Parte 1 aqui
Parte 2 aqui
- Moço, o senhor me consegue uma cerveja dessas suas? Eu pago.
- Não estão para vender.
- Eu pago.
- Não estão para vender.
- Eu pago o dobro.
O homem usava um chapéu panamá. Tinha um rosto magro, comprido, decorado por uma barba rasa, que era um marrom meio iluminado. Era bonito. Deu logo uma lata de cerveja àquela louca, para evitar chatear-se. Só prestou atenção nos olhos dela segundos depois.
- Não chore não, moça!
- Pois eu quero é chorar, não me amole.
- Pois então chore, que chorar é bom. E chorar num porre é quase política de redução de danos.
Teresa desfez a expressão tristonha e olhou o rapaz como quem representa um ponto de interrogação. Não disse nada, desfocou sua vista para melhor refletir sobre aquela condição, e, quando notou, talvez muito tempo depois, os bêbados já estavam longe. Ainda cantavam.
Começou a desenhar na areia. Lembrou que, na bolsa, havia lápis e um caderno. Deixou as mãos andarem sozinhas pelas folhas, e elas produziram alguma coisa. Aos poucos, foi-se configurando um desenho inovador, inspirado, interessante. Um novo jeito de olhar para a tristeza que há intrinsecamente no mundo e no amor, um aglomerado de sentimentos confusos, que se combinam e se contrapõem a sentimentos desconhecidos e imprevisíveis que vêm de outrem.
Quando Teresa se despertou, nas primeiras horas da manhã, estava jogada na praia, ao lado de sua obra, e ela era horrível. Ainda tinha uma lata de cerveja quente pela metade.
Olhou ao redor, não havia ninguém. Havia, isso sim, uma dor de cabeça lancinante. Que ideia imbecil beber sem ter jantado. Pensou que acabara de atingir o fundo do poço, o subsolo que fica abaixo do fundo do poço, talvez até o magma terrestre. Ia chorar de vergonha de si, mas, enfim, já tinha chorado demais. Levantou-se, a roupa repleta de areia molhada, a cara amassada e toda borrada de maquiagem derretida. Lavou o rosto no mar e foi embora, carregando a sandália nas mãos. Não sabia aonde ir.
Pegou um ônibus, foi parar na Joaquina. Entrou de roupa naquela água estupidamente gelada, numa tentativa desesperada de conter a ressaca. Pior seria se pegasse uma gripe braba, afinal, por estar tão frágil, imunidade baixa, ela se tornaria uma pneumonia. Que Gentil chorasse eternamente sua morte precoce. Faria um desenho para registrar que morreu de amor. De amor nada, de desgosto. Ele se sentiria culpado para o resto da vida.
Começaram a chegar surfistas à Joaquina, e então ela saiu de lá. Foi à lagoa. Procurou camarões, queria comer camarão. Nada de morrer de pneumonia, vamos morrer por intoxicação alimentar. Choque anafilático. Qualquer coisa assim. Já que é para perder a dignidade, que seja de uma vez.
E porque a vida é mesmo cruel, lá vinha Gentil. Lindo como sempre, de chinelos, uma manhã de sábado lhe pulsando nos olhos.
***
Continua...
Música, feminismo, diálogos, política, futebol, crônica e poesia convivendo no mesmo espaço. E sem conflito.
sábado, 11 de outubro de 2014
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
O relacionamento - 2 de 7
Acesse a parte 1 aqui.
Bebeu sozinha durante horas. Romeu mal conseguia lhe dar atenção porque, no bar, ele fazia as vezes de garçom, caixa, barman e até cozinheiro. O amigo se concentrava em alterar o rumo da prosa para que ela não pensasse somente no tal do Gentil. Tentava outros assuntos, perguntou dos quadros que ela pintava, falou que andava com paredes vazias, quis saber da escola onde lecionava, de novela, de qualquer coisa. Mas Teresa não estava para conversa mole, trazia uma expressão de dor, de rancor, de rejeição. Essa porcaria desse sentimento de rejeição.
Antes que Romeu fechasse o bar, ela decidiu sair andando. O álcool no sangue a encorajava a caminhar sozinha pelas ruas de Santo Antônio de Lisboa como se elas levassem ao Méier. Conversou com os paralelepípedos, choramingou para os poucos passarinhos acordados àquela hora. Chegou ao mar e desabou em prantos.
