarão. Futuros militantes, quiçá, marcharão - sabendo bem - pra coroar todo o esforço que um dia deixamos para eles.
E essa parte é agora.
SEXTA-FEIRA É GREVE GERAL.
[Que o marido da Ana Hickman nos perdoe o transtorno. A História, felizmente, registrará que estivemos em lados opostos.]
sábado, 17 de junho de 2017
Deja vu
Tive um deja vu estranho no último domingo, no aeroporto JK.
Ao regressar de Porto Alegre, os alto-falantes do local onde parei para um café tocavam a música “Regina, Let’s Go”, da banda paulista CPM 22 (nem sei se ainda existe ou a quantas anda, mas lembro que o Japinha era nosso colega na Ciências Sociais da USP).
Transportei-me imediatamente para 2001. As tarefas militantes me traziam a Brasília com alguma frequência, e não era raro parar para um lanche em qualquer lugar da rodoferroviária (depois das quatorze horas de ônibus que separam São Paulo e Brasília) e deparar com “Regina, Let’s Go” bombando na rádio.
Nas festas, quando a música rolava, eu gostava de gritar bem alto “eu não vou mais me importaaaaar”. Quando você supera os vinte anos, percebe que cada vez você se importará menos, o que, como tudo na vida, tem um lado bom e um lado ruim. Você se fere menos na medida em que menos se importa. Mas o mundo muda menos também.
Quando era do movimento estudantil, vir a Brasília significava combater as políticas neoliberais de FHC e sua turma, DEM à frente. Greve nas universidades federais, rejeição ao “provão” (lembram?), resistência a todas as tentativas de privatização. Reforma da Previdência e Trabalhista estavam sempre em pauta, mas eles não conseguiram executar – pelo menos, não plenamente.
Agora era eu, numa tarde de domingo, regressando de Porto Alegre, minha cidade adotiva, para a cidade onde vivo, Brasília. O vocalista do CPM 22 continuava a declarar “eu não vou mais me importaaaaar”. Chegou a dar um frio na barriga. Não existe mais aquela MTV que me apresentou essa música. Eu continuo me metendo nas confusões que jorram gás lacrimogêneo e spray de pimenta, que atormentavam a mente da minha mãe naquela época. Voltamos a estar sob fortes ataques a direitos trabalhistas e até a qualquer avanço cívico. A ânsia de destruição parece pior agora, depois de catorze anos de governos progressistas. A dor no peito de sentir-se ora acuada, ora perdida, e sempre indignada, também aperta mais forte.
E, tendo vivido dezesseis anos mais, o verso que incomoda não é “eu não vou mais me importaaaar”. Mas sim aquele que fecha a música: “daqui a pouco é tarde demais”.
A gente precisa se achar logo.
Ao regressar de Porto Alegre, os alto-falantes do local onde parei para um café tocavam a música “Regina, Let’s Go”, da banda paulista CPM 22 (nem sei se ainda existe ou a quantas anda, mas lembro que o Japinha era nosso colega na Ciências Sociais da USP).
Transportei-me imediatamente para 2001. As tarefas militantes me traziam a Brasília com alguma frequência, e não era raro parar para um lanche em qualquer lugar da rodoferroviária (depois das quatorze horas de ônibus que separam São Paulo e Brasília) e deparar com “Regina, Let’s Go” bombando na rádio.
Nas festas, quando a música rolava, eu gostava de gritar bem alto “eu não vou mais me importaaaaar”. Quando você supera os vinte anos, percebe que cada vez você se importará menos, o que, como tudo na vida, tem um lado bom e um lado ruim. Você se fere menos na medida em que menos se importa. Mas o mundo muda menos também.
Quando era do movimento estudantil, vir a Brasília significava combater as políticas neoliberais de FHC e sua turma, DEM à frente. Greve nas universidades federais, rejeição ao “provão” (lembram?), resistência a todas as tentativas de privatização. Reforma da Previdência e Trabalhista estavam sempre em pauta, mas eles não conseguiram executar – pelo menos, não plenamente.
Agora era eu, numa tarde de domingo, regressando de Porto Alegre, minha cidade adotiva, para a cidade onde vivo, Brasília. O vocalista do CPM 22 continuava a declarar “eu não vou mais me importaaaaar”. Chegou a dar um frio na barriga. Não existe mais aquela MTV que me apresentou essa música. Eu continuo me metendo nas confusões que jorram gás lacrimogêneo e spray de pimenta, que atormentavam a mente da minha mãe naquela época. Voltamos a estar sob fortes ataques a direitos trabalhistas e até a qualquer avanço cívico. A ânsia de destruição parece pior agora, depois de catorze anos de governos progressistas. A dor no peito de sentir-se ora acuada, ora perdida, e sempre indignada, também aperta mais forte.
E, tendo vivido dezesseis anos mais, o verso que incomoda não é “eu não vou mais me importaaaar”. Mas sim aquele que fecha a música: “daqui a pouco é tarde demais”.
A gente precisa se achar logo.
segunda-feira, 22 de maio de 2017
Algo está faltando
Semana passada, eu extraí uma pinta. Uma pinta, uma marca do rosto, que ficava na lateral da minha face, praticamente no meio do caminho entre o olho e a orelha.
Ela não existia quando eu era criança. Foi depois da adolescência que a bicha começou a se apresentar, e aumentar de tamanho até ensaiar tornar-se uma verruga. Uma verruguinha, vai, pequenina, tão inofensiva quanto indefesa. Feia porque em alto-relevo. Da outra pinta, no mesmo lado da face, mas abaixo, na altura do queixo, dessa eu gosto. Ela é marrom e não é pretuberante - e sempre esteve ali. A outra confundia-se com a pele pela cor, mas formava um pequeno monte em meio à planície. Não gostava dela desde que ela começou a se fazer notar.
Ameaço eliminá-la há meses já. Semana passada, encontrei tempo, disposição e coragem ao mesmo tempo e lá fomos nós. Não demorou, não doeu, foram dois pontinhos só.
Hoje cedo eu tirei o ponto que restara (um já havia sido removido). Olhei meu novo rosto, já sem a marca. O local onde ela existia está avermelhado, recuperando-se, cicatrizando, até não haver mais sinal nenhum de que ali houve, um dia, uma pinta com cara de verruga.
Veio uma sensação esquisita de não reconhecer meu rosto. Onde está aquela coisa? Eu não gostava dela, mas ela sempre esteve ali. Ok, não sempre. Não sempre. Mas um dia ela chegou, sei lá quando, e desde então - faz tempo - ela estava ali, assombrando todas as minhas fotos de perfil. Tão inofensiva quanto indefesa.
Sei lá por quê senti essa espécie de vazio interior. Por que diabos eu quis extrair uma marca dessas, que a natureza pôs ali? Logo eu, que tenho centenas de restrições a intervenções cirúrgicas com finalidade estética. Não sei, essa pergunta não tem resposta. É estranho arrancar algo do seu próprio corpo sem ter necessidade. Olhar-se no espelho e não alcançar aquela marca.
Vai ver que é coisa do tempo também. O tempo põe marcas no nosso corpo: linhas de expressão, cicatrizes, manchas. Mas ele tira também: ele tira porque ele te traz a iniciativa de tirar.
Acho que em algum momento eu vou deixar de sentir falta da tal pintinha, e vou até esquecer, porque em seu lugar, a pele nova chegará e inundará o vazio que tinha ficado. O que eu não vou esquecer é essa sensação louca de arrancar algo de si mesma e depois perguntar-se onde está aquilo. Com todas as metáforas e analogias que isso pode gerar. Ser humano é um troço muito louco mesmo.
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
O menino e a lua
Séculos atrás, um menino se apaixonou pela lua. Já tinha mais de 20 anos de idade, e sabia um pouco como a vida funcionava. Nunca esperou da lua o que a lua não lhe pudesse oferecer, mas a felicidade plena se realizava nele quando a lua cumpria seu esplendoroso potencial de despertá-lo. Conheciam-se bem, o menino sabia das fases, entendia quando a lua preferia encobrir-se sob nuvens. Os eclipses eram seu show para o mundo, a lua não havia de exibir-se só para ele. Entendia. Era assim a relação, de expectativas comedidas, compreensão e explosões de amor.
Quantas vezes se não lhe disseram que aquele amor não prosperaria, que era impossível manter-se enamorado pela lua? Mas o menino trazia um céu de serenidade nos olhos, e, se sentia saudades ao longo do dia, a chegada da noite o acalentava como abraço nenhum neste mundo. Conversavam, trocavam confidências, cuidavam-se, beijavam-se silenciosos, banhavam-se em leves águas prateadas, e ele se deixava levar, às vezes, mais do que devia. Claro que doía o trajeto de volta ao ponto de onde não é permitido ultrapassar. Mas sentir dor é coisa da vida. No plano dos sentimentos, não há experiência que não cause dor. E se houver, há de ser coisa infeliz, porque incapaz de sentir com o corpo e a alma inteiros de uma vez.
Quem se apaixonava por estrelas cadentes ou seres humanos, casava-se, gerava herdeiros, dividia contas, problemas e soluções, jamais conseguia entender aquele amor. É fadado ao fracasso, evidente!, acusavam.
E são diferentes as estrelas cadentes e os seres humanos?, perguntava ele, curioso. São perfeitamente harmoniosos esses encontros? Você consegue suportar as contradições imprevisíveis como eu posso suportar as previsíveis? E via pelo mundo traição, violência, mentira e desamor. Por que meu amor é menos real do que isso? Por que temem pelo meu sofrimento se ele é comum a todos nós?
Ora, já se apaixonaram pela lua antes, respondiam-lhe. Nunca vingou, é história pré-determinada: acaba triste.
