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terça-feira, 9 de maio de 2017

Quando o rabo abana o cachorro

O filme estadunidense Wag The Dog (tradução literal: Abane o cachorro), de 1997, conta a história de um presidente que, envolvido em um escândalo sexual, contrata um cineasta para produzir uma guerra fictícia a fim de desviar a atenção da população. O início do filme explica o título: “Você sabe por que o cachorro abana o rabo? Porque ele é mais inteligente que o rabo. Mas se o rabo fosse mais inteligente...”. O letreiro entra em seguida, sugerindo: abane o cachorro.

Um ano atrás, se concretizava, no Brasil, um golpe de Estado jurídico-parlamentar-midiático que poderia ter sido filmado no lugar da história criada por Hilary Henkin e David Mamet.

Derrotado nas eleições presidenciais de 2014, o candidato da direita ameaça não reconhecer o resultado das urnas, iniciando ali um movimento visível a olho nu para quem prestou atenção nos livros de história que estudou na adolescência. Àquela altura, a Operação Lava-Jato já avançava, capitaneada por um juiz com nítida vocação para super-man (com as mesmas cores, inclusive). Embora lidando com um objeto fundamental de ser examinado – as relações promíscuas entre poder público e grandes empresas a partir do financiamento de campanhas eleitorais -, a iniciativa já mostrara a que veio: servir de instrumento para carimbar de corrupto apenas um setor da disputa política. Adaptando-se à conjuntura diariamente, a operação evolui selecionando investigações a serem conduzidas, vazamentos a serem feitos para a imprensa e a própria direção dos fatos.

Estão criadas as condições para um roteiro surreal no qual a corrupção no Brasil começa com a eleição de Lula, e nunca antes na história deste país havia acontecido nada semelhante. Quinhentos e quatorze anos de história são, então, reescritos, e apagam-se todos os escândalos de desvio de recursos públicos, tráfico de influência, privatizações, compra de votos e, especialmente, o enriquecimento ilícito de coronéis, donos da mídia, latifundiários, empresários e outros que até pouco tempo atrás oligopolizavam o fazer política no Brasil. E nunca foram presos.

O toque final é a abordagem da mídia, que, tão seletiva quanto as investigações do juiz fanfarrão, elabora sob medida uma narrativa cuja consequência óbvia e planejada é um discurso de ódio acéfalo contra o PT e a esquerda. Tal discurso encontra terreno propício para germinar: a paupérrima cultura política brasileira. O efeito colateral é o descrédito generalizado contra todos os políticos e a satanização da atividade política. Mas não tem problema, porque a despolitização sempre favoreceu os donos do poder, e eles sempre souberam reinventar sua própria embalagem para parecerem novos e atraentes. Assim, fantasiam-se de empresários bem-sucedidos ou apresentadores de televisão e continuam a fazer o que sempre fizeram.

Cria-se, então, uma acusação contra a presidenta: as “pedaladas fiscais”, que muitos governadores haviam praticado no mesmo período. Meses depois, num ato de vingança contra o PT, que contribuíra para que ele fosse investigado, o presidente da Câmara, com largo histórico de envolvimento em práticas controversas (digamos assim), inicia o processo de impedimento da presidenta da República. O vice-presidente publica carta na qual rompe com o governo, lamentando ter assumido posição somente “decorativa” (sic).

Chegamos, então, ao ápice do roteiro: com olhos em chamas, setores médios e elites vão às varandas de seus apartamentos bater panela. Grandes manifestações são convocadas por esses segmentos, por meio de movimentos laranja e partidos de oposição, financiadas pela Fiesp e grupos empresariais, com grande alarde na mídia, que também convoca e promove com cobertura em tempo real. Milhares de pessoas atendem ao chamado vestindo camisetinhas amarelas, tendo um pato gigante como símbolo e privatizando (eles têm know-how) o hino nacional.

Diante de tal comoção, em meio à qual as pessoas que vestem vermelho correm risco de serem agredidas na rua, a presidenta é afastada numa sessão da Câmara que se torna antológica pelas dedicatórias dos votos dos deputados e deputadas às suas mães, filhos, às suas namoradas, ao cãozinho da família. Assim, Michel Temer, o golpista usurpador decorativo, assume interinamente a Presidência, e monta o governo provisório com aqueles que tinham sido derrotados nas eleições de dois anos antes, e também com personagens necessários para qualquer enredo dessa monta: os traidores.

A partir daí, começam a executar o programa que tinha sido derrotado nas urnas quatro vezes, num nível de agilidade que sequer Fernando Henrique Cardoso (que vencera duas eleições) tivera coragem de encaminhar. Abrem caminho para a entrega do pré-sal brasileiro às potências estrangeiras; congelam investimentos públicos em saúde e educação por vinte anos; extinguem órgãos de governo e programas centrais para o desenvolvimento de políticas de distribuição de renda e combate a desigualdades históricas; reformam o ensino médio sem dialogar com nenhum dos setores envolvidos, destituindo-lhe de qualquer mísera perspectiva transformadora; apresentam uma reforma da previdência e outra trabalhista para retirar direitos do povo, mantendo e ampliando direitos dos banqueiros e grandes empresários; legalizam a terceirização irrestrita; atuam para “estancar a sangria” (sic) provocada pela Operação Lava-Jato, para que não sejam atingidos; e disparam balas de borracha e gás lacrimogêneo contra índios, jovens, trabalhadores, e quem quer que ouse levantar-se contra o golpe em curso. Colocam em xeque o direito de greve e o direito à livre manifestação, com a bênção do Poder Judiciário, que, afinal, é peça fundamental do enredo.

O final do filme ainda não está escrito. Há algumas possibilidades: temendo nova derrota nas urnas, que jogaria por terra o processo encaminhado até agora, prendem o ex-presidente Lula e/ou cancelam as eleições nacionais de 2018 – qualquer das opções escancarará o que muitos já perceberam: que vivemos sob um regime de exceção. Outra hipótese: por falta de quadro melhor, elegem o pato gigante presidente da República, e ele governará como terceirizado sob ordens da Casa Branca.

Ou o cachorro assume que fez cocô no lugar errado e recupera sua habilidade de abanar o rabo.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

No quesito IGUALDADE, o Brasil ainda está longe do pódio

Talvez, a principal frustração da torcida brasileira nas Olimpíadas Rio 2016 tenha sido a ausência de nossa carismática seleção feminina de futebol no pódio de premiação. Sobre nós, prevaleceram as equipes de, respectivamente, Alemanha, Suécia e Canadá.

O time do Brasil começou a competição muito bem, com vitórias, garra, alegria de jogar e muitos gols; o que rendeu às nossas meninas comparações com sua equivalente masculina – que iniciou o torneio deixando a desejar em todos os quesitos mencionados. Porém, essa não é uma comparação justa, por três motivos: 1) Fora Temer; 2) Ao terminar as Olimpíadas, concretizou-se um resultado previsível, mas que parece desabonar o feito de nossas meninas pelo tamanho das expectativas geradas sobre elas, expectativas essas desproporcionais aos investimentos e à atenção da mídia ao longo dos últimos quatro anos; 3) Para comparar Marta a Neymar e a seleção masculina à feminina, seria necessário que todos tivessem igualdade de condições, o que está deveras distante de acontecer.

No Brasil, o futebol ainda é um esporte muito masculino. A desigualdade na distribuição de recursos é gritante, e um pouco disso pode ser atribuído aos níveis diferentes de desenvolvimento: basta lembrar que a primeira partida oficial disputada pela seleção brasileira feminina aconteceu em 1986, quando a masculina já tinha 72 anos de chão. Mas não é só isso. Há as abissais diferenças salariais. Mas não é só isso. Como atestou uma reportagem do jornal inglês The Guardian, de 2006, a partir da experiência da jogadora chilena Dania Cabello no Santos:

“‘Durante os treinos, tínhamos que esperar em nossos quartos na hora do almoço. Enquanto os jogadores almoçavam no refeitório, recebíamos bandejas. Era como se recebêssemos sobras’, contou Cabello, lembrando ainda que o time vestia uniformes masculinos usados e precisava treinar nas areias do balneário paulista porque o campo de treinamentos era ocupado por um dos times juvenis do Santos.

Ironicamente, o time foi extinto em 2011, como parte de um pacote de cortes feitos pela diretoria do clube para tentar custear a presença de Neymar - ele acabou sendo vendido pelo Santos ao Barcelona em 2013”. (1)

Mas não é só isso. Para se referir à prática de um esporte que, no Brasil, ainda é tão masculino, é preciso levar em consideração um aspecto fundamental: as barreiras impostas às mulheres para se inserir num mercado tão dominado pelos homens, parte integrante de um universo absurdamente machista.



Ouro, prata e bronze

Por exemplo: na Suécia, medalha de prata em futebol feminino, há políticas de incentivo ao combate de estereótipos contidos na separação de brinquedos e de cores entre meninos e meninas, para enfrentar o machismo desde o berço. No Brasil, o discurso obscurantista busca limitar a participação das mulheres no espaço público, e iniciativas medonhas, como a Lei da Mordaça, visam a proibir que professores e professoras desconstruam em sala de aula os estereótipos de gênero.

Segundo o primeiro-ministro Stefen Lofven, o governo sueco é feminista. O gabinete é paritário: 12 ministros e 12 ministras. No parlamento, 44,7% são mulheres (2). No Brasil, as mulheres não chegam a 10% da Câmara dos Deputados. Na Suécia, homens e mulheres dividem o trabalho doméstico e de cuidados, graças a muito investimento público no combate à desigualdade. Atualmente, estudam-se formas de intervir na composição do comando das empresas, para que mais mulheres alcancem os postos mais altos também no setor privado (3).

No Canadá, país que nos derrotou na disputa pelo bronze, o parlamento é composto por 26% de mulheres, e há paridade na composição do governo. Ao ser perguntado sobre por que ter metade de mulheres no Ministério, o primeiro-ministro Justin Trudeau não titubeou: “Porque é 2015”. Enquanto isso, no Brasil, uma mulher legitimamente eleita, e contra a qual não pesa acusação alguma, foi cassada por um golpe parlamentar que entregou o poder a um governo inteiramente masculino, conforme noticiaram alguns dos principais veículos internacionais de informação.

Na Alemanha, medalha de ouro em futebol feminino, já há cotas de mulheres na direção das empresas desde 1998. No Brasil, muita gente se queixa do mecanismo de cotas, por desafiar seus próprios privilégios. O Parlamento alemão é composto por 36,5% de mulheres. Lá, busca-se representar linguisticamente as identidades, como forma de combater a desigualdade: artigos científicos e acadêmicos devem usar uma gendergerechte sprache, ou seja, uma linguagem igualitária entre os gêneros. No Brasil, há quem se ofenda pelo uso da flexão presidenta, presente em dicionários de Língua Portuguesa desde antes de eu e Carmen Lúcia nascermos.



