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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Prosa do Avião - uma epifania

Com misto de assombramento e encanto, eu percebo, a cada vez que volto a São Paulo, que não a conheço mais. Desoriento-me nos caminhos, esqueço os nomes, falha-me a memória e a esperança de ali criar meus porvires. Caminho por calçadas que já foram tão surradas pelos meus pés, mas agora eles não encontram o fio da meada; olho para o alto da Consolação e não vejo a Paulista; não sei por onde anda o seu Antônio nem a vontade que eu tinha de um dia morar numa casa de vila. Os sons da cidade mais me impressionam do que comovem, e eu me vejo andando em círculo, cercada por flores de um buquê, não de um jardim.

Tudo que manteve seu sentido eu carreguei comigo, errante, mas leal. Meus olhos ainda guardam as manhãs que raiavam na janela do velho apartamento do Largo do Arouche, que hoje, na minha imaginação, é habitado somente pelas lembranças que lá deixei, e que, numa fotografia mental, aparecem-me em cores desbotadas.

Eu nunca mais voltei à USP, desabafava melancólica com a pessoa que mais me conhece na grande metrópole. Quando penso na ECA - Escola de Comunicações e Artes, onde estudei -, sinto o cheiro da grama molhada de chuva mais do que dos cachorros insistentes que dividiam o espaço conosco. Ouço a voz do Steven Tyler dizendo que "something's right with the world today/and everybody knows it's wrong", e os versos fazem mais sentido do que nunca.

Cada visita é uma nova ruptura e um novo começo. Eu encontro a cidade enquanto me perco na nostalgia de não me ver mais numa paisagem que sempre tinha me definido. Há tanta coisa que adormece na gente, que é difícil mensurar o tamanho do que se perdeu. Como se, do alto do Edifício Itália, eu não possuísse mais a cidade, mas sim, pudesse ver no horizonte os lugares onde ela não está e eu estou. Mais fácil, para mim, contemplar aliviada o que ganhei.

Naquela noite de domingo, quando ele abriu a porta e eu vi seu rosto, senti-me outra vez iluminada por aqueles raios que me despertavam nas manhãs da minha juventude, como se outra vez eu me enxergasse no meio do caos cinza, colorido de grafite e de sonhos de gente que vem de todo lugar. Ao emoldurá-lo, São Paulo me acalmou do susto e me devolveu para mim mesma.

E, tranquila, eu voltei para casa.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A culpa não é de São Paulo

Não vociferem contra o povo de São Paulo, não classifiquem a cidade como o motor do atraso, resistam à tentação de desejar que todo mundo lá se foda. A culpa não é de São Paulo. A culpa não é dos paulistanos. A culpa não é do povo da periferia.


A maior cidade do país é o espelho principal das nossas maiores contradições, sem nunca ter se conformado com elas. Ela não é imprevisível, ela não é uma geleia desforme. Ela não é de direita.