E o menino assistiu, ao longo de décadas, romances de estrelas cadentes e seres humanos se acabarem tristes. Por traição, violência, mentira, desamor, ou mesmo pela morte. No renascer das almas, aqueles seres não se reconheciam mais. Enquanto isso, o fim jamais chegou para ele e a lua. O menino renasce em flor, coruja, pássaro, borboleta e ser humano, sempre no mesmo amor, e a lua continua iluminando-o risonha em prateado, como se fosse a primeira vez.
Quantas vezes se não lhe disseram que aquele amor não prosperaria, que era impossível manter-se enamorado pela lua? Mas o menino trazia um céu de serenidade nos olhos, e, se sentia saudades ao longo do dia, a chegada da noite o acalentava como abraço nenhum neste mundo. Conversavam, trocavam confidências, cuidavam-se, beijavam-se silenciosos, banhavam-se em leves águas prateadas, e ele se deixava levar, às vezes, mais do que devia. Claro que doía o trajeto de volta ao ponto de onde não é permitido ultrapassar. Mas sentir dor é coisa da vida. No plano dos sentimentos, não há experiência que não cause dor. E se houver, há de ser coisa infeliz, porque incapaz de sentir com o corpo e a alma inteiros de uma vez.
Quem se apaixonava por estrelas cadentes ou seres humanos, casava-se, gerava herdeiros, dividia contas, problemas e soluções, jamais conseguia entender aquele amor. É fadado ao fracasso, evidente!, acusavam.
E são diferentes as estrelas cadentes e os seres humanos?, perguntava ele, curioso. São perfeitamente harmoniosos esses encontros? Você consegue suportar as contradições imprevisíveis como eu posso suportar as previsíveis? E via pelo mundo traição, violência, mentira e desamor. Por que meu amor é menos real do que isso? Por que temem pelo meu sofrimento se ele é comum a todos nós?
Ora, já se apaixonaram pela lua antes, respondiam-lhe. Nunca vingou, é história pré-determinada: acaba triste.
E o menino assistiu, ao longo de décadas, romances de estrelas cadentes e seres humanos se acabarem tristes. Por traição, violência, mentira, desamor, ou mesmo pela morte. No renascer das almas, aqueles seres não se reconheciam mais. Enquanto isso, o fim jamais chegou para ele e a lua. O menino renasce em flor, coruja, pássaro, borboleta e ser humano, sempre no mesmo amor, e a lua continua iluminando-o risonha em prateado, como se fosse a primeira vez.
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| Leonid Tishkov, Private Moon |
sábado, 15 de outubro de 2016
Uma aula para Alice
Ao longo de sua caminhada pelo País, Alice carregava uma mochila na qual guardava as coisas que recolhia no percurso. Como o trajeto tinha sido longo, a mochila estava cheia. Lá pelas tantas, ela deu falta de alguma coisa. Não sabia o que era, mas sabia que alguma coisa estava faltando.
Era estranho, porque a mochila pesava mais que nunca. Como era possível que alguma coisa tivesse caído? Talvez fosse uma coisa leve.
Também, não adiantava ficar preocupada. Perdeu, perdeu. Não tem jeito: perder coisas pelo caminho é normal. Tomara que não fosse nada essencial.
O problema é que, com o passar do tempo e do caminho, a falta revelou-se avassaladora, e não dava pra percorrer o trajeto inverso buscando. Andara muito já. Um vazio tomava lugar em seu coração, mas não sabia o que fazia tanta falta, que tamanho tinha, qual a cor, a forma. Sabia que era leve, porque caiu da mochila sem fazer alarde.
Certo dia, apareceu-lhe o Gato Risonho.
- Noto que estás estranha, Alice.
- Pois perdi alguma coisa que não sei o que é.
- Talvez por isso a senhorita esteja meio ranzinza? - considerou o Gato - Seus passos andam mais duros.
- É porque quero ir rápido, mas não posso, a mochila pesa demais.
- Ninguém lhe ajuda?
- Não pedi ajuda...
Mirando Alice fixamente nos olhos, o Gato sentenciou:
- Você perdeu foi a esperança, Alice.
Era essa a falta que ela sentia em vão! Atordoada pela descoberta, Alice se entristeceu. Não sabia em que parte do caminho a esperança havia ficado, ou por onde havia se espalhado, talvez despedaçada, talvez esparramada aos poucos. Não sabia como resgatá-la.
Vai ver é assim mesmo, faz parte do caminhar. A esperança desbota, gasta, vaza - que nem aquelas almofadas de bolinhas de isopor, quando furam sem que você perceba. Que nem tudo que você usa muito. Gasta, ué, é assim mesmo.
Alice estava quase conformada, quando um homem que tinha nos olhos a cor das folhas que caem no outono cruzou o seu caminho.
- E por que, Alice, você não pediu ajuda a ninguém para levar esse peso? - ele quis saber.
- Não sei bem... Acho que não confio nas pessoas. A maioria delas não é boa não.
Ao ouvir aquilo, o homem adoçou a voz ternamente e respondeu com uma pergunta:
- Lembra-se, Alice, quando você era uma menina, antes ainda de encontrar este País das Maravilhas?
- Um pouco.
- Lembra-se da sua casa? Dos vizinhos que moravam à sua direita? À sua esquerda? Lembra-se dos vizinhos da frente?
Alice lembrava pouco, mas o pouco que lembrava era bom. Nenhum deles era lá muito normal, não. Mas veio à boca o gosto do bolo de cenoura coberto por chocolate que a senhora da frente fazia e compartilhava. As broncas rabugentas que ouvia da velhinha da direita cada vez que a bola escapava para a casa dela - mas ela sempre devolvia. As festas juninas na rua, os sorteios de bicicletas. As tardes de domingo. Mas lembrou-se, principalmente, de que a forma como a gente olha para as coisas e para as pessoas é parte fundamental do que a gente vê.
- Então, Alice. Aquelas pessoas eram boas - disse ela - Por que você pensaria que não?
Alice lavou os olhos de dentro pra fora para limpar toda desilusão que eles ainda guardassem. E assim, viu que, na verdade, ela não tinha perdido a esperança não. Ela estava ali o tempo todo, enrolada em outras coisas, misturada, sufocada dentro da mochila.
Olhou agradecida para aquele homem, e logo deduziu: para ser capaz de ensinar coisa importante assim, como salvar a esperança da omissão, de duas, uma: ou ele é professor, ou é um anjo que alguém me mandou.
Mas Alice não queria que ele fosse embora morar nas nuvens, então, passou a chamá-la de Professor. Era isso mesmo que ele era.
***
Minha singela homenagem a essa categoria tão indispensável e tão especial, com quem tenho muito orgulho de trabalhar.
Era estranho, porque a mochila pesava mais que nunca. Como era possível que alguma coisa tivesse caído? Talvez fosse uma coisa leve.
Também, não adiantava ficar preocupada. Perdeu, perdeu. Não tem jeito: perder coisas pelo caminho é normal. Tomara que não fosse nada essencial.
O problema é que, com o passar do tempo e do caminho, a falta revelou-se avassaladora, e não dava pra percorrer o trajeto inverso buscando. Andara muito já. Um vazio tomava lugar em seu coração, mas não sabia o que fazia tanta falta, que tamanho tinha, qual a cor, a forma. Sabia que era leve, porque caiu da mochila sem fazer alarde.
Certo dia, apareceu-lhe o Gato Risonho.
- Noto que estás estranha, Alice.
- Pois perdi alguma coisa que não sei o que é.
- Talvez por isso a senhorita esteja meio ranzinza? - considerou o Gato - Seus passos andam mais duros.
- É porque quero ir rápido, mas não posso, a mochila pesa demais.
- Ninguém lhe ajuda?
- Não pedi ajuda...
Mirando Alice fixamente nos olhos, o Gato sentenciou:
- Você perdeu foi a esperança, Alice.
Era essa a falta que ela sentia em vão! Atordoada pela descoberta, Alice se entristeceu. Não sabia em que parte do caminho a esperança havia ficado, ou por onde havia se espalhado, talvez despedaçada, talvez esparramada aos poucos. Não sabia como resgatá-la.
Vai ver é assim mesmo, faz parte do caminhar. A esperança desbota, gasta, vaza - que nem aquelas almofadas de bolinhas de isopor, quando furam sem que você perceba. Que nem tudo que você usa muito. Gasta, ué, é assim mesmo.
Alice estava quase conformada, quando um homem que tinha nos olhos a cor das folhas que caem no outono cruzou o seu caminho.
- E por que, Alice, você não pediu ajuda a ninguém para levar esse peso? - ele quis saber.
- Não sei bem... Acho que não confio nas pessoas. A maioria delas não é boa não.
Ao ouvir aquilo, o homem adoçou a voz ternamente e respondeu com uma pergunta:
- Lembra-se, Alice, quando você era uma menina, antes ainda de encontrar este País das Maravilhas?
- Um pouco.
- Lembra-se da sua casa? Dos vizinhos que moravam à sua direita? À sua esquerda? Lembra-se dos vizinhos da frente?
Alice lembrava pouco, mas o pouco que lembrava era bom. Nenhum deles era lá muito normal, não. Mas veio à boca o gosto do bolo de cenoura coberto por chocolate que a senhora da frente fazia e compartilhava. As broncas rabugentas que ouvia da velhinha da direita cada vez que a bola escapava para a casa dela - mas ela sempre devolvia. As festas juninas na rua, os sorteios de bicicletas. As tardes de domingo. Mas lembrou-se, principalmente, de que a forma como a gente olha para as coisas e para as pessoas é parte fundamental do que a gente vê.
- Então, Alice. Aquelas pessoas eram boas - disse ela - Por que você pensaria que não?
