Tirinha do Laerte, de maio de 2011 (salvo engano).
Música, feminismo, diálogos, política, futebol, crônica e poesia convivendo no mesmo espaço. E sem conflito.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
As mulheres como sujeito político
Abaixo, resumo do artigo que inscrevi no Seminário de Sociologia Política da UFPR, que vai acontecer em setembro. A íntegra pode ser acessada nos anais do evento.
***
As mulheres como sujeito político: A contribuição do feminismo, na redemocratização do Brasil, para uma nova noção de cidadania.
O período de redemocratização pós-regime militar no Brasil foi de rica efervescência social. As ações de oposição à ditadura tomaram diferentes formas, de meados da década de 1970 a meados dos anos 1980.
Desenhou-se ali a interlocução entre mulheres das periferias das grandes cidades, protagonistas do movimento contra o custo de vida; e mulheres da Universidade, das artes e das organizações de esquerda, que participaram da resistência à ditadura. O encontro entre essas personagens e sua desembocadura na organização do movimento de mulheres no Brasil tem repercussão até hoje sobre as políticas públicas e sobre a noção de cidadania.
No final da década de 1970, o Dia Internacional da Mulher voltou a ser celebrado no país, e passaram a ser realizados Encontros Nacionais Feministas, reunindo boa parte das mulheres que marcaram a oposição ao regime. Entre os muitos temas sobre os quais elas se debruçaram, concentraremos nossa análise em dois, bastante representativos: o combate à violência contra a mulher e a demanda por mais participação e representação política.
As duas questões partem do pressuposto de que não há iguais condições, na sociedade brasileira, entre homens e mulheres. Essa constatação levou as feministas a entenderem o Estado como espaço central de disputa, capaz de interferir nas relações sociais de sexo a fim de produzir a igualdade entre homens e mulheres registrada na Constituição de 1988.
Fundado em 1980, o Partido dos Trabalhadores, hoje comandando o país pelo 9º ano consecutivo, foi um dos palcos privilegiados para a atuação desse movimento naquele momento. Através de resoluções políticas e plataformas eleitorais do partido, é possível perceber a influência do feminismo e sua opção pela disputa do Estado como instrumento fundamental do combate à desigualdade.
Essa intervenção, gestada desde a queda do regime militar, concretizou-se, anos depois, em políticas públicas e legislação, aplicadas em âmbito federal.
Os últimos 30 anos, portanto, são expressivos de que a ação organizada das feministas contribuiu decisivamente para o reposicionamento do Estado brasileiro e para o redimensionamento do conceito de cidadania no Brasil.
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As mulheres como sujeito político: A contribuição do feminismo, na redemocratização do Brasil, para uma nova noção de cidadania.
O período de redemocratização pós-regime militar no Brasil foi de rica efervescência social. As ações de oposição à ditadura tomaram diferentes formas, de meados da década de 1970 a meados dos anos 1980.
Desenhou-se ali a interlocução entre mulheres das periferias das grandes cidades, protagonistas do movimento contra o custo de vida; e mulheres da Universidade, das artes e das organizações de esquerda, que participaram da resistência à ditadura. O encontro entre essas personagens e sua desembocadura na organização do movimento de mulheres no Brasil tem repercussão até hoje sobre as políticas públicas e sobre a noção de cidadania.
No final da década de 1970, o Dia Internacional da Mulher voltou a ser celebrado no país, e passaram a ser realizados Encontros Nacionais Feministas, reunindo boa parte das mulheres que marcaram a oposição ao regime. Entre os muitos temas sobre os quais elas se debruçaram, concentraremos nossa análise em dois, bastante representativos: o combate à violência contra a mulher e a demanda por mais participação e representação política.
As duas questões partem do pressuposto de que não há iguais condições, na sociedade brasileira, entre homens e mulheres. Essa constatação levou as feministas a entenderem o Estado como espaço central de disputa, capaz de interferir nas relações sociais de sexo a fim de produzir a igualdade entre homens e mulheres registrada na Constituição de 1988.
