Tito fez cara de espanto. Carolina tinha cada vez mais medo desse lapso de memória. Agora era certo: foi apenas aquele trecho da noite que se apagou de sua lembrança. Fora à pista de dança, queria fazer alguma coisa lá antes que chegasse o dia 1º de janeiro. Talvez, somente dançar. Talvez quisesse começar o ano novo dançando.
- Carol, não se preocupe mais. Vai ver os olhos não estavam lacrimejantes e foi tudo impressão minha – considerou Graça.
- Mas por que eu subi no telhado?
- Não sei, não importa. Fique tranquila, não deve ter nada nesse espaço de tempo que você precise saber. Tudo parece normal, nos trilhos, igual ao que estava antes de você cair. Está tudo bem.
Era verdade mesmo, estava tudo bem. A festa corria sem problemas, as pessoas se divertiam, até os desconhecidos. Devagar, ela passou a seguir o conselho de Graça. Dane-se o telhado e os eventuais motivos. Nada disso havia mais, nada disso tinha sentido, não existia. Danem-se as dores. Eram os primeiros momentos do ano novo.
Não podia dançar porque os machucados incomodavam, então, pôs-se a beber. Foi quando Tito voltou para perto dela. Primeiro, insistiu para levá-la ao hospital, mas ela titubeava. Consensualizaram que ela visitaria um posto de saúde tão logo despertasse no dia seguinte.
Mudaram de assunto, e mudaram de assunto outras tantas vezes, até começarem a falar de coisas íntimas e do coração. Ora, que tinha de mais? Todo mundo gosta de estar com alguém na virada do ano. Tito lhe representava um território familiar, e, como Carol se sentia solitária diante daquela confusão, baixou a guarda e permitiu que o momento a levasse a qualquer lugar. Normal.
Érico foi um dos que notaram esse movimento quando foi se despedir:
- Estou indo.
- Mas já?
- Queria me certificar de que está tudo bem... Você não lembra mesmo de ter brigado comigo? Acha que teve uma pancada na cabeça que lhe alterou a memória?
- Não lembro mesmo e não faço ideia de que motivo eu poderia ter para brigar contigo, Érico! Você é uma das pessoas que eu mais amo nesta vida, duvido que seria incapaz de me chatear em plena noite de ano novo! – e, após curta pausa, enquanto ele a olhava embasbacado, ela concluiu – E... Quer saber? Se alguma coisa aconteceu, eu esqueci. Então, esqueça também.
No rosto dele, havia um misto de espanto com melancolia.
- Carol, você esqueceu só que brigou comigo ou esqueceu mais coisas?
- Eu não sei por que fui ao telhado e não sei como caí – ela murmurou em seu ouvido, para que ninguém ouvisse.
- Acho tudo isso muito estranho. Podemos conversar outro dia?
- Claro!
Ele abraçou-a reticente, mas saiu em passos decididos.
Érico e Carolina conheceram-se no trabalho e imediatamente se identificaram um com o outro. Em pouco tempo, a amizade se estendeu para fora do escritório, e eles se encontravam após o expediente e nos finais de semana. Trocavam confidências, faziam planos e dividiam desejos, riam muito, falavam de qualquer coisa ou apenas não falavam nada. Eram “unha e carne”, como se diz.
Quando Carol e Tito terminaram seu namoro, Érico passou a se aproximar dela de um modo diferente. Brincava com a possibilidade de ficarem juntos, e Carol se assustou. Estava tudo tão certo, não havia por que mudar nada.
- Querido, nós somos amigos e só.
- Não sei por que você quer colocar essa limitação, é muito melhor se apaixonar por uma pessoa amiga! Com inimigos fica difícil!
Em certo tempo, ele interrompeu as brincadeiras com medo de perder a presença da amiga. Talvez ele mesmo não tivesse certeza do que estava fazendo, essas coisas não são simples de se calcular. Talvez fosse melhor manter tudo como estava.