Alice lavou os olhos de dentro pra fora para limpar toda desilusão que eles ainda guardassem. E assim, viu que, na verdade, ela não tinha perdido a esperança não. Ela estava ali o tempo todo, enrolada em outras coisas, misturada, sufocada dentro da mochila.
Olhou agradecida para aquele homem, e logo deduziu: para ser capaz de ensinar coisa importante assim, como salvar a esperança da omissão, de duas, uma: ou ele é professor, ou é um anjo que alguém me mandou.
Mas Alice não queria que ele fosse embora morar nas nuvens, então, passou a chamá-la de Professor. Era isso mesmo que ele era.
***
Minha singela homenagem a essa categoria tão indispensável e tão especial, com quem tenho muito orgulho de trabalhar.
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
Não sambe
As palavras ruins se associam por afinidade. Tristeza, ódio, golpe, obscurantismo, autoritarismo. A imposição do silêncio; e nós sabemos que paz sem voz não é paz, é medo. O toque de recolher. Os assuntos proibidos, as desavenças gratuitas: preconceito, violência, cultura do ódio a todo vapor. O cara nem sabe por que odeia, pensa que ele mesmo formulou o ódio ao outro, sem notar que ele comprou um ódio prontinho de fábrica, de segunda mão, único dono. Mas meu senhor, por que tanto rancor? Por que me agride sem me conhecer?
A resposta é o silêncio que atravessa a madrugada. O escuro da noite é belo, mas querem tonar sombrio. A beleza dos nossos sonhos e das nossas lutas, nossos punhos cerrados, nossos braços erguidos, tudo isso virou ofensa. A democracia virou ofensa.
Não pode. Não vá. Não cante. Não pule. Não torça. Não vaie. Não fale de amor. Não erga sua bandeira. Não vista vermelho. Não expresse sua opinião. Há um grito parado no ar, eu não vejo, mas posso senti-lo.
Não sambe. Não sambe. Não sambe. Mas senhor, o samba não agride ninguém. No início do século passado, a gente era criminalizado, samba era vadiagem, João da Baiana foi preso somente por portar um pandeiro. Delegados sem alma e sem coração que não querem samba nem corimba na sua jurisdição. Tinha ficado no passado, mas não. Quando o ódio é maior que o amor, o samba não encontra seu lugar mesmo. Já fomos criminosos. Já fomos vagabundos. Já fomos baderneiros. Tudo bêbado. Mas por que, senhor? É que mesmo calado o peito, resta a cuca.
Somos de novo vagabundos. Artista é vagabundo. Outra vez, somos baderneiros. Vamos acabar com o samba, madame não gosta que ninguém sambe. Mas por que, senhor? Tanta alegria ofende. Juntar gente é perigoso.
Meu samba está sem casa. Mas ainda tem gente que canta, ainda tem gente que brinca. Não podem tolerar gente que canta, somos perigosos. Silêncio, silêncio. Já não há lugar, vamos fechar, vamos esvaziar, vamos interromper. Mandou parar a cuíca: é coisa dos hóme. A fome e a raiva é coisa dos hóme.
Meu samba está sem casa. Mas o samba não se aprisiona em casa nenhuma, não senhor. Quem suportar uma paixão, saberá que a casa do samba é o coração. E em nossos corações vocês não vão poder mandar. Quero ver quem haverá de calar a música que ecoa aqui dentro da minha cabeça.
Meu samba está sem casa, mas o samba é da rua, o samba é sem rumo, o samba é do povo, do amor e de todo lugar. Nós não vamos ficar na saudade: o samba é a nossa casa. E sempre haverá casa para quem tem amor.
"É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar
Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva"
(MORDAÇA - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro)
A resposta é o silêncio que atravessa a madrugada. O escuro da noite é belo, mas querem tonar sombrio. A beleza dos nossos sonhos e das nossas lutas, nossos punhos cerrados, nossos braços erguidos, tudo isso virou ofensa. A democracia virou ofensa.
Não pode. Não vá. Não cante. Não pule. Não torça. Não vaie. Não fale de amor. Não erga sua bandeira. Não vista vermelho. Não expresse sua opinião. Há um grito parado no ar, eu não vejo, mas posso senti-lo.
Não sambe. Não sambe. Não sambe. Mas senhor, o samba não agride ninguém. No início do século passado, a gente era criminalizado, samba era vadiagem, João da Baiana foi preso somente por portar um pandeiro. Delegados sem alma e sem coração que não querem samba nem corimba na sua jurisdição. Tinha ficado no passado, mas não. Quando o ódio é maior que o amor, o samba não encontra seu lugar mesmo. Já fomos criminosos. Já fomos vagabundos. Já fomos baderneiros. Tudo bêbado. Mas por que, senhor? É que mesmo calado o peito, resta a cuca.
Somos de novo vagabundos. Artista é vagabundo. Outra vez, somos baderneiros. Vamos acabar com o samba, madame não gosta que ninguém sambe. Mas por que, senhor? Tanta alegria ofende. Juntar gente é perigoso.
Meu samba está sem casa. Mas ainda tem gente que canta, ainda tem gente que brinca. Não podem tolerar gente que canta, somos perigosos. Silêncio, silêncio. Já não há lugar, vamos fechar, vamos esvaziar, vamos interromper. Mandou parar a cuíca: é coisa dos hóme. A fome e a raiva é coisa dos hóme.
Meu samba está sem casa. Mas o samba não se aprisiona em casa nenhuma, não senhor. Quem suportar uma paixão, saberá que a casa do samba é o coração. E em nossos corações vocês não vão poder mandar. Quero ver quem haverá de calar a música que ecoa aqui dentro da minha cabeça.
Meu samba está sem casa, mas o samba é da rua, o samba é sem rumo, o samba é do povo, do amor e de todo lugar. Nós não vamos ficar na saudade: o samba é a nossa casa. E sempre haverá casa para quem tem amor.
"É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar
Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva"
(MORDAÇA - Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro)
sexta-feira, 8 de julho de 2016
Amor & Bem
Tinha ficado pensativa a semana toda. A tal conversa não lhe saía da memória, mesmo que parte dela tivesse sido sugada para algum canto desconhecido da mente, levada que nem canoa desgovernada num extenso rio de águas calmas.
Falaram sobre demonstrações de amor. Ora, não precisam ser efusivas, nem frequentes. Ela sabia bem a chatice que é quando alguém insiste em dar um amor que o outro não quer receber. Tem também aquela história de assustar, e blá blá blá. Mas, no final das contas, ela nem percebia que demonstrava tanto, e amor é mesmo uma coisa que a pessoa faz sem notar. Coisa muito medida não tem como ser amor não.
Ao entrar na loja, Noel Rosa apareceu-lhe através de seus versos, que alguém, pelo rádio, pronunciava:
Agora vou mudar minha conduta
Eu vou à luta pois eu quero me aprumar
Vou tratar você com a força bruta
Pra poder me reabilitar.
"Vai ver é assim que a gente tem que ser", pensou. A letra do poeta da Vila a fez contente novamente, e quando reparou, o céu estava muito azul e o sol brilhava majestoso. Não havia motivo para cansaço nem incerteza. A vida andava para frente, os caminhos se abriam naturalmente, como se fosse a natureza abençoando-a.
Porém, no mesmo instante em que deixou a loja com o pequeno embrulho nas mãos, e antes que as palavras de Noel fizessem sentido de vez, a mente lhe trouxe a voz de Renato Russo, aquele poeta triste que, ironicamente, cantarolou-lhe palavras doces e risonhas:
Vem cá, meu bem,
Que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você.
Olhou para o presente e sorriu para si mesma, pensando: "É, acho que eu não tenho jeito não".
Falaram sobre demonstrações de amor. Ora, não precisam ser efusivas, nem frequentes. Ela sabia bem a chatice que é quando alguém insiste em dar um amor que o outro não quer receber. Tem também aquela história de assustar, e blá blá blá. Mas, no final das contas, ela nem percebia que demonstrava tanto, e amor é mesmo uma coisa que a pessoa faz sem notar. Coisa muito medida não tem como ser amor não.
Ao entrar na loja, Noel Rosa apareceu-lhe através de seus versos, que alguém, pelo rádio, pronunciava:
Agora vou mudar minha conduta
Eu vou à luta pois eu quero me aprumar
Vou tratar você com a força bruta
Pra poder me reabilitar.
"Vai ver é assim que a gente tem que ser", pensou. A letra do poeta da Vila a fez contente novamente, e quando reparou, o céu estava muito azul e o sol brilhava majestoso. Não havia motivo para cansaço nem incerteza. A vida andava para frente, os caminhos se abriam naturalmente, como se fosse a natureza abençoando-a.
Porém, no mesmo instante em que deixou a loja com o pequeno embrulho nas mãos, e antes que as palavras de Noel fizessem sentido de vez, a mente lhe trouxe a voz de Renato Russo, aquele poeta triste que, ironicamente, cantarolou-lhe palavras doces e risonhas:
Vem cá, meu bem,
Que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você.
Olhou para o presente e sorriu para si mesma, pensando: "É, acho que eu não tenho jeito não".
sábado, 7 de maio de 2016
Imagens mentais
Gosto de lembrar da época em que não existia telefone celular nem internet. As pessoas tinham que cumprir o combinado, porque não poderiam te localizar facilmente para desmarcar. Se você ligava e a pessoa não estava, deixava recado. E não precisava ficar conferindo de tempo em tempo para saber se o recado foi visualizado, não existia essa perspectiva. Se alguém te ligasse e você não quisesse atender, poderia falar pra Maricotinha que eu mandei dizer que não tô. Naquela época, você podia não estar, se não quisesse!
