Vive, Noel, vive!
Porque a vida não acaba em 26 anos
Num somatório de meses
De dias e noites
Ora, e quem seria tolo o bastante
Pra pensar que a vida se conta
Em medida cronológica?
A vida transborda pra fora do corpo e do tempo
A vida se eterniza
Segue o verso
Outro verso
Improvisa
Não se esgota
Cantarola
A vida brota, suja e rota
Em baforadas de cigarro
Em copos e mais copos
Até perder a hora
Perder o medo
E enxergar na noite
O baile dos arvoredos
Vive, Noel, na vontade de vida
E gasta-a à vontade
Que vida não é coisa que se economiza
Para trocar por mais vida depois,
Quando a vida cobra a conta
Da vida lavrada em atas
Que a vida se vive agora
Que a vida não tem errata
Vive ainda Noel
Em teus amores
Guardados nos amores
Que cada um segue vivendo
Embalado em samba e poesia
Em dor e despeito
Em ternura e desejo
Noel vive
Noel não morre
Porque ele, ao se desfazer no ar,
Integrou-se à vida coletiva
À personalidade nacional
E vive na vida da gente
Até que a vida da gente
Faça por merecer viver
Noel.
Música, feminismo, diálogos, política, futebol, crônica e poesia convivendo no mesmo espaço. E sem conflito.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
sábado, 22 de novembro de 2014
Céu de Brasília
Gosto demais de perceber o quanto sou pequena. Me encantam todas as coisas que me jogam na cara a pequenez.
Ser pequena é um alívio. Nenhum fardo, nenhuma tristeza, nenhuma responsabilidade pode ser tão grande se eu não puder carregar. Eu sei o meu tamanho.
É por isso que me faz tão bem estar diante do mar, olhando até onde a vista alcança, e saber que tem muito muito muito mais lá na frente. É por isso que o samba é minha forma de me relacionar com a vida, porque com seus cem anos de história, me põe a nadar numa piscina infinita de acordes, poesia e batucada. E eu sou só uma gotinha ali.
É por isso que o céu de Brasília me fascina. Ele se estende para cima, quase toca o chão, vai prum lado e pro outro até que eu não possa mais ter noção da grandeza. Quando o sol está brilhando, ofuscando a visão. Quando as nuvens escuras o decoram com desenhos e muito mais que três dimensões. O céu de Brasília, quando nublado, te mostra que você nem sabe quantas dimensões podem existir.
Sou eu pequena aqui embaixo olhando pra toda imensidão que sempre me lembra que nada é definitivo, que nada é irreversível, que nada está finalizado, que nada pode ser tão pesado. O céu é maior, e é tão leve.
Ser pequena é um alívio. Nenhum fardo, nenhuma tristeza, nenhuma responsabilidade pode ser tão grande se eu não puder carregar. Eu sei o meu tamanho.
É por isso que me faz tão bem estar diante do mar, olhando até onde a vista alcança, e saber que tem muito muito muito mais lá na frente. É por isso que o samba é minha forma de me relacionar com a vida, porque com seus cem anos de história, me põe a nadar numa piscina infinita de acordes, poesia e batucada. E eu sou só uma gotinha ali.
É por isso que o céu de Brasília me fascina. Ele se estende para cima, quase toca o chão, vai prum lado e pro outro até que eu não possa mais ter noção da grandeza. Quando o sol está brilhando, ofuscando a visão. Quando as nuvens escuras o decoram com desenhos e muito mais que três dimensões. O céu de Brasília, quando nublado, te mostra que você nem sabe quantas dimensões podem existir.
Sou eu pequena aqui embaixo olhando pra toda imensidão que sempre me lembra que nada é definitivo, que nada é irreversível, que nada está finalizado, que nada pode ser tão pesado. O céu é maior, e é tão leve.
