Música, feminismo, diálogos, política, futebol, crônica e poesia convivendo no mesmo espaço. E sem conflito.
quinta-feira, 14 de março de 2013
Dia da Poesia
Eu gosto mais da poesia. Mesmo quando ela não me deixa dormir, porque os versos ficam me martelando. Mesmo quando eu a vejo num discurso político, que me enche da esperança que eu não vou perder nunca. Mesmo quando eu vejo o Barça fazendo um gol improvável numa troca de passes surreal; o São Paulo contrariando lógicas e estereótipos mal acabados. A poesia que tem no abraço dos amigos, em risadas sonoras. A triste poesia da despedida, versos que não eram para sair, mas saem. Eu prefiro a poesia mesmo assim. Eu prefiro a poesia quando é mais difícil fazê-la do que escrever um artigo acadêmico. Eu prefiro, porque um verso de samba me vem à cabeça e não tá nem aí se um dia alguém vai ouvi-lo. Eu prefiro, porque eu sempre preferi. Eu prefiro a poesia, porque quem está falando isso é ela. Eu prefiro a poesia. Porque a vida real seria sem graça sem ela. E porque tudo tinha mesmo que virar poesia.
sexta-feira, 8 de março de 2013
Ser mulher
Nas primeiras horas da manhã, a mulher levantou e foi plantar a vida na terra, pra da terra tirá-la, pra da terra sair. Na terra ficou e plantou-se, como flor, como Rosas, Margaridas e Violetas, com espadas, enxadas e canções, ensinando a humanidade a cultivar o futuro que semeou em tempos bons ou ruins, adubado por sangue e suor de mulher, que percorreram seu corpo sem definir seu destino, para extravasar-se e cair no chão, arando porvires melhores. Mulher sabe que o mundo não é agora, o mundo já foi e vai ser, o mundo existe para ser transformado em colheitas de luta e de sonhos. Mulher rompeu amarras, livrou-se das garras e das mãos que seguravam seus pés. Mulher é inconformada, pode mais e vai além. Mulher não vê o que está ali, vê o que pode estar, e cumpre o caminho que há enquanto observa cuidadosa para encontrar em que lado estará o mato fechado a ser desbravado na direção do novo dia verde. Mulher colhe, todos os dias, o que planta desde a aurora da humanidade, conhece quem é, tem olhos cheios de água e de sons. Choram Marias e Clarices, riem-se Chiquinhas, Claras, Clementinas e Alices. Mulher não sabe o que é medo porque não teve tempo de aprender, enquanto ganhava em seu rosto as marcas do tempo que viu, o peso profundo de tudo o que somos, a beleza luminosa de quem vamos ser. Mulher sai do fogo, da água e da mata, mulher amanhece em qualquer madrugada, mulher sempre sabe o que ninguém percebeu. Mulher é a vida que explode em jornadas ingratas, no pó do caminho, na carga inexata da história que vem correndo atrás, para onde ela chama. Não só Amélias e Emílias, são Coras, Adélias, Cecílias espalhando sementes com versos no ar. No fim do dia, a mulher cansada sente o corpo pesar, mas o olhar é do dia que vai começar. São Iaras, Dandaras, Heleniras, Lourdes, Luízas. Despertam prontas para ser o que são, e sem dó: a mulher é a mão que semeia o mundo melhor.
terça-feira, 5 de março de 2013
O sono das filhas de Iara
Não era uma esquina,
A lua não estava cheia,
E não havia trilha sonora.
O cenário era cinza e azul.
Cinza porque sim,
Azul porque não.
A calçada era bruta
Nem frio, nem calor.
Nenhuma frase pronta.
Não era magia,
Não era uma coisa no ar.
(o ar estava úmido,
e cheio de fumaça de cigarro)
Ali, desse jeito,
Iara determinou:
Queria suas filhas em casa,
Dormindo,
Seguras,
Dois anjos.
Naquela calçada,
Que era tão inocente,
Tão coadjuvante,
Tudo se passou.
Tudo.