Quanto mais tecnologia, mais pressa. Uma pressa desprovida de sentido, pela inércia da pressa, a pressa de se apressar, de ter resposta, de responder, de entender, de sair correndo e chegar sabe-se lá onde. A pressa dá origem a mais pressa, e quanto mais pressa você tem, mais rápido você chega e de mais velocidade precisa pra continuar. Eta vida besta, meu deus.Quando não havia a internet, a gente tinha mais tempo para descobrir as coisas.
Para registrar momentos, havia câmeras fotográficas. Os filmes eram de 12, 24 ou 36 poses. Eu sempre me arrependia de não ter comprado o de 36. Ninguém tinha estoque de filme em casa, então, a gente fotografava os momentos especiais. Comprava filme para algumas ocasiões, não para se fotografar diante do espelho. Bom, é bem verdade que também se registravam momentos pouco especiais, porque precisava terminar o filme para poder revelar. Aí lá vinham um monte de fotos triviais, do dia-a-dia mesmo. Quando revelava, passava um tempo e você percebia que os momentos pouco especiais eram muito legais também. E escolhia um álbum bonito pra eles.
A gente fazia mais imagens mentais. Eu guardo na lembrança até hoje algumas cenas que não fotografei. Elas são mais vivas do que muitas que ganharam o papel, até porque eu não preciso procurar por elas quando as quero ver. Hoje em dia, fotografa-se tanto e tão frequentemente que não é possível que essas imagens sejam visitadas depois. Tenho medo que as crianças de hoje em dia não saibam mais produzir imagens mentais.
Quando eu fico cansada, sentindo o peso de tudo, com o coração palpitando todo errado, eu tenho vontade de me esconder nos anos 80 por uns tempos. Não preciso ir morar lá não, eu só queria passar uma semaninha ou duas.
sábado, 27 de fevereiro de 2016
A casa no morro
A mãe sempre gritava por causa da demora no banheiro, mas nem imaginava que o menino passava minutos infinitos (para menino, tudo é infinito) de pé em cima do vaso sanitário, de onde seus olhos podiam alcançar a janela que ficava quase na altura do chuveiro. A janelinha era pequena, mas dela, via-se o topo do morro ao longe, e ali o menino ficava vagando sem pressa de voltar.
O morro parecia que tocava o céu. Não tinha nada acima dele. Da janela, não enxergava o chão, só o alto, onde havia uma casinha branca e o céu. O que via da janela era uma combinação do verde-marrom do morro, com o azul do céu e o branco da casinha pequenina. Pensava que queria ir morar naquela casinha. Imaginava risonho a vista que teria da cidade: talvez, de lá pudesse ver o rio!
Não precisaria de cerca, porque ninguém que chegasse ao alto do morro mereceria ser temido. Seriam bem-vindos na sua casa, ele ofereceria café, chimarrão, bolo de laranja. Plantaria árvores em volta da casa, e assim, poderia também oferecer frutas frescas para quem o visitasse. Haveria uma horta! Com certeza, teria um cachorro. Não para guardar a casa, para brincar na casa.
Saía da casinha só quando a mãe gritava, pensando que o filho estava enrolando no banho, gastando muita energia.
Conforme os anos se passavam, a casinha branca ganhava mais adereços, animais, árvores, cores e até cômodos: quando decidiu ser arquiteto, achou que a casa teria de abrigar seu atelier.
No aniversário de 13 anos, pediu de presente um binóculo. Recebeu o agrado com muita alegria, e correu para o banheiro enxergar a casa onde moraria um belo dia. Quando subiu no vaso (ele tinha espichado bastante desde os seis anos, mas não o suficiente para alcançar a janelinha) e olhou pelo binóculo, sua decepção foi flagrante: a casinha branca não era uma casa. Era um letreiro que exibia o nome do morro: Apamecor.
Ficou cabisbaixo por alguns momentos, ninguém entendeu por quê. Mas era como se a casinha branca tivesse sucumbido a um terremoto, uma tempestade, um furacão. Foi tragada pela terra. Quando fechava os olhos via os escombros de tudo, isso doeu, e ele sentiu falta de ser criança de novo.
Mas daqui a pouco, uma luz se fez em seu rosto e ele voltou a ser feliz como antes. Dia seguinte, ligou o chuveiro e postou-se sobre o vaso sanitário, olhando atento pelo binóculo. Começou ali a projetar a construção da sua casa de infância.
O morro parecia que tocava o céu. Não tinha nada acima dele. Da janela, não enxergava o chão, só o alto, onde havia uma casinha branca e o céu. O que via da janela era uma combinação do verde-marrom do morro, com o azul do céu e o branco da casinha pequenina. Pensava que queria ir morar naquela casinha. Imaginava risonho a vista que teria da cidade: talvez, de lá pudesse ver o rio!
Não precisaria de cerca, porque ninguém que chegasse ao alto do morro mereceria ser temido. Seriam bem-vindos na sua casa, ele ofereceria café, chimarrão, bolo de laranja. Plantaria árvores em volta da casa, e assim, poderia também oferecer frutas frescas para quem o visitasse. Haveria uma horta! Com certeza, teria um cachorro. Não para guardar a casa, para brincar na casa.
Saía da casinha só quando a mãe gritava, pensando que o filho estava enrolando no banho, gastando muita energia.
Conforme os anos se passavam, a casinha branca ganhava mais adereços, animais, árvores, cores e até cômodos: quando decidiu ser arquiteto, achou que a casa teria de abrigar seu atelier.
No aniversário de 13 anos, pediu de presente um binóculo. Recebeu o agrado com muita alegria, e correu para o banheiro enxergar a casa onde moraria um belo dia. Quando subiu no vaso (ele tinha espichado bastante desde os seis anos, mas não o suficiente para alcançar a janelinha) e olhou pelo binóculo, sua decepção foi flagrante: a casinha branca não era uma casa. Era um letreiro que exibia o nome do morro: Apamecor.
Ficou cabisbaixo por alguns momentos, ninguém entendeu por quê. Mas era como se a casinha branca tivesse sucumbido a um terremoto, uma tempestade, um furacão. Foi tragada pela terra. Quando fechava os olhos via os escombros de tudo, isso doeu, e ele sentiu falta de ser criança de novo.
Mas daqui a pouco, uma luz se fez em seu rosto e ele voltou a ser feliz como antes. Dia seguinte, ligou o chuveiro e postou-se sobre o vaso sanitário, olhando atento pelo binóculo. Começou ali a projetar a construção da sua casa de infância.
sábado, 13 de fevereiro de 2016
Uma chamada
- Alô?
- Oi, tudo bem?
- (murmurando, um pouco brabo) Poxa, Lívia, já não pedi pra não me ligar quando eu estiver em casa?
- Pediu, mas não encontrei um motivo razoável para não fazê-lo.
- Eu estou com minha família, caramba!
- E daí? Você me liga quando eu estou com meus amigos, e eu atendo.
- Que comparação esdrúxula, Lívia.
- Esdrúxulo é que, em pleno século XXI, as pessoas se subordinem a um conceito atrasado como o de família! É uma instituição que acorrenta as pessoas, como se sentimento e convivência pudessem ser coisas coercitivas. Não me venha com essa conversa fiada de que família é um templo sagrado, hein. Pra muita gente, é o espaço da violência e da repressão, sabia?
- (quase implorando) Lívia, por favor, agora não posso falar com você...
- Tem que ser agora sim, Carlos Roberto! Liguei porque quero falar com você, e se você não quer me atender, que arrume uma justificativa melhor que “estou com minha família”.
- Meus filhos e minha mulher estão aqui!
- Seus filhos são adultos, Carlos Roberto!
- A Amanda!
- A Amanda? Aquela sonsa-monga que se faz de mais sonsa ainda para te manter aprisionado, com teus medos e tuas culpas pesando que nem aquelas bolas de ferro? Ora, francamente, Carlos Roberto. Arrume justificativa melhor.
- Eu passo muito tempo fora, eu só...
- (interrompendo) Você passa tempo fora porque é fora de casa que encontra as realizações que seu casamento de fachada não te dá. Em vez de se sentir culpado por isso, deveria buscar formas de se libertar. Você tem uma vida pra viver, deveria ir ser feliz. E deixar a pobre da Amanda ser feliz também, em nome de Jesus!
- Que absurdo você dizer isso!
- Absurdo, Carlos Roberto??? Deixe de hipocrisia, rapaz! Se esse seu casamento fosse bom, você não saía por aí dando suas escapadinhas! Ora! Pronto, falei.
- (sussurrando de novo) Você sabe que a vida não é essa simplicidade antropológica que você vive pregando, já falamos sobre isso. A gente casa, a gente forma uma família, a gente tem que ter responsabilidade com as decisões que se tomam. Ninguém aqui é adolescente mais.
- Claro que não. Adolescentes são curiosos e corajosos, e você é um covarde. Que conversa é essa de "responsabilidade com as decisões"?! Toda decisão humana é reversível. Ainda mais essas que precisam de contrato para se firmar. Amor não precisa de contrato não, Carlos Roberto. Nem de testemunha.
- (suspirando, rendido) Ok, Lívia. O que você quer.
- Te mandei um e-mail com dois relatórios para mandar para a matriz, um enxuto e um bem completo. Preciso que você leia os dois, sugira o que achar conveniente em cada um deles, veja o que falta e opine sobre qual enviar. Ainda hoje!
- Ok.
- Aguardo então. Beijão, bom fim de semana!
- Oi, tudo bem?
- (murmurando, um pouco brabo) Poxa, Lívia, já não pedi pra não me ligar quando eu estiver em casa?
- Pediu, mas não encontrei um motivo razoável para não fazê-lo.
- Eu estou com minha família, caramba!
- E daí? Você me liga quando eu estou com meus amigos, e eu atendo.
- Que comparação esdrúxula, Lívia.