Nem sabia direito de onde vinha tanta dor. Não é racional. É só um homem, ok, eu sei. Saber disso não ajuda a parar de chorar. Saber que há muitos homens no mundo também não ajuda. Imaginar que ele não a merece não só não ajuda como dá vontade de se atirar ao mar com um paralelepípedo preso à perna. Dane-se merecimento. Não sou prêmio de maratona.
Gente que dá esse conselho só pode fazê-lo por não saber o que dizer. Não há outra explicação. O que eu deveria fazer então? Pedir que o candidato preencha um formulário e disserte sobre seus defeitos e suas qualidades, anexando um exame psicotécnico? Ou melhor, abro um processo de seleção dividido em três fases, para que todos os interessados ao posto se enfrentem e eu possa chegar ao homem de méritos suficientes. Ora, que bobagem. Quero ser livre para desejar o mais vil.
E aqueles que dizem, conformados, que “não tinha que ser”?! Esses são os mais odiosos. Porra, então, o que é que tinha que ser? Aquele que me quis e eu rejeitei, para quem disseram que eu não o mereço e que nossa relação “não tinha que ser”?
Vamos recuperar a história recente e imaginar o que é que tem que ser. Teresa pôs-se a rememorar seus últimos fracassos. O último ex-grande amor de sua vida compareceu à sua festa de aniversário, o que a encheu de alegria, para, em seguida, enchê-la de sublimes e sinceros votos de infelicidade eterna ao atracar-se contra uma mocreia voluptuosa que vestia preto. O anterior a esse foi superado quando deixou de responder e-mails ou mensagens de celular – por que diabos homem faz isso?! Ser derrotada pelo silêncio é acachapante. E antes, tinha tido aquele que simplesmente voltou para a ex, na maior cara de pau. Aquela sonsa.
Quando nasci, um anjo bebum, desses que tropeçam nas pernas, filosofou no boteco: vai, Teresa, ser gauche no amor.
Teresa, mesmo sentada na areia, cambaleava. Ao seu redor, todo o comércio estava fechado. A alguns metros, avistou alguns bêbados batucando e cantando felizes da vida. Que tipo de idiota teria tantos motivos assim para ser feliz àquela hora? Nem cerveja mais havia!
Havia sim.
Bebeu sozinha durante horas. Romeu mal conseguia lhe dar atenção porque, no bar, ele fazia as vezes de garçom, caixa, barman e até cozinheiro. O amigo se concentrava em alterar o rumo da prosa para que ela não pensasse somente no tal do Gentil. Tentava outros assuntos, perguntou dos quadros que ela pintava, falou que andava com paredes vazias, quis saber da escola onde lecionava, de novela, de qualquer coisa. Mas Teresa não estava para conversa mole, trazia uma expressão de dor, de rancor, de rejeição. Essa porcaria desse sentimento de rejeição.
Antes que Romeu fechasse o bar, ela decidiu sair andando. O álcool no sangue a encorajava a caminhar sozinha pelas ruas de Santo Antônio de Lisboa como se elas levassem ao Méier. Conversou com os paralelepípedos, choramingou para os poucos passarinhos acordados àquela hora. Chegou ao mar e desabou em prantos.
Nem sabia direito de onde vinha tanta dor. Não é racional. É só um homem, ok, eu sei. Saber disso não ajuda a parar de chorar. Saber que há muitos homens no mundo também não ajuda. Imaginar que ele não a merece não só não ajuda como dá vontade de se atirar ao mar com um paralelepípedo preso à perna. Dane-se merecimento. Não sou prêmio de maratona.
Gente que dá esse conselho só pode fazê-lo por não saber o que dizer. Não há outra explicação. O que eu deveria fazer então? Pedir que o candidato preencha um formulário e disserte sobre seus defeitos e suas qualidades, anexando um exame psicotécnico? Ou melhor, abro um processo de seleção dividido em três fases, para que todos os interessados ao posto se enfrentem e eu possa chegar ao homem de méritos suficientes. Ora, que bobagem. Quero ser livre para desejar o mais vil.
E aqueles que dizem, conformados, que “não tinha que ser”?! Esses são os mais odiosos. Porra, então, o que é que tinha que ser? Aquele que me quis e eu rejeitei, para quem disseram que eu não o mereço e que nossa relação “não tinha que ser”?