Quando a esquerda partidária recém se reerguia após vinte e um sombrios anos de ditadura militar, São Paulo elegeu uma mulher paraibana prefeita. Foi uma grande prefeita, valorizou o serviço público, priorizou a Educação, a Saúde, a Cultura Popular. Isso não se faz impunemente, e um personagem que muitos então consideravam morto (dada a sapiência nacional quanto ao seu compromisso com a derrotada ditadura, bem como quanto à sua vocação para a corrupção) foi ressuscitado pela elite que lhe entregou a tarefa do botar a cidade "nos eixos". Da força da grana que ergue e destrói coisas belas, ressurgiu Paulo Maluf para gritar diante de todos nós que a cidade não é nossa não senhor, que os servidores devem se colocar no seu devido lugar, que é o mercado que deve organizar a vida das pessoas. E dá-lhe obras milionárias, superfaturadas e pouco úteis. Sonhando ser presidente da República, essa criatura entregou a Prefeitura da maior cidade do país para o poste da vez, Celso Pitta, que ninguém conhecia, que tinha sido seu Secretário de Finanças (pense num ser que cuidou das Finanças numa gestão de Paulo Maluf), que tinha feito pós-graduação nos EUA e continuaria o trabalho do seu padrinho. Só que ele e seus vereadores foram com tanta sede ao pote que realmente trataram a cidade como propriedade sua, e caçoaram do povo paulistano em escândalos de corrupção explícita numa época em que era preciso bem mais que convicção do Ministério Público para prender alguém. Então, em 2000, quando nacionalmente se avistava uma onda vermelha, levantada pelos braços fortes e cansados de homens e mulheres que passaram toda aquela década resistindo ao neoliberalismo, às privatizações e à corrupção, São Paulo estava doente de tudo isso, e mais uma mulher conseguiu vencer a disputa pela Prefeitura, enfrentando o machismo que a reduzia a esposa de alguém e a condenava ao rótulo de "sexóloga". Ela foi uma grande prefeita, revolucionou o modelo de transportes, iniciou um processo de ligação centro-periferia que seus sucessores não conseguiram destruir. Não se faz isso impunemente, e lá veio José Serra defender o legado de tédio, do nojo e do ódio que fora derrotado nas eleições nacionais justamente na sua própria figura. E Serra reinverteu as prioridades, governou com os poderosos no bolso e nos gabinetes, não concluiu seu mandato para manter sua tradição pessoal e entregou a cidade a um aventureiro representante legítimo da covarde e escravocrata elite paulistana. Gilberto Kassab conseguiu se reeleger com o apoio de seu padrinho (que, inclusive, já em guerra interna pela hegemonia do próprio partido, só fingiu que seu candidato era aquele que hoje governa o estado e que acaba de eleger prefeito um homem que é só sua invenção tresloucada). E depois daquele marasmo todo, a cidade, acorrentada, debateu-se forte mais uma vez para poder entregar a condução dela ao cientista político, ex-Ministro da Educação, que olhou São Paulo como um todo e aceitou o desafio de transformá-la numa panamérica de áfricas utópicas em que as pessoas têm direito à própria cidade. Não se faz isso impunemente.

São Paulo está acorrentada, mas se debatendo. A cidade é viva, e mais do que nunca, graças à nossa última intervenção nela. A decisão dos paulistanos, outra vez, foi a pior possível. Mas quem aqui é ingênuo a ponto de pensar que os paulistanos tomaram essa decisão livremente, e em condições justas de disputa? A importância de São Paulo é enorme, é decisiva para nós como é para eles, e todos nós sabemos disso. É por isso que nós jamais conseguimos transformar a cidade impunemente, mas eles também não conseguem reverter as nossas conquistas com facilidade. É por isso que, em 28 anos, a cidade acorrentada está sempre se debatendo, sem se conformar, sem permitir. É por isso que, nesse poço de contradição, São Paulo é referência nossa sim. É por isso que, nesse tempo todo, eles utilizaram o pior que há em seu arsenal para construir a rejeição de Luiza Erundina, de Marta Suplicy, de Fernando Haddad. Parece que não dá pra acreditar. Mas dá sim.

A cidade que, generosa e imponente, ofereceu palco e cenário para a reconstrução da esquerda nacional, que é sede do PT, da CUT, do MST, do MTST, do PSOL, da Marcha Mundial das Mulheres; também garante terreno para a Fiesp, para a Opus Dei, para o Luciano Huck e os empreendimentos de gente que treina o sorriso no espelho todo dia para disfarçar a podridão de sua trajetória real. Tudo isso convive, e não em paz. A cidade acorrentada se debate sempre. A culpa não é do povo.

O ódio sem noção, sem sentido, sem razão (como todo ódio) do qual Erundina foi vítima, Marta foi vítima, Haddad é vítima e todos nós temos sido vítimas mais do que nunca. Ódio que se apropriou dos nossos erros, mas é motivado pelos nossos acertos. Ódio cuidadosamente elaborado nas salas fechadas nas residências do Poder Judiciário, dos banquetes palacianos, do Parlamento, da mídia, do grande empresariado nacional e internacional. Foram eles que pagaram a campanha do playboy colunista social cafona e hipócrita. Foi deles que veio o discurso. Foram eles que usaram Russomano para isso. São eles que, a partir de agora, se digladiarão internamente em batalhas fatais para escolher qual dos dois será o condutor desse projeto nacional daqui por diante: o pai de Kassab ou o pai de Dória.