- Esdrúxulo é que, em pleno século XXI, as pessoas se subordinem a um conceito atrasado como o de família! É uma instituição que acorrenta as pessoas, como se sentimento e convivência pudessem ser coisas coercitivas. Não me venha com essa conversa fiada de que família é um templo sagrado, hein. Pra muita gente, é o espaço da violência e da repressão, sabia?
- (quase implorando) Lívia, por favor, agora não posso falar com você...
- Tem que ser agora sim, Carlos Roberto! Liguei porque quero falar com você, e se você não quer me atender, que arrume uma justificativa melhor que “estou com minha família”.
- Meus filhos e minha mulher estão aqui!
- Seus filhos são adultos, Carlos Roberto!
- A Amanda!
- A Amanda? Aquela sonsa-monga que se faz de mais sonsa ainda para te manter aprisionado, com teus medos e tuas culpas pesando que nem aquelas bolas de ferro? Ora, francamente, Carlos Roberto. Arrume justificativa melhor.
- Eu passo muito tempo fora, eu só...
- (interrompendo) Você passa tempo fora porque é fora de casa que encontra as realizações que seu casamento de fachada não te dá. Em vez de se sentir culpado por isso, deveria buscar formas de se libertar. Você tem uma vida pra viver, deveria ir ser feliz. E deixar a pobre da Amanda ser feliz também, em nome de Jesus!
- Que absurdo você dizer isso!
- Absurdo, Carlos Roberto??? Deixe de hipocrisia, rapaz! Se esse seu casamento fosse bom, você não saía por aí dando suas escapadinhas! Ora! Pronto, falei.
- (sussurrando de novo) Você sabe que a vida não é essa simplicidade antropológica que você vive pregando, já falamos sobre isso. A gente casa, a gente forma uma família, a gente tem que ter responsabilidade com as decisões que se tomam. Ninguém aqui é adolescente mais.
- Claro que não. Adolescentes são curiosos e corajosos, e você é um covarde. Que conversa é essa de "responsabilidade com as decisões"?! Toda decisão humana é reversível. Ainda mais essas que precisam de contrato para se firmar. Amor não precisa de contrato não, Carlos Roberto. Nem de testemunha.
- (suspirando, rendido) Ok, Lívia. O que você quer.
- Te mandei um e-mail com dois relatórios para mandar para a matriz, um enxuto e um bem completo. Preciso que você leia os dois, sugira o que achar conveniente em cada um deles, veja o que falta e opine sobre qual enviar. Ainda hoje!
- Ok.
- Aguardo então. Beijão, bom fim de semana!
domingo, 27 de dezembro de 2015
Ressuscita-me!
Talvez, quem sabe, um dia, por uma alameda do zoológico, ela também chegará. Vai olhar tudo em volta como uma criança fora do seu lugar. Mais ainda: como uma criança que era adulta, numa trajetória parecida com a de Benjamin Button. "O que eu estou fazendo aqui?", perguntar-nos-á.
Ninguém saberá explicar. Ela é tão bonita. Olharão estupefatos, estavam todos ocupados gritando entre si sem se ouvir, dizendo bobagens, fazendo bobagens, agredindo, elaborando ridículas teorias sobre assuntos que solenemente desconhecem. Agora, estarão parados, paralisados, porque não sabem lhe responder o que ela está fazendo aqui. Ela é tão bonita, que, na certa, eles a ressuscitarão.
Talvez, o susto vem daí: se ela estava morta, o que estará fazendo aqui, entre nós, justo nós, que gritamos agressivamente tão alto?
Antes que voltemos a gritar, antes que voltemos para essa sanguinária batalha do cotidiano, gente querendo ditadura, gente querendo matar as pessoas, gente querendo segregar, gente querendo tudo para si e merda para o resto; finalmente sentiremos o coração destroçado pelas mesquinharias. E então, o século XXX vencerá. É de lá que ela vem. Vem para anunciar que agora vamos alcançar tudo o que não pudemos amar na vida.
Alguns corações serão atingidos, e a tristeza, a raiva, o ódio, os gritos, a violência darão lugar ao pranto doído. Nada novo se constrói sem dor.
Arrependidos e cheios de remorso, olharemos para cima e veremos o estelar das noites inumeráveis. E então perceberemos que a nossa passagem pelo planeta é tão miúda que nada nos restará se nossa presença por aqui não servir para alguma coisa boa.
Então ainda haverá gente gritando, ofendendo, desfilando preconceitos e intolerância, agredindo, esbanjando sua arrogância e sua vaidade de nada, porque não é nada, jamais poderia ser alguma coisa se mal sabe do que está falando. Não sabe o que é a política e a odeia. Não sabe o que é o mundo e o odeia. Não sabe quem é o outro e o odeia. Gente que encontra o Chico Buarque na rua e diz que ele é um merda. Gente que cospe em seres humanos que dedicaram a vida a fazer alguma coisa boa para quem chegar depois. Gente que caçoa e pisa em quem julga ser "menor".
Enquanto isso tudo ainda estiver acontecendo, ela gritará: RESSUSCITA-ME! Ainda que mais não seja, porque sou poeta e ansiava o futuro... Mais não somos, mais jamais seremos. Mas quem anseia o futuro é que mais merece viver. Quem não se rende ao presente, quem não se prende ao presente, quem não se limita ao presente. Lindos planos coletivos de que amanhã será melhor. Amanhã vai ser maior. RESSUSCITA-ME, ela segue gritando.
Pois se o pai é, pelo menos, o universo, e a mãe é, no mínimo, a Terra; então o sangue não me divide de ninguém, o ar que eu respiro, antes, me une. Inclusive àquele que até agora está gritando e agredindo. Mas eu também não posso querer ser nada, e à parte isso, trago em mim todos os sonhos do mundo. Vamos viver, vamos viver.
RESSUSCITA-ME!
Que reviva a Esperança. E se ela, de novo, se atirar do alto do décimo segundo andar do ano, outra vez será encontrada incólume. Risonha, caçoando de quem pensou que ela estava morta. Brincando de dar susto, que nem criança. Viva viva viva, Esperança. No final de tudo, eu sei que terá valido a pena passarmos por tudo isto.
Com amor por Caetano, Maiakovski, Fitzgerald, Fernando Pessoa, Mário Quintana e Cândido Portinari.
Ninguém saberá explicar. Ela é tão bonita. Olharão estupefatos, estavam todos ocupados gritando entre si sem se ouvir, dizendo bobagens, fazendo bobagens, agredindo, elaborando ridículas teorias sobre assuntos que solenemente desconhecem. Agora, estarão parados, paralisados, porque não sabem lhe responder o que ela está fazendo aqui. Ela é tão bonita, que, na certa, eles a ressuscitarão.
Talvez, o susto vem daí: se ela estava morta, o que estará fazendo aqui, entre nós, justo nós, que gritamos agressivamente tão alto?
Antes que voltemos a gritar, antes que voltemos para essa sanguinária batalha do cotidiano, gente querendo ditadura, gente querendo matar as pessoas, gente querendo segregar, gente querendo tudo para si e merda para o resto; finalmente sentiremos o coração destroçado pelas mesquinharias. E então, o século XXX vencerá. É de lá que ela vem. Vem para anunciar que agora vamos alcançar tudo o que não pudemos amar na vida.
Alguns corações serão atingidos, e a tristeza, a raiva, o ódio, os gritos, a violência darão lugar ao pranto doído. Nada novo se constrói sem dor.
Arrependidos e cheios de remorso, olharemos para cima e veremos o estelar das noites inumeráveis. E então perceberemos que a nossa passagem pelo planeta é tão miúda que nada nos restará se nossa presença por aqui não servir para alguma coisa boa.
Então ainda haverá gente gritando, ofendendo, desfilando preconceitos e intolerância, agredindo, esbanjando sua arrogância e sua vaidade de nada, porque não é nada, jamais poderia ser alguma coisa se mal sabe do que está falando. Não sabe o que é a política e a odeia. Não sabe o que é o mundo e o odeia. Não sabe quem é o outro e o odeia. Gente que encontra o Chico Buarque na rua e diz que ele é um merda. Gente que cospe em seres humanos que dedicaram a vida a fazer alguma coisa boa para quem chegar depois. Gente que caçoa e pisa em quem julga ser "menor".
Enquanto isso tudo ainda estiver acontecendo, ela gritará: RESSUSCITA-ME! Ainda que mais não seja, porque sou poeta e ansiava o futuro... Mais não somos, mais jamais seremos. Mas quem anseia o futuro é que mais merece viver. Quem não se rende ao presente, quem não se prende ao presente, quem não se limita ao presente. Lindos planos coletivos de que amanhã será melhor. Amanhã vai ser maior. RESSUSCITA-ME, ela segue gritando.
Pois se o pai é, pelo menos, o universo, e a mãe é, no mínimo, a Terra; então o sangue não me divide de ninguém, o ar que eu respiro, antes, me une. Inclusive àquele que até agora está gritando e agredindo. Mas eu também não posso querer ser nada, e à parte isso, trago em mim todos os sonhos do mundo. Vamos viver, vamos viver.
RESSUSCITA-ME!
Que reviva a Esperança. E se ela, de novo, se atirar do alto do décimo segundo andar do ano, outra vez será encontrada incólume. Risonha, caçoando de quem pensou que ela estava morta. Brincando de dar susto, que nem criança. Viva viva viva, Esperança. No final de tudo, eu sei que terá valido a pena passarmos por tudo isto.
Com amor por Caetano, Maiakovski, Fitzgerald, Fernando Pessoa, Mário Quintana e Cândido Portinari.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
Deja vu - Um conto de revéillon (parte 8: final)
Carolina e Érico eram amigos havia algum tempo. Amor de amigo é despretensioso, não é um trocar de ajudas, ombros e ouvidos, não envolve sentimentos mesquinhos como o de posse. Amor de amigo não é obrigatório, você encontra os amigos pela vida sem que ela os imponha a você pelo sangue ou por convenções sociais. Ninguém te prende a um amigo, nenhum contrato, nenhuma promessa ao vento. Você fica porque você quer. De amor de amigo você não se protege, ninguém tem medo de tornar-se amigo de alguém.