Vamos recuperar a história recente e imaginar o que é que tem que ser. Teresa pôs-se a rememorar seus últimos fracassos. O último ex-grande amor de sua vida compareceu à sua festa de aniversário, o que a encheu de alegria, para, em seguida, enchê-la de sublimes e sinceros votos de infelicidade eterna ao atracar-se contra uma mocreia voluptuosa que vestia preto. O anterior a esse foi superado quando deixou de responder e-mails ou mensagens de celular – por que diabos homem faz isso?! Ser derrotada pelo silêncio é acachapante. E antes, tinha tido aquele que simplesmente voltou para a ex, na maior cara de pau. Aquela sonsa.
Quando nasci, um anjo bebum, desses que tropeçam nas pernas, filosofou no boteco: vai, Teresa, ser gauche no amor.
Teresa, mesmo sentada na areia, cambaleava. Ao seu redor, todo o comércio estava fechado. A alguns metros, avistou alguns bêbados batucando e cantando felizes da vida. Que tipo de idiota teria tantos motivos assim para ser feliz àquela hora? Nem cerveja mais havia!
Havia sim.
***
Continua...
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
O relacionamento - 1 de 7
- Eu meio que estou entrando num relacionamento.
A confissão lhe caiu feito bomba. Não que não esperasse. Aliás, desconfiava vividamente. Os telefonemas passaram a ser esparsos, as conversas, mais curtas. Ele já não gastava suas madrugadas na internet em conversas virtuais que acendiam o peito e o corpo em contraste com o escuro do quarto e da solidão. Já não comentava com ela as desventuras do Botafogo, nem procurava saber quando o visitaria em Florianópolis.
Também, que havia de fazer? Namoro à distância já é problema. Namorico, então... Não é problema porque não existe. É um pré-namoro, é um feto, é um antifeto, é uma coisa qualquer que poderia ser, mas não é.
- Ora, Gentil, que vou eu lhe dizer? – tentava parecer altiva – Você não me deve explicação alguma.
O que disse?! “Não deve explicação”? Claro que deve! Não só deve, como devia ter dado antes! Esperar agora? Véspera de seu embarque?
- Não se preocupe comigo.
A boca não falava o que o coração elaborava. Era o susto.
Decidiu, altiva, manter a viagem programada. Ora, cancelar voo dá prejuízo. Além do mais, ir a Florianópolis sem mais ter nada com ele mostraria que ela nem se importava com aquele tal de relacionamento. Florianópolis com ou sem você, tanto faz.
O que mais lhe doía era aquele diacho de sentimento de rejeição. Teresa e Gentil poderiam significar nada um para o outro dali a poucas semanas, simplesmente porque perceberiam que não combinavam. Ou porque brigariam por causa de política. Ou poderiam ficar juntos até esgotar a vontade, e, depois disso, mal se lembrariam do nome um do outro.
Mas não. Prematuramente, o manezinho lhe informava que havia outra mulher em sua vida. Isso traz a fúria dos deuses gregos ao corpo dos mortais, e o que era um namorico que tinha a distância como componente divertido passa a ser uma paixão incontrolável que tem a distância como obstáculo. Ora, se ele estava aberto para meio que entrar num relacionamento, devia ser com ela, não com uma fulana qualquer que nem tinha entrado na história. Quem ele iria namorar? J. Pinto Fernandes?
Teresa embarcou, altiva. Chorou no avião durante todo o trajeto, sem altivez alguma. Uma hora e meia separava o Rio de Janeiro de Florianópolis, era lágrima pra caramba. Desceu do avião e ninguém a estava esperando.
O jeito é beber. Foi ao bar do amigo Romeu.
A confissão lhe caiu feito bomba. Não que não esperasse. Aliás, desconfiava vividamente. Os telefonemas passaram a ser esparsos, as conversas, mais curtas. Ele já não gastava suas madrugadas na internet em conversas virtuais que acendiam o peito e o corpo em contraste com o escuro do quarto e da solidão. Já não comentava com ela as desventuras do Botafogo, nem procurava saber quando o visitaria em Florianópolis.
Também, que havia de fazer? Namoro à distância já é problema. Namorico, então... Não é problema porque não existe. É um pré-namoro, é um feto, é um antifeto, é uma coisa qualquer que poderia ser, mas não é.
- Ora, Gentil, que vou eu lhe dizer? – tentava parecer altiva – Você não me deve explicação alguma.
O que disse?! “Não deve explicação”? Claro que deve! Não só deve, como devia ter dado antes! Esperar agora? Véspera de seu embarque?
- Não se preocupe comigo.
A boca não falava o que o coração elaborava. Era o susto.