Todos.
Não choveu para lavar almas,
Não relampejou para trazer ideias,
Não se estrelou o céu para fazer passar
Uma dor
Duas dores
Os amores
Inodoros.
Iara chamou,
As filhas a seguem.
Sem olhar para trás,
Sem querer demais,
Sem sentir-se capaz.
A mágoa, o vento leva.
A esperança é o mar quem traz.
A calçada fez-se palco,
O tempo fez-se cúmplice.
E tudo acabou.
Simultâneo,
Impreciso
Direto.
E agora,
Dormem as filhas de Iara.
O sono das justas
das fortes
das que voltaram
sem nunca ter
ido.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Lançamento do meu livro em São Paulo
Espero vocês pro lançamento do meu livro de poesias, Retratos - E algumas mentirinhas a mais, em São Paulo, próximo dia 9. Mais uma conquista que se realiza (ou se expressa) no Dia Internacional da Mulher. No caso, um dia depois, mas está na margem de erro... rs...
Este blog foi um motor dessa publicação. Será muito especial ter nessa celebração as pessoas que me acompanham por aqui. Até lá!
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Adargas
Te aprisionei
Te joguei,
Desavisado e sem armas,
Em Adargas.
Sem remorso
Nem esforço,
Deixei-lhe sem corpo e sem alma,
Em Adargas.
Você gritou, se debateu,
Amaldiçoou a mim e aos meus.
Jurou-me vingança,
Mas lhe amordacei
E calou-se assim.
Roubei-lhe a lembrança,
Dos tempos de rei
Coroado por mim.
Chorou como criança,
Eu nem me importei,
Ainda não era o fim.
Com elegância,
Abandonei-lhe
À própria sorte
Sozinho no mundo,
No meio de tudo,
Com medo da morte.
Fique, amor, em Adargas
Lá as frutas são todas amargas,
O frio corta cada poro
E nunca faz sol.
Fique lá em Adargas
Lá, te abrirão novas chagas,
Nunca acaba o agora
E não existe futebol.
Fique quietinho em Adargas
Convivendo com todas as pragas
Que, no adiantar da hora,
Te lancei num anzol.
Amor, seja feliz em Adargas
Lá nem precisa de dinheiro,
Lá você faz o seu lar
Lá sou amiga do barqueiro
E você não consegue voltar.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Oferenda para Iemanjá
Todo o mar
É o vestido azul de minha mãe.
Que, às vezes, se esverdeia,
Ou em marrom se bronzeia.
Mas sempre se estende pro mundo
Emprestando-lhe a eternidade
De dentro do mar profundo,
Do fundo de toda verdade.
No vestido, as ondas são rendas
E, em movimento de dança,
Derramam histórias e lendas,
Desaguam, na areia, esperança.
À noite, o azul escuro
Se casa com o preto do céu,
Que está no cabelo e na pele,
E as nuvens lhe formam um véu.
Estrelas são brincos brilhantes
Que adornam seu rosto tranquilo
A lua ilumina adiante
O caminho entre ela e seus filhos.
É minha mãe, que se anoitece
Para se mostrar plenamente,
Depois, em seu canto, amanhece
Numa face diferente.
Eu me deixo envolver pelas águas
Como quem se entrega a um abraço
Deitando-me assim em seus braços
Sinto livrar-me das mágoas
Num sussurro suave de brisa
Ela me diz: tenha calma...
O corpo só se energiza,
O tempo é quem lava a alma.
E se o mar se expressa em fúria
Não é que ele seja inconstante
É que a sua beleza e volúpia
Não são para qualquer navegante.
Todo fevereiro
É para cantar para minha mãe
Estampar-lhe o vestido com flores,
Rezar por um belo amanhã.
As lágrimas da sua gente
São o que salga o mar
E então, ela chega imponente
Para ouvir sua gente cantar.
Odoyá!
Salve 2 de fevereiro,
Salve a rainha do mar.
Peço a bênção, Iemanjá.
Assinar:
Postagens (Atom)