Fundado em 1980, o Partido dos Trabalhadores, hoje comandando o país pelo 9º ano consecutivo, foi um dos palcos privilegiados para a atuação desse movimento naquele momento. Através de resoluções políticas e plataformas eleitorais do partido, é possível perceber a influência do feminismo e sua opção pela disputa do Estado como instrumento fundamental do combate à desigualdade.
Essa intervenção, gestada desde a queda do regime militar, concretizou-se, anos depois, em políticas públicas e legislação, aplicadas em âmbito federal.
Os últimos 30 anos, portanto, são expressivos de que a ação organizada das feministas contribuiu decisivamente para o reposicionamento do Estado brasileiro e para o redimensionamento do conceito de cidadania no Brasil.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
O diário de uma geração
Uma das expressões mais claras de que os vinte anos de ditadura militar não são história bem resolvida para o Brasil é a quantidade de filmes que abordam ou se ambientam nesse período histórico. Entre ficção e não ficção, perpassando alguns diferentes gêneros, os anos de chumbo são frequentemente explorados pelo cinema brasileiro, que parece encontrar ali não somente um palco ou um cenário, mas sim, uma realidade a ser desbravada.
"Diário de uma busca" é uma dessas expressões. O documentário narra a busca da diretora, Flávia Castro, por respostas sobre a misteriosa morte de seu pai, Celso Castro, em 1984. Celso fora exilado político, e passou por seis países até poder voltar ao Brasil, em 1979, com a lei da anistia.
Acontece que, embora procure investigar um período histórico tão invocado, o filme apresenta-se absolutamente original na abordagem e no olhar sobre o momento. Com um belo jogo de metalinguagem, Flávia recupera a história de seus pais, então militantes de organizações de esquerda jogadas à clandestinidade pela ditadura. Eles foram obrigados a sair do país no início da década de 1970, levando os filhos pequenos (Flávia e seu irmão caçula) a lhes acompanharem na jornada. É desde o ponto de vista de uma menina, que começa a narrativa aos 6 anos, que o espectador conhece os fatos.
As duas crianças vivem em meio à fuga, à resistência, mas também, lado a lado com as esperanças e as dores de toda uma geração, muito materializada em seus pais e nas pessoas que com eles se relacionavam. Estranham o fato de não irem à escola, brincam de "fazer reunião" e observam tudo à sua volta. A opção por localizar aí seu relato livra o filme do risco de tornar-se "pesado", mas, ao contrário, envolve o espectador na busca de Flávia e na recomposição de uma infância atípica.
O espectador também tem o prazer de "conversar" com personagens centrais da história. Além de Sandra, a mãe de Flávia, e demais figuras da família; Daniel Aarão Reis, Marco Aurélio Garcia, Flávio Koutzii, Jean Marc Von der Weid (presidente da UNE em 1968) e o saudoso Daniel Bensaid são quem contextualiza o período histórico a partir de suas memórias políticas e da relação com Celso Castro e sua família.
Ao longo do filme, a compreensão da morte de Celso fica subordinada à grandiosidade da sua história, contada a partir de relatos, entrevistas, documentos, fotografias; e da dimensão humana de todo aquele processo, evidente, entre outros, nas dezenas de cartas dele, recuperadas por Flávia.
A vida de todo mundo, em qualquer período, é repleta de percalços, obstáculos, grandes imprevistos. Muitas coisas podem mudar para sempre a vida de uma pessoa. Mas, naqueles vinte anos, o Estado brasileiro colocou-se para seus cidadãos como um desses fatores, ou o principal, e isso é algo deveras sério. Sendo assim, independentemente de quem puxou o gatilho naquela tarde, e da razão que levou Celso ao apartamento onde ele se encontrou com a morte, a verdade é que sua vida mudara para sempre em 1964.