São Paulo está acorrentada, mas ela não se acorrentou sozinha não. Não odeiem a cidade, seu povo, muito menos aqueles e aquelas que seguem fazendo dela o mais possível quilombo de Zumbi. O que fizemos e fazemos em São Paulo é referência e motivo de orgulho, e é assim que nossa metrópole nos deixa a principal lição que se pode assimilar de mais este processo viciado de eleições: nós, lutadores e lutadoras, jamais executaremos nosso programa impunemente.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A Vila Matilde

Às vezes, é a Vila Matilde.

Ela cruza o caminho e chega num sorteio de bicicleta dum programa vespertino na TV. Nas caminhadas longas em pernas curtas até um mercadinho ou uma banca de jornal. Até o correio.

A Vila Matilde vem e traz um mundo que era muito grande, quando a casa era um sobrado e a rua era pacata, mas mesmo assim, a gente tem medo.

A vizinha curandeira
A vizinha alcóolatra
Os meninos jogando bola, fazendo barulho no portão

Uma tartaruga e um cachorro convivendo (mal)
Carpete
Quintal
E um camundongo eternamente perdido no quarto dos fundos

A sensação de que a vida será imensa
Uma pulsação de coração que joga seu próprio som pra fora e além
Uma paz que ficou ali, perdida
Presa numa ratoeira
Esquecida que nem brinquedo velho

Sempre que eu esqueço como faz pra ter paz,
Penso que preciso ir lá na Vila Matilde procurar.

sábado, 25 de janeiro de 2014

São São Paulo, meu amor...

A borboleta e o avião

Jardim América, Jardim Ângela, Jardim Japão

A Ponte Estaiada e o Minhocão

Um quadro no MASP
Um grafite na Amaral Gurgel

O rio e a bica
O parque e o complexo industrial
Chuva. Sol.

Gente diferenciada
Gente marginalizada
Gente diferente
Gente

A intolerância que leva à morte
O sonho que leva à morte da intolerância

Cavalera
Adonyran

Sashimi e Baião de Dois

A Águia de Haia
voando sobre a cabeça
do Engenheiro Berrini

Estádio do Morumbi
Campinho do Ceret

Três horas para chegar
Três minutos para terminar

Trem da CPTM e barquinho do Playcenter

O Bixiga e a Liberdade
O paraíso e a consolação


O Museu da Língua
A língua se reinventando
no baile dos sotaques 
e neologismos

A Paulista enfeitada
A Paulista ensanguentada
A Paulista manifestante

Guarapiranga e Carandiru

Pulsa, pulsa, pulsa, pulsa...

Quase cinco séculos.
Parece que foi ontem.









sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Três Apitos

Eu tenho a sorte de não ser de um lugar só.

Sinto-me do mundo, e do Brasil, como um mundo em si. Olho e meus olhos se enchem de cores, às vezes, elas caem dos olhos em forma de água salgada. Mas é porque nasceram no peito mesmo, e meu peito é de água do mar.

Nasci na maior cidade da América do Sul, uma linda e louca que me ensinou justamente isso: a gostar do mundo. Me deu os olhos que veem e o peito que sente e fabrica palavras e emoções com a mesma força.



Renasci na minha Porto Alegre, de quem tenho saudades todos os dias. Não sei quem eu sou sem essa eu que nasceu lá.


E a minha Brasília amarela, que tem céu infinito e tanta vida e flores no meio do poder e do concreto, que chega a ofuscá-los. Ela fica bem no meio, não imagino lugar melhor pra ressignificar e reordenar caminhos.


De cada uma eu levo uma porção de coisas. Eu tenho três casas. Tenho a sorte de não ser de um lugar só.