Decidiu, altiva, manter a viagem programada. Ora, cancelar voo dá prejuízo. Além do mais, ir a Florianópolis sem mais ter nada com ele mostraria que ela nem se importava com aquele tal de relacionamento. Florianópolis com ou sem você, tanto faz.
O que mais lhe doía era aquele diacho de sentimento de rejeição. Teresa e Gentil poderiam significar nada um para o outro dali a poucas semanas, simplesmente porque perceberiam que não combinavam. Ou porque brigariam por causa de política. Ou poderiam ficar juntos até esgotar a vontade, e, depois disso, mal se lembrariam do nome um do outro.
Mas não. Prematuramente, o manezinho lhe informava que havia outra mulher em sua vida. Isso traz a fúria dos deuses gregos ao corpo dos mortais, e o que era um namorico que tinha a distância como componente divertido passa a ser uma paixão incontrolável que tem a distância como obstáculo. Ora, se ele estava aberto para meio que entrar num relacionamento, devia ser com ela, não com uma fulana qualquer que nem tinha entrado na história. Quem ele iria namorar? J. Pinto Fernandes?
Teresa embarcou, altiva. Chorou no avião durante todo o trajeto, sem altivez alguma. Uma hora e meia separava o Rio de Janeiro de Florianópolis, era lágrima pra caramba. Desceu do avião e ninguém a estava esperando.
O jeito é beber. Foi ao bar do amigo Romeu.
***
Continua...
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Não acredita não, Teresa
Onde foi que eu pus
O amor que encontrei
Borbulhando por ruas
Escuras, macias, indignas, tortas?
Onde eu larguei a mania
De me apegar ao que não conheço
Como quem sente o vento no rosto?
Para, depois, se preciso for
Rir alto na cara do susto
Quando foi que me convenceram
A ser certa, serena, racional
A me proteger dos meus desejos
A repudiar meus impulsos
A dominar minhas doces fraquezas
Tão honestas?
Em que curva desta ilha
Eu me perdi
De mim?
***
Esta poesia introduz um conto que publicarei em cinco partes a partir de amanhã (quinta-feira, 9 de outubro), diariamente às 17h. Chama-se "O relacionamento" e conta a história de uma moça chamada Teresa. :)
O amor que encontrei
Borbulhando por ruas
Escuras, macias, indignas, tortas?
Onde eu larguei a mania
De me apegar ao que não conheço
Como quem sente o vento no rosto?
Para, depois, se preciso for
Rir alto na cara do susto
Quando foi que me convenceram
A ser certa, serena, racional
A me proteger dos meus desejos
A repudiar meus impulsos
A dominar minhas doces fraquezas
Tão honestas?
Em que curva desta ilha
Eu me perdi
De mim?
***
Esta poesia introduz um conto que publicarei em cinco partes a partir de amanhã (quinta-feira, 9 de outubro), diariamente às 17h. Chama-se "O relacionamento" e conta a história de uma moça chamada Teresa. :)
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
Rainha Carmen Miranda, saravá!
“Mas pra cima de mim, pra quê tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?!
Eu, que nasci com o samba e vivo no sereno
Tocando a noite inteira a velha batucada!”
(Disseram que voltei americanizada, de Luiz Peixoto e Vicente Paiva)
Por mais birra que alguns sustentem pela sua escolha, a certa altura do campeonato, de ir trabalhar nos Estados Unidos, não é possível negar a importância de Carmen Miranda para a música popular brasileira. Nascida em Portugal, Carmen chegou com a família ao Rio de Janeiro antes de completar um ano de idade. Sempre reivindicou o Brasil e sua cultura popular, era apaixonada pelo Carnaval – deu vida a dezenas de marchinhas – e foi figura fundamental para a consolidação do samba como principal gênero musical genuinamente brasileiro.
Cheguei a Carmen Miranda por causa de Clara Nunes. No início da década de 1970, então novo produtor de Clara, Adelzon Alves notou que ela guardava um diferencial luminoso: sua relação com a brasilidade em todas as suas expressões. Era uma lacuna que havia ficado vaga desde a morte de Carmen (vejam a ironia: ninguém tinha expressado o Brasil melhor que ela, tão criticada por ter ido viver nos EUA). Clara era mineira, filha de uma família pobre do interior, ex-tecelã, espiritualidade à flor da pele, muita intimidade com a cultura afro-brasileira. Com a observação de que ela tinha as qualidades necessárias para capitanear aquele legado, Clara passou a levar essa brasilidade mestiça no figurino, nos acessórios, nos cabelos, e, mais do que nunca, no repertório. Deu certo. Foi a partir dali que ela estourou.