Ser mulher

Segundo entrevistas com 370 especialistas ouvidos pelo TrustLaw, da Fundação Thomson Reuters, em 2012, entre os países que integram o G-20 (20 maiores economias do mundo), o Canadá é o melhor país para se ser mulher. A Alemanha vem em segundo lugar. O Brasil lidera a metade inferior da lista: 11º lugar. Tal ranqueamento foi estabelecido a partir de critérios de políticas públicas de promoção da igualdade, de combate à violência e à exploração, aliadas ao acesso a educação e saúde.

O Global Gender Gap 2015, relatório produzido pelo Fórum Econômico Mundial – percebam: Fórum Econômico Mundial – mediu a igualdade entre homens e mulheres a partir de indicadores em quatro áreas: educação, oportunidade e participação na economia; saúde e sobrevivência; e empoderamento político. No ranqueamento, entre 145 países, temos: 4º Suécia; 12º Alemanha; 30º Canadá; 85º Brasil.

Por fim, vale mencionar que, num debate caro ao movimento de mulheres no que se refere à autonomia sobre o próprio corpo e a própria vida, nosso país também não sobe ao pódio: Alemanha, Suécia e Canadá têm o aborto legalizado em seu território desde os anos 70; enquanto, no Brasil, os obscurantistas procuram, cada vez mais, restringir até extinguir o acesso das mulheres aos poucos casos de aborto legal que a lei permite.

A paixão nacional brasileira é um esporte que, até outro dia, era praticado somente por homens, em cujo campo uma mulher que adentra como árbitra ou bandeirinha está sujeita a agressões e assédios que, em entrelinhas, afirmam que ela não é bem-vinda. Só por isso, Marta, Cristiane, Formiga e companhia já são verdadeiras heroínas: elas duelam com o machismo diariamente para se concretizarem como referências no país do futebol.

Não é possível falar da prática do futebol feminino no Brasil sem levar em consideração que, embora tenhamos avançado, nosso país ainda guarda sérias dificuldades em assegurar a autonomia das mulheres e igualdade de condições. Se com tantos obstáculos, chegamos aonde chegamos, imagine só aonde as mulheres podem levar este país se rompermos as barreiras da discriminação, da opressão e da exploração que ainda nos dividem.

(1) Extraído de matéria da BBC Brasil, que pode ser encontrada em: http://www.bbc.com/portuguese/geral-37028976.

(2) Os dados sobre composição de Parlamentos neste artigo foram retirados de Global Economy.

(3) Com informações da Revista 2. Matéria disponível no portal Geledés:
Como a igualdade de gênero fez da Suécia um país mais rico - http://www.geledes.org.br/como-igualdade-de-genero-fez-da-suecia-um-pais-mais-rico/

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Sobre os secadores, os intolerantes, os babacas e o que a mídia tem a ver com tudo isso

 

Estou absolutamente embasbacada com a quantidade de estupidezes anti-Argentina que inundaram a minha TL nos últimos dois dias. Acho bastante triste que um dos legados desta sensacional Copa do Mundo seja o acirramento idiota de uma intolerância injustificável entre brasileiros e argentinos. Vejam que eu cuidei bem da palavra a ser usada: INTOLERÂNCIA não é rivalidade.

Estive em Buenos Aires duas vezes. Meu pai assistiu às finais da Copa de 1998 lá. Tenho amigos e amigas que vivem, viveram ou viverão lá. Tenho amigas e amigos argentinos que vivem aqui. É com base nessa experiência que desde que me conheço por gente acho essa "rivalidade" uma babaquice, sabe por quê? Porque sempre me pareceu que ela faz mais sentido pra nós que pra eles. E não precisa me dar exemplo do fulano, do beltrano ou do ciclano pra me contradizer. Poupe seu tempo.

Nunca embarquei nessa. Ao contrário, sempre me incomodaram as propagandas monotemáticas de época de Copa, reafirmando essa palhaçada; sempre me incomodou a abordagem de boa parte do jornalismo, alimentando essa palhaçada; sempre me incomodaram as exclamações galvãobuenescas dramatizando essa palhaçada.

No dia seguinte da derrota vexaminosa que o Brasil sofreu para a Alemanha, uma repórter da SporTV suspirava: "É... Agora é torcer contra os 'hermanos'". Não sei se fui só eu, mas achei de uma idiotice milenar. Afinal, é a naturalização da palhaçada. Tornou-se automático de tal forma, que o Lancenet!, do qual deixei de ser leitora, cobriu a final da Copa do Mundo no twitter com a hashtag ‪#‎SomosTodosAlemanha‬. Quando os questionei, recebi a seguinte resposta: não somos isentos, somos brasileiros antes de tudo.

Ser brasileiro tornou-se sinônimo de ser anti-Argentina para essa mídia tosca e semeadora de toda espécie de ódio e rancor. Eles mesmos: esse jornalismo esportivo de merda que alguns fazem por aqui - tomando cuidado para evitar generalizações, afinal, nem todo veículo embarca nessa linha editorial de merda e nem todo(a) repórter compra essa abordagem de merda -, e essa publicidade de quinta categoria, que tem a criatividade de um caramujo.


Eu lhes afirmo que essa richa boba faz mais sentido aqui que lá. E se você espernear e contestar e achar um absurdo e contar do dia que você encontrou um argentino na rua e não foi bem assim, tudo bem. Eu responderia: mesmo que fosse uma coisa mútua, de mesma dimensão de lado a lado, ainda é muita cretinice permitir que uma rivalidade de futebol ultrapasse os limites da brincadeira com o esporte.

A torcida anti-Argentina por parte de alguns era tão voluptuosa quanto num clássico brasileiro. Estou certa de que os hermanos não esperavam essa rejeição toda. Mas o pior vem depois: eu realmente temo que, finalmente, como tanto provocou a mídia brasileira, ela se torne visceral de lado a lado.

Cada um torce pra quem quiser. Não estou cobrando nada de ninguém. Nunca usei o argumento da solidariedade latinoamericana, afinal, minha solidariedade é tão grande que eu a distribuo a baciada pelo mundo, e, no futebol, eu a dedico aos holandeses, que são europeus, ricos, e nunca ganharam uma Copa, como vocês sabem. Eu torci para a Argentina na final por causa do Messi. Tem gente que torceu por solidariedade latina, e tá certo também, cada um com seus critérios. Teve gente que não queria a Alemanha campeã por nos ter imposto tamanha humilhação nas semis. E teve gente que torceu para a Alemanha por x, y, z também. Tranquilo. A questão é: como ouvi de um jovem advogado argentino outro dia, eu também não entendo como num campeonato de seleções nacionais alguém saia de casa para torcer contra o time do outro. Percebam: não a favor de um, mas contra o outro. E com tanta raiva.

Ah, mas eles fizeram uma musiquinha escrota contra nós! Gente. Quase tenho vontade de cantar música de ninar pra quem se ofendeu com a musiquinha. Eles reivindicam a Copa de 90, que nem ganharam, e desde a qual o Brasil foi campeão duas vezes. Se eu fosse você, eu ria da musiquinha enquanto tomava uma boa gelada no bar.

Ah, mas eles dizem que Maradona é melhor que Pelé! - Putz, fodeu. Vamos ter que tratar disso no Tribunal de Haia.

Ah, mas eles são arrogantes! - Essa é a melhor. Porque é tipo o roto falando do rasgado, como dizia a minha avó. Afinal, humildade não é propriamente uma das habilidades do futebol brasileiro, torcida inclusa.

Ah, mas eles são racistas! - Ok, fale mais sobre como é torcer para a Alemanha com essa justificativa.

Enfim, só peço que pense um pouquinho se essa intolerância toda faz sentido, ou se você não foi contaminado por um clima que "alguém" inventou com uma única intenção: vender produtos e jornais. A crítica aqui é mais à mídia que a você, mas se você quiser vestir a carapuça também, tranquilo. Só não me responda com a mesma raiva que jogaram sobre nossos vizinhos do Cone Sul, porque eu moro aqui, você vai acabar me encontrando e eu vou te desafiar para um duelo de musiquinhas do qual somente um sairá com a honra intacta.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Brazuca pra frente!

"Alegria é viver assim de mansinho, sem se importar DEMAIS com nada". 
(Guimarães Rosa)

Sobre o futebol de dentro do campo, não há muito a acrescentar. Está claro que o Brasil perdeu para uma seleção superior, e entrou loucamente despreparado para enfrentá-la. É interessante notar que todas as goleadas que aconteceram nesta Copa se deram entre grandes e/ou médias seleções. As menos tradicionais entravam em campo preparadas para enfrentar gigantes, e assim fizeram suar cada uma delas. Como Gana contra a Alemanha, como o Irã contra a Argentina, como a Costa Rica contra a Holanda.


Superado esse tópico - perdemos porque o outro time é melhor -, vamos para outro. "Pôxa, precisava ser de SETE"?!! Foi constrangedor ver os jogadores brasileiros tão desorientados, perdidos, derrubados em campo. Daí, algumas pessoas que acharam "uma graça" que a Copa inteira nossos jogadores chorassem ao som do hino nacional, que compreenderam condescendentemente que o capitão do time não tenha conseguido ASSISTIR à disputa de pênaltis que conduziu o Brasil às quartas-de-final, que entraram no clima proposto pela HORROROSA (como sempre) cobertura da mídia sobre a Copa, de tratar um craque contundido como um mártir tombado em batalha... Essas pessoas não podem AGORA reclamar da instabilidade emocional da seleção brasileira. É muita cara de pau que haja apresentador de TV e narrador de jogo reclamando agora da construção que ELES MESMOS encabeçaram.

Eu aprendi com Telê Santana a ser mais uma brasileira apaixonada por futebol. Vivi minha infância e adolescência ouvindo sobre a alegria expressa nos pés dos craques do Brasil. A irreverência de Garrincha ao tocar a bola com suas pernas tortas, o gingado do Zizinho, a ousadia de Pelé, que gostava de desafiar o impossível. Mas não precisa parar nos anos 60 não. Nossa seleção de 1982 é lembrada até hoje por amantes do futebol em todo o planeta, independentemente de não ter conquistado aquela Copa. Zico é idolatrado mundo afora (que o diga Wesley Sneijder), Sócrates é referência eterna, e Telê segue ensinando futebol por aí (é ou não é, Pep Guardiola)?

