segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A publicidade e o machismo nosso de todo dia

"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia."
(Marina Colasanti)

A publicidade nunca se notabilizou por ter qualquer capacidade de contribuir para transformar relações de desigualdade e intolerância, corrigir distorções, superar contradições. Muito antes pelo contrário. Na maioria esmagadora das vezes, ela se vale justamente de estereótipos preconceituosos, do medo, de constrangimentos, para vender seus produtos com "eficiência".

Para as mulheres, a mensagem dirigida, muitas vezes, é: "para não ser feia, encalhada, indesejada, você deve usar este cosméstico". Ou ainda: "para dar conta de trabalhar, cuidar dos filhos, do marido, da casa, e ainda ser gostosa, você deve usar este produto de limpeza". Isso não é a exceção. Difícil é fugir desse padrão.

E mesmo estando habituadas a sermos tratadas dessa forma, ainda nos espanta quando esse reacionarismo todo atinge níveis elevados, como aconteceu com a tal peça da Hope na TV, com Gisele Bundchen estrelando. Uma das mulheres mais poderosas e midiáticas do país coloca-se em posição de plena submissão e ensina que não se devem dar "más notícias" vestida.

Ora, vejamos: as más notícias a que ela se refere são episódios como acidente de carro e limite de cartão de crédito estourado. Nada de novo. Nada mais batido, senso comum e estereotipado que acusar as mulheres de serem más motoristas e boas gastadoras. Nada mais senso comum, também, que afirmar que uma mulher só é respeitada por seu "sex appeal".

O problema é que a gente não precisa, não pode e não deve se acostumar a ser vista e exibida dessa forma. Sempre que possível, é preciso sim denunciar o machismo contido nesse tipo de abordagem, porque se a gente não fala nada, quem vai falar? E se ninguém falar, nunca essa baixaria toda vai parar. Vai se fortalecer e continuar alimentando o conjunto da desigualdade que encontramos na nossa sociedade, que se expressa, com mais visibilidade, em tantos casos de violência doméstica, sexual, discriminação no mercado de trabalho e etc. Tem uma bitola nos olhos quem não vê que tudo isso está tremendamente relacionado.

Hoje, boa parte dos que mais se autodeclaram temerários à censura estiveram do lado de lá quando ela foi aplicada em regime de exceção no Brasil. Quando havia censura à arte, à informação, à livre circulação de ideias, à liberdade de expressar opiniões.

É uma nítida demonstração de retórica da ameaça, na proposição de Albert Hirschman, sugerir que a Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo Federal não possa cobrar um posicionamento do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), porque isso seria "censura". Nada pode ser mais infantil que corroborar com essa afirmação. A SPM está cumprindo seu papel, e deve fazê-lo. Por que a gente precisa aceitar?

Esse pessoal que adora temer a "censura" faz parte do seleto grupo de proprietários da mídia e seus financiadores, que censura impiedosamente qualquer tentativa de debate (eu disse: de debate) sobre a democratização da comunicação e sobre o combate dos excessos cometidos diariamente pelos veículos de mídia. Essa retórica toda é só pra, mais uma vez, tentar nos disciplinar. Mas uma ordem que me subjugue, não quero não, obrigada.

Portanto, um viva à liberdade de criticar o que nos oprime, à liberdade de expressar nosso desconforto, e de disputar para que seja diferente. Porque de mau uso e de subversão da liberdade de expressão, o mundo já está saturado.

* Alessandra Terribili, jornalista, mestranda em Ciência Política pela UFRGS.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Epifania

Andava por aí distraída, sem se importar demais com nada. Os dias não se dividiam um do outro. Foi um oi singelo que lhe tirou do cárcere de si mesma. E desde então o mundo se floriu.

Que bobagem, se era só um simples oi... Mas o oi foi o que lhe fez olhar que havia mundo ao seu redor. Que nem se fosse um estalar de dedos que desperta alguém de uma mágica que faz ficar paralisado.

O oi estalou pra ela. Mas o oi não é sujeito, sujeito é quem disse oi. "Oi!", meigo assim.

O oi lhe tirou da inércia, e ela ficou flor. Andava por aí iluminada agora. Às vezes, ruborizada. Tudo parecia mais alegre.

- Que criatura boba, iluminada por um oi.

Num dia pesado, saiu de casa pra ver o oi virar sorriso. Só pra isso saiu. Sabia onde colher. Andou determinada agora e foi até lá. Viu o sorriso. Iluminou-se mais. Voltou pra casa feliz.

- Que criatura boba, sorriso se vê em todo lugar.

Que nada. Tem um monte de sorriso que não sorri. Um sorriso que se vê nos olhos não é todo dia não. E o sorriso não é sujeito, sujeito é quem sorri. Isso faz toda a diferença.

Desejava verdadeiramente poder para sempre extrair sensações boas de paz daquele sorriso.

- Mas ois e sorrisos não se realizam em si mesmos!

- Ora, e por que precisa dar utilidades pragmáticas pra tudo?

Recolheu os ois e sorrisos e sensações boas de paz e foi dormir. Acordou de bom humor.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Rio Grande do Sul...