Carmen Miranda tornou-se cantora aos 20 anos. Seu primeiro grande sucesso foi a marchinha Taí – Pra você gostar de mim, de Joubert de Carvalho, que quebrou recordes de vendas na época. Foi pioneira na arte de cantar interpretando a letra, a ponto de dizerem sobre ela que “parece que a cantora vem dentro do disco”.
![]() |
| Assis Valente |
Simpática e generosa, tratava com amizade aqueles que a cercavam. Conviveu com todos os gênios da música brasileira no período, como Pixinguinha, Donga e João da Baiana. Além desses, trabalhou com Ary Barroso, Lamartine Babo, Almirante, Bide, Herivelto Martins, Alcyr Pires Vermelho, Ataulpho Alves, entre muitos outros. No baiano Assis Valente encontrou seu compositor predileto, e consagrou joias como Camisa Listada e E o mundo não se acabou. Quando Carmen regressou de sua primeira temporada nos EUA, em 1940, Assis lhe apresentou Brasil Pandeiro, samba inspirado na trajetória da Pequena Notável em terras estrangeiras. Ela não quis gravá-la por temer que parecesse autoproclamatório. Gravaram-na, então, os Anjos do Inferno. Na ocasião, Carmen deu voz a outra brilhante obra de Assis: Recenseamento.
Embora possa ter se desentendido com (poucas) pessoas, Carmen não guardou inimigos, e sua casa, inclusive em Hollywood, sempre foi ponto de encontro de amigos em torno de música, papo e comida preparada por sua mãe.
A verdade é que Carmen Miranda foi um fenômeno da música brasileira, revelou diversos compositores – caso de Dorival Caymmi e Synval Silva – e, em pleno advento do rádio, contribuiu para que o país prestasse atenção na música que se produzia nos subúrbios da capital federal, sob forte influência daqueles que migravam desde a antiga capital federal. Então, por que essa resistência que alguns insistem em manter contra ela, ao ignorar ou até mesmo negar seu legado?
Carmen cumpriu sua vocação no Brasil durante dez anos até que empresários estadunidenses, ao visitar um cassino onde ela se apresentava no Rio, vissem nela uma mina de ouro. Naquele momento, ela já se apresentava em diversas cidades brasileiras – em São Paulo com certa frequência, mas também em outras, como Salvador e Recife – e da América Latina – os shows em Buenos Aires eram lotados e o povo argentino desenvolveu enorme carinho pela artista.
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| Com sua irmã, também cantora, Aurora |
Carmen Miranda encarou corajosa e vitoriosamente os desafios que recebeu: o de ser a maior cantora brasileira de sua época e o de desbravar o mercado artístico dos EUA. Sua família vinha da classe média baixa, e até começar a ganhar dinheiro com a música, viviam todos no centro do Rio de Janeiro. Desde menina, sonhava com um bom casamento, que lhe desse filhos e realização pessoal. Conscientemente ou não (creio que não), ela subordinou esse sonho à vocação para a arte. Gostava de trabalhar e não se intimidava por jornadas longas ou condições difíceis.
Quando, em 1939, partiu para Nova Iorque, deixou um grande amor no Rio de Janeiro, amor que nunca reaveria. Na terra do tio Sam, relacionou-se com alguns colegas, nenhum que lhe tenha proposto casamento, pois, a rigor, preferiam as moças da alta sociedade e/ou com menos visibilidade que eles. Além disso, ficava implícito ali o velho preconceito dos estadunidenses em relação às mulheres latinas.
Ao mesmo tempo, Carmen se via aprisionada na personagem vestida como baiana estilizada, obrigada a falar inglês com sotaque em personagens cômicos, sem nunca ter realizado plenamente o desejo de explorar suas habilidades de atriz – ainda que, por algum tempo, tenha chegado a ser a mulher mais bem paga de Hollywood. Exposta a jornadas de trabalho massacrantes, com diversas apresentações no mesmo dia, gravações, viagens, tudo numa intensidade frenética que ela não tinha conhecido no Brasil, recorria a “milagrosas” pílulas que a “ajudavam” a dormir, e depois, a acordar. Possivelmente com medo da solidão e dos comentários – lembremo-nos que era a década de 1940 –, casou-se com um homem que nunca amou, com quem teve uma relação tumultuada e infeliz. Viu, impotente, ser frustrado seu sonho de ter filhos. Sofreu, como muitas mulheres, a tristeza de ver seu corpo envelhecer e, por isso, ser diminuída e até descartada.