Carolina voltou-se para Tito com um enorme ponto de interrogação na face. Na falta de alguém mais certeiro, dirigiu-se ao ex-namorado mesmo:
- Você me viu brigar com o Érico?
- Vi sim.
- Ai que bom, Tito, então me salva desta ignorância!
- Ué, eu vi vocês discutindo na pista de dança! Você não lembra?
- Não! Acho que bati a cabeça e perdi alguma coisa da memória recente...
- Esquecer motivos de brigar é ótimo, Carol, deixe assim.
Tito lembrou-a de que bater a cabeça é motivo importante de ir ao hospital na manhã seguinte. Então, abraçaram-se naturalmente e assim permaneceram. Normal. Exceto para Amanda, que, quando teve oportunidade, puxou a irmã caçula para longe de lá.
- O que você está fazendo?
- Nada, ué. Curtindo a minha festa.
- Com o Tito???
- Mais ou menos, né...
- O que houve com o Érico?
- Foi embora há um tempinho já...
- Vocês brigaram?
- Parece que sim, mas não lembro.
- Não lembra???
- Não – e, diante da expressão surpresa da irmã, Carolina fechou o tempo e endureceu a voz – Amanda, você quer me explicar o que está acontecendo?
- Eu não estou entendendo nada, Carol. Pensei que você tinha superado o Tito, pensei que você quisesse ficar com o Érico.
- Com o Érico?! Por que você pensaria isso?
- Porque você me falou!
Tudo mudava a cada dez minutos. O ano novo já nasceu agitado.
Carolina olhou Tito conversando com amigos a poucos metros dela. Encerraram sua relação sem gritos ou maldizeres, simplesmente o amor que eles se tinham era pouco e se acabou. Ninguém sofreu demais por isso. Sendo assim, não era estranho se aproximarem outra vez. A intensidade do sentimento, muitas vezes, é inimiga do relacionamento. Não havia nada demais em quererem ficar juntos.
- Eu te disse que queria ficar com o Érico?
- Sim, Carol, logo depois que ficaram juntos.
- Eu fiquei com o Érico??!
***
Continua...
Música, feminismo, diálogos, política, futebol, crônica e poesia convivendo no mesmo espaço. E sem conflito.
domingo, 20 de dezembro de 2015
sábado, 19 de dezembro de 2015
Deja vu - Um conto de revéillon (parte 3)
Cansada dos preparativos, Carolina mal conseguia aproveitar a festa. Havia pequenas providências a tomar ainda, como repor a comida na mesa da ceia, receber os convidados e convidadas, recolher pratos e copos largados pela casa como se a casa fosse autolimpante. “Mas depois de meia-noite, eu não vou fazer mais nada, cada um que se vire”, preparava-se.
Ainda estava preocupada em indicar o banheiro para alguns e a geladeira para outros, quando se deu conta de que já era quase meia-noite. Foi à pista de dança, precisava fazer alguma coisa lá. Viu as pessoas dançando alegremente, algumas já embriagadas, o amigo DJ feliz por agradar. Alguns estavam com os olhos presos nos relógios.
- Daí, de repente, eu caio no chão.
- Eu hein, que história esquisita.
- Amanda... – e fez uma pausa pensativa, escolhendo palavras e recolhendo cacos de lembrança – Eu briguei com o Érico?
- Brigou?!
- Não sei, estou te perguntando!
- Ué, sei lá! Eu não vi não!
E apareceu Augusto a poucos metros dali, gritando por Amanda. Tinha acabado o papel higiênico do banheiro, e ele não sabia onde estavam os rolos.
- Irmã, a festa é minha, era para você se divertir, não trabalhar.
- Relaxa, Carol, cuida desses machucados aí, que jajá eu deixo você trabalhar sozinha de novo.
Amanda sorriu, e foi a única que ganhou um sorriso de volta de Carolina. Já se afastava em direção a Augusto quando a irmã chamou-a de volta:
- Você conhece esse moço, Augusto?