Alguns anos atrás, eu tinha escrito um poema que era mais ou menos assim:


Eu queria ser gaúcha
Porque de tanta coisa linda que vi no sul
As pessoas são a melhor delas
Porque sua capital é vermelha
Porque seu pôr-do-sol despretensioso e belo
Parece que se converte em notas musicais.

Mas não posso ficar longe do Rio

Ir até lá respirar de vez em quando
Só pra sentir a paz de estar abraçada pela Guanabara

Também não dá pra abrir mão do Recife

Vê-lo transbordar cultura, sabedoria
História e consciência de si
Respeitar seu próprio sotaque,
E permitir que você tire forças da Praia de Boa Viagem.

E nunca vou esquecer que foi a jovem capital federal

Que mudou a minha vida
Ao me ver em mim
E me mostrar pra mim mesma.

Recentemente passei a amar minha São Paulo.

Foi ela que me ensinou a ver esse mundareu de coisa boa.


Não lembro bem, eu meio que perdi o original. Ao tentar recompô-lo, creio que escrevi outro. Mas a ideia era essa.

Pensei nesse poema por causa do início dele, e porque hoje moro em Porto Alegre. Dia 20 de setembro é feriado no Rio Grande do Sul, data que recupera a Revolução Farroupilha. Eu não tenho lá muito apreço pelo bairrismo mítico, prefiro vê-lo na sua expressão simpática de "rir de si mesmo".

E adoro essa coisa polarizada do Rio Grande do Sul. Ou morre de calor ou passa muito frio. Ou é Inter ou é Grêmio. Esquerda ou direita. Gosto da forma como o povo de Porto Alegre habituou-se a ocupar o espaço público, entendendo como seu, mas não só seu. Sinto isso ao passear pela Redenção num domingo, pelo Gasômetro, pela zona sul. Gosto da forma como fui acolhida pelos que já me esperavam chegar, mas especialmente, pelos que nem sabiam que eu chegaria e me puseram pra dentro de suas vidas.

Ainda falta muito pra ver. Mas os pampas de Bagé, as ladeiras (lombas!) da Serra Gaúcha, o mar marrom do litoral, o charme tão peculiar das cidades na beira da Lagoa e a diversidade da vida na região metropolitana compõem um cenário tão plural que não pode ser simplificado nisso que se propagandeia como "a" tradição gaúcha. A que desfila no 20 de setembro é só uma das facetas. O Rio Grande do Sul é muito mais.

Eu não ligo quando chove, eu me aborreço muito quando faz 2ºC, eu torço pra chegar o verão, eu imagino muitas coisas que poderiam acontecer, e busco me inserir nas que acontecem. Vou à feirinha de orgânicos, adoro comer xis, acho o Beira-Rio o estádio mais bem-posicionado que eu conheço e acho que dividir um chimarrão na sala de aula é um gesto sutil de dizer ao outro que você é amigo dele. Atitudes simples que fazem brilhar um cotidiano. É isso, é tudo isso: o Rio Grande não te deixa ser indiferente. Ele é um convite a se posicionar.

Obrigada por me receberem.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

As mulheres como sujeito político

Abaixo, resumo do artigo que inscrevi no Seminário de Sociologia Política da UFPR, que vai acontecer em setembro. A íntegra pode ser acessada nos anais do evento.

***

As mulheres como sujeito político: A contribuição do feminismo, na redemocratização do Brasil, para uma nova noção de cidadania.

O período de redemocratização pós-regime militar no Brasil foi de rica efervescência social. As ações de oposição à ditadura tomaram diferentes formas, de meados da década de 1970 a meados dos anos 1980.

Desenhou-se ali a interlocução entre mulheres das periferias das grandes cidades, protagonistas do movimento contra o custo de vida; e mulheres da Universidade, das artes e das organizações de esquerda, que participaram da resistência à ditadura. O encontro entre essas personagens e sua desembocadura na organização do movimento de mulheres no Brasil tem repercussão até hoje sobre as políticas públicas e sobre a noção de cidadania.

No final da década de 1970, o Dia Internacional da Mulher voltou a ser celebrado no país, e passaram a ser realizados Encontros Nacionais Feministas, reunindo boa parte das mulheres que marcaram a oposição ao regime. Entre os muitos temas sobre os quais elas se debruçaram, concentraremos nossa análise em dois, bastante representativos: o combate à violência contra a mulher e a demanda por mais participação e representação política.

As duas questões partem do pressuposto de que não há iguais condições, na sociedade brasileira, entre homens e mulheres. Essa constatação levou as feministas a entenderem o Estado como espaço central de disputa, capaz de interferir nas relações sociais de sexo a fim de produzir a igualdade entre homens e mulheres registrada na Constituição de 1988.

Fundado em 1980, o Partido dos Trabalhadores, hoje comandando o país pelo 9º ano consecutivo, foi um dos palcos privilegiados para a atuação desse movimento naquele momento. Através de resoluções políticas e plataformas eleitorais do partido, é possível perceber a influência do feminismo e sua opção pela disputa do Estado como instrumento fundamental do combate à desigualdade.