Claro que há um processo complexo de apropriação indébita da seleção brasileira por uma turma da qual a CBF é só um instrumento. Tem bastante coisa envolvida. Mas isso daria outra crônica. Aqui, só quero dizer que, para mim, o mais triste é justamente isso: afanaram-nos a alegria! E não foi hoje não, isso já leva alguns anos. Nesta Copa, ficava clara essa lacuna no fardo carregado pelos jogadores em campo, esse fardo de ser "a Pátria de chuteiras". Não são, não podem ser e acho complicado que se tenha essa expectativa. As lágrimas durante a execução do hino. A camisa do Neymar em campo na final. Ah, gente, pára, vai. Nada contra a sensibilidade - ao contrário! -, mas tudo a favor de que a alegria e a leveza voltem a ser marcas nossas. Parecem-me uma expressão melhor da nossa sensibilidade que a resignação e a autopiedade. Parece que até a velha Alemanha do jogo truncado aprendeu isso. Nunca imaginei que a alegria que eles demonstraram em solo brasileiro nos faria tanta falta.

Parece-me que enquanto houver essa adesão coletiva ao midiático discurso de que o futebol é a nação, de que a nossa dignidade está em jogo, nada vai mudar. Enquanto houver "família Scolari", enquanto houver o acesso privilegiado da dona Globo à nossa seleção (o que a torna mediadora quase que exclusiva da relação torcida-time), enquanto houver essa absurda confusão entre jogo e vida, travestida de metáfora, enquanto houver tudo isso, haverá instabilidade emocional até do mais duro volante em campo.


Se eu pudesse dizer alguma coisa, eu diria ao David Luiz. Querido, fique tranquilo, você não destruiu os sonhos de ninguém. Fique tranquilo, você não merece arcar com essa responsabilidade. Eu me orgulho por ser sua conterrânea porque você realiza seu trabalho tão bem que se tornou um dos melhores do mundo, independentemente de vencer a Copa. Eu me orgulho por ser sua conterrânea porque você sabe que seus gestos fora de campo influenciam pessoas, e procura ser um bom exemplo. Você é.

"Não deu, galera". Simples assim. Temos a melhor - e mais cara - dupla de zaga do mundo. Mas não temos um meio-de-campo sequer razoável e uma terrível "crise de quadros" no ataque. Temos um treinador que sempre teve esse mesmo estilo de jogo, e não adianta levantar bandeira de "ousadia e alegria" porque não há treinadores brasileiros que trabalhem com essa insígnia atualmente. Porque taticamente tomamos um nó, porque não tínhamos uma boa jogada para além do "passa pro Neymar". É só futebol, gente. Não é a vingança dos povos, não é a redenção dos oprimidos, não é a justiça histórica. É um campeonato muito legal, que acontece de quatro em quatro anos.

Se tivesse havido mais leveza, mais alegria, menos lágrimas e menos fardo, ainda teríamos perdido para a Alemanha. Mas não de sete.

PS 1: Valeu, Klose, a cara do Ronaldo foi impagável!!!!

PS 2: Eu não torço pelo Brasil, eu milito por ele. No futebol, minha torcida é para que vença a beleza, pra ter espetáculos, pra resgatar aquela coisa de que o Telê me ensinou a gostar. Se a ideia de que isso é possível sagrar-se vitoriosa dentro de campo, eu me sentirei realizada. Pode chamar de saudosismo, que eu nem ligo! 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Jô Soares e a naturalização pseudoengraçadinha do machismo: ô novidade...

Jô Soares pode já ter sido um cara razoável algum dia. Mas se foi, deixou de ser "há horas", como se diz no Rio Grande do Sul. Hoje eu até evito assistir suas entrevistas, que são cada vez mais imbecilizadas e sem graça, pra me poupar da vergonha alheia.

A última vez que eu tinha visto faz tanto tempo que eu nem lembro quando. A entrevistada era a cantora Thaís Gulin, a quem ele constrangedoramente queria induzir a falar de sua relação com Chico Buarque - sem sucesso.

Mas através de uma matéria da capa da UOL, cujo link está abaixo, soube da entrevista de Jô com uma bandeirinha chamada Maíra Americano Labes. Consta da matéria que a moça "foi alvo de grande polêmica no último sábado após ter sido chamada de 'gostosa' pelo técnico Celso Teixeira, do Juventus, em partida do Campeonato

Catarinense". Eu, militante feminista e pesquisadora, considero uma violência que uma mulher, no exercício da sua profissão, seja tratada dessa forma. Particularmente, causam-me repulsa aqueles homens que abordam dessa forma grosseira as mulheres em bares e boates. Não é porque eu estou lá que estou exposta a visitação. Imagine no caso dela, que estava trabalhando. É um modo clássico e recorrente de desqualificá-la. E pelo que soube da entrevista, a própria Maíra contextualizou o "elogio" como agressão.

Aí chega o não menos cretino do Jô Soares, com todas as línguas que ele fala e seus livros publicados, e diz que o técnico "não estava tão errado assim". OI?! Não sei se Jô, seus idiomas e seus livros já ouviram falar em MACHISMO. Vai ver ele acha suas "piadas" suficientemente engraçadas para livrar-lhe da compreensão de que a fala dele encoraja SIM esse comportamento repugnante, por naturalizá-lo. As mulheres que reclamam são mal-humoradas, mal-amadas, não têm senso de humor. E assim, muitas mulheres não denunciam as violências que sofrem e ninguém sabe por quê, né.

Mas calma, pode piorar. A matéria relata o seguinte diálogo:

Jô: “Mas e se o juiz pergunta pra você: 'ô, gostosa! Foi impedimento ali?'''
Maíra: “O juiz é autoridade máxima dentro do campo''.
Jô: “Juízes, aproveitem!''

Assédio sexual é crime. O artigo 216-A da lei 10.224/2001 diz: "Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente de sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício, emprego, cargo ou função". A pena prevista é de detenção de um a dois anos. Mas vai ver que isso está escrito numa das línguas que o Jô não entende.

terça-feira, 18 de junho de 2013

A história que acontece

Sobre a postura da mídia diante das manifestações de 17 de junho de 2013.
***


Eu também serei prudente, como vários amigos(as), e controlarei a ânsia de produzir análises sobre o dia de ontem e o processo como um todo. Mas uma coisa não dá pra me furtar a falar logo: a postura da grande mídia, particularmente, a da Globo, me assusta.

A tal "autocrítica" do cretino do Jabor é sintomática. A mudança de tom na cobertura é evidente. Não só de um dia pro outro. De sempre para ontem.

Eu vou pra rua desde 1998. Já apanhei da polícia, já vi colegas e amigos apanharem, já tomei gás de pimenta na cara, já tomei gás lacrimogênio, já tive amigo preso acusado de liderar a "baderna"... Já soube de tantos, no campo, mortos em luta. Conseguimos arrancar vitórias nesses processos. Mas tomamos muita porrada e sofremos muito preconceito.

A Globo sempre se preocupou mais com o trânsito que com a gente. Essa sempre foi a chave da cobertura. Os tantos pobrezinhos que, de dentro dos seus carros, perderam a hora de voltar pra casa, e expressavam em rede nacional sua raiva da nossa necessidade de nos manifestarmos. A Globo nunca abordou a violência policial, a Globo sempre tratou as ações irresponsáveis isoladas como produtos da ação coletiva.

Agora, me digam... 15 anos se passaram. Por que mudou de repente?!!

Ontem, a cobertura falava que as manifestações foram pacíficas, e atribuía a uma minoria os "excessos" que despertavam a ira militar. A emissora expôs na TV gente de dentro dos seus carros dizendo que a causa é justa, e que não se importava com os problemas causados no trânsito. Aí que eu fiquei boquiaberta.

Obviamente, nada sobre as palavras de ordem que buscavam denunciá-la. Uma das iniciativas que achei geniais em São Paulo foi justamente a de dirigir-se à sede da Globo. A mim, soou como um: "nem vem tentar me manipular, que eu tô de olho em você não é de hoje".

Não é à toa, também, que a tal ideia de que "o gigante acordou" tem sido valorizada pela mídia como um todo. Estar atento(a) a isso não é birra, não é dispensar a ampliação do movimento - ao contrário, lógico! Eu milito há 15 anos sonhando com esse dia, o de sermos centenas de milhares, o dia de sermos milhões. Mas mesmo para chegar aí, é preciso entender o que a mídia quer provocar ao mudar de discurso com esse "cavalo de pau". Por que reforçar a ideia do gigante adormecido que acorda?

Afirmar que acordamos agora significa ignorar o processo de luta popular que nunca deixou de existir em nosso país e que levou até onde estamos. A história tem percurso, a história não cai do céu, nem é inventada em posts de facebook. Conhecer os processos e reivindicá-los ajuda a ter consciência do que foi e de pra onde queremos ir. Creio que é isso que "eles" querem evitar. Desassociar o tanto que lutamos há 500 anos de tudo que se viu ontem mostra que "eles" também querem disputar os rumos do nosso movimento.

Eu estive nos atos contra o relógio da Globo, em 2000. Dizíamos que queríamos que nossa história fosse contada por nós mesmos. Eram 500 anos de resistência negra, indígena e popular. Mas ali, éramos vândalos. Como éramos vândalos na semana passada.

Não somos vândalos, não somos irresponsáveis, não somos "diferenciados", não queremos ser rotulados. Queremos ser livres. É por isso que vamos às ruas e não vamos sair delas - porque nelas estamos há muito tempo.

Eu reivindico a história de lutas do meu povo.

domingo, 7 de abril de 2013

Em defesa das pessoas

As grandes palhaçadas disseminadas pelos meios de comunicação de massa são produto de uma lógica calculada, que tem como impulsionadora a ânsia pela venda, não a satisfação de uma demanda social.



Ninguém está imune à possibilidade de reproduzir o senso comum. Por mais que se julgue letrado e independente, nasceu e cresceu no mesmo mundo em que nasce e cresce o senso comum e as demais pessoas que habitam o planeta.

O senso comum faz parecerem imutáveis coisas que não deveriam ser naturalizadas. Existem centenas de milhares de exemplos. Os mais evidentes são os que relacionam senso comum e meios de comunicação de massa - sim, porque estes fortalecem e potencializam o senso comum, justamente contribuindo para sua naturalização.

Um que eu estou farta de ouvir de pessoas das mais diversas origens e contextos sociais é a ideia de que a mídia oferece qualidade de merda porque as pessoas querem isso. Tipo: o sensacionalismo e a exploração absurda tanto de tragédias coletivas quanto de vidas privadas existem porque "as pessoas" demandam. Vejamos.