Mas sentimentos são coisas confusas e altamente misturáveis – por que alguém haveria de determinar que é errado misturar sentimentos? -, que se somam, se dividem, se subtraem, se multiplicam entre si. Érico se viu apaixonado pela moça que tinha nele seu melhor amigo, e ela, empunhando esse discurso, preferiu afastar-se para isso “passar”. Entregou para o tempo resolver, só o tempo sabe passar. Consigo mesmo, ele desejava que fosse um distanciamento temporário, para pensar. Ele também tinha que pensar, era tudo muito confuso mesmo.
Agindo em coerência com a estratégia de Carolina, Érico começou a sair com uma garota. Nada muito empolgante, mas estava aberto para qualquer coisa alterar-lhe o rumo. Certa noite, sua vida tomou um rumo imprevisto: a namorada saiu cedo e Carol se aproximou. Estavam distantes havia algum tempo, e talvez isso o fez percebê-la diferente. Parecia insegura do que estava fazendo, mas decidida a fazê-lo. Talvez, o que a tinha provocado a distanciar-se foi apenas o velho medo... Medo de perder o amigo, medo de se perder. As pessoas são cheias de medos.
Érico teve medo. Quando ficaram juntos, pareceu a coisa certa. Mas há muitos poréns entre um ponto e outro da história. Era uma situação nova e inusitada – sempre que pensava racionalmente no que estava acontecendo, assustava-se. A paixão chegara a ser platônica, a vida real é mais difícil. Os dois teriam que lidar com ela. Romantismo é um estilo literário, não uma boa forma de planejar sua vida.
Passou-se uma semana de incertezas, devaneios, expectativas e medo; e lá estava a noite de revéillon. Carolina reuniria os amigos em casa. Ninguém sabia de nada, ela mal sabia de alguma coisa, Érico nem sabia se aquilo tudo era real. No meio de tudo isso, ao se dar conta de que a meia-noite se aproximava, Carolina foi procurar Érico para que fosse seu primeiro abraço do novo ano.
Procurou-o pela festa até encontrá-lo na pista de dança e o viu dançando com uma moça qualquer, uma entre os tantos desconhecidos que sua própria festa agregou. Não era uma dança ingênua e despretensiosa. Era um flerte, como os demais que aconteciam simultaneamente no mesmo lugar.
Carolina ficou parada olhando, quase duvidando. Num impulso, foi até ele e puxou-o para fora de lá.
- Eu não posso acreditar que você está fazendo isso!
- Eu não estou fazendo nada!
- Érico, eu não sou cega, nem burra!
- Carol, a gente sabia que não ia ficar junto aqui!
Ela arregalou os olhos ao ouvir aquilo. Não dava tempo de pensar, a raiva se somou à tristeza, e um intenso sentimento de decepção resultou daquele choque. Érico tentou consertar.
- Carol, não foi nada, esquece isso.
- Vou esquecer mesmo, mas não vou esquecer só isso não! Vou esquecer logo tudo! – e, baixando o volume da voz, completou – Eu pensava você seria incapaz de fazer qualquer coisa que me chateasse. Era por isso que eu tinha decidido dar uma chance a nós.
Carolina saiu depressa. Não olhou para trás, mas sabia que Érico não a seguia. Correu em direção aos fundos da casa. O ano estava quase mudando, as pessoas estavam concentradas nisso. Érico ficou lá, parado ao lado da pista de dança, imaginando que colocou tudo a perder, dando-se conta de que seria eternamente assombrado pelo motivo pelo qual ela decidira dar uma chance a ele.
De repente, alguns dos convidados correram na direção do quartinho dos fundos. Estranhando a movimentação, ele se espichou para enxergar: viu Carol no chão e correu. Viu-a zonza, estava machucada. Tinha caído de cima do telhado. O que ela teria ido fazer no telhado...? Fugir dele? Chorar isolada?
Érico conseguiu chegar perto de Carolina, surpreendido pela reação que causara na moça. Quando o viu, ela sorriu e o abraçou forte. Ele se sentiu aliviado: não tinha posto tudo a perder. Encorajou-se, para tudo há solução:
- Por favor, me perdoe, foi uma estupidez minha.
Carolina disse que não sabia do que ele estava falando, e assim, começou uma disputa infinita entre memória, motivos, lembranças, táticas, culpas, remorsos. E medo. A passagem dos dias não reverteu esse comportamento dela, antes, acentuou. Érico ficou surpreso por achar que aquela mulher pudesse agir com tamanha frieza, e uma mágoa tamanha tornou palpável a necessidade de esquecer aquela história.
O tempo sempre ajuda quem quer esquecer. Quem quer. Quem não quer, não adianta esperar que o tempo aja sozinho. O tempo só sabe passar, cumprindo um curso de rio que pode ser sinuoso, pode ser comprimido entre margens opressoras, em águas densas ou límpidas; mas também pode ser o correr tranquilo de águas que não têm pressa de desaguar – sabem que o deságue é um fim incontornável.
O tempo não é coisa que a gente possa mexer não. E nem precisa.
Mas sentimentos são coisas confusas e altamente misturáveis – por que alguém haveria de determinar que é errado misturar sentimentos? -, que se somam, se dividem, se subtraem, se multiplicam entre si. Érico se viu apaixonado pela moça que tinha nele seu melhor amigo, e ela, empunhando esse discurso, preferiu afastar-se para isso “passar”. Entregou para o tempo resolver, só o tempo sabe passar. Consigo mesmo, ele desejava que fosse um distanciamento temporário, para pensar. Ele também tinha que pensar, era tudo muito confuso mesmo.
Agindo em coerência com a estratégia de Carolina, Érico começou a sair com uma garota. Nada muito empolgante, mas estava aberto para qualquer coisa alterar-lhe o rumo. Certa noite, sua vida tomou um rumo imprevisto: a namorada saiu cedo e Carol se aproximou. Estavam distantes havia algum tempo, e talvez isso o fez percebê-la diferente. Parecia insegura do que estava fazendo, mas decidida a fazê-lo. Talvez, o que a tinha provocado a distanciar-se foi apenas o velho medo... Medo de perder o amigo, medo de se perder. As pessoas são cheias de medos.
Érico teve medo. Quando ficaram juntos, pareceu a coisa certa. Mas há muitos poréns entre um ponto e outro da história. Era uma situação nova e inusitada – sempre que pensava racionalmente no que estava acontecendo, assustava-se. A paixão chegara a ser platônica, a vida real é mais difícil. Os dois teriam que lidar com ela. Romantismo é um estilo literário, não uma boa forma de planejar sua vida.
Passou-se uma semana de incertezas, devaneios, expectativas e medo; e lá estava a noite de revéillon. Carolina reuniria os amigos em casa. Ninguém sabia de nada, ela mal sabia de alguma coisa, Érico nem sabia se aquilo tudo era real. No meio de tudo isso, ao se dar conta de que a meia-noite se aproximava, Carolina foi procurar Érico para que fosse seu primeiro abraço do novo ano.
Procurou-o pela festa até encontrá-lo na pista de dança e o viu dançando com uma moça qualquer, uma entre os tantos desconhecidos que sua própria festa agregou. Não era uma dança ingênua e despretensiosa. Era um flerte, como os demais que aconteciam simultaneamente no mesmo lugar.
Carolina ficou parada olhando, quase duvidando. Num impulso, foi até ele e puxou-o para fora de lá.
- Eu não posso acreditar que você está fazendo isso!
- Eu não estou fazendo nada!
- Érico, eu não sou cega, nem burra!
- Carol, a gente sabia que não ia ficar junto aqui!
Ela arregalou os olhos ao ouvir aquilo. Não dava tempo de pensar, a raiva se somou à tristeza, e um intenso sentimento de decepção resultou daquele choque. Érico tentou consertar.
- Carol, não foi nada, esquece isso.
- Vou esquecer mesmo, mas não vou esquecer só isso não! Vou esquecer logo tudo! – e, baixando o volume da voz, completou – Eu pensava você seria incapaz de fazer qualquer coisa que me chateasse. Era por isso que eu tinha decidido dar uma chance a nós.
Carolina saiu depressa. Não olhou para trás, mas sabia que Érico não a seguia. Correu em direção aos fundos da casa. O ano estava quase mudando, as pessoas estavam concentradas nisso. Érico ficou lá, parado ao lado da pista de dança, imaginando que colocou tudo a perder, dando-se conta de que seria eternamente assombrado pelo motivo pelo qual ela decidira dar uma chance a ele.
De repente, alguns dos convidados correram na direção do quartinho dos fundos. Estranhando a movimentação, ele se espichou para enxergar: viu Carol no chão e correu. Viu-a zonza, estava machucada. Tinha caído de cima do telhado. O que ela teria ido fazer no telhado...? Fugir dele? Chorar isolada?
Érico conseguiu chegar perto de Carolina, surpreendido pela reação que causara na moça. Quando o viu, ela sorriu e o abraçou forte. Ele se sentiu aliviado: não tinha posto tudo a perder. Encorajou-se, para tudo há solução:
- Por favor, me perdoe, foi uma estupidez minha.
Carolina disse que não sabia do que ele estava falando, e assim, começou uma disputa infinita entre memória, motivos, lembranças, táticas, culpas, remorsos. E medo. A passagem dos dias não reverteu esse comportamento dela, antes, acentuou. Érico ficou surpreso por achar que aquela mulher pudesse agir com tamanha frieza, e uma mágoa tamanha tornou palpável a necessidade de esquecer aquela história.