- Não conhecia, mas estou adorando conhecer! – ela respondeu, sorrindo maliciosa.
E saiu com o rapaz para abastecer o banheiro de papéis higiênicos. Que romântico.
Outra vez, Carol olhou para todos os cantos da festa em busca de explicações. Todos dançavam, bebiam, falavam, riam. Olhou para si mesma e viu cortes e hematomas. Sentia as dores da queda mais do que nunca. Foi quando seu ex-namorado se aproximou:
- Você está bem, Carol?
- Acho que sim – ela já não confiava nele o bastante para dizer que não se lembrava do que tinha acontecido.
- Você deveria ir ao hospital – ele aconselhou – Foi uma queda feia, poderiam ter acontecido coisas muito mais graves! Precisa ver se está tudo bem por dentro, se não quebrou nada, essas coisas. Posso te levar, se quiser...
O pânico de não lembrar o que tinha acontecido tinha sido desproporcional à necessidade de verificar em exames se estava tudo bem! Carolina estava prestes a cogitar ir ao hospital com Tito, quando Graça, do alto de seus oito meses de gravidez, veio se despedir.
- Você está bem, amiga?
- Estou, mas está doendo um pouquinho...
- Fiquei preocupada quando caiu, o que houve?
- Mulher, eu não sei. Quando me dei conta, estava no chão.
- Mas por que você subiu ao telhado?
- Então, eu... Eu acho que queria rezar. Não sei bem.
- Você passou por mim como uma flecha, acho que estava indo para lá. Era um pouquinho antes de meia-noite.
- Onde você me viu passando como uma flecha?
- Perto da pista de dança.
Havia umas vinte pessoas dançando, quase todas de copo na mão. A barriga pesava, e Graça afastou-se da pista para olhar de fora. Respirava de plenos pulmões e sorria pela alegria que aquela reunião de pessoas proporcionava: a festa estava mesmo ótima.
Foi quando Carolina passou por ela, a passos firmes, rápidos e ríspidos, na direção do quartinho dos fundos. Talvez corresse apenas para ir a um banheiro. Teria certeza disso não fossem os olhos lacrimejantes da anfitriã.
- Eu estava chorando?
- Não, mas os olhos estavam úmidos.
***
Continua...
Ainda estava preocupada em indicar o banheiro para alguns e a geladeira para outros, quando se deu conta de que já era quase meia-noite. Foi à pista de dança, precisava fazer alguma coisa lá. Viu as pessoas dançando alegremente, algumas já embriagadas, o amigo DJ feliz por agradar. Alguns estavam com os olhos presos nos relógios.
- Daí, de repente, eu caio no chão.
- Eu hein, que história esquisita.
- Amanda... – e fez uma pausa pensativa, escolhendo palavras e recolhendo cacos de lembrança – Eu briguei com o Érico?
- Brigou?!
- Não sei, estou te perguntando!
- Ué, sei lá! Eu não vi não!
E apareceu Augusto a poucos metros dali, gritando por Amanda. Tinha acabado o papel higiênico do banheiro, e ele não sabia onde estavam os rolos.
- Irmã, a festa é minha, era para você se divertir, não trabalhar.
- Relaxa, Carol, cuida desses machucados aí, que jajá eu deixo você trabalhar sozinha de novo.
Amanda sorriu, e foi a única que ganhou um sorriso de volta de Carolina. Já se afastava em direção a Augusto quando a irmã chamou-a de volta:
- Você conhece esse moço, Augusto?
- Não conhecia, mas estou adorando conhecer! – ela respondeu, sorrindo maliciosa.
E saiu com o rapaz para abastecer o banheiro de papéis higiênicos. Que romântico.
Outra vez, Carol olhou para todos os cantos da festa em busca de explicações. Todos dançavam, bebiam, falavam, riam. Olhou para si mesma e viu cortes e hematomas. Sentia as dores da queda mais do que nunca. Foi quando seu ex-namorado se aproximou:
- Você está bem, Carol?