"A tua raça quer partir,
guerrear, sofrer, vencer, voltar.
A minha, não quer ir nem vir.
A minha raça quer passar".
(Cecília Meireles)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O ódio, a náusea e uma flor para romper o asfalto


Nos 110 anos de Drummond e nos 3 dias da eleição de Fernando Haddad em São Paulo.
***

Eu me lembro bem da eleição da Erundina, em 1988. Tinha 9 anos. Ela era a terceira colocada nas pesquisas, mas surpreendeu e superou Paulo Maluf (na época, no PDS, a velha Arena da ditadura) e João Leiva (que era do PMDB do então governador Quércia). Uma mulher paraibana foi a segunda a chefiar a Prefeitura da maior cidade do Brasil depois do regime militar, época de prefeitos biônicos.

Depois dela, vieram 8 anos de malufismo. Primeiro, o próprio. Depois, seu sucessor, Celso Pitta, cassado por corrupção. A crise na cidade somou-se a outros fatores da conjuntura - inclusive, nacional - e abriu espaço para uma nova liderança que se projetava, Marta Suplicy. Em 2000, ela venceu as eleições e foi a segunda prefeita do PT em São Paulo. Dos quatro anos que se sucederam, eu me lembro perfeitamente bem. A criação do bilhete único, os corredores de ônibus, os CEUs na educação municipal, a política habitacional avançadíssima, políticas para as mulheres, para a juventude, combate ao racismo e à homofobia. Foi um baita governo.

Em 2000, aliás, o Governo Federal do PSDB comemorava 500 anos do "descobrimento" do Brasil, como quem passa asfalto sobre a nossa história. Afinal, nesses 500 anos, eram eles legítimos representantes dos que sempre mandaram e desmandaram no país, desde D. Pedro I, desde antes. Definiram que o Brasil estava fadado a ser dependente, que Universidade não era para todo mundo mesmo, que nem todo lugar poderia ter energia elétrica mesmo, que o latifúndio era a única forma de produção mesmo. Asfaltaram esse caminho e seguiram. Mas veio 2002.

Em 2002, José Serra foi o porta-voz do projeto político que propunha o tédio para o Brasil. Vamos continuar onde sempre estivemos, não há por que mudar. O caminho está asfaltado e nós estamos percorrendo. Nada de novo pode acontecer. Não há esperança. Precisa haver medo de mudar. E tédio para continuar.

Mas ele perdeu. Finalmente, ganhávamos a Presidência da República.

Em 2004, não conseguimos reeleger Marta em São Paulo, mesmo com a periferia ao seu lado. E lá veio o Serra com seu tédio. Não terminou seu mandato, virou governador, não terminou seu mandato, tentou ser presidente de novo, perdeu.

Quis voltar à prefeitura agora, em 2012. Depois de ter deixado a cidade com Kassab e, assim, contribuído para a criação de mais esse ilustre personagem do cenário político nacional, o homem ainda quis voltar. O Maluf, quando quis voltar depois do Pitta, disse que só ele poderia consertar a cagada que ele mesmo fez. Pelo menos, era engraçado. O Serra nem isso.



E aí vem o ódio. Esse ódio que começou a ser cultivado em 2002. Ódio que, em 2004 em São Paulo, quando da nossa derrota, fazia alguns dizerem que pobre não sabe votar. O ódio expresso na fala de Borhausen em 2005, que anunciava que se livrariam da "nossa raça" por 30 anos. O ódio que eu sentia nos bairros de classe média em São Paulo, quando fazia campanha para Lula e Mercadante em 2006. Chamavam-nos de ladrões, faltava cuspir-nos na cara. Esse ódio que se travestiu de fé cristã e permeou todinha a campanha do Serra em 2010. E em 2012.

Esse ódio praticado por pessoas que me acusam de mensaleira sem me conhecer, mas não sabem o que é o tal processo do mensalão, nem fazem ideia. É um ódio que tá nos olhos e na boca de gente que dirige agressões e ofensas a amigos e amigas que tenho, que votaram e apoiaram Haddad. Ódio transbordado de pessoas que dizem que o socialismo mata e o capitalismo salva, pessoas que não conhecem bem a história e costumam reproduzir acriticamente ideias vagas e deturpadas sobre países, eventos, conceitos, políticas. Ódio que percorre as palavras de imbecis do naipe de Azevedo, Mainardi, Pondé, Jabor, Waack.