Ponho-me em defesa desses seres anônimos, entes coletivos massificados, quase coisificados por quem se julga imune ao senso comum e porta-voz do olhar além do alcance.

Eu nunca soube que um SAC recebeu reclamações de telespectadores, ouvintes ou leitores famintos por manchetes sangrentas que não lhes foram oferecidas. Nunca vi manifestações de pessoas ávidas por informações da vida privada das celebridades que não lhes foram disponibilizadas. Nunca ouvi, numa mesa de boteco ou fila de padaria, alguém reclamar que não sabe o que aquela pessoa vítima daquele crime tão noticiado jantou três noites antes do fatídico dia.

Tsc tsc. A mídia cria e executa o tal do sensacionalismo e ela mesma justifica com: "é isso que as pessoas querem". Não podemos comprar esse discurso. Não podemos supor que todo o povo é idiota ou sádico.

Eu chego a compreender que haja certa curiosidade, por parte da média das pessoas, pela vida privada de quem se expõe através da mídia: se namora, se casou, o que fazia antes da fama, que música ouve. E isso não justifica a existência de papparazzis enfurecidos que perseguem celebridades pelas noites. Eu compreendo integralmente a comoção que se abate sobre toda uma nação quando de uma tragédia das proporções daquela recente em Santa Maria, por exemplo. As pessoas sabem se colocar no lugar dos outros. Imaginam-se pais, mães, irmãos, namorados, amigos. E isso não justifica a exploração da vida privada de famílias, do sofrimento de pessoas próximas, o choro diante das câmeras, a exposição desenfreada das próprias vítimas. Nada justifica, por exemplo, a tal fotografia do apartamento do Chorão, divulgada pouquíssimo tempo depois de sua morte, violando a privacidade de sua família e amigos, desrespeitando a memória dele (gostem do cara ou não) e passando de todos os limites do aceitável. Se a foto nunca tivesse sido divulgada, "as pessoas" não a pediriam ansiosamente.

A foto do apartamento de Chorão não é notícia. Não é essencial para ilustrar o acontecimento. Não exibe fatos novos, não é a prova conclusiva de nada - e ainda se fosse, sua reprodução em massa continua absolutamente questionável. É sensacionalismo puro. É desrespeito, é ânsia por vender seu peixe custe o que custar. Da mesma forma que cutucar uma pessoa que acaba de sofrer uma perda irreparável, fazê-la perder as estribeiras diante de milhões de desconhecidos, provocar seu pranto, sua emoção, isso não é notícia, isso não é essencial para compreender o evento, é desnecessário para dar a dimensão da tragédia. É sensacionalismo puro, é desrespeito, é o nível mais baixo aonde um profissional da notícia pode chegar. Não importa em que ele se formou, nem se fez aulas de ética e legislação.

Esse tipo de situação não é promovida pelo nada. Não se espalha pelo ar. São pessoas, outras, que encaminham essas ações. Essa é a questão. Eu me sinto ofendida como consumidora da mídia. E me sinto envergonhada como jornalista.

Não é justo responsabilizar "as pessoas". A responsabilidade é de quem produz e expõe esse conteúdo. "Ah, mas tem audiência". Não importa. Aposto que também tem a audiência de muitos que se indignam com a situação. Eu poderia replicar com: muita coisa de qualidade tem audiência. "As pessoas" gostam do que tem qualidade. Lembro-me, por exemplo, da época em que a TV Cultura tornou-se referência de programação infantil. Não foi porque meia dúzia de mestres e doutores lhe deram esse título. Foi porque "as pessoas" lhe davam a tal da audiência.

Não é um ou outro canal de TV. Não são os jornais impressos chamados "populares". Não é um raro portal de internet. É um comportamento generalizado - infelizmente -, verificável em veículos de comunicação dirigido a todos os extratos sociais, produzidos em todas as regiões do país, detentores de largo ou curto poder de alcance. Ou seja: as maiores emissoras de TV, os jornais de maior tiragem, etc etc etc, não só não escapam a essa lógica, como, muitas vezes, são os principais "alimentadores" desse comportamento-urubu, cuja principal razão de ser é a seríssima intenção de conquistar anunciantes.

Mais um motivo para se tratar como urgente a regulamentação da mídia e, principalmente, entender que nada é por acaso ou por culpa "das pessoas": empresas de comunicação são empresas; e desejam "liberdade" indiscriminada para fazerem o que bem querem, sem que a "liberdade" delas termine onde começa a sua. Isso NÃO é natural e pode SIM ser discutido. Censura é nos proibir de questionar.

"As pessoas", ainda que consumam essa merda toda, não podem ser responsabilizadas por alguma coisa cuja produção e veiculação em nada depende de sua ação.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Violência de "gênero" é o escambau

Para combater a violência contra as mulheres, é preciso tratá-la como elemento da vida real, e mostrar que o agressor é um homem e a agredida é uma mulher.


Nestes dias, o Brasil acompanha o julgamento do assassino de Eloá Pimentel, uma menina de 15 anos morta pelo ex-namorado. O motivo: ela rompeu com ele. Inconformado, e valendo-se do machismo que não aceita que as mulheres tenham as rédeas da própria vida, o rapaz sequestrou a moça e a manteve em cárcere privado por dias. Ao final, ela foi assassinada em rede nacional.

A atuação desastrosa da polícia paulista no caso é memorável. Basta lembrar que mandou de volta ao cativeiro uma vítima que havia sido libertada pelo sequestrador, a menina Naiara, que, ao final, teve como saldo a perda da melhor amiga e um tiro no rosto. Eloá pagou com a vida. Foi atingida por dois tiros que o sequestrador disparou quando a polícia invadiu o local.

Outra característica daquela situação foi a cobertura em tempo real. Enquanto Eloá e Naiara estavam sob a mira do revólver de Lindenberg, também estavam sob os holofotes da mídia. É certo que a cobertura jornalística deve haver. Para informação da população, para divulgação dos casos e para oferecer um olhar atento que intimide o criminoso. Mas o que se viu ali foi uma cobertura que, de tão sensacionalista, quase chegou a confundir vida real e ficção.

É importante que duas coisas fiquem claras. Uma, a violência contra a mulher não é ficção, não é tragédia de teatro e não acontece só com mulheres bem distantes da vida real. Casos como o de Eloá acontecem o tempo todo. Quem não se lembra da morte da cabelereira Maria Islaine, registrada pelas câmeras de segurança que ela mesma instalou para defender-se do ex-marido? Ou não percebe as incontáveis histórias de mulheres mantidas em cárcere privado por ex-maridos ou ex-namorados? Por que isso acontece? Os homens têm uma tendência "natural" à violência e as mulheres têm predisposição para ser vítima?

Desde sempre essas histórias acontecem (recuperei essa ideia em texto sobre o caso Elisa Samudio). O machismo é uma coisa integral que se manifesta em esferas diversas: na desigualdade salarial, em expressões culturais que subordinam as mulheres, nos atos de violência sexista, em ditas "tradições" que aprisionam as mulheres à vida doméstica de modo a cumprir dupla jornada e realizar gratuitamente uma massa de trabalho infinita. Isso tudo é uma coisa só, cada esfera retroalimenta a outra e assim vai. Combater o machismo é ter um olhar integral e integrado sobre tudo isso.

É por isso que não toleramos as famosas "brincadeirinhas" machistas, sem nos importar em sermos classificadas como "sem senso de humor". É por isso que repudiamos a mercantilização dos corpos das mulheres. É por isso que não aceitamos que homens que lutam dentro de partidos de esquerda e de movimentos sociais reproduzam, no âmbito privado, relações de dominação sobre as mulheres.

E, fundamentalmente, é por isso que não dá pra falar em "violência de gênero" e expressões derivadas. A violência é contra a mulher. Invisibilizar o alvo da violência é não contribuir para o seu enfrentamento. É preciso que se diga quem é a vítima e quem é o agressor. Gênero é categoria de análise, gênero não é sujeito de nada. Quem está exposta à violência são as mulheres, assim como quem se organiza para enfrentá-la são as mulheres.

O caminho para não permitir que haja mais moças de 15 anos que têm a vida interrompida nas mãos de um ex-namorado, mais mulheres e senhoras vítimas de violência doméstica, de cárcere privado, de assassinato, é entender que essa violência é cometida por homens sobre mulheres. É importante ter políticas para a prevenção e o enfrentamento. É importante que as pessoas entendam que é inaceitável, intolerável. É importante desnaturalizar as bases culturais dessa opressão. É importante desconstruir a base material da desigualdade. E pra tudo isso acontecer, uma coisa bem simples precede: é preciso deixar explícito que a violência é produto do machismo - aquele de todo dia, que não é nenhum espetáculo de TV. Chamar de "violência de gênero" significa andar dez passos para trás nessa caminhada.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A publicidade e o machismo nosso de todo dia

"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia."
(Marina Colasanti)

A publicidade nunca se notabilizou por ter qualquer capacidade de contribuir para transformar relações de desigualdade e intolerância, corrigir distorções, superar contradições. Muito antes pelo contrário. Na maioria esmagadora das vezes, ela se vale justamente de estereótipos preconceituosos, do medo, de constrangimentos, para vender seus produtos com "eficiência".

Para as mulheres, a mensagem dirigida, muitas vezes, é: "para não ser feia, encalhada, indesejada, você deve usar este cosméstico". Ou ainda: "para dar conta de trabalhar, cuidar dos filhos, do marido, da casa, e ainda ser gostosa, você deve usar este produto de limpeza". Isso não é a exceção. Difícil é fugir desse padrão.

E mesmo estando habituadas a sermos tratadas dessa forma, ainda nos espanta quando esse reacionarismo todo atinge níveis elevados, como aconteceu com a tal peça da Hope na TV, com Gisele Bundchen estrelando. Uma das mulheres mais poderosas e midiáticas do país coloca-se em posição de plena submissão e ensina que não se devem dar "más notícias" vestida.

Ora, vejamos: as más notícias a que ela se refere são episódios como acidente de carro e limite de cartão de crédito estourado. Nada de novo. Nada mais batido, senso comum e estereotipado que acusar as mulheres de serem más motoristas e boas gastadoras. Nada mais senso comum, também, que afirmar que uma mulher só é respeitada por seu "sex appeal".

O problema é que a gente não precisa, não pode e não deve se acostumar a ser vista e exibida dessa forma. Sempre que possível, é preciso sim denunciar o machismo contido nesse tipo de abordagem, porque se a gente não fala nada, quem vai falar? E se ninguém falar, nunca essa baixaria toda vai parar. Vai se fortalecer e continuar alimentando o conjunto da desigualdade que encontramos na nossa sociedade, que se expressa, com mais visibilidade, em tantos casos de violência doméstica, sexual, discriminação no mercado de trabalho e etc. Tem uma bitola nos olhos quem não vê que tudo isso está tremendamente relacionado.