- Acho que sim – ela já não confiava nele o bastante para dizer que não se lembrava do que tinha acontecido.
- Você deveria ir ao hospital – ele aconselhou – Foi uma queda feia, poderiam ter acontecido coisas muito mais graves! Precisa ver se está tudo bem por dentro, se não quebrou nada, essas coisas. Posso te levar, se quiser...
O pânico de não lembrar o que tinha acontecido tinha sido desproporcional à necessidade de verificar em exames se estava tudo bem! Carolina estava prestes a cogitar ir ao hospital com Tito, quando Graça, do alto de seus oito meses de gravidez, veio se despedir.
- Você está bem, amiga?
- Estou, mas está doendo um pouquinho...
- Fiquei preocupada quando caiu, o que houve?
- Mulher, eu não sei. Quando me dei conta, estava no chão.
- Mas por que você subiu ao telhado?
- Então, eu... Eu acho que queria rezar. Não sei bem.
- Você passou por mim como uma flecha, acho que estava indo para lá. Era um pouquinho antes de meia-noite.
- Onde você me viu passando como uma flecha?
- Perto da pista de dança.
Havia umas vinte pessoas dançando, quase todas de copo na mão. A barriga pesava, e Graça afastou-se da pista para olhar de fora. Respirava de plenos pulmões e sorria pela alegria que aquela reunião de pessoas proporcionava: a festa estava mesmo ótima.
Foi quando Carolina passou por ela, a passos firmes, rápidos e ríspidos, na direção do quartinho dos fundos. Talvez corresse apenas para ir a um banheiro. Teria certeza disso não fossem os olhos lacrimejantes da anfitriã.
- Eu estava chorando?
- Não, mas os olhos estavam úmidos.
***
Continua...
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
Deja vu - Um conto de revéillon (parte 2)
- Carol... Desculpe, sua irmã me pediu pra trazer isto.
O rapaz de azul trazia dois sacos plásticos cheios de gelo. Levou alguns segundos para ela entender a função que tais objetos deveriam cumprir naquele momento, mas quando se deu conta, as dores do corpo começaram a esmurrá-la de dentro pra fora.
Ainda um pouco atordoada e sem condições de assimilar informações complexas ou embaçadas, Carolina deixou Érico e saiu caminhando devagar, levando na mão os sacos com gelo. Sentou-se e não sabia se doíam mais os ferimentos ou o desespero de não saber o que houve.
Alguns cantos do corpo latejavam sem apresentar marca alguma. Outros, ela reparou melhor ao sentar, tinham arranhões feios, feridas abertas. Estas são visíveis, você as limpa e trata delas. Passa o tempo, elas cicatrizam, somem, e você observa aquela evolução, aquele processo todo até que a marca desapareça de vez. Até que não sobre nadica de nada pra contar a história do tombo.
As dores que você sente mas não enxerga são as piores. Como algumas das dores que resultaram daquela queda: doem horrores, limitam seus movimentos, geram comportamento autoprotetivo (porque as pessoas não veem marca nenhuma, e talvez, inadvertidamente, toquem no lugar errado). Mas não deixam ferimentos expostos, e fica difícil saber o que está acontecendo ali - lesões camufladas, que podem piorar por não terem sido adequadamente tratadas. Não saber dá medo. A gente se sente impotente e vulnerável diante de algo que a gente nem vê. As feridas que você não enxerga são as piores.
Carolina estava com a cabeça longe, mas interrompeu os devaneios quando notou que o rapaz continuava parado ao seu lado, observando-a.
- De novo você. Por que está me ajudando?
- Porque sua irmã pediu.
- Cadê ela?
- Está na cozinha, repondo a comida da ceia. Muita gente ainda não comeu.
- Ela não devia estar fazendo isso, a casa é minha.
- Mas você se machucou e ela pediu pra eu te trazer gelo, que ela cuida das coisas.