Enquanto os arquivos da ditadura permanecerem vergonhosamente sigilosos, enquanto brasileiros e brasileiras forem privados do direito à sua própria história, ainda haverá muito o que se falar sobre ditadura, ainda haverá muito o que se remexer nesse passado. Embora Flávia Castro declare-se, enfaticamente, alguém "não militante", a preciosidade da sua contribuição está justamente em escancarar as vidas que foram afetadas pela brutalidade do regime, e o quanto a desumanidade com que aquela geração foi tratada interferiu na sua forma de olhar o mundo dali por diante.
A história de cada um daqueles personagens teve diferentes desfechos, e opções variadas se apresentaram. Mas jamais será possível ignorar que, a despeito da especificidade do desenvolvimento de cada trajetória pessoal, nenhuma lei de anistia apaga as mortes, os desaparecimentos, tampouco a angústia e as dores que cada uma daquelas pessoas enfrentou. "Diário de uma busca" tem o mérito de ampliar os horizontes desse impacto. A sensibilidade é, afinal, um pressuposto de qualquer militância.
***
Veja o trailer do filme:
DIÁRIO DE UMA BUSCA
direção: Flávia Castro
roteiro: Flávia Castro
gênero: documentário
origem: Brasil/França
duração: 108 minutos
tipo: longa-metragem
Em cartaz no CineBancários (Rua General Câmara, 424, centro de Porto Alegre) de 3 a 14 de agosto (exceto dia 8), em três horários: 15h, 17h, 19h.
***
Em novembro de 2008, escrevi sobre um episódio que me comoveu muito: a Caravana da Anistia, passando por Caxias do Sul, anistiou o ex-deputado Flávio Koutzii (PT-RS), que é um dos personagens do filme. Pra quem quiser lembrar, clique aqui.
sábado, 30 de julho de 2011
O casamento
Porque "sempre" é um espaço limitado de tempo. E porque isso não é tão ruim.
Nem precisou de muitos olhares. O álcool acentua a sensibilidade, e, logo, sensíveis, encontraram-se. Dançaram impetuosamente e riam muito. Era instigante, porque era espontâneo, alegre e prazeroso.
E porque a boate não ficaria aberta para sempre, saíram rumo ao apartamento dele. Foi tanto amor ali que parecia que havia uma represa dele. Às sete da manhã, esticados na cama, ouviam-se. Mas logo, ouviram-se roncos.
Levantaram mais de duas da tarde, nenhum constrangimento. Esquisito: em geral, essa situação a deixava embaralhada, vontade de sair correndo ou de virar avestruz. Ele não, sempre foi sossegado. Mas os dois estavam mesmo muito confortáveis. Até que a fome aumentou. Era sábado.
- Quer comer uma massa deliciosa?, ele convidou.
Ela quis. Entraram no carro, era conversível, mas não desses chiques. Desses que já foram chiques um dia, mas esse dia, certamente, aconteceu décadas antes de ele adquiri-lo.
Muito vento na cara, e nem tava calor. Era outono em Porto Alegre.
O trajeto parecia longo demais. E seguia pela Free-Way. Não parou em Canoas, em São Leopoldo. Não parou. Ela nem ligou, riam horrores dentro do carro. Cantavam Chico.
- A gente podia se casar ao som de "O casamento dos pequenos burgueses", hein?, ele pensou alto.
- Mas sem aquela parte de um monte de filhos né?
- E por quê? Você não sonha ser mãe?
- Não. Acho que isso não é pra mim.
E foi essa a primeira briga do casal. Começou leve, mas ganhou contornos ríspidos. Ele teve de pedir desculpas pelo machismo. Ela teve que retirar os xingamentos.
Ficaram alguns minutos sem conversar, mas rápido outro assunto apareceu.
O carro parou, desceram em Canela, onde um restaurante italiano conhecido na serra gaúcha os esperava. Não esperava tanto assim, porque só abriria dali a uma hora, para o jantar. Quando abriu, a fome era tanta que não havia romantismo que segurasse os ímpetos esfomeados daqueles dois. E eles não estavam nem aí pra romantismo mesmo.