Hoje, boa parte dos que mais se autodeclaram temerários à censura estiveram do lado de lá quando ela foi aplicada em regime de exceção no Brasil. Quando havia censura à arte, à informação, à livre circulação de ideias, à liberdade de expressar opiniões.

É uma nítida demonstração de retórica da ameaça, na proposição de Albert Hirschman, sugerir que a Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo Federal não possa cobrar um posicionamento do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), porque isso seria "censura". Nada pode ser mais infantil que corroborar com essa afirmação. A SPM está cumprindo seu papel, e deve fazê-lo. Por que a gente precisa aceitar?

Esse pessoal que adora temer a "censura" faz parte do seleto grupo de proprietários da mídia e seus financiadores, que censura impiedosamente qualquer tentativa de debate (eu disse: de debate) sobre a democratização da comunicação e sobre o combate dos excessos cometidos diariamente pelos veículos de mídia. Essa retórica toda é só pra, mais uma vez, tentar nos disciplinar. Mas uma ordem que me subjugue, não quero não, obrigada.

Portanto, um viva à liberdade de criticar o que nos oprime, à liberdade de expressar nosso desconforto, e de disputar para que seja diferente. Porque de mau uso e de subversão da liberdade de expressão, o mundo já está saturado.

* Alessandra Terribili, jornalista, mestranda em Ciência Política pela UFRGS.

sexta-feira, 11 de março de 2011

A culpa é das mulheres

Que o Jornal da Globo não deve ser referência para a construção de opinião de ninguém, isso já sabemos. Willian Waack e sua disposição extraordinária para o imperialismo e a direita, com frases de efeito e caras amarradas, são o testemunho principal de que se trata do telejornal mais posicionado politicamente na Rede Globo. Está à direita e não abre mão. Nem a cobertura do futebol escapa.

Ontem, mais uma demonstração disso. Para este artigo, vou me basear no texto disponível no sítio eletrônico do famigerado jornal, porque, obviamente, não decorei a matéria que vi na TV esta madrugada. 

A chamada anunciava uma tal pesquisa que dizia que as mulheres não pedem aumento, ou pedem aumento menos que os homens. A relação imediata e automática feita pelo jornal foi exatamente essa: as mulheres ganham menos porque não pedem aumento!

Não sei quem fez a pesquisa, o texto no site não diz. Ela afirma que 44% das mulheres entrevistadas já pediram aumento, contra 48% dos homens. Oh, enorme diferença! Eis aí o motivo da histórica desigualdade salarial. Um número mais expressivo revelava que 28% das mulheres pensam em pedir promoção, contra 39% dos homens.

Simplismo e machismo

Independentemente de se ter ou não acesso a dados e a uma reflexão um pouco mais profunda que um pires, parece-me, no mínimo, estúpido atribuir a desigualdade salarial a quem tem mais ou menos coragem de pedir aumento. E pra fechar com chave de ouro, a reportagem apresentava uma gerente de marketing que confirmava o raciocínio a partir do qual a matéria foi organizada: “Eu acho que quem coloca limitação é a própria pessoa. O mercado, hoje, está aberto”, ela dizia, categórica.

A grande mídia adora usar as exceções que confirmam a regra para culpar o excluído ou excluída pela sua própria exclusão. Mas a reportagem e a edição deveriam ter pesquisado um pouquinho mais. Considerar quando e de que forma as mulheres acessaram o mercado de trabalho. Em quais condições. Em que espaços. Em que contexto econômico. Vamos lá, não é tão sofisticado assim. Seria o bom jornalismo.

Na década de 90, por exemplo, auge da globalização neoliberal, enquanto nos países do centro do capitalismo o emprego feminino se expandiu em atividades de jornada parcial, como medida de flexibilização; nos países da periferia, o emprego feminino cresceu como precário e vulnerável, o que acompanhou e acentuou a tendência de informalização e perda de direitos. Esses postos estavam, principalmente, no setor de comércio e serviços, mais instáveis e mal remunerados (vide “Por quem os sinos dobram?”, artigo de Helena Hirata disponível no sítio da SOF).

Segundo dados divulgados pela Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo Federal em seu relatório anual 2009/2010, o rendimento médio de homens empregados com carteira de trabalho assinada é de R$1.117,77; enquanto o das mulheres, na mesma posição, é de R$884,82. Entre trabalhadores domésticos sem carteira assinada, no caso dos homens, o rendimento médio é de R$408,96; e o das mulheres, R$301,12. Sabe-se muito bem que, nesta última situação, falamos de um mercado muito majoritariamente feminino.

E é por que elas não pedem aumento que essa situação se mantém?

Vejamos outros dados a serem cruzados com esses primeiros. De acordo com o mesmo relatório, 46% dos homens realizam afazeres domésticos. Entre as mulheres, esse número é de 88%. As mulheres gastam cerca de 25 horas semanais nesses afazeres, enquanto os homens gastam 10.

A taxa de atividade para os homens (proporção da população economicamente ativa em relação à população em idade ativa; considerando-se pessoas com 16 anos de idade ou mais) é de quase 82%. Para as mulheres, 58,5%. E quase 65% das mulheres empregadas estão na informalidade. Todos os dados são da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios).

Lé com cré

Será que esses dados simplesmente não se relacionam? E que finalmente o Jornal da Globo nos deu a razão de toda desigualdade e exploração: a timidez das mulheres para pedir aumento???

É de amplo conhecimento que os salários das mulheres são, em média, 75% do dos homens, ocupando mesma função. Não precisam se esforçar muito pra perceber que elas são a camada mais desprotegida da classe trabalhadora, porque ocupam os postos menos valorizados, em espaços de maior instabilidade, e porque estão majoritariamente em empregos informais, sem qualquer garantia de direito. Quando a mulher é negra, a situação fica ainda mais complicada. A exploração da mão-de-obra feminina precisa ser observada desde um prisma mais completo do que a reportagem simplista e machista propõe.

Este humilde artigo não pretende mostrar historicamente como o mercado de trabalho brasileiro se compôs. Recuperar a entrada das mulheres no mercado de trabalho ajuda a entender por que o salário é desigual. Olhar ao mundo ao redor e ver que o machismo ainda é dos seus pilares estruturantes também ajuda. A inserção subordinada no mercado de trabalho não será resolvida por ação individual de mulher nenhuma, nem por benevolência dos patrões. O combate à desigualdade tem que se dar por política pública e por ação organizada das mulheres, que afinal, sempre foi o que levou às conquistas e à transformação do mundo.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Fábrica de preconceitos com roupagem intelectual

Reproduzo, abaixo, carta que a socióloga feminista Maria Lúcia Silveira enviou à ombudswoman da Folha de S. Paulo, a respeito de lastimável artigo publicado por esse jornal no último domingo (mais uma da Folha, aliás), assinado por um tal de Pondé. Sei lá eu quem é esse senhor. Nem me interessa saber. Mas seu artigo "misógino e vulgar", como disse Maria Lúcia, despertou reações.

Boa leitura.


Caríssima Ombudswoman

Qual sua posição sobre os impropérios constantes sobre as mulheres que pensam (e segundo eles, isso as torna peludas e feias) do colunista L.F. Pondé?

Dei até um tempo, evitei ler mais suas baixarias misturadas a citações de alguma antifeminista americana ou de algum filósofo sensível como Benjamin ( que deve ter se revirado no túmulo) pra ancorar o vômito de sua misoginia vulgar.

Mas desta vez, sua última coluna extrapolou! Não tinha lido, mas algumas amigas me passaram e achei um pouco demais. Se ele discute com seus alunos essa linda e profunda visão de mundo, coitados dos alunos da FAAP e PUC. É um pseudo-intelectual que deve ser fruto dessa delinquência acadêmica que coloca os seus em destaque. Por que não põem como colunista a profa Márcia Tiburi, hoje no Mackenzie? Uma mulher bonita, inteligente, vivaz e não peluda (como reproduz o senso comum machista) no seu auge.

Não precisa ter título acadêmico pra escrever a máquina de preconceitos sociais contra as mulheres. Isso circula de graça em nosso cotidiano. Nâo tem mais nenhum Paulo Francis, não. Só arremedos. Então, se quiserem colocar um pensador de direita, ou religioso coloquem um que não exponha preconceitos com roupagem intelectual. Nesse artigo último, nem isso ele faz! É inacreditável ver no espaço de um Contardo Calligaris e de um Marcelo Coelho, esse tal de Pondé!

Infelizmente, por essas e por outras vou cancelar minha assinatura da Folha de São Paulo. Ai que saudades que tenho da época que tinha um Claudio Abramo para ler, um Perseu Abramo.

Ia escrever pro Pondé protestando, mas só se mantivesse o seu nível: teria de perguntar se ele acha que se sua filha tiver um jantar pago por um exemplar masculino da espécie ele pode levá-la pra cama sem remorso. Ou se ele quer uma filha eunuco. Mas deixa pra lá. Vou escrever no blog coletivo em que participo [blog 300] porque pelo menos sou atacada por machistas em estado puro, sem persona intelectual. Aliás, fale pra esse articulista e pra seu editor que poderiam aprender algo com o Contardo Calligaris, Jurandir Freire Costa, Joel Birman, Maria Rita Khel e outros. Bibliografia também tem demais, mas pra não citar nenhuma feminista que essa Folha tem horror, leiam um clássico: Pierre Bourdieu, em A dominação masculina, tem tradução para o português desde 1999.

Pra mim chega!

Maria Lucia da Silveira
(socióloga, militante da Marcha Mundial das Mulheres e colaboradora da SOF - Sempreviva Organização Feminista)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Por que não voto no Prêmio "Congresso em Foco"

Não formo minha opinião a partir do que leio no que se convencionou chamar de PIG (Partido da Imprensa Golpista). Tenho uma relação estreita com a política, procuro me informar a partir de fontes variadas e do contato direto com quem faz disso uma forma de mudar o mundo. E tô fora desse mito de "imparcialidade". Não existe. No mais, todo mundo devia ter opinião, em vez de ser refém de quem tem.

Pronto. Já expliquei que relação eu tenho com notícias sobre política.

Minha opinião é de que isso de Prêmio Congresso em Foco é uma bobajada. Imagino que, basicamente, são os jornalistas do PIG que o promovem. E alguém sabe qual critério eles adotam para formar uma lista de "parlamentares que melhor representam a população"? Essa é uma pergunta importante, porque se ela não tiver uma resposta clara, o prêmio corre sério risco de, em vez de contribuir para o acompanhamento democrático da atividade parlamentar, criar uma nova modalidade (nova?) de vício.