Mas fez a alegria de pessoas pelo mundo (também chegou a se apresentar na Europa), cativou aqueles que com ela conviveram, conquistou o carinho e a admiração de centenas de milhares de pessoas. Foi figura decisiva para a música brasileira no crucial momento em que o samba deixava a marginalidade e se consolidava, enquanto mudavam decisivamente os padrões de gravação e de apresentações musicais públicas.
Sua morte tão prematura comoveu o Brasil em agosto de 1955. Seu povo, que a amava e não a condenou pela opção profissional que fez, recebeu-a para o último adeus com um grande Carnaval, sua grande e verdadeira paixão. Milhares de pessoas carregaram seu caixão pelas ruas do Rio de Janeiro.
Talvez, aquela opção feita em 1940 tenha ladrilhado um triste caminho para seu fim. No ótimo documentário “Carmen Miranda – Banana is my business” (de Helena Solberg, 1995), diz-se que deveríamos tê-la guardado aqui, nunca tê-la deixado ir.
Eu, respeitosamente, divirjo. A grandeza de Carmen não podia ser contida. Se era seu desejo voar o
![]() |
| Com os músicos da Rádio Mayrink Veiga. Pixinguinha está de pé, segundo da direita para a esquerda. |
mais alto que pudesse, que assim fosse. Uma pena que as viagens de navio eram longas e custosas, e assim, combinado com sua estressante rotina de trabalho, ela não podia vir beber da água brasileira sempre que quisesse ou precisasse. Seu voo, para mim, é fonte de orgulho, na mesma proporção em que a dinâmica à qual ela foi atirada é fonte de indignação e de tristeza. Não se trata de “castigo”, mas sim, de ela ter pagado preço alto demais pelas escolhas que fez, numa época em que as mulheres não tinham muita escolha. E, infelizmente, os males que abateram Carmen Miranda rondam a humanidade até hoje: o machismo; a mercantilização da arte e da vida; a medicalização irresponsável e crônica das dores do corpo e da alma.
Muito de Carmen Miranda continua – e sempre estará – na música brasileira. Ela está no seu próprio repertório, cantado até hoje nos palcos, quadras e rodas de samba, ela está nos compositores que revelou, está no canto das cantoras, está nas ruas da Lapa, nos arredores do antigo Café Nice. Ela está, com certeza, no Carnaval de rua, no sucesso das marchinhas, na alegria da cultura popular brasileira, que tão bem representou.
Se depender de mim, seu trabalho sempre será lembrado e reverenciado, com todo carinho e gratidão. Saravá, Carmen Miranda!
Bibliografia
CASTRO, Ruy. Carmen: Uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. 600 p.
DINIZ, André. Almanaque do Samba. 3ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. 312 p.
FERNANDES, Vagner. Clara Nunes: Guerreira da Utopia. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007. 320 p.
terça-feira, 23 de setembro de 2014
Legalizar o aborto urgentemente!
Se o aborto fosse legal no Brasil, como o é em dezenas de países do mundo (quase toda a Europa, Ásia e América do Norte), Jandira e Elizângela estariam vivas. O procedimento seria disponibilizado no SUS e haveria regras para sua realização.É justamente por isso que o feminismo levanta essa bandeira há tantos anos, em defesa da vida das mulheres. Muitas interrompem uma gravidez que não desejam através de métodos caseiros, como a inserção de uma agulha de crochê no útero, que pode levar à hemorragia e, consequentemente, à morte. Outras procuram clínicas clandestinas que efetuam o procedimento sem as devidas condições de higiene e segurança. Como atestam os dois casos mencionados, isso também pode levá-las à morte.
As que não morrem podem ser presas, graças a uma lei que quase nos remete à Idade Média. Já os homens que as engravidaram estão livres de qualquer pena.De outro lado, as mulheres das classes mais abastadas têm acesso ao aborto seguro, pagando pequenas fortunas em clínicas que são tão clandestinas quanto as que mataram Jandira e Elizângela. E há pessoas que insistem em fechar os olhos para essa situação.
Quem é contra o aborto, que não o pratique. Mas não queira que sua forma de ver o mundo interfira na legislação e nas políticas públicas, porque o Estado é (ou deveria ser) LAICO. As mulheres, quando querem interromper uma gravidez, o fazem da forma que estiver ao seu alcance. Algumas morrem: as pobres.
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