- Ei, repare só.
- O quê?
- Faz 24 horas que a gente se conhece...
E brindaram felizes ao aniversário de um dia. Com um espumante barato.
Não deu pra voltar pra casa, aquele carro sem capô acabaria lhes oferecendo uma bela pneumonia. Dormiram na serra. Abraçados, porque romantismo é dormir abraçado e sair de casa sem saber quando volta.
Ela chegou de volta à sua casa exatas 48 horas após sair para uma festa com as amigas. Cansada, nem quis avisar que estava bem. Estava ótima.
Dia seguinte os dois foram trabalhar, cada um no seu trabalho. Quem não é bom observador, nem percebeu que havia uma coisa esquisita no olhar de cada um. Os dias se passaram, a semana acabou. Foi o casamento mais rápido e intenso que o mundo já viu. Seus filhos foram dias de sorriso e vontade de viver.
Nunca mais se encontraram. Mas nunca mais desgrudaram um do outro e viveram felizes para sempre.
***
Pessoal, vou cumprir o resultado da minha enquete boca-a-boca, via twitter e via Face, tomar vergonha na cara, e escrever pelo menos uma vez por semana... Não garanto se continho, se crônica, se artigo, se futebol, se feminismo, se política, se vida... Obrigada por me incentivarem.
terça-feira, 10 de maio de 2011
Qual a graça?
Umas das principais polêmicas da semana é a entrevista da revista "Rolling Stone Brasil" com o cqc Rafael Bastos. A matéria revela um trecho do show do comediante, em que ele diz, referindo-se ao estupro de uma "mulher feia": "Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade."
Ora, na mesma semana em que jovens de três estados foram detidos por atuarem num movimento que defende a legalização da maconha, acusados de "apologia às drogas", as declarações de Bastos suscitam alguns questionamentos. Por um lado, os jovens mencionados estavam exercendo seu direito à livre manifestação de ideias, defendendo seu ponto de vista, disputando sua opinião na sociedade legitimamente.
De outro lado, Rafael Bastos, cujo discurso não tem nenhuma dessas características, não poderia ser acusado de apologia a um crime hediondo? Por que? Porque aquilo pretende ser uma piada? Porque ele só quer "desconstruir o politicamente correto"? Porque é famoso e ganhou carta branca pra dizer as barbaridades que quiser impunemente?
Há meios inteligentes, ou pelo menos, não tão vulgares, de pôr o "politicamente correto" em questão. Sugerir o estupro de mulheres e promover sua banalização não choca o moralismo, choca quem, há décadas, concentra esforços para denunciar e combater essa violência injustificável - que não é ficção, é de verdade, mais comum e mais impune do que se imagina.
Tratar estupro como piada passa por cima de tantas mulheres que o machismo já vitimizou por meio dessa arma cruel, legitima essa violência, conferindo-lhe o status de coisa qualquer, coisa da vida, coisa que acontece e pode ser tolerada. Esse é o texto implícito. Não precisa se dedicar muito pra entender.
Acontece que estupro não é piada, não é engraçado, não é tolerável e não há atenuantes. Banalizar esse assunto é tornar-se cúmplice dele. Não há meio termo. Aceitar rir de si mesmo é uma coisa. Rir de uma mulher estuprada é outra completamente diferente.
A quem quer caçoar do "politicamente correto", que o faça sem brincar com o que não tem graça nenhuma. Indicar o estupro como "oportunidade" num texto humorístico não é bonitinho, nem engraçadinho, nem original, muito menos inteligente. É cruel, leviano, beira o fascismo. Atitudes como essa, travestida de moderninha e descolada, é o que de mais reacionário pode haver numa sociedade desigual como a nossa. Afinal, por que Bolsonaro é criticado quando fala sério, mas Rafael Bastos tem autorização pra falar "brincando"?
Violência contra a mulher é crime. Não tem graça. Não tem desculpa.