Essa intervenção, gestada desde a queda do regime militar, concretizou-se, anos depois, em políticas públicas e legislação, aplicadas em âmbito federal.

Os últimos 30 anos, portanto, são expressivos de que a ação organizada das feministas contribuiu decisivamente para o reposicionamento do Estado brasileiro e para o redimensionamento do conceito de cidadania no Brasil.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O diário de uma geração



Uma das expressões mais claras de que os vinte anos de ditadura militar não são história bem resolvida para o Brasil é a quantidade de filmes que abordam ou se ambientam nesse período histórico. Entre ficção e não ficção, perpassando alguns diferentes gêneros, os anos de chumbo são frequentemente explorados pelo cinema brasileiro, que parece encontrar ali não somente um palco ou um cenário, mas sim, uma realidade a ser desbravada.

"Diário de uma busca" é uma dessas expressões. O documentário narra a busca da diretora, Flávia Castro, por respostas sobre a misteriosa morte de seu pai, Celso Castro, em 1984. Celso fora exilado político, e passou por seis países até poder voltar ao Brasil, em 1979, com a lei da anistia.

Acontece que, embora procure investigar um período histórico tão invocado, o filme apresenta-se absolutamente original na abordagem e no olhar sobre o momento. Com um belo jogo de metalinguagem, Flávia recupera a história de seus pais, então militantes de organizações de esquerda jogadas à clandestinidade pela ditadura. Eles foram obrigados a sair do país no início da década de 1970, levando os filhos pequenos (Flávia e seu irmão caçula) a lhes acompanharem na jornada. É desde o ponto de vista de uma menina, que começa a narrativa aos 6 anos, que o espectador conhece os fatos.

As duas crianças vivem em meio à fuga, à resistência, mas também, lado a lado com as esperanças e as dores de toda uma geração, muito materializada em seus pais e nas pessoas que com eles se relacionavam. Estranham o fato de não irem à escola, brincam de "fazer reunião" e observam tudo à sua volta. A opção por localizar aí seu relato livra o filme do risco de tornar-se "pesado", mas, ao contrário, envolve o espectador na busca de Flávia e na recomposição de uma infância atípica.

O espectador também tem o prazer de "conversar" com personagens centrais da história. Além de Sandra, a mãe de Flávia, e demais figuras da família; Daniel Aarão Reis, Marco Aurélio Garcia, Flávio Koutzii, Jean Marc Von der Weid (presidente da UNE em 1968) e o saudoso Daniel Bensaid são quem contextualiza o período histórico a partir de suas memórias políticas e da relação com Celso Castro e sua família.

Ao longo do filme, a compreensão da morte de Celso fica subordinada à grandiosidade da sua história, contada a partir de relatos, entrevistas, documentos, fotografias; e da dimensão humana de todo aquele processo, evidente, entre outros, nas dezenas de cartas dele, recuperadas por Flávia.

A vida de todo mundo, em qualquer período, é repleta de percalços, obstáculos, grandes imprevistos. Muitas coisas podem mudar para sempre a vida de uma pessoa. Mas, naqueles vinte anos, o Estado brasileiro colocou-se para seus cidadãos como um desses fatores, ou o principal, e isso é algo deveras sério. Sendo assim, independentemente de quem puxou o gatilho naquela tarde, e da razão que levou Celso ao apartamento onde ele se encontrou com a morte, a verdade é que sua vida mudara para sempre em 1964.

Enquanto os arquivos da ditadura permanecerem vergonhosamente sigilosos, enquanto brasileiros e brasileiras forem privados do direito à sua própria história, ainda haverá muito o que se falar sobre ditadura, ainda haverá muito o que se remexer nesse passado. Embora Flávia Castro declare-se, enfaticamente, alguém "não militante", a preciosidade da sua contribuição está justamente em escancarar as vidas que foram afetadas pela brutalidade do regime, e o quanto a desumanidade com que aquela geração foi tratada interferiu na sua forma de olhar o mundo dali por diante.

A história de cada um daqueles personagens teve diferentes desfechos, e opções variadas se apresentaram. Mas jamais será possível ignorar que, a despeito da especificidade do desenvolvimento de cada trajetória pessoal, nenhuma lei de anistia apaga as mortes, os desaparecimentos, tampouco a angústia e as dores que cada uma daquelas pessoas enfrentou. "Diário de uma busca" tem o mérito de ampliar os horizontes desse impacto. A sensibilidade é, afinal, um pressuposto de qualquer militância.


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Veja o trailer do filme:



DIÁRIO DE UMA BUSCA
direção: Flávia Castro
roteiro: Flávia Castro
gênero: documentário
origem: Brasil/França
duração: 108 minutos
tipo: longa-metragem

Em cartaz no CineBancários (Rua General Câmara, 424, centro de Porto Alegre) de 3 a 14 de agosto (exceto dia 8), em três horários: 15h, 17h, 19h.


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Em novembro de 2008, escrevi sobre um episódio que me comoveu muito: a Caravana da Anistia, passando por Caxias do Sul, anistiou o ex-deputado Flávio Koutzii (PT-RS), que é um dos personagens do filme. Pra quem quiser lembrar, clique aqui.