- Quem é você, afinal?
- Eu sou o Augusto. Não se preocupe, não vou contar a ninguém que te vi cair.
O rapaz quis ser irreverente, mas a brincadeira não foi bem-recebida. Carolina nem sorriu, somente desviou o olhar e passou a reparar na própria festa. A presença volumosa de desconhecidos em sua casa tinha sido fator de estresse desde antes de a festa começar – ela não esperava por boa parte deles. Olhava firme a pista de dança improvisada no quintal, via os movimentos e na alegria daquelas pessoas que ali dançavam. Como foi que todas aquelas pessoas estranhas foram parar lá?
Havia muito o que fazer. Era para ser festa pequena, mas tanta gente estava perdida na solidão daquele fim de ano no asfalto, que Carolina precisou ampliar a ideia de festa íntima para caberem as demais almas ansiosas por confraternizar-se com alguém na noite de ano novo. A quantidade de trabalho triplicou proporcionalmente suas preocupações e seu mau humor
- Mulher, se é pra você ficar desse jeito, esquece essa festa e a gente caça o que fazer – recomendava Amanda, sua irmã.
Agora não tinha como voltar atrás. Algumas pessoas já tinham até lhe deixado o dinheiro para contribuir com as compras de bebida e comida. Um amigo seria DJ. A pista de dança não contaria com caixas de som potentes, mas isso não inviabilizaria a diversão. Precisaria arrumar prato pra tudo aquilo de gente, não tem como comer ceia de ano novo no guardanapo.
Na grande noite, chegaram muitos amigos de amigos de alguém que ela conhecia, e ela temeu não haver comida e bebida suficientes. Talvez Augusto fosse um desses. Talvez tivesse notado o quanto ela estava irritada antes de cair do telhado.
Mas o que tinha ido fazer no telhado mesmo?!
- E eu sei lá o que você foi fazer no telhado, maluca – disse a irmã – Você estava meio doida mesmo, deve ter ido ficar longe da bagunça. Jura que não lembra?
- Juro.
- E sua lembrança termina onde?
***
Continua...
O rapaz de azul trazia dois sacos plásticos cheios de gelo. Levou alguns segundos para ela entender a função que tais objetos deveriam cumprir naquele momento, mas quando se deu conta, as dores do corpo começaram a esmurrá-la de dentro pra fora.
Ainda um pouco atordoada e sem condições de assimilar informações complexas ou embaçadas, Carolina deixou Érico e saiu caminhando devagar, levando na mão os sacos com gelo. Sentou-se e não sabia se doíam mais os ferimentos ou o desespero de não saber o que houve.
Alguns cantos do corpo latejavam sem apresentar marca alguma. Outros, ela reparou melhor ao sentar, tinham arranhões feios, feridas abertas. Estas são visíveis, você as limpa e trata delas. Passa o tempo, elas cicatrizam, somem, e você observa aquela evolução, aquele processo todo até que a marca desapareça de vez. Até que não sobre nadica de nada pra contar a história do tombo.
As dores que você sente mas não enxerga são as piores. Como algumas das dores que resultaram daquela queda: doem horrores, limitam seus movimentos, geram comportamento autoprotetivo (porque as pessoas não veem marca nenhuma, e talvez, inadvertidamente, toquem no lugar errado). Mas não deixam ferimentos expostos, e fica difícil saber o que está acontecendo ali - lesões camufladas, que podem piorar por não terem sido adequadamente tratadas. Não saber dá medo. A gente se sente impotente e vulnerável diante de algo que a gente nem vê. As feridas que você não enxerga são as piores.
Carolina estava com a cabeça longe, mas interrompeu os devaneios quando notou que o rapaz continuava parado ao seu lado, observando-a.
- De novo você. Por que está me ajudando?
- Porque sua irmã pediu.
- Cadê ela?
- Está na cozinha, repondo a comida da ceia. Muita gente ainda não comeu.