Ora, na mesma semana em que jovens de três estados foram detidos por atuarem num movimento que defende a legalização da maconha, acusados de "apologia às drogas", as declarações de Bastos suscitam alguns questionamentos. Por um lado, os jovens mencionados estavam exercendo seu direito à livre manifestação de ideias, defendendo seu ponto de vista, disputando sua opinião na sociedade legitimamente.
De outro lado, Rafael Bastos, cujo discurso não tem nenhuma dessas características, não poderia ser acusado de apologia a um crime hediondo? Por que? Porque aquilo pretende ser uma piada? Porque ele só quer "desconstruir o politicamente correto"? Porque é famoso e ganhou carta branca pra dizer as barbaridades que quiser impunemente?
Há meios inteligentes, ou pelo menos, não tão vulgares, de pôr o "politicamente correto" em questão. Sugerir o estupro de mulheres e promover sua banalização não choca o moralismo, choca quem, há décadas, concentra esforços para denunciar e combater essa violência injustificável - que não é ficção, é de verdade, mais comum e mais impune do que se imagina.
Tratar estupro como piada passa por cima de tantas mulheres que o machismo já vitimizou por meio dessa arma cruel, legitima essa violência, conferindo-lhe o status de coisa qualquer, coisa da vida, coisa que acontece e pode ser tolerada. Esse é o texto implícito. Não precisa se dedicar muito pra entender.
Acontece que estupro não é piada, não é engraçado, não é tolerável e não há atenuantes. Banalizar esse assunto é tornar-se cúmplice dele. Não há meio termo. Aceitar rir de si mesmo é uma coisa. Rir de uma mulher estuprada é outra completamente diferente.
A quem quer caçoar do "politicamente correto", que o faça sem brincar com o que não tem graça nenhuma. Indicar o estupro como "oportunidade" num texto humorístico não é bonitinho, nem engraçadinho, nem original, muito menos inteligente. É cruel, leviano, beira o fascismo. Atitudes como essa, travestida de moderninha e descolada, é o que de mais reacionário pode haver numa sociedade desigual como a nossa. Afinal, por que Bolsonaro é criticado quando fala sério, mas Rafael Bastos tem autorização pra falar "brincando"?
Violência contra a mulher é crime. Não tem graça. Não tem desculpa.
domingo, 8 de maio de 2011
2001: O ano que não acabou
UMA INTRODUÇÃO
Por Alessandra Terribili *
Acho que foi em 2001 que aprendemos a sentir saudades desse jeito. Nossa saudade tinha cheiro de eternidade, nossas separações eram breves, os reencontros eram certos, e as saudades nos faziam imaginar que os hiatos de tempo em que não nos víamos não eram nada diante da intensidade que aquele momento nos reservava.
Aprendemos muita coisa, cada um a seu modo. Aprendemos a negociar, aprendemos a ser solidários, aprendemos a voar sem cair. Todo mundo trazia uma bagagem repleta de expectativas, inseguranças, seguranças, juventude e fé. Trocamos bagagens uns com os outros. Demos boas risadas, choramos várias vezes, sentimos medo, sentimos coragem, sentimos orgulho do que estávamos fazendo, sem saber que, 10 anos depois, nos orgulharíamos ainda mais. Tinha gente de DCE, tinha gente de executiva, tinha dirigente nacional, tinha gente que queria ser dirigente, tinha gente que fugia de ser dirigente. Tinha gente que bebia e gente que não bebia. Mas tinha gente, tinha muita gente.
Essa geração prestou uma contribuição inestimável para o movimento estudantil e para o Brasil. Nosso enfrentamento ao neoliberalismo, que encontrou em 2001 seu auge e melhor expressão, somou-se a esforços vindos de outras áreas, outros lugares, outros movimentos. A defesa da educação pública era a nossa maneira de contribuir com aquele momento especial, e talvez, boa parte de nós nem soubesse o quão especial era aquilo tudo.
