quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Registre-se: repúdio à despolitização e ao autoritarismo

Deixa eu ver se eu entendi bem. Então, é tudo um grande BBB. É isso? Não vamos eleger um(a) presidente(a), mas sim, um zelador da moral, dos bons costumes e da vida dos outros. É isso??? Significa que a situação do país é tão grave que todo mundo tem que entregar a Deus, obrigatoriamente, crente ou não, praticante ou não? Ou, como disse um velho amigo via twitter, só devemos votar em quem comunga, é crismado e se confessa regularmente?

Olha, é frustrante perceber que a jovem democracia brasileira, ainda buscando sua consolidação, está refém desse show de horror pautado pela candidatura da direita - mais anacrônica e antiética que nunca -, legitimado pela grande imprensa e aceito pela candidatura progressista.

Juro pra vocês que tenho extrema dificuldade de acreditar como, em pleno século XXI, mais de 2 mil anos de era cristã, com tantas idas e vindas sofridas pelo catolicismo, crises éticas e morais, com a recente proliferação das tais igrejas neopentecostais, mas principalmente, com milênios e milênios de acúmulo histórico da construção de uma sociedade, de luta popular por liberdade, por igualdade, por justiça... com os avanços da ciência e da tecnologia, com o aumento da escolarização das pessoas, a massificação dos veículos informativos e de entretenimento... Gente, com tudo isso. Como alguém tem coragem de querer determinar com quem uma pessoa pode ou não pode se casar!!!? Como??? O que dá o direito a quem quer que seja de afirmar que homem não pode casar com homem, e mulher não pode casar com mulher?

Como li no twitter há poucos dias: se você é contra a união civil entre pessoas do mesmo sexo, não se case com alguém do seu sexo. Mas não queira dizer aos outros o que eles podem ou não fazer da vida deles. Não lhes diga que eles não podem ser felizes e que eles são obrigados a se submeter a uma moral externa, que o Deus de alguém impõe através de seus súditos autoritários, intolerantes e preconceituosos.

Acho interessante que liberdade religiosa tenha virado pauta, e com esse grau de centralidade. Sou super pró liberdade religiosa. Pra todo mundo, inclusive pra quem não quer ter religião. É precisamente por isso que o Estado é laico - ouviram bem? LAICO -, porque ele não pode impor a todos os seus cidadãos e cidadãs a crença que, assumidamente, não é de todos.

Cada um cultue seu Deus, encaminhe seus rituais, suas preces, exalte seus símbolos e representações, e viva de acordo com a moral em que confia. Mas deixe em paz quem não quer fazer isso, ou pelo menos, que não quer fazer disso a razão de sua existência - porque nem isso está sendo respeitado neste momento! Nem o grau de comprometimento que cada pessoa quer ter com sua religião!

Minha impressão é a mesma de tantos que já disseram: parece que retrocedemos séculos na história. Daqui a pouco, estaremos perseguindo os não-cristãos. É a isso que chegaremos? Ninguém na grande imprensa tem vergonha de avalizar isso?

"Vamos avançar, sair dessa pauta", alguns pedem. Eu concordo. Quero uma eleição politizada, com disputa de projetos para o país. Mas é necessário encerrar essa polêmica com uma conclusão: muitas Igrejas estão claramente atentando contra a liberdade religiosa através de chantagem política, e estão sendo estimuladas a isso pela direita mais nojenta, que está procurando recompor sua cara.
 
É preciso ficar bem claro quem é contra a liberdade nesta história.

6 comentários:

A Serious Man disse...

BELÍSSIMO TEXTO!!! FALOU TUDO O QUE EU PENSO!!!

Gustavo Venancio Narciso [Guvena] disse...

Muito bom texto e muito bons argumentos, Alessandra!

odete disse...

Companheira, concordo e parabenizo pela sua atitude e coragem de dicernimento num momento tao importante para nos mulheres, lutadoras e defensoras dos direitos humanos de cada cidadao e cidada deste pais, e principalemente pelas nossas lutas historicas de direitos de liberdade.

Murilo Araújo disse...

E agora me vem uma angústia, Alessandra...

Você falou em seu texto da "direita mais nojenta", o que concordo absolutamente. Mas como ficamos com o acordo feito por Dilma Roussef com as lideranças religiosas do legislativo, em que decidiu vetar, em seu possível governo, todas as medidas que provocassem alguma "ofensa" aos valores religiosos, como a união civil homossexual e a legalização do aborto? São lutas históricas cuja abordagem, se já é um retrocesso na campanha de José Serra, me deixa profundamente decepcionado nestes últimos caminhos de Dilma.

Estou perdido sobre quem votar neste segundo turno. De verdade.

Perdido, decepcionado, desacreditado e inconformado.

Adorei o texto, acho que a perspectiva é exatamente esta. Mas a questão não é mais uma vez notar que é ilógico alguém querer interferir nas escolhas e na felicidade dos cidadãos brasileiros; a questão agora é saber para onde ir e o que fazer, já que tem gente agindo dessa forma.

Alessandra disse...

Murilo e todos/as,

Eu vou votar na Dilma.

Um pouco aborrecida por não ver o programa que eu defendo ser defendido na sua integralidade. Mas com a certeza de que é num governo do PT que teremos chance de disputar esse programa.

Dilma não falou e nem vai falar contra a união civil de pessoas do mesmo sexo ou contra a descriminalização do aborto. Ela não disse que vetaria. Ela afirmou que isso é pauta do Congresso e que o executivo não encaminharia projetos dessas naturezas.

Façamos a disputa nos espaços que nos cabem! É num governo de Dilma que temos condições de vencer. No de Serra, nem poderemos disputar.

Abraços...

giovanna vargas disse...

Nunca foi fácil na historia brasileira e do mundo, as pessoas militarem em defesa dos direitos humanos, pela liberdade de expressãa ou pelo exercicio de fazer parte de uma corrente partidária à esquerda, todavia as lutas foram deixando marcas e transformações importantes na vida das pessoas e os preconceitos e tabus foram caindo devagar. Muito ainda há de se fazer para que de fato possamos construir um lugar melhor para vivermos onde a inclusão das diferentes pessoas e idéias convivam sem ter que haver mortes, perseguições, baixarias. Até este mundo utópico chegar, se chegar, teremos sim que continuar teimando em bancar as lutas pelo fim do conservadorismo, da hipocrisia coletiva, do machismos, da xenofobia, da homofobia e tantas outras pragas construidas pela propria humanidade. Dilma na ótica da direita reacionária é do mal, é de esquerda, é mulher , é politica, e tem coragem de por o dedo nas feridas simbolicas da nossa cultura excludente. Dilma é cada uma de nós, mulheres e homens que ousam ser diferentes, pensar diferente e fazer a vida diferente e que tentam tds os dias fazer um mundo diferente, mais humano, mais decente, menos hipocrita. Parabéns pelo artigo, é um desabafo sincero de alguem como nós, Dilmas brasileiras.