- Ela não devia estar fazendo isso, a casa é minha.
- Mas você se machucou e ela pediu pra eu te trazer gelo, que ela cuida das coisas.
- Quem é você, afinal?
- Eu sou o Augusto. Não se preocupe, não vou contar a ninguém que te vi cair.
O rapaz quis ser irreverente, mas a brincadeira não foi bem-recebida. Carolina nem sorriu, somente desviou o olhar e passou a reparar na própria festa. A presença volumosa de desconhecidos em sua casa tinha sido fator de estresse desde antes de a festa começar – ela não esperava por boa parte deles. Olhava firme a pista de dança improvisada no quintal, via os movimentos e na alegria daquelas pessoas que ali dançavam. Como foi que todas aquelas pessoas estranhas foram parar lá?
Havia muito o que fazer. Era para ser festa pequena, mas tanta gente estava perdida na solidão daquele fim de ano no asfalto, que Carolina precisou ampliar a ideia de festa íntima para caberem as demais almas ansiosas por confraternizar-se com alguém na noite de ano novo. A quantidade de trabalho triplicou proporcionalmente suas preocupações e seu mau humor
- Mulher, se é pra você ficar desse jeito, esquece essa festa e a gente caça o que fazer – recomendava Amanda, sua irmã.
Agora não tinha como voltar atrás. Algumas pessoas já tinham até lhe deixado o dinheiro para contribuir com as compras de bebida e comida. Um amigo seria DJ. A pista de dança não contaria com caixas de som potentes, mas isso não inviabilizaria a diversão. Precisaria arrumar prato pra tudo aquilo de gente, não tem como comer ceia de ano novo no guardanapo.
Na grande noite, chegaram muitos amigos de amigos de alguém que ela conhecia, e ela temeu não haver comida e bebida suficientes. Talvez Augusto fosse um desses. Talvez tivesse notado o quanto ela estava irritada antes de cair do telhado.
Mas o que tinha ido fazer no telhado mesmo?!
- E eu sei lá o que você foi fazer no telhado, maluca – disse a irmã – Você estava meio doida mesmo, deve ter ido ficar longe da bagunça. Jura que não lembra?
- Juro.
- E sua lembrança termina onde?
***
Continua...
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
Deja vu - Um conto de revéillon (parte 1)
Cabrum! Puf, puf, tum!
A mulher caiu de cima do telhado, logo após a virada do ano. Nem todos os convidados perceberam, havia o som dos fogos de artifício, que causavam ruídos bem mais potentes, e também havia gritos comemorativos, garrafas de espumante sendo estouradas, votos de felicidades feitos aos berros. Abraços eram distribuídos indiscriminadamente, e ela estava ali no chão, atordoada, os olhos um pouco zonzos, sem sentir as feridas que a queda provavelmente lhe causara. Como que anestesiada, como que procurando entender o que tinha acontecido.
Quem primeiro se aproximou foi um estranho, vestido de azul. Pareceu preocupado com o que viu:
- Você está bem? Quer ajuda, precisa ir pra um hospital?
- Quem é você?
- Eu tô aqui na festa também. Você quer ajuda?
- Tem muita gente nesta festa que eu não conheço. Ano que vem vou convidar só os meus amigos.
Tentou levantar-se sozinha, estava um pouco embaraçada pela situação. O rapaz não se intimidou pela grosseria e tentou ajudá-la. Ela aceitou o braço, apoiou-se para subir, e então, percebeu que mais pessoas começaram a se aproximar, algumas corriam até ela. Eram amigos.
- O que aconteceu?
- Ela caiu.
- Você está bem?
- O que houve?
- Onde você estava?
- Caiu de onde?
- O que você estava fazendo no telhado?
- Feliz ano novo, Carol!
Aquele ajuntamento de gente a fez sentir ainda mais atordoada. Olhava ao redor, via pessoas de caras misturadas, não conseguia um foco: todo mundo estava um pouco confundido nos seus olhos. Dava pra ver que havia conhecidos naquela pequena multidão, mas havia também uma porção de curiosos que ela nunca tinha visto.