A convivência diária, o “perrengue” coletivo, o acampamento que nos expunha à proximidade, à possibilidade de nos encantarmos uns com outros, a vivência política comum de um momento tão histórico quanto pessoal para cada um de nós fizeram com que elaborássemos, mesmo sem saber, como quem tece uma longa colcha, padrões de militância diferentes do que aqueles que conhecíamos antes. Respeitar-se não é extraordinário, é o que deveria ser cotidiano. E ali, em meio a tantas novas situações, àquele grupo que se modificava tanto quanto se ampliava, certamente havia uma semente sendo plantada para que florescesse uma cultura política que não cresceria vistosa em qualquer chão, com qualquer tratamento, e nem de uma hora pra outra. Sem donos ou autores, mas produto natural de um período que marcou pessoas e a história recente de um movimento social tão presente. Produto natural porque tecido cuidadosamente com os panos mais floridos e resistentes com que se pode trabalhar. A colcha foi sendo tecida devagar, quase sem querer. E ainda hoje aquece muita gente, muitas mais do que qualquer um de nós ousaria sonhar naquele momento.
Tecendo uma nova manhã
Em setembro, quando uma reunião ampliada da UNE deflagrou greve estudantil nacional, começava uma luta que prometia ser incessante e vitoriosa. O Comando Nacional de Greve e Mobilização se instalou, convocou DCEs e executivas e federações de curso, articulou ações unificadas, mostrou a cara em cada canto do Brasil. A grande marca daquele movimento foi a tentativa de ocupação do Ministério da Fazenda, quando, definitivamente, todo o Brasil olhou para nós. E tudo foi planejado coletivamente, atropelando apenas as dificuldades decorrentes das diferenças que sempre houve entre nós. E, registre-se, foi uma das raras vezes em que o movimento estudantil acordou (literalmente) na hora combinada.
Havia o Plebiscito do Provão, um instrumento de uma luta bastante representativa do nosso embate com aquele Ministério da Educação. Percorremos o país, tornamo-nos mais e mais numerosos, cativamos centros e diretórios acadêmicos, colocamos nas urnas a opinião contrária dos estudantes àquele mecanismo de pseudoavaliação. Registramos esse repúdio nos boicotes à prova. Era um golpe certeiro contra o “provão” e contra a política educacional de Paulo Renato e FHC.
E por confiarmos que a democracia com que nos organizávamos era o motor da nossa força, queríamos que a UNE fizesse um Coneb (Conselho Nacional de Entidades de Base). Reunimos o apoio de quase 500 centros e diretórios acadêmicos de todo o país, dezenas de DCEs e praticamente todas as executivas e federações de curso que existiam. Não havendo logrado nesse objetivo, realizamos um encontro nacional de CAs e DAs (o ENEB), e, poucos anos depois, a UNE retomava a realização dos Conebs como agenda fundamental do movimento estudantil.
Tendo percebido que a luta precisa de parceiros, participamos e extraímos o que de melhor havia no ENU (Encontro Nacional de Estudantes, promovido pelo MST). Tendo entendido tanta coisa na luta concreta, acreditamos que uma campanha contra a mercantilização da educação era necessária para demarcar nossa opinião, denunciar a forma como o Governo FHC nos via e às universidades e escolas deste país, e dar consequência à mobilização e às vitórias conquistadas na greve. Tendo entendido que o mundo é maior ainda do que parecia, fizemos do Fórum Social Mundial mais um palco para nossa intervenção.
O primeiro ano do resto de nossas vidas
Foi tanta coisa que parece que o ano de 2001 nunca acabou. Acho mesmo que ele poder estar aberto até agora, pra gente construir um final feliz pra história que começamos a escrever ali, a tantas mãos. Reencontrar os personagens daquelas lutas, reencontrar nosso palco principal – Brasília e a UnB –, é compor mais um capítulo de uma história feita de política, negociação, combate, luta, discordância e concordância; mas também de abraços, sorrisos, afeto, companheirismo e solidariedade.