O ódio contra o PT não é pelos seus erros. É pelos seus acertos.

Não devolvo com mais ódio. Fico com um certo nojo, confesso. Chega a dar enjoo. Ouvi e li cada coisa nos últimos dias pré-eleição em São Paulo, bem como nestes poucos dias pós-eleição, que me fez ter vontade de vomitar. Agressões, ofensas, preconceitos de toda sorte. Não devemos seguir até o enjoo total, mas nem vomitar nossas palavras sobre quem jamais as aceitaria. Melhor traduzir esse nojo numa sonora gargalhada comemorativa: nós vencemos.

Na disputa de projetos em São Paulo, venceu o PT. E venceu para executar sua vocação transformadora, para peitar as desigualdade históricas, como fizeram Erundina e Marta. Para olhar para as periferias com respeito, não com clientelismo-coronelista. Para fortalecer os serviços públicos. Para que nunca mais se admita que uma pessoa seja agredida ou morta na rua por exercer sua livre orientação sexual. Essa é a nossa flor: o nosso programa de mudança.

Uma flor nasceu na rua! E ainda que a execução desse programa acentue o ódio de classe em alguns, que sempre nos odiarão por termos questionado sua propriedade sobre nossa cidade e nosso país, que sempre nos odiarão por termos retirado-lhes o poder que pensaram ser exclusivo deles, que sempre nos odiarão porque, sob nossos olhos, não poderão saquear o povo brasileiro como sempre fizeram (e ainda querem vir falar de mensalão)... Ainda assim, muitos outros e outras se encantarão. A flor é nossa arma para esse encantamento. A massa cheirosa vai ficar isolada, vendo passar na avenida Paulista um samba popular.

Se a esperança pôde vencer o medo, o que poderia vencer o ódio? Essa flor nossa. Ela é capaz de furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.



***
Muito feliz por ter visto a vitória de Fernando Haddad domingo em São Paulo. Gargalhando para curar a náusea e cultivando flores para vencer o ódio.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um santo

Era um bar que ficava na Vital Brasil, bem perto da USP. Era certo que sair da faculdade e passar lá significava encontrar algum perdido ou perdida tomando uma cerveja ou só comendo um lanche mesmo. Os meninos gostavam de ir lá jogar sinuca. Quando ganhávamos alguma eleição de centro acadêmico, o endereço da festa era aquele.

O Moisés e o Bigode nos atendiam. Às vezes, davam um pacote de salgadinhos. Outra vezes tinham que nos expulsar, porque não iríamos embora livremente.

Estou triste de saber que o San Raphael vai fechar. Não é uma tristeza daquelas... “ah que pena, não vou mais poder freqüentar”. Afinal, ele tá lá no Butantã, em São Paulo, e eu, em Petrópolis, Porto Alegre. E convenhamos, mesmo que eu estivesse em São Paulo... não sou mais universitária, não moro na zona oeste, não como mais aqueles sanduíches gordurosos...

Tem uma linda crônica de Vinícius Carpinejar em que ele fala dos “amigos invisíveis”. São amigos que você tem ao longo da vida e acaba perdendo o contato. Isso não é ruim, necessariamente. Algumas pessoas são parte integrante e indissociável de um momento da nossa vida. Importá-las de um momento para o outro pode não ser bom. E não importá-las não diminui sua importância, não quer dizer que elas não fazem parte da nossa vida. Significa apenas que aproveitamos ao máximo essa amizade no momento em que isso devia ser feito.