- Eu estou bem gente, tá, chega.
Foi obrigada a abraçar todo mundo de feliz ano novo. Não sabia que cargas d’água fazia no telhado. Não lembrava como foi parar lá, não lembrava a queda, só percebeu quando já tinha se chocado violentamente contra o chão. Agora, temia ter quebrado alguma coisa. Uma costela, um deslocamento de qualquer coisa. As dores começavam a se mostrar.
- Feliz ano novo, linda.
Reconheceu o rosto sorridente do amigo. Como se tivesse encontrado uma referência de quem era ela mesma, abraçou-o forte.
- Por favor, me perdoe! – ele pediu, docemente.
- Foi você que me jogou do telhado?
- Ahn? Não!
- Por que está me pedindo perdão?
- Porque você tem toda razão, eu fui ridículo. Foi uma tentativa de autoboicote, sei lá...
- O que você fez, criatura?
Érico afastou-se um passo para trás e olhou Carolina desconfiado. Não encontrou nada em sua expressão que lhe desse pistas de para onde aquela conversa iria.
- Carolina, você está brincando comigo?
Ela não sabia de que ele estava falando. Teria feito alguma coisa má que ela nem notara? Ou será que a queda a fez bater com a cabeça e então perdera a memória?
Ele também não entendia nada.
- Você está querendo dizer que está tudo passado e esquecido?
- Eu estou dizendo que não estou braba com você!
- Então me perdoou?
- De quê, criatura?
Nada fazia sentido.
***
Continua...
domingo, 15 de novembro de 2015
Mortal
Se a sua solução
Para ser imortal
For mais moral
Mais amarras
Vergonha na cara
Vergonha de tudo
Patrulha
Fechar os olhos
Fechar o colo
Pra todo mundo
Eu prefiro ser
Insolúvel
Eu prefiro ser
Só humana mesmo.
Para ser imortal
For mais moral
Mais amarras
Vergonha na cara
Vergonha de tudo
Patrulha
Fechar os olhos
Fechar o colo
Pra todo mundo
Eu prefiro ser
Insolúvel
Eu prefiro ser
Só humana mesmo.
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
Greve vitoriosa
Aqui não há uma análise política. Há palavras humanas sobre uma ação humana.
***
Sempre vou me lembrar do Antônio Cândido dizendo: toda greve é vitoriosa, pela mobilização e pela reflexão que possibilita. Eu era estudante da USP e aquela foi minha primeira greve.
Quinze anos e algumas greves depois, eu continuo aprendendo o sentido daquela frase. Foram vinte e nove dias intensos, preenchidos por discussões acaloradas nas escolas, no comando de greve, nos corredores, pelo telefone (especialmente pelo tal do whatsapp). Preenchidos por sangue, suor e lágrimas, literalmente. Preenchidos por muita paixão, confiança, fé nos ideais, solidariedade, medo, coragem, tudo se alternando ao mesmo tempo agora. As frustrações que vinham de conversas com colegas fura-greve. A vontade de vencer que essas mesmas conversas despertavam, porque se tudo fosse fácil, ninguém precisava lutar. É por isso que lutadores e lutadoras são imprescindíveis: não é fácil, mas alguém tem que fazer. Se não, o mundo não muda.