Talvez 2001 tenha sido como uma página de introdução em nossas vidas. Ainda que houvesse, ali, quem estivesse começando, e também que já estivesse até calejado da luta, certamente, de lá, ninguém saiu como entrou. Temendo parecer exagerada, talvez nem a Universidade, nem o Brasil. O que começou ali ainda está sendo escrito, e aqueles mesmos personagens, mesmo se em outros papeis, ainda são protagonistas. A história seguiu.
Acontece que a vida nos separou mesmo. Alguns trocaram de partido, muitos permaneceram onde estavam, outros largaram a militância. Houve quem mudou de cidade, quem foi pra fora do país, quem mudou o lugar de atuação. A distância geográfica e, às vezes, a distância partidária ou na leitura que cada um faz do atual momento histórico, fazem com que aquele hiato de tempo, que era sempre breve, pareça mais ampliado agora. Mas segue sendo apenas um hiato. Até porque uma das coisas bonitas que aprendemos naquele ano que não acabou é que, como Jorge Amado escreveu, a revolução é uma pátria e uma família.
* Jornalista, participou do CNGM-UNE, foi coordenadora nacional do Plebiscito do Provão, e teve o prazer e a honra de fazer parte dessa história maravilhosa que ainda estamos contando.
Por Alessandra Terribili *
Acho que foi em 2001 que aprendemos a sentir saudades desse jeito. Nossa saudade tinha cheiro de eternidade, nossas separações eram breves, os reencontros eram certos, e as saudades nos faziam imaginar que os hiatos de tempo em que não nos víamos não eram nada diante da intensidade que aquele momento nos reservava.
Aprendemos muita coisa, cada um a seu modo. Aprendemos a negociar, aprendemos a ser solidários, aprendemos a voar sem cair. Todo mundo trazia uma bagagem repleta de expectativas, inseguranças, seguranças, juventude e fé. Trocamos bagagens uns com os outros. Demos boas risadas, choramos várias vezes, sentimos medo, sentimos coragem, sentimos orgulho do que estávamos fazendo, sem saber que, 10 anos depois, nos orgulharíamos ainda mais. Tinha gente de DCE, tinha gente de executiva, tinha dirigente nacional, tinha gente que queria ser dirigente, tinha gente que fugia de ser dirigente. Tinha gente que bebia e gente que não bebia. Mas tinha gente, tinha muita gente.
Essa geração prestou uma contribuição inestimável para o movimento estudantil e para o Brasil. Nosso enfrentamento ao neoliberalismo, que encontrou em 2001 seu auge e melhor expressão, somou-se a esforços vindos de outras áreas, outros lugares, outros movimentos. A defesa da educação pública era a nossa maneira de contribuir com aquele momento especial, e talvez, boa parte de nós nem soubesse o quão especial era aquilo tudo.
A convivência diária, o “perrengue” coletivo, o acampamento que nos expunha à proximidade, à possibilidade de nos encantarmos uns com outros, a vivência política comum de um momento tão histórico quanto pessoal para cada um de nós fizeram com que elaborássemos, mesmo sem saber, como quem tece uma longa colcha, padrões de militância diferentes do que aqueles que conhecíamos antes. Respeitar-se não é extraordinário, é o que deveria ser cotidiano. E ali, em meio a tantas novas situações, àquele grupo que se modificava tanto quanto se ampliava, certamente havia uma semente sendo plantada para que florescesse uma cultura política que não cresceria vistosa em qualquer chão, com qualquer tratamento, e nem de uma hora pra outra. Sem donos ou autores, mas produto natural de um período que marcou pessoas e a história recente de um movimento social tão presente. Produto natural porque tecido cuidadosamente com os panos mais floridos e resistentes com que se pode trabalhar. A colcha foi sendo tecida devagar, quase sem querer. E ainda hoje aquece muita gente, muitas mais do que qualquer um de nós ousaria sonhar naquele momento.