É assim que penso no San Raphael. Imagina eu chegando lá hoje? Haveria uma dezena de estudantes da USP, bebendo, comendo, jogando sinuca, brigando, falando alto, dando risadas... como eu fiz uma vez. Mas eu não os conheceria. Não sentaria em mesa alguma apenas para jogar conversa fora, caçoar da aula que estou matando, reclamar dos contratempos do movimento estudantil... “isso não me pertence mais”. O San Raphael também não. Seria egoísmo ou síndrome de Peter Pan pensar o contrário.

É com esse espírito que estou triste porque o bar vai fechar. Os novos estudantes, os novos militantes do movimento estudantil não vão mais fazer suas reuniões secretas lá. Não vão conhecer o Moisés e o Bigode, nem vão ser obrigados a tomar Antarctica porque “é mais barato”. Aquele lugar guarda um monte de histórias do movimento estudantil. Até no dia em que, em ato político, lembramos os 30 anos da morte de Alexandre Vannucchi Leme (em 2003) – nome do nosso DCE –, foi pro San Raphael que levamos os antigos colegas dele que compareceram à atividade... E agora, essas histórias todas vão ficar enterradas lá. Não vão ficar pairando pelo ar, assombrando os novos e novas que sempre chegam.

Queria estar lá na sexta, para me despedir. Porque não posso, escrevi isto aqui. Um brinde ao San Raphael.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

De coração de Natal

Ano passado, mais ou menos a esta altura do ano, chovia em São Paulo também. Eu saía de uma reunião – a mesma a que compareci no fim de semana último – e levava companheiros ao aeroporto de Congonhas. Lembro que alguma coisa acontecia na sede da UNE, pois os e as jovens que participavam da mesma reunião que eu dirigiram-se para lá antes mesmo do nosso compromisso terminar.

Voltando do aeroporto, pela Avenida 23 de Maio, chuva fina no pára-brisa, imaginava calada e distraída que seria ótimo ir para casa descansar de dois dias de reunião. Ou ainda, que poderia ligar para algum dos bons amigos para uma boa cerveja, e assim, também descansar dos dois dias de reunião...

Eu não sei bem por que, mas no fim das contas, peguei a Tutoia e segui na direção da UNE. Nem sei se cheguei a tomar a decisão de ir para lá ou se o carro me levou porque quis. Não fui para casa, não fui tomar cerveja. Fui oferecer minha ajuda a companheiros(as) que credenciavam entidades ao tal fórum da UNE. Registre-se: havia uns anos que eu não acompanhava absolutamente nada, atividade nenhuma, nenhuma discussão, do movimento estudantil. Fiz parte da direção da entidade, na pasta de mulheres, de 2003 a 2005. Depois disso, passados poucos meses de acompanhamento da nova gestão, virei adulta e as costas para o movimento que me formou.

Estranho. Mas aquele dia, acabei indo pra UNE. Espírito natalino? Oferecer ajuda? Não sei. Fui para a UNE. Minha irmã estava lá. Fui pra UNE. Sei lá fazer o quê.

Sei que a Avenida Paulista estava inacreditavelmente congestionada. Eu não peguei aquele trajeto, mas muitos chegavam bufando na sede da entidade por conta disso. Lembro que retardei meu retorno daquela imprevista visita exatamente por causa daquele tão anunciado trânsito da Paulista. Eu não entendia o que levava tanta gente à mais famosa avenida de São Paulo num domingo às 22 horas. Mas vai saber. Podia ser um acidente, recapeamento, montagem de palco para a festa de réveillon, semáforo embandeirado. Muita coisa é capaz de causar um baita trânsito em São Paulo. Comum.

Em algum momento, alguém chegou e alertou:

- Ei, fujam dos arredores da Paulista, tá tudo parado lá.

Sim, mas onde estávamos era arredor da Paulista. “Inevitável dirigir-se ao centro fugindo dos arredores da Paulista, criatura esperta”, pensei. E também, àquela altura, essa notícia já não era novidade pra ninguém. Alguém foi mais curioso que eu:

- Mas por que trânsito a esta hora? É domingo e passam das 23h!

- Ah, são as luzinhas de Natal.

Estranhei. Mas um belo rosto surgiu para fazer a seguinte consideração:

- Aqui nesta cidade as pessoas causam trânsito para ver Papai Noel???