O tempo sempre ajuda quem quer esquecer. Quem quer. Quem não quer, não adianta esperar que o tempo aja sozinho. O tempo só sabe passar, cumprindo um curso de rio que pode ser sinuoso, pode ser comprimido entre margens opressoras, em águas densas ou límpidas; mas também pode ser o correr tranquilo de águas que não têm pressa de desaguar – sabem que o deságue é um fim incontornável.
O tempo não é coisa que a gente possa mexer não. E nem precisa.
***
FIM
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
Deja vu - Um conto de revéillon (parte 7)
- Amanda, você é a única pessoa para quem eu falo tudo, por favor, me ajuda a entender se eu estou ficando louca ou carente demais.
- Lá vem.
- Estou sentindo um troço estranho aqui.
- Ai, Jesus, eu estou tendo um deja vu?!
- Você acha que não devo?
- Irmã, vou te levar urgentemente num psiquiatra. Ou numa mãe-de-santo. Ou num programador de sistemas. Já tive esta conversa contigo antes!
Chegou a sentir vertigem. As palavras de Amanda entravam atropeladas pelos seus ouvidos, Carol parecia ter perdido parte da capacidade cognitiva junto com a memória daquela fatídica noite que, agora, ela esquecia por opção.
- Ah, que bom que te achei, Carol, estou indo embora.
Beijou-o para testar a si mesma e a ele.
- Não quero que você vá encontrar a Liz amanhã.
- Ok. Não vou.
Ao redor deles, a maioria já estava embriagada o suficiente para não notá-los. Mas alguém, ao longe, prestava muita atenção, e ria-se sozinho observando aquele casal. Pensou em chegar mais perto para ouvir melhor, mas temeu a memória da moça que tinha perdido a memória. Saiu risonho, ainda observando, recordando. Vestido de azul.
A noite de ano novo é muito tumultuada. Certamente, a mais congestionada do ano. Todo mundo quer pedir, até quem diz não crer em nada. E a ânsia de pedir é tão grande que pedem pra qualquer coisa. Até para uma tigela de lentilhas, pedem. Alguns fazem pedidos genéricos, como saúde, paz, amor. Tem gente que especifica demais, quer o cargo X na empresa Y em determinada altura do ano. Mas aquele pedido foi diferente.
A mulher chorava contida, sentada sozinha no telhado do quartinho dos fundos de sua casa. Embaixo, ninguém notava: faziam já a contagem regressiva que traria o novo ano.
- Eu vou esquecer mesmo. Mas não vou esquecer só isso. Vou esquecer tudo, tudo! – e olhando para o céu, pediu miseravelmente em prantos – Por favor, me ajuda! Eu quero esquecer!
- Como assim?
A mulher se assustou quando me viu. Claro. Não esperava resposta. Já nesse momento, quase caiu do telhado, duvidando de seus próprios olhos. Segurei. Ela me mirou de cima abaixo, desconfiada, mas sem ter mais com quem contar.
- Quem é você?
- Que raio de pedido é esse?
- Não sei quem é você!
- Ou você me explica ou eu não vou poder te ajudar, moça.
- Você é um anjo?
- Eu não.
- Papai Noel?
- Tá louca?
- Peraí... Você estava na festa?
- Moça, diga logo o que quer e eu vou-me. Não tenho a noite toda pra ficar aqui em cima com você.
Ela respirou fundo e parou de chorar. Com a voz lacrimosa falando baixo e tremendo um pouco, como se aqueles quase trinta graus fossem somente dez, ela me olhou de novo e pediu.
Não tinha nada a perder.
- Eu queria voltar o tempo. Pra época que eu e o Érico éramos somente bons amigos.
- Moça, o tempo não é coisa que eu posso mexer não. Volta no que a senhora estava falando antes.
- Está bem – e respirou fundo, como diante de uma cesta de basquete onde arremessaria um tiro livre – Quero esquecer tudo o que houve entre a gente. Quero esquecer o que sinto por ele!
A gente não está aqui para avaliar caso a caso, nem para julgar as tristezas e necessidades das pessoas. As pessoas às vezes são meio esquisitas, mas temos que acreditar que quem sabe o que é melhor para elas são elas mesmas. Pensar que você sabe mais abre possibilidades perigosas de revogação do livre-arbítrio.
E assim sendo, foi do jeito que tinha que ser.
Foi um pouco pela minha ação em atendimento ao pedido, mas acho que foi principalmente um novo susto em meio ao estouro de fogos de artifício que fez a moça se desequilibrar e cair. Rolou telhado abaixo e foi ao chão. A queda foi feia, o lugar não era baixo. Podia ter se machucado, mas, por sorte, os danos foram os mínimos possíveis. Desci, quis saber se ela precisava de hospital, mas ela disse que não.
Como fui visto, fiquei um pouco mais por lá para não gerar suspeitas, depois fui cumprir o restante da jornada – que era longa. E vou lhes dizer: não chega a me surpreender ver a mulher, agora, depois de esquecer tudo, lembrar tudo ao refazer sem saber que já fez.
- Na noite de ano novo, você disse que duvidava de que eu fosse capaz de fazer alguma coisa para te chatear. Você se lembra disso? – ele perguntou.
- Sim.
- Lembra o contexto?
- Creio que foi ao me despedir de você... Quando você fez referência à tal briga que escapou da minha memória. Não foi isso?
- Foi exatamente isso.
***
Continua... Último capítulo amanhã!
- Lá vem.
- Estou sentindo um troço estranho aqui.
- Ai, Jesus, eu estou tendo um deja vu?!
- Você acha que não devo?
- Irmã, vou te levar urgentemente num psiquiatra. Ou numa mãe-de-santo. Ou num programador de sistemas. Já tive esta conversa contigo antes!
Chegou a sentir vertigem. As palavras de Amanda entravam atropeladas pelos seus ouvidos, Carol parecia ter perdido parte da capacidade cognitiva junto com a memória daquela fatídica noite que, agora, ela esquecia por opção.
- Ah, que bom que te achei, Carol, estou indo embora.
Beijou-o para testar a si mesma e a ele.
- Não quero que você vá encontrar a Liz amanhã.
- Ok. Não vou.
Ao redor deles, a maioria já estava embriagada o suficiente para não notá-los. Mas alguém, ao longe, prestava muita atenção, e ria-se sozinho observando aquele casal. Pensou em chegar mais perto para ouvir melhor, mas temeu a memória da moça que tinha perdido a memória. Saiu risonho, ainda observando, recordando. Vestido de azul.
A noite de ano novo é muito tumultuada. Certamente, a mais congestionada do ano. Todo mundo quer pedir, até quem diz não crer em nada. E a ânsia de pedir é tão grande que pedem pra qualquer coisa. Até para uma tigela de lentilhas, pedem. Alguns fazem pedidos genéricos, como saúde, paz, amor. Tem gente que especifica demais, quer o cargo X na empresa Y em determinada altura do ano. Mas aquele pedido foi diferente.
A mulher chorava contida, sentada sozinha no telhado do quartinho dos fundos de sua casa. Embaixo, ninguém notava: faziam já a contagem regressiva que traria o novo ano.
- Eu vou esquecer mesmo. Mas não vou esquecer só isso. Vou esquecer tudo, tudo! – e olhando para o céu, pediu miseravelmente em prantos – Por favor, me ajuda! Eu quero esquecer!
- Como assim?
A mulher se assustou quando me viu. Claro. Não esperava resposta. Já nesse momento, quase caiu do telhado, duvidando de seus próprios olhos. Segurei. Ela me mirou de cima abaixo, desconfiada, mas sem ter mais com quem contar.
- Quem é você?
- Que raio de pedido é esse?
- Não sei quem é você!
- Ou você me explica ou eu não vou poder te ajudar, moça.
- Você é um anjo?
- Eu não.
- Papai Noel?
- Tá louca?
- Peraí... Você estava na festa?
- Moça, diga logo o que quer e eu vou-me. Não tenho a noite toda pra ficar aqui em cima com você.
Ela respirou fundo e parou de chorar. Com a voz lacrimosa falando baixo e tremendo um pouco, como se aqueles quase trinta graus fossem somente dez, ela me olhou de novo e pediu.
Não tinha nada a perder.
- Eu queria voltar o tempo. Pra época que eu e o Érico éramos somente bons amigos.
- Moça, o tempo não é coisa que eu posso mexer não. Volta no que a senhora estava falando antes.
- Está bem – e respirou fundo, como diante de uma cesta de basquete onde arremessaria um tiro livre – Quero esquecer tudo o que houve entre a gente. Quero esquecer o que sinto por ele!
A gente não está aqui para avaliar caso a caso, nem para julgar as tristezas e necessidades das pessoas. As pessoas às vezes são meio esquisitas, mas temos que acreditar que quem sabe o que é melhor para elas são elas mesmas. Pensar que você sabe mais abre possibilidades perigosas de revogação do livre-arbítrio.
E assim sendo, foi do jeito que tinha que ser.
Foi um pouco pela minha ação em atendimento ao pedido, mas acho que foi principalmente um novo susto em meio ao estouro de fogos de artifício que fez a moça se desequilibrar e cair. Rolou telhado abaixo e foi ao chão. A queda foi feia, o lugar não era baixo. Podia ter se machucado, mas, por sorte, os danos foram os mínimos possíveis. Desci, quis saber se ela precisava de hospital, mas ela disse que não.
Como fui visto, fiquei um pouco mais por lá para não gerar suspeitas, depois fui cumprir o restante da jornada – que era longa. E vou lhes dizer: não chega a me surpreender ver a mulher, agora, depois de esquecer tudo, lembrar tudo ao refazer sem saber que já fez.
- Na noite de ano novo, você disse que duvidava de que eu fosse capaz de fazer alguma coisa para te chatear. Você se lembra disso? – ele perguntou.