Tecendo uma nova manhã
Em setembro, quando uma reunião ampliada da UNE deflagrou greve estudantil nacional, começava uma luta que prometia ser incessante e vitoriosa. O Comando Nacional de Greve e Mobilização se instalou, convocou DCEs e executivas e federações de curso, articulou ações unificadas, mostrou a cara em cada canto do Brasil. A grande marca daquele movimento foi a tentativa de ocupação do Ministério da Fazenda, quando, definitivamente, todo o Brasil olhou para nós. E tudo foi planejado coletivamente, atropelando apenas as dificuldades decorrentes das diferenças que sempre houve entre nós. E, registre-se, foi uma das raras vezes em que o movimento estudantil acordou (literalmente) na hora combinada.
Havia o Plebiscito do Provão, um instrumento de uma luta bastante representativa do nosso embate com aquele Ministério da Educação. Percorremos o país, tornamo-nos mais e mais numerosos, cativamos centros e diretórios acadêmicos, colocamos nas urnas a opinião contrária dos estudantes àquele mecanismo de pseudoavaliação. Registramos esse repúdio nos boicotes à prova. Era um golpe certeiro contra o “provão” e contra a política educacional de Paulo Renato e FHC.
E por confiarmos que a democracia com que nos organizávamos era o motor da nossa força, queríamos que a UNE fizesse um Coneb (Conselho Nacional de Entidades de Base). Reunimos o apoio de quase 500 centros e diretórios acadêmicos de todo o país, dezenas de DCEs e praticamente todas as executivas e federações de curso que existiam. Não havendo logrado nesse objetivo, realizamos um encontro nacional de CAs e DAs (o ENEB), e, poucos anos depois, a UNE retomava a realização dos Conebs como agenda fundamental do movimento estudantil.
Tendo percebido que a luta precisa de parceiros, participamos e extraímos o que de melhor havia no ENU (Encontro Nacional de Estudantes, promovido pelo MST). Tendo entendido tanta coisa na luta concreta, acreditamos que uma campanha contra a mercantilização da educação era necessária para demarcar nossa opinião, denunciar a forma como o Governo FHC nos via e às universidades e escolas deste país, e dar consequência à mobilização e às vitórias conquistadas na greve. Tendo entendido que o mundo é maior ainda do que parecia, fizemos do Fórum Social Mundial mais um palco para nossa intervenção.
O primeiro ano do resto de nossas vidas
Foi tanta coisa que parece que o ano de 2001 nunca acabou. Acho mesmo que ele poder estar aberto até agora, pra gente construir um final feliz pra história que começamos a escrever ali, a tantas mãos. Reencontrar os personagens daquelas lutas, reencontrar nosso palco principal – Brasília e a UnB –, é compor mais um capítulo de uma história feita de política, negociação, combate, luta, discordância e concordância; mas também de abraços, sorrisos, afeto, companheirismo e solidariedade.
Talvez 2001 tenha sido como uma página de introdução em nossas vidas. Ainda que houvesse, ali, quem estivesse começando, e também que já estivesse até calejado da luta, certamente, de lá, ninguém saiu como entrou. Temendo parecer exagerada, talvez nem a Universidade, nem o Brasil. O que começou ali ainda está sendo escrito, e aqueles mesmos personagens, mesmo se em outros papeis, ainda são protagonistas. A história seguiu.
Acontece que a vida nos separou mesmo. Alguns trocaram de partido, muitos permaneceram onde estavam, outros largaram a militância. Houve quem mudou de cidade, quem foi pra fora do país, quem mudou o lugar de atuação. A distância geográfica e, às vezes, a distância partidária ou na leitura que cada um faz do atual momento histórico, fazem com que aquele hiato de tempo, que era sempre breve, pareça mais ampliado agora. Mas segue sendo apenas um hiato. Até porque uma das coisas bonitas que aprendemos naquele ano que não acabou é que, como Jorge Amado escreveu, a revolução é uma pátria e uma família.
* Jornalista, participou do CNGM-UNE, foi coordenadora nacional do Plebiscito do Provão, e teve o prazer e a honra de fazer parte dessa história maravilhosa que ainda estamos contando.
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