Todos riram. De fato, até para mim, paulistana, soava estranho. Não é um fenômeno tradicional, mas acho que era uma tradição se formando... todos os prédios da Paulista se enfeitam, se iluminam, se enchem de bonecos e decorações para marcar a chegada do Natal. E as pessoas vão lá ver... ficam lá, tiram fotos... passam devagar com seus carros para não perder nada... veem Papai Noel sim. Que coisa.

Natal é isso, parece uma histeria coletiva. Odeio os shopping centers entupidos, o trânsito da Paulista iluminada, os especiais de Natal da TV...

Enfim. Lembrei de tudo isso porque hoje encontrei a seguinte matéria no portal UOL: “Turista enfrenta chuva e trânsito para visitar decoração de Natal em São Paulo”. Falava da Avenida Paulista... A primeira coisa que lembrei foi a ironia sutil na voz do belo rosto que estranhou a mobilização pró-Papai Noel na maior cidade brasileira. Alegrou-me o dia lembrar aquela situação, em seu conjunto, porque desde aquele dia esse rosto passou a fazer parte da minha vida.

Em seguida, pensei: “Pôxa, que coisa chata, as coisas se repetem iguaiszinhas todo ano”! Chuva, congestionamento na Paulista, decorações de Natal, Papai Noel, credenciamentos de atividades da UNE... a mesmice é incômoda. É inimiga da espontaneidade.

Mas... no fundo, é assim: os olhos precisam estar atentos, porque, em meio à mesmice, sempre existe uma novidade especial que enche os olhos de quem não se acostumou a olhar sem ver.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Uma senhora gentil - que se recupere logo.

O Juca é um companheiro do PT da zona sul. Eu o vi, hoje, se emocionar ao falar de uma senhora mineira que está muito doente, e que não tem ninguém por ela. Ninguém mesmo. E está bem doente. Juca disse a ela que trabalha com um vereador de São Paulo que é médico. Ela queria que o Juca levasse o Neder lá, porque ela nunca tinha conhecido um médico... e mandou, doce e gentilmente, uma cachaça mineira ao nosso companheiro parlamentar - e médico.

Hoje, abrimos a cachaça que foi presente dessa senhora para comemorar que o ex-vereador confirmou sua vaga na Assembléia Legislativa do estado. Ao som dessa história e defronte às lágrimas que o Juca derrubava ao dizer que ela está no hospital agora.

Tô contando isso aqui porque é inimaginável que uma senhora de 82 anos nunca tenha ido ao médico. Mas, ainda bem, é imaginável a generosidade de um Juca. E a simplicidade gentil e humana dessa senhora. Sei lá, histórias que dá vontade de contar. Elas devem ser milhões.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Um homem dirigindo as políticas para as mulheres

O prefeito Gilberto Kassab convidou o deputado José Aristodemo Pinotti para dirigir a Secretaria Especial da Mulher, que será criada para o próximo governo.

Ponto 1: que bom que haverá uma secretaria! É reivindicação das mulheres que haja um organismo de governo com autonomia política e orçamentária para elaborar, articular e implementar políticas públicas para as mulheres em todos os níveis.

A criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres no Governo Lula foi uma importante vitória das feministas do PT. Do mesmo modo, a última gestão petista na cidade, com Marta, teve no trabalho da Coordenadoria Especial da Mulher uma referência para o país inteiro no combate às desigualdades através de políticas públicas para a construção de autonomia das mulheres. Aliás, pena que Marta não falou sobre isso na última campanha.

Serra e Kassab, ao assumir a prefeitura, retiraram importância política e orçamento da Coordenadoria. Jogaram-na numa tal de “Secretaria de Participação e Parceria” e o resultado que têm para mostrar é quase nulo.