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Léo e Verônica - parte 10 de 10
Verônica decidiu dedicar-se integralmente ao trabalho, de modo que não restasse tempo nem forças, e logo, nem vontade nem motivos para pensar no caso encerrado. Pensou que seria desejável voltar à Itália para uma nova etapa de estudos e pesquisas, pensou em outros lugares, pensou em outros estudos. Concentrou-se em escrever um projeto, leu pilhas de livros e, quatro meses depois, estava a caminho do Peru para começar a pesquisar História da Arte na América pré-Colombo.
Passado o momento de tristeza profunda, a solução que Léo encontrou também foi refugiar-se no trabalho. Abandonou os happy hours com os colegas da agência, até porque queria evitar Laís mais do que nunca. Sentia raiva da ex-mulher, atribuía a ela seu rompimento com Verônica. Mas as semanas passaram-se uma a uma, cada uma com sete dias e cada dia com vinte e quatro horas. Sem se apressar e sem nem demorar, tudo voltou ao normal.
Depois de seis meses, os movimentos de rotação e de translação continuavam sendo executados rotineiramente pelo planeta Terra. E então, na mesma semana em que regressou a Brasília, coincidentemente, Verônica reencontrou Maria Elena, aquela ex-colega de faculdade, num bar onde amigos da universidade se reuniram para recepcioná-la de volta.
Lembrou-se do contexto em que viu a moça pela última vez, mas, desta vez, não houve modo de desviar o caminho ou fingir não ver.
- Que alegria, Verônica!
- Pois é, quanto tempo.
- Que coincidência maravilhosa! Sabe quem encontrei há poucos dias? O Léo! Falamos de você!
- Ah, é mesmo? – Verônica ficou um pouco desconcertada – Não o vejo há muito tempo, o que falaram?
- Nada demais, ele me disse que você estava no Peru.
- Puxa. Como será que ele soube...?
- Não sei não, mas a esposa dele não gostou de perceber que ele sabia de seu paradeiro! – falou Maria Elena, maliciosamente.
- Esposa? Ah, claro, a Laís, não é? – jogou verde para colher maduro.
- Ela mesma. Parece adorável.
- Sim. Ela é incrível.
“Mas que homem covarde”, pensou Verônica. “Como pude me envolver com ele?!”, indagava-se, desprovida de sentimentos de amor ou carinho, mas tomada por um ressentimento inusitado e firme. Desligou-se do mundo durante alguns minutos, para digerir a informação.
Léo lhe falara muitas coisas sobre sua relação com Laís. Antes de lembrar como era bom o começo, em que vivenciava as delícias de “um lago tranquilo”, ele enfatizava o gênio difícil da mulher, as grosserias, a má vontade, o comodismo, o jeito estreito de pensar a vida. Parecia até que o amor se esgotara havia muito, não era coisa nova. Mas em vez de permitir que os horizontes se lhe abrissem, em vez de deixar que ar puro lhe tomasse os pulmões, que uma vida nova lhe trouxesse novos amores e possibilidades, lá estava Léo, com o rabinho de Labrador entre as pernas. Verônica deixou que a decepção lhe pesasse por alguns minutos, e, num gole de cerveja, voltou-se para os amigos. “Ainda bem que eu não insisti nessa história”, foi a sensação que prevaleceu.
Enquanto isso, Léo voltava a boiar ao sabor das águas tranquilas do casamento. Prometeram nunca falar de Verônica, e assim foi. Mas, dentro dele, o altar de sua deusa estava recomposto, sem quase nem um arranhão.
Passado o momento de tristeza profunda, a solução que Léo encontrou também foi refugiar-se no trabalho. Abandonou os happy hours com os colegas da agência, até porque queria evitar Laís mais do que nunca. Sentia raiva da ex-mulher, atribuía a ela seu rompimento com Verônica. Mas as semanas passaram-se uma a uma, cada uma com sete dias e cada dia com vinte e quatro horas. Sem se apressar e sem nem demorar, tudo voltou ao normal.