A lista apresentada há poucos dias só reforçou essa minha impressão. A despeito de envolver bons nomes da política brasileira, gente séria da esquerda e da direita e bons mandatos - também, só faltava fazerem uma lista de abóboras né! -, não é possível afirmar o mesmo, igualmente, a respeito de todos os "indicados". O formato em que a iniciativa se apresenta abre brecha para questões não desprezíveis.

Uma delas é o reforço da grande mídia como mediadora da relação entre parlamento e população. Evidente que a mediação sempre vai existir. Mas é necessário que ela ocupe o lugar de mediação apenas, e não busque substituir o eleitorado e sua consciência. Inclusive porque as pessoas que efetuam essa mediação têm opiniões e sensibilidades particulares. Mais do que isso: nem só de grande mídia vive a opinião pública, e o Brasil está assistindo a uma demonstração disso neste preciso momento histórico.

E isso puxa outro problema: a possibilidade de fortalecer apenas um dos lados da disputa que se trava cotidianamente naquelas Casas. Isso se pode observar, com ainda mais clareza, na lista dos identificados com a defesa do meio-ambiente. Senti falta de outras figuras ali. Todo um lado da moeda ficou fora da lista de prediletos.

Desses dois desvios de rota, pode vir como consequência uma ação parlamentar meramente midiática, por vezes, descolada de um mandato que de fato seja representativo de bandeiras e opiniões políticas de parcelas significativas da população brasileira. Pior do que isso, pode alimentar um círculo vicioso entre jornalistas e parlamentares que não é bom para a democracia.

Tem coisa que é questão de opinião individual. Tem coisa que não. Vejam o Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), por exemplo. O órgão, igualmente, oferece uma lista de parlamentares influentes, baseada em elementos concretos. De acordo com a definição dele mesmo, "entre os atributos que caracterizam um protagonista do processo legislativo, destacamos a capacidade de conduzir debates, negociações, votações, articulações e formulações, seja pelo saber, senso de oportunidade, eficiência na leitura da realidade, que é dinâmica, e, principalmente, facilidade para conceber idéias, constituir posições, elaborar propostas e projetá-las para o centro do debate, liderando sua repercussão e tomada de decisão". Para chegar a isso, utilizam-se de critérios transparente e objetivos, quantitativos e qualitativos (veja em www.diap.org.br).

Para uma iniciativa como essa, midiática como é, são necessários critérios transparentes e objetividade. Os e as parlamentares devem prestar contas para a sociedade. A imprensa é meio para isso, não fim.

Por fim... odeio listas. Nada mais reducionista que uma lista. Odiava rankings quando era do movimento estudantil, não perdi essa mania ainda.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

"A diversidade do Brasil não encontra espaço nos grandes meios"

Entrevistei João Brant para o Jornal Democracia Socialista/Em Tempo, sobre políticas para democratizar a comunicação no Brasil, a importância da participação popular no processo e desafios que a esquerda precisa assumir rumo a essa meta. João é da coordenação executiva do Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social, e mestre em Regulação e Políticas de Comunicação pela London School of Economics e Political Science. Hoje, um grande lutador em defesa da democracia nas comunicações e das principais referências no tema.

Precisamos desmitificar a série de mentiras que os donos da mídia propagam para continuar mantendo seu monopólio.

Alessandra



Como você descreveria o atual quadro das comunicações de massa no Brasil hoje? Em, especial, do sistema de radiodifusão, que são concessões públicas.

O cenário é de concentração e exclusão, já que a maior parte da sociedade não tem mecanismos para fazer circular seus pontos de vista. Pra se ter uma ideia, a soma da participação das quatro primeiras emissoras de TV é de 83,3% no que se refere à audiência, e 97,2% no que se refere à receita publicitária.

O sistema público de comunicação, que poderia fazer frente a essa realidade, ainda é incipiente. Só em 2007, o Brasil se colocou o desafio de criar uma TV pública de abrangência nacional, e ela ainda tem um alcance muito restrito, com dificuldades concretas para ampliá-lo.

O conteúdo dos meios de comunicação reflete esse quadro. A diversidade do Brasil não encontra espaço nos grandes meios. Ao contrário, há um tratamento estereotipado e discriminatório especialmente em relação a mulheres, negros e homossexuais, e as pessoas que se veem atingidas por essa programação não têm meios de se defender.


Em termos de regulamentação, que iniciativas precisam ser tomadas para avançar na direção de uma comunicação democrática?

Hoje a realidade é de um sistema predominantemente comercial, concentrado e excludente. A lei que trata das questões de rádio e TV é de 1962, do tempo da TV em preto e branco. A complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal, que poderia equilibrar um pouco o poder das grandes redes, está na Constituição desde 1988, mas nunca foi regulamentada.

O artigo 220 determina a proibição direta e indireta a monopólios e oligopólios, mas as únicas regras que existem sobre isso são da década de 60, e não consideram fatores-chave como audiência e investimento publicitário, por exemplo. No mesmo artigo 220 está prevista a criação de meios legais para a população se defender de programação que atente contra os princípios constitucionais – outro ponto que segue sem qualquer regulamentação.

Para o artigo 221, que busca garantir espaço no rádio e na TV para programas produzidos regionalmente e para a produção independente, existe um projeto de 1991, mas ele está engavetado no Senado. Veja que estou falando só de pontos que estão na Constituição!

Para se pensar o conjunto da regulamentação do setor, deveríamos incluir, além disso, regras democráticas para concessões de rádio e TV e para as rádios comunitárias, promover a pluralidade e a diversidade nos meios de comunicação e, mais do que tudo, garantir instrumentos de participação popular na definição das políticas e no acompanhamento do setor.


Em outros países de tradição democrática esse já é um debate superado, não?

Sem dúvida. Em muitos países há órgãos reguladores que incidem sobre questões de concentração de mercado e questões de conteúdo. Há regras que incentivam a pluralidade e a diversidade – inclusive a pluralidade política –, protegem o público infantil, e mecanismos para a população se defender de programação que atente contra a dignidade humana. No Brasil, nem um órgão regulador independente nós temos, já que a Anatel não é responsável pela regulação do setor de radiodifusão.

Só para dar um exemplo, em 2004, o FCC, que é o órgão regulador nos EUA, queria diminuir os limites à concentração (que, mesmo com as mudanças, seriam ainda mais fortes que os do Brasil). Houve pressão popular contra a medida e até os republicanos votaram contra no Congresso. Isto é, medidas que por aqui são consideradas radicais, lá são defendidas até pelo partido da Sarah Palin!


Na Argentina, por exemplo, a reforma da legislação sobre comunicação foi polêmica porque houve resistência dos empresários. Já há algum balanço desse processo lá?

Os empresários vão sempre resistir à mudança do cenário em que eles reinam sozinhos, mas o processo da Argentina foi positivamente exemplar. Ele é fruto da combinação de setores sociais organizados com vontade política do governo.

A lei aprovada cria condições para a ampliação do exercício da liberdade de expressão e está amparada em toda a legislação internacional de direitos humanos. Ali estão tratadas todas as questões importantes para a regulação do setor audiovisual. É fundamental, por exemplo, a reserva de um terço do espectro eletromagnético para meios de comunicação sob controle de entidades sem fins de lucro. Essa medida, tratada por aqui como se fosse um absurdo, é apoiada pelos relatores de liberdade de expressão da OEA e da ONU.


A Confecom acumulou no sentido de propor marcos regulatórios e revisões da atual legislação?

A I Conferência Nacional de Comunicação teve 633 propostas aprovadas (sendo 569 delas por consenso ou com mais de 80% de votos favoráveis) que determinam uma agenda bastante progressista para o setor da comunicação. Foram aprovadas propostas sobre os mais diversos temas, desde o reconhecimento da comunicação como direito humano até o combate à discriminação de gênero, orientação sexual, etnia, raça, geração e de credo religioso nos meios de comunicação, passando por novos critérios para concessões e definição de limites para concentração, além da definição do acesso à internet banda larga como direito fundamental. Também foi aprovado um Conselho Nacional de Comunicação como instância central para a formulação e o exercício do controle social das políticas de comunicação.


Em relação às políticas de acesso à banda larga, o quadro é melhor?

Não muito. A internet é um espaço aberto e democrático, e tem contribuído para a democratização. Mas o Brasil não trata do acesso à banda larga como um direito do cidadão. Esse acesso é hoje caro, ruim e limitado. Apenas 24% das residências no Brasil têm acesso à banda larga. Se tomarmos as classes D e E, esse número cai para 3%.

O valor médio pago pelos brasileiros para ter banda larga em casa corresponde a 4,58% da renda per capita no país. Mais que o dobro do México e mais de 9 vezes o valor dos Estados Unidos! Mesmo quem pode pagar compromete uma parte significativa de seu orçamento familiar com este investimento.

Isso deve mudar com o Plano Nacional de Banda Larga, mas mesmo o plano – que é bom, ressalte-se, mas insuficiente – não coloca a meta de universalização do serviço. Fala-se, no máximo, em massificação.


Que desafio devem assumir a esquerda e os movimentos sociais no diálogo com a população sobre essa pauta? Os donos da mídia misturam maliciosamente qualquer proposta que vise à redução do seu poder com censura.

A defesa da liberdade de expressão deve ser uma bandeira dos setores progressistas, daqueles que nunca tiveram voz e sempre tiveram que lutar contra as opressões. Temos que juntá-la à bandeira do direito à comunicação, que implica obrigações para o Estado.

Quando se fala em controle social, o que queremos é justamente garantir que um serviço público, como é a radiodifusão, cumpra o interesse público. Na prática, isso significa garantir o controle da sociedade (e não do governo) sobre a regulamentação e as políticas públicas para o setor, sobre o serviço prestado e sobre o conteúdo exibido. Exemplos concretos: no primeiro caso, a existência de conselhos e conferências que determinem diretrizes para as políticas públicas. No segundo caso, garantir ao cidadão, usuário desse serviço público, a possibilidade de se defender de serviços de má qualidade – é o caso dos cegos, por exemplo, que até hoje não contam com o serviço de audiodescrição e não têm para quem reclamar. Nem um bendito 0800!