Ponto 2: um homem conduzindo uma Secretaria de Mulheres? Só pode ser piada. Olhem o significado simbólico que tem uma indicação com essas características. Um homem, médico, ginecologista, deputado do DEM. Responsável por produzir políticas para as mulheres. Políticas essas que devem visar à construção da autonomia das mulheres, à construção da igualdade entre homens e mulheres, ao combate ao machismo ainda tão marcadamente presente. As mulheres não precisam de mais clientelismo e demagogia. Não precisam de mais um “cuidador”.

As mulheres precisam é ter direito a viver livres de violência sexista. Precisam de creches, de inserção no mercado de trabalho, de atenção integral à sua saúde (não só ao seu útero), de educação não sexista, de participação política! As mulheres devem protagonizar essas políticas, conduzir seu próprio caminho rumo à transformação, ao enfrentamento da desigualdade.

Estranho que quem vai elaborar e executar essas políticas não seja uma de nós, que sabe o que é ser mulher neste mundo de homens.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A triste política que se faz na Câmara Municipal de São Paulo - parte II

A primeira derrota de Kassab na Câmara desde que se reelegeu, e, aliás, desde mais de um ano atrás, se deu por ação do chamado “centrão”.

O “centrão” é composto por um grupo de parlamentares que se caracterizam por agir meio como base governista, meio sem princípios político-ideológicos, meio a fim mesmo é de desfrutar dos benefícios que o poder traz. É por isso que mantêm uma relação dúbia com o poder executivo, e raramente seguem uma linha coerente de intervenção na Câmara Municipal.

Pois é, nesta semana, em que as negociações para a composição do novo governo de Kassab estão a todo vapor, eles decidiram votar contra o prefeito. O projeto era do PT, do vereador Antônio Donato, um decreto legislativo que derruba uma portaria do executivo. O conteúdo: a prefeitura queria regularizar a situação de 116 flats na cidade de uma tacada só.

A prefeitura está, mais uma vez, do lado em que sempre esteve. Parece que boa parte desses flats, definidos como “imóveis de uso residencial com serviços”, operavam de fato como rede hoteleira. Acontece que o plano diretor da cidade determina em que regiões hotéis podem se instalar. E a fiscalização de hotéis é diferente da fiscalização de imóveis residenciais. Olha o abacaxi.

O “centrão” mesmo não está preocupado com isso. Na Folha de S. Paulo de hoje, expoentes seus afirmam que “quando são afrontados, têm que reagir”. Avaliam que o poder executivo afrontou o legislativo, pois uma situação como essa não se resolve na canetada. E que votar a favor do projeto do PT significava, para eles, garantir a independência do legislativo. Nem uma frase sobre o conteúdo dos projetos. Vai saber o que eles vão fazer depois, na hora H da definição. Desse projeto e da composição do governo.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A triste política que se faz na Câmara Municipal de São Paulo

E no momento em que tanto se fala sobre fidelidade partidária - da qual sou absolutamente a favor, sem atenuações -, lá vêm vereadores(as) de São Paulo, mais uma vez, dar uma lição de antipolítica.

A coligação que apresentou a candidatura de Marta à Prefeitura era composta por PT, PCdoB, PDT, PSB e PRB. Desses, apenas o PDT não entrou na coligação proporcional (a que apresenta uma chapa de candidatos/as a vereador/a), que fez 16 cadeiras na Câmara. Imagina-se que quem vota numa chapa que sustenta uma candidatura de oposição à atual administração municipal tem uma visão crítica à mesma, com a expectativa de que seu/sua vereador/a represente essa opinião.

Pois bem... Eliseu Gabriel(PSB), Noemi Nonato(PSB) e Bispo Atílio(PRB), eleitos pela votação do PT - porque seus partidos, sozinhos, não teriam obtido votação suficiente para eleger nenhum deles - nem tomaram posse e já migraram para a base governista que vai sustentar Kassab na Câmara. Depois de participarem de uma chapa de oposição, eles refletiram e chegaram à conclusão de que melhor pra São Paulo é Kassab. Ou que melhor pra eles é ser governo.

Seria tão bom que viesse a reforma política! Se não pra acabar de vez com o oportunismo e o fisiologismo, pelo menos, pra impedir que haja coligações proporcionais. Já seria um adianto de vida.