Guardarei muitas imagens desta greve na minha mente para sempre. A violência policial contra nós no Eixão Sul, quando já nos preparávamos para deixar o local – aquela covardia que marcou a mim menos do que a companheiros(as) que foram presos(as) e agredidos(as), e certamente marcou a história do Distrito Federal. A assembleia que sucedeu esse episódio, com quase 15 mil professores e professoras na Praça do Buriti. Um líder da oposição entrando na escola empunhando a bandeira do Sinpro. A bandeira vermelha do Sinpro tremulando desde dentro da sala da Presidência da Câmara. O baralho feito em cartões de visita para suportar as horas de ocupação. O carro de som em Santa Maria, dirigido por um motorista que não conhecia a cidade e, pensando estar na contramão, disparou na rua, deixando os(as) manifestantes para trás. As professoras grevistas que, ao visitar um Jardim da Infância para convencer o grupo de professores(as) a entrarem em greve, assumiram uma turma de pequenos para que seu professor pudesse ir para a sala de coordenação nos ouvir. A música do faraó simbolizando os desmandos do GDF e da Justiça, mas animando a tarde dos guerreiros e guerreiras que fizeram greve de fome.
Tenho orgulho de ter participado dessa história. Vitórias foram construídas, outras ficaram por construir. E eu não tenho dúvida que o grau de mobilização e de reflexão proporcionado por esta greve não só fazem jus às sábias palavras de Antônio Cândido, como abrem caminho para completá-las: o carinho e os abraços que há entre as pessoas enlaça a luta perfeitamente bem, e faz com que se desfaça no ar a dureza das pedras que nos atiram. É bom demais trabalhar com essa categoria!
Rollemberg que se cuide. Já estamos prontos e prontas para a próxima.
***
Sempre vou me lembrar do Antônio Cândido dizendo: toda greve é vitoriosa, pela mobilização e pela reflexão que possibilita. Eu era estudante da USP e aquela foi minha primeira greve.
Quinze anos e algumas greves depois, eu continuo aprendendo o sentido daquela frase. Foram vinte e nove dias intensos, preenchidos por discussões acaloradas nas escolas, no comando de greve, nos corredores, pelo telefone (especialmente pelo tal do whatsapp). Preenchidos por sangue, suor e lágrimas, literalmente. Preenchidos por muita paixão, confiança, fé nos ideais, solidariedade, medo, coragem, tudo se alternando ao mesmo tempo agora. As frustrações que vinham de conversas com colegas fura-greve. A vontade de vencer que essas mesmas conversas despertavam, porque se tudo fosse fácil, ninguém precisava lutar. É por isso que lutadores e lutadoras são imprescindíveis: não é fácil, mas alguém tem que fazer. Se não, o mundo não muda.
Guardarei muitas imagens desta greve na minha mente para sempre. A violência policial contra nós no Eixão Sul, quando já nos preparávamos para deixar o local – aquela covardia que marcou a mim menos do que a companheiros(as) que foram presos(as) e agredidos(as), e certamente marcou a história do Distrito Federal. A assembleia que sucedeu esse episódio, com quase 15 mil professores e professoras na Praça do Buriti. Um líder da oposição entrando na escola empunhando a bandeira do Sinpro. A bandeira vermelha do Sinpro tremulando desde dentro da sala da Presidência da Câmara. O baralho feito em cartões de visita para suportar as horas de ocupação. O carro de som em Santa Maria, dirigido por um motorista que não conhecia a cidade e, pensando estar na contramão, disparou na rua, deixando os(as) manifestantes para trás. As professoras grevistas que, ao visitar um Jardim da Infância para convencer o grupo de professores(as) a entrarem em greve, assumiram uma turma de pequenos para que seu professor pudesse ir para a sala de coordenação nos ouvir. A música do faraó simbolizando os desmandos do GDF e da Justiça, mas animando a tarde dos guerreiros e guerreiras que fizeram greve de fome.
Tenho orgulho de ter participado dessa história. Vitórias foram construídas, outras ficaram por construir. E eu não tenho dúvida que o grau de mobilização e de reflexão proporcionado por esta greve não só fazem jus às sábias palavras de Antônio Cândido, como abrem caminho para completá-las: o carinho e os abraços que há entre as pessoas enlaça a luta perfeitamente bem, e faz com que se desfaça no ar a dureza das pedras que nos atiram. É bom demais trabalhar com essa categoria!
Rollemberg que se cuide. Já estamos prontos e prontas para a próxima.
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