No terceiro caso, relativo ao conteúdo, é preciso garantir o cumprimento da Constituição, que prevê a existência de meios legais para o cidadão se proteger de conteúdo que viole o disposto na própria Carta Magna. Por exemplo, se um meio de comunicação exibe conteúdo racista, eu preciso acionar o Ministério Público Federal ou entrar diretamente com um processo, o que me demanda tempo, dinheiro e conhecimento técnico. Não há uma via não judicial, rápida, que proteja o interesse do espectador. As emissoras fazem o que querem, com um poder muito desigual em relação ao espectador.

É importante destacar que controle social do conteúdo não tem nada a ver com censura. Tem a ver com garantir a responsabilidade da emissora por aquilo que ela já veiculou. Essa responsabilidade posterior é absolutamente democrática, prevista inclusive na Convenção Americana de Direitos Humanos. Isto é, existe a liberdade para dizer o que quiser, mas você pode ser punido se o que você disser representar violação a outros direitos humanos. Parece óbvio, não?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Apesar de você

O editorial da Folha de hoje (1º de setembro) é uma aula de autoritarismo e prepotência. A turma da ditabranda publicou em sua página 2, sob o título de "Lula e a imprensa", texto que repudia e "analisa" de forma preconceituosa, elitista e arrogante as críticas feitas pelo presidente à grande mídia nacional (em geral, ele costuma destacar o tratamento desigual dispensado aos dois principais candidatos à presidência da República e a má vontade com seu governo).

Ao longo de todo o texto, o que a Folha quer dizer é que Lula critica a imprensa porque não aceita críticas. Ora, fica claro para qualquer leitor menos desatento que, ao agir dessa forma, é a Folha que não aceita ser contestada.

Vejamos. Ao longo das malfadadas linhas a que me refiro, a Folha autointitula-se "imprensa crítica", "jornalismo livre" e, explicitamente, coloca-se como 4º poder - lado a lado com executivo, legislativo e judiciário, mesmo não tendo sido eleita por ninguém para exercer essa tutela dos nossos direitos e do nosso "livre" pensamento.

Ora, a Folha é livre sim, mas num país de amordaçados. Muito mais livre do que deveria. Sim, liberdade tem limite. Quem nunca ouviu a velha história de "a liberdade de um termina onde começa a do outro"? De maneira que se a Folha é absolutamente livre, a liberdade de muita gente está invadida e cassada por ela.

E mesmo essa liberdade excessiva não implica que seu jornalismo seja livre. Muito pelo contrário. Ele é absolutamente preso às suas opções políticas e à sua visão elitista e conservadora do mundo. Ele é preso porque desde a montagem da pauta, passando pela abordagem da matéria, relação de entrevistados e escolha de fotografias para ilustração, tudo isso são escolhas políticas. Ingenuidade acreditar que não.

A Folha não foi eleita para representar a sociedade civil em espaço algum. Não tem concessão de "vigilância" dos poder. Faz isso como a empresa que é, que quer vender seus jornais, conquistar mais e mais patrocinadores e disputar consciências para construir sua opinião - ou fortalecer a opinião do conjunto que a inlcui. Faz isso movimentada pelos seus próprios interesses e o dos "seus". Eu sei bem quem são os "seus". Fica claro a cada página, a cada dia.

Em dado momento, o jornal retoma o preconceito odiável contra Lula e sua escolaridade, referindo-se irônica e cinicamente à falta de "habilitação conceitual" do presidente para entender a imprensa. Mas, ao que tudo indica, tem faltado habilitação conceitual e moral à Folha para compreender que Lula é muito melhor comunicador que ela.

Portanto, se eu pudesse falar com a Folha, eu diria: menos. Não me parece que as críticas de Lula à imprensa tenham qualquer origem em medo de nenhuma espécie. Mas sim, me parece que a Folha - embora tenha sido bastante poupada pela ausência total de políticas que visem à democratizar as comunicações neste governo - pode percorrer o mesmo caminho que levou ao triste fim da revista Veja: a opção consciente por abrir mão de assinantes para poder se tornar um panfleto reacionário.

A arrogância elitista da Folha, num editorial como esse, meramente demonstra seu incômodo por tentar, em vão, mudar o curso da história no país. Imagina só como ela vai se amargar vendo o dia raiar sem lhe pedir licença.


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É um grande desafio propor a democratização das comunicações como uma questão central para o próximo período. Esse monopólio precisa acabar. Direito à comunicação significa que não precisamos só ouvir, podemos falar. Sem mais amor reprimido, grito contido, samba no escuro.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Aborto no "Fantástico": sensacionalismo e superficialidade

O "Fantástico" de ontem (01/08) exibiu uma péssima reportagem sobre a prática clandestina de aborto no Brasil. Sem pé nem cabeça, a matéria serviu mais pra alimentar a desinformação do que contribuir para um debate tão importante. Muitos aspectos foram deixados de lado e, para garantir seu posicionamento de propaganda antilegalização do aborto, a reportagem tornou-se um imenso emaranhado de informações que não se relacionaram entre si.

Diante de um problema de enorme complexidade, o programa resolveu abordar apenas a ponta do iceberg: a existência de clínicas clandestinas no Rio, em Salvador, em Belém; e a venda de Citotec no "mercado paralelo". Com câmeras escondidas, adentrou as clínicas, questionou médicos(as) e atendentes sobre o procedimento, sobre o número de abortos realizados por mês, sobre riscos e preço. Exibiu rostos e nomes de médicos(as) e pessoas que trabalham nesses locais. Nenhuma mulher foi entrevistada - apenas uma que fez uso de Citotec há um mês.

A reportagem optou por não relacionar nitidamente dados expostos por ela mesma: de um lado, as clínicas existem, e as mulheres procuram por elas. Há riscos importantes para a mulher, provenientes das condições inseguras em que o aborto é realizado nesses locais. De outro lado, pesquisa realizada pela Universidade de Brasília aponta que uma em cada cinco mulheres, aos 40 anos, já fez aborto; e que a mulher que faz aborto no Brasil é absolutamente normal: tem religião, é trabalhadora, às vezes é casada, às vezes já até tem filhos. Poderia ser vizinha, prima, amiga, irmã, colega de qualquer telespectador(a) do "Fantástico".

Nenhuma palavra sobre o fato de ser exatamente a criminalização que gera essa clandestinidade e, por consequência, os riscos aos quais as mulheres estão expostas. A não legalização as leva a buscarem métodos caseiros improvisados e clínicas clandestinas sem nenhuma condição de higiene e segurança. Ambas as "alternativas" submetem essas mulheres à possibilidade de prisão, de sofrer sequelas profundas ou mesmo de morrer. Muitas acabam no SUS, para finalizar o procedimento mal feito, e são tratadas com crueldade por médicos e enfermeiros. Porém, certamente, há clínicas clandestinas bem equipadas, onde o aborto pode ser realizado com segurança e higiene. A essas, somente tem acesso quem pode pagar caro. Isso significa que a criminalização do aborto no Brasil é uma hipocrisia tão grande que condena aos riscos mencionados especialmente as mulheres mais pobres. Disso, a reportagem não tratou.

Uma reportagem, no mínimo, razoável, daria mais espaço à antropóloga da UnB que dissertou sobre os resultados da pesquisa mencionada do que os míseros 30 segundos a que ela teve direito; e com edição menos "malandra". A reportagem poderia ter falado da experiência de países que têm o aborto legalizado (por exemplo, mostrar que é fantasiosa a ideia de que a prática de aborto aumenta com a legalização) ou das diferenças que há entre um aborto realizado com segurança e outro, o clandestino.

A responsabilidade por evitar uma gravidez indesejada é integralmente da mulher: é ela quem deve tomar pílulas anticoncepcionais; é ela quem tem dificuldade de negociar com seu parceiro o uso da camisinha; são dela todos os ônus de eventuais falhas de métodos contraceptivos; é dela a vida que mais muda com o nascimento de uma criança, muitas vezes, sem pai. Apenas uma coisa não é dela: o direito de escolher levar a cabo ou não uma gravidez. A matéria também não falou disso.

Ou seja: a resportagem do "Fantástico" tratou a questão do aborto com superficialidade, sensacionalismo e preconceito. Falou do tema como se as mulheres que sofrem essas consequências fossem vítimas de profissionais mal-intencionados, e não da hipocrisia e do anacronismo. Se o aborto fosse legalizado, não haveria mercado clandestino. Aquelas que têm religião e crença poderiam segui-las livremente. Aquelas que optam por interromper sua gestação, também teriam liberdade.


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Conheça o conteúdo da pesquisa da UnB clicando aqui.

A "revista eletrônica" dominical global deu um show de jornalismo rasteiro, mais do que de defesa de uma opinião conservadora. Não foi além de uma pseudo-denúncia e abordou muito mal o tema que escolheu tratar.

Para quem quer saber mais sobre aborto e criminalização, sugiro o filme "O aborto dos outros", de Carla Gallo. Trailer abaixo.

terça-feira, 27 de julho de 2010

CQC: Originalidade na expressão do senso comum

Volta e meia aparece uma "novidade" na TV, pretensamente original, imparcial, inteligente. Particularmente, poucas vezes vi uma promessa dessas se confirmar.

Na TV Band, o CQC apresentou-se com essa embalagem: formato inovador, repórteres-comediantes, abordagens interessantes para temas conhecidos. Mas, parece-me - e posso estar enganada por não ser uma telespectadora assídua -, recorre a elementos já bem conhecidos do grande público para consolidar sua audiência. Acaba, portanto, tentando fazer o novo a partir do velho. Uma contradição em termos?

No programa de ontem, houve uma mensagem de saudação à aprovação, na Argentina, do reconhecimento do casamento gay. Um repórter foi às ruas mostrar que o preconceito é firme e forte. Outra repórter entrevistou celebridades que, esboçando alguma contradição ou não, felicitaram a decisão de nossos hermanos, em defesa da livre orientação sexual. Porém, entre um quadro e outro, ou dentro de cada quadro mesmo, as piadas que desqualificam os homossexuais - como imputar ao outro o qualidade de "viado" numa tentativa de diminuí-lo, de afirmar que ele é inferior - continua dando o tom. Uma contradição em termos?

Outra. No início do programa, Marcelo Tas fazia o discurso democrático da necessidade de dar espaço a todos os candidatos que disputam a presidência da República. Para demonstrar que pratica o que prega, a repórter Mônica Iozzi entrevistou, entre outros, o candidato do PCB, Ivan Pinheiro.

Talvez a jovem repórter não faça ideia de que falava com o representante de um partido de quase 90 anos. Partido que fez parte dos principais momentos da história do Brasil nesse período, e que expressa uma tradição internacional importante. Ivan Pinheiro e o PCB foram apresentados ao lado de Eymael e Levyr Fidelix, caricatos por opção, não simplesmente por abordagem da imprensa.