- Sim.
- Lembra o contexto?
- Creio que foi ao me despedir de você... Quando você fez referência à tal briga que escapou da minha memória. Não foi isso?
- Foi exatamente isso.
***
Continua... Último capítulo amanhã!
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Deja vu - Um conto de revéillon (parte 6)
O ano, aliás, começou de verdade na segunda-feira, dia de trabalho. Tudo normal, exceto porque alguns pararam de fumar, outros começaram dietas, uma meia dúzia começou a correr diariamente. Tudo normal, exceto que duas pessoas que antes eram grandes amigas agora estavam afastadas, sem falar direito uma com a outra, e sem nem saber bem o porquê disso.
Aquela ausência entristecia Carolina mais que a grosseria do dia 1º de janeiro. A falta é um buraco que se abre na alma, insolúvel. Quando se sente a falta de alguém que está por perto, o sentimento é muito específico. A falta é ouvir a voz da pessoa quando ela não falou nada. A falta é morar em todos os lugares aonde a pessoa não vai.
Carolina olhava Érico de longe e não sentia o amor que ele lhe dedicou outrora. Abria-se-lhe no peito uma dor inexplicável. Nada daquilo era explicável, afinal.
Desejava poder voltar o tempo para quando aquela festa não tinha acontecido. Se pudesse refazer suas decisões, não teria organizado festa nenhuma, teria passado a noite de ano novo dormindo, nem que fosse à base de soníferos.
O tempo, por sua vez, não volta atrás, mas sabe correr. O tempo correu para um lugar onde o sofrimento de não saber se dissipou em uma variedade de sentimentos entre a conformidade e a melancolia. Carolina mastigava sua nostalgia em pleno ano novo, como aquele que pressiona eternamente entre os dentes uma folha de bálsamo, por exemplo.
Foi então que os dois ex-amigos foram desafiados a se encarar. Isso se deu quando já eram capazes de fazer isso, de forma natural. Sabiam que esse momento chegaria. Era noite de sexta-feira, aniversário de um colega do escritório. Todos saíram do trabalho direto para o bar, onde se armou uma mesa comprida em que pessoas gritavam para se ouvirem, riam escandalosas e se aliviavam das pressões cotidianas da vida entre goles de cerveja.
Os dois se sentaram lado a lado, e não esconderam o constrangimento. Eram, antes, tão íntimos. Agora, trocavam monossílabos esquisitos e gaguejantes, de quem não tem nada para dizer.
Carolina não se conformava com aquele triste fim de uma bela amizade, e resolveu agir para reverter o constrangimento. Fez perguntas sobre a família dele, sobre o trabalho, e, lá pelas tantas, já estava confessando a falta que ele lhe fazia.
- Eu também sinto sua falta, Carol.
Ela respirou aliviada, como se até ali o ar que a penetrava não tivesse encontrado o caminho dos pulmões, só agora. Sabia que não podia controlar o tempo para remediar coisas passadas, mas entendeu que tinha controle sobre o presente: não falou sobre a festa, a queda, a briga, a grosseria. O passar dos minutos trouxe a Carolina e Érico os assuntos que sempre tiveram antes: era a vida correndo solta, como se a interrupção fosse derivada de um salto sobre um amontoado de rochas. O salto pode até ter provocado um tombo, mas bastou levantar-se para voltar a correr outra vez.
Da mesma forma que costumava fazer antes, Carolina perguntou a Érico como estava a moça com quem ele saía vez ou outra no ano passado. Foi quando ele tornou a apresentar o olhar entre desconcertado e desconfiado, que ela reconheceu de pronto.
- Ué, Carol, desde o fim do ano passado eu não a vi mais.
Deduzindo que isso pudesse ter alguma relação com a parte de sua memória que a amnésia apagou, ela tentou mudar de assunto rapidamente. Porém, antes que ela fosse bem-sucedida, Érico prosseguiu:
- Amanhã vou sair com a Liz.
Liz fora colega de ambos, mas tinha deixado o escritório havia poucos meses. Carol sempre alertara o amigo de que a jovem tinha pretensões com ele, mas ele preferia fingir-se de desentendido: sabia que Carolina não ia com a cara da garota.
Ao ouvir a revelação, ela engoliu seco e ficou sem saber para onde olhar.
- Ah, então, finalmente decidiu dar uma chance à moçoila?
- Se você disser para eu não ir, eu não vou.
Trezentos tipos diferentes de calafrios percorreram o corpo de Carolina naquele momento. Ela engasgou, tossiu, foi um fiasco. Érico riu. Sentir aquele riso carinhoso era o gengibre de que ela precisava. Riu também, e continuaram no mesmo lugar de onde nunca deveriam ter saído.
Não demorou e foram interpelados pelos colegas, sedentos de interação e de mais cerveja. Àquela altura, a embriaguez de todos já os fazia avulsos a conversas particulares que cada qual pudesse nutrir, e sociáveis o bastante para não permitir que ninguém saísse daquele contexto coletivo quase simbiótico.
A noite passava, e ficou inevitável para Carolina empreender nova tentativa de recuperar a noite de réveillon. Tomava força em seus pensamentos a revelação feita pela irmã poucas horas após perder a memória. Telefonou para Amanda, então.
***
Continua...
Aquela ausência entristecia Carolina mais que a grosseria do dia 1º de janeiro. A falta é um buraco que se abre na alma, insolúvel. Quando se sente a falta de alguém que está por perto, o sentimento é muito específico. A falta é ouvir a voz da pessoa quando ela não falou nada. A falta é morar em todos os lugares aonde a pessoa não vai.
Carolina olhava Érico de longe e não sentia o amor que ele lhe dedicou outrora. Abria-se-lhe no peito uma dor inexplicável. Nada daquilo era explicável, afinal.
Desejava poder voltar o tempo para quando aquela festa não tinha acontecido. Se pudesse refazer suas decisões, não teria organizado festa nenhuma, teria passado a noite de ano novo dormindo, nem que fosse à base de soníferos.
O tempo, por sua vez, não volta atrás, mas sabe correr. O tempo correu para um lugar onde o sofrimento de não saber se dissipou em uma variedade de sentimentos entre a conformidade e a melancolia. Carolina mastigava sua nostalgia em pleno ano novo, como aquele que pressiona eternamente entre os dentes uma folha de bálsamo, por exemplo.
Foi então que os dois ex-amigos foram desafiados a se encarar. Isso se deu quando já eram capazes de fazer isso, de forma natural. Sabiam que esse momento chegaria. Era noite de sexta-feira, aniversário de um colega do escritório. Todos saíram do trabalho direto para o bar, onde se armou uma mesa comprida em que pessoas gritavam para se ouvirem, riam escandalosas e se aliviavam das pressões cotidianas da vida entre goles de cerveja.
Os dois se sentaram lado a lado, e não esconderam o constrangimento. Eram, antes, tão íntimos. Agora, trocavam monossílabos esquisitos e gaguejantes, de quem não tem nada para dizer.
Carolina não se conformava com aquele triste fim de uma bela amizade, e resolveu agir para reverter o constrangimento. Fez perguntas sobre a família dele, sobre o trabalho, e, lá pelas tantas, já estava confessando a falta que ele lhe fazia.
- Eu também sinto sua falta, Carol.
Ela respirou aliviada, como se até ali o ar que a penetrava não tivesse encontrado o caminho dos pulmões, só agora. Sabia que não podia controlar o tempo para remediar coisas passadas, mas entendeu que tinha controle sobre o presente: não falou sobre a festa, a queda, a briga, a grosseria. O passar dos minutos trouxe a Carolina e Érico os assuntos que sempre tiveram antes: era a vida correndo solta, como se a interrupção fosse derivada de um salto sobre um amontoado de rochas. O salto pode até ter provocado um tombo, mas bastou levantar-se para voltar a correr outra vez.
Da mesma forma que costumava fazer antes, Carolina perguntou a Érico como estava a moça com quem ele saía vez ou outra no ano passado. Foi quando ele tornou a apresentar o olhar entre desconcertado e desconfiado, que ela reconheceu de pronto.
- Ué, Carol, desde o fim do ano passado eu não a vi mais.
Deduzindo que isso pudesse ter alguma relação com a parte de sua memória que a amnésia apagou, ela tentou mudar de assunto rapidamente. Porém, antes que ela fosse bem-sucedida, Érico prosseguiu:
- Amanhã vou sair com a Liz.
Liz fora colega de ambos, mas tinha deixado o escritório havia poucos meses. Carol sempre alertara o amigo de que a jovem tinha pretensões com ele, mas ele preferia fingir-se de desentendido: sabia que Carolina não ia com a cara da garota.
Ao ouvir a revelação, ela engoliu seco e ficou sem saber para onde olhar.
- Ah, então, finalmente decidiu dar uma chance à moçoila?
- Se você disser para eu não ir, eu não vou.
Trezentos tipos diferentes de calafrios percorreram o corpo de Carolina naquele momento. Ela engasgou, tossiu, foi um fiasco. Érico riu. Sentir aquele riso carinhoso era o gengibre de que ela precisava. Riu também, e continuaram no mesmo lugar de onde nunca deveriam ter saído.
Não demorou e foram interpelados pelos colegas, sedentos de interação e de mais cerveja. Àquela altura, a embriaguez de todos já os fazia avulsos a conversas particulares que cada qual pudesse nutrir, e sociáveis o bastante para não permitir que ninguém saísse daquele contexto coletivo quase simbiótico.
A noite passava, e ficou inevitável para Carolina empreender nova tentativa de recuperar a noite de réveillon. Tomava força em seus pensamentos a revelação feita pela irmã poucas horas após perder a memória. Telefonou para Amanda, então.
***
Continua...
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