A repórter destacou 3 pontos da plataforma de Pinheiro: controle social da mídia, regulamentação do sistema financeiro e a defesa de um sistema político unicameral. Referiu-se a esses temas, em especial, aos dois primeiros, como questões ultrapassadas ou malucas mesmo. O fato de o candidato ter poucos segundos para falar de qualquer um desses temas deu um tom geral de deboche, de mundo da lua.

Talvez ela - e o programa - não faça ideia de que se tratam de temas muito discutidos e aprofudados pela esquerda brasileira. Propostas reais e exequíveis, que, infelizmente, não contam com tempo na grande mídia, que discorda politicamente delas, para serem apresentadas e disputadas.

O CQC, portanto, engrossou a mesma ladainha de que controle social é censura, e que moderno mesmo é a "livre" circulação de capitais, "livre" mercado, "livre" especulação. Mostrou ignorar que qualquer processo democrático que se preze (e nem precisa ser muito de esquerda para ver) inclui um marco regulatório para a atividade da imprensa, e o contrário disso sim é que é ditadura - a ditadura da mídia, dos poucos que a possuem. Não aceitou debater a existência de um Senado, essa Casa que remete aos imemoriais tempos imperiais, e cuja atuação, não raro, é motivo de vergonha para alguns homens e mulheres sérios que ali tentam trabalhar.

O CQC tratou o candidato Ivan Pinheiro como qualquer outra emissora de TV que finge que sua candidatura não existe. Contradição?

E, assim como todo veículo da grande imprensa, reforçou um rótulo de que a esquerda é jurássica, autoritária e até engraçada por isso. O que tem de novo?

Ah, sim. A vontade de fazer tudo isso parecer original.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Uma velha história

Nos anos 80, a luta contra a violência contribuiu para fortalecer e consolidar o feminismo no Brasil. As mortes de Ângela Diniz (1979) e de Eliane de Gramond (1981) por seus ex-maridos chocaram o Brasil. Eram mulheres que puseram fim a seus casamentos, e, além da brutalidade dos assassinatos, os dois casos envolviam pessoas conhecidas da opinião pública, o que lhes conferiu ainda mais “notoriedade”. "Quem ama não mata" era a resposta dada pelas feministas àqueles que sugeriam que os homens matavam “por amor”.

Mas não tardou a tentativa de transformar as vítimas em rés, “compreendendo” o criminoso, que teria “perdido a cabeça” por ação delas. Organizadas, as mulheres repudiaram o machismo que levou Ângela e Eliane à morte, e que, depois, buscou incessantemente justificar essas mortes com base na conduta das vítimas. A tal defesa da honra dos homens era reivindicada. O movimento de mulheres não se calou e colocou em questão as insígnias do "em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher" ou a ideia de que "um tapinha não doi".

O tempo passou e, em 2000, a própria mídia foi pano de fundo para um crime análogo. A jornalista Sandra Gomide foi morta pelo ex-namorado, Pimenta Neves, então diretor de redação de O Estado de São Paulo. O assassinato aconteceu precisamente porque o namoro acabou. Por conta disso, ela sofreu agressões físicas e verbais, perdeu seu emprego, foi perseguida. Neves chegou a ameaçar de retaliações qualquer pessoa que oferecesse trabalho a Sandra. Pela mídia, a moça chegou a ser tratada como "aquela que namorou com o chefe para subir na vida".

Em 2008, outro episódio de violência contra mulher gerou comoção nacional. Eloá Pimentel, com seus 15 anos, praticamente foi assassinada ao vivo e em rede nacional pelo ex-namorado, que a sequestrou e a manteve em cativeiro por cinco dias. A agonia da menina foi acompanhada em tempo real, e ao se tornar a personagem central de uma história dramática, ela, como as já citadas, teve sua vida exposta e sua conduta julgada, apresentada como principal fundamento do comportamento agressivo de seu assassino.

Há poucos meses, a vítima foi Maria Islaine, cabelereira, morta pelo ex-marido diante de câmeras que ela mesma mandou instalar no salão onde trabalhava, julgando que essa atitude a protegeria da violência anunciada. Dias atrás, tivemos a infelicidade de testemunhar o advogado do assassino defendendo seu cliente com o bom e velho “ela provocou”, espaço oferecido por Ana Maria Braga.

Eliza e Mércia

Agora, a mídia tem apresentado as histórias de Eliza Samudio e de Mércia Nakashima como se fossem romances policiais. Convida-nos a acompanhar cada momento, provoca comoção, sugere respostas, vasculha a vida das mulheres mortas e as expõe a julgamento público, sem direito de defesa. A tragédia é exaustivamente explorada, e no final, a lição que fica é: elas procuraram.

Mércia morreu, aparentemente, porque rejeitou seu ex-namorado. Cometeu o desaconselhável equívoco de querer sua vida para si mesma, de não aceitar perseguições, sanções ou intimidações. Entretanto, tem-se falado em traição e ciúmes. E lá vem, de novo, a conversa fiada (e retrógrada) da defesa da honra. Mas é Mércia quem não está mais aqui para defender a sua.

De Eliza, disse-se de tudo: maria-chuteira, garota de programa, abusada, oportunista. Acontece que não importa. Não importa se ela foi garota de programa, se era advogada, modelo, atriz, estudante ou deputada. Ela está morta. Teria morrido qualquer que fosse sua profissão, qualquer que fosse sua atitude. E morreu, aparentemente, porque o pai de seu filho não queria arcar com as obrigações legais e éticas de tê-la engravidado.

Ela nunca vai poder se defender das acusações póstumas. Não vai ao “Superpop” defender sua versão ou sua história. Não vai estampar a capa de “Contigo”, acompanhada de frases de impacto entre aspas. Ela está morta, e o que ela fez ou deixou de fazer, pouco importa agora. E seria prudente, inclusive, evitar julgá-la pelo crime que a matou.

Mais uma vez, a história se repete. Mulheres são mortas por homens com quem se envolveram. Assassinos frios, esses homens tiraram a vida de mulheres confiando na impunidade, porque há quem os “compreenda”. A morte de Eliza e de Mércia parece ter sido calculada e premeditada. E mesmo assim, segue ecoando a ideia de que a culpa é delas, que elas procuraram, que elas provocaram. Assustador.

O espetáculo da violência


Infelizmente, histórias como as de Eliza, Mércia, Eloá, Maria, Sandra, Ângela e Eliane são muito mais comuns do que se imagina. E antes de culminar em assassinato, outras formas de violência foram praticadas contra cada uma delas, como acontece com muitas – as que morrem e as que se salvam.

A espetacularização promovida pela mídia, no entanto, faz parecer que são histórias ímpares e distantes do cotidiano da vida real. Como se o perigo não morasse ao lado, como se muitas não dormissem com o inimigo. Na sua família, na sua vizinhança, no seu local de trabalho, no seu círculo de amigos, certamente há casos de violência contra mulheres, e certamente você ouviu falar de pelo menos um deles. Em recente levantamento, a ONG Centro pelo Direito à Moradia contra Despejos apontou que uma mulher é agredida a cada 15 segundos no Brasil, e uma em cada quatro afirma já ter sofrido violência. Há que se considerar também que existem as que não afirmam – por medo ou vergonha.

Essas mulheres não são co-autoras de seu assassinato. É recorrente a trama montada para torná-las rés, para justificar suas mortes nas ações delas mesmas, para tolerar a violência. “Que sirvam de exemplo”, parece que dizem.

Num mundo em que a desigualdade entre mulheres e homens se expressa visivelmente desde na divisão das tarefas domésticas até no controle dos corpos delas pela Igreja ou pelo Estado, passando pela realidade de violência e pela discriminação no mercado de trabalho ou por serem tratadas como objetos descartáveis na rua e na TV; ninguém pode dizer que não sabia; nem fazer piadinhas que celebram os casos. São mulheres de carne e osso, não são personagens de novela.

Os criminosos são homens, esses que as mataram. E são cúmplices todos os que a toleram ou que buscam subterfúgios no comportamento da vítima para declará-la culpada por sua própria morte. São cúmplices silenciosos, igualmente, aqueles que fingem que machismo, discriminação e opressão são peças de ficção.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Polvo alemão hesitou bastante antes de escolher vice de Serra

Do blog da revista Piauí. Hilário e imperdível.

OBERHAUSEN – Fritz Sbeltzlarger, empresário do polvo alemão que acertou todos os resultados da Alemanha nesta Copa do Mundo, revelou ontem que foi procurado há uma semana por Sérgio Guerra, presidente do PSDB. De acordo com Sbeltzlarger, o senador estava visivelmente transtornado e afirmou que “pagaria qualquer preço para que o molusco resolvesse uma questão espinhosa do seu partido”. Guerra confessou que já procurara uma cigana em Cochabamba, um guru indiano e um pajé do Alto Xingu, mas todos teriam reagido com uma gargalhada. O polvo era a última esperança, “até porque ele não ri”.

Antes que Sbeltzlarger se pronunciasse, Guerra sacou do colete diversas fotos e pediu uma “consultoria”. Sbeltzlarger não quis revelar o valor do negócio, mas fontes sugerem que a transação girou em torno de 150 mil dólares mais um cargo comissionado na gráfica do Senado para Frida Sbeltzlarger, sua tia-avó que mora em Blumenau. Já o polvo teria sido conquistado com a promessa de passar sete dias em Fernando de Noronha com tudo pago.

As fotos de todos os possíveis candidatos a vice de José Serra foram divididos em quatro grupos. Os cabeças-de-chave foram Aécio Neves, Álvaro Dias, Rodrigo Maia e o próprio Sérgio Guerra. A partir das previsões do polvo, os vencedores de cada grupo avançaram para a fase de mata-mata. Na final, o favorito Aécio Neves disputou a vaga com o azarão Indio da Costa. Testemunhas contam que, nesta hora, o polvo hesitou bastante. Chegou a fingir-se de morto, mas Sbeltzlarger deixou claro que se o animal não fizesse logo a escolha iria para a panela. Como o polvo insistisse em não se mexer, o empresário fritou ali mesmo um dos filhotes do bicho.

Quando o tentáculo do cefalópode finalmente tocou na pele morena do deputado carioca, Sérgio Guerra ficou arrepiado e teve uma epifania. Na mesma hora, tweetou que a questão estava resolvida.

Em Belo Horizonte, Aécio Neves concedeu a Medalha do Inconfidente para o polvo, e já está pensando em lançá-lo para deputado federal. "Desde que dona Risoleta morreu, ninguém fez tanto por mim", disse o ex-governador.

Para ler a "matéria" em seu local original, clique aqui.