Depois de seis meses, os movimentos de rotação e de translação continuavam sendo executados rotineiramente pelo planeta Terra. E então, na mesma semana em que regressou a Brasília, coincidentemente, Verônica reencontrou Maria Elena, aquela ex-colega de faculdade, num bar onde amigos da universidade se reuniram para recepcioná-la de volta.
Lembrou-se do contexto em que viu a moça pela última vez, mas, desta vez, não houve modo de desviar o caminho ou fingir não ver.
- Que alegria, Verônica!
- Pois é, quanto tempo.
- Que coincidência maravilhosa! Sabe quem encontrei há poucos dias? O Léo! Falamos de você!
- Ah, é mesmo? – Verônica ficou um pouco desconcertada – Não o vejo há muito tempo, o que falaram?
- Nada demais, ele me disse que você estava no Peru.
- Puxa. Como será que ele soube...?
- Não sei não, mas a esposa dele não gostou de perceber que ele sabia de seu paradeiro! – falou Maria Elena, maliciosamente.
- Esposa? Ah, claro, a Laís, não é? – jogou verde para colher maduro.
- Ela mesma. Parece adorável.
- Sim. Ela é incrível.
“Mas que homem covarde”, pensou Verônica. “Como pude me envolver com ele?!”, indagava-se, desprovida de sentimentos de amor ou carinho, mas tomada por um ressentimento inusitado e firme. Desligou-se do mundo durante alguns minutos, para digerir a informação.
Léo lhe falara muitas coisas sobre sua relação com Laís. Antes de lembrar como era bom o começo, em que vivenciava as delícias de “um lago tranquilo”, ele enfatizava o gênio difícil da mulher, as grosserias, a má vontade, o comodismo, o jeito estreito de pensar a vida. Parecia até que o amor se esgotara havia muito, não era coisa nova. Mas em vez de permitir que os horizontes se lhe abrissem, em vez de deixar que ar puro lhe tomasse os pulmões, que uma vida nova lhe trouxesse novos amores e possibilidades, lá estava Léo, com o rabinho de Labrador entre as pernas. Verônica deixou que a decepção lhe pesasse por alguns minutos, e, num gole de cerveja, voltou-se para os amigos. “Ainda bem que eu não insisti nessa história”, foi a sensação que prevaleceu.
Enquanto isso, Léo voltava a boiar ao sabor das águas tranquilas do casamento. Prometeram nunca falar de Verônica, e assim foi. Mas, dentro dele, o altar de sua deusa estava recomposto, sem quase nem um arranhão.
***
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Léo e Verônica - parte 9 de 10
- Foi por isso que me apeguei tanto à Laís... Encontrei-a logo depois, e ela era muito diferente. Não tinha essa possessividade louca, não me sugava. Fazia tudo parecer um lago de águas tranquilas. Aí eu soube o que era estar com alguém por querer, não por ser obrigado.
Léo falou olhando para aquele tempo, mais de oito anos antes. Enxergava-o tão nitidamente que não viu o terrível incômodo que provocou. Verônica aborreceu-se de imediato, em sua face lia-se com clareza que ela não acreditava no que tinha acabado de ouvir.
Era mesmo inacreditável que aquele Léo apaixonado e carinhoso tenha cedido lugar a um homem banhado a tamanha insensibilidade que fosse capaz de, naquele momento, a tal altura do campeonato, deixar escaparem aquelas palavras. E ele bebericava sua cerveja como nada de anormal tivesse acontecido.
Ela fechou a cara e quis ir embora. Não aceitou que Léo passasse a noite em sua casa e despediu-se com votos secos de boa noite. Nem um “até amanhã” acompanhou.
Léo desconfiou que sabia onde errara, e, ao deixar Verônica em casa, franziu a testa, coçou a cabeça e pensou: “estava indo tudo tão bem!”. Mas ok, haveria os próximos dias para que tudo se acertasse novamente.
Mas o dia seguinte passou arrastando-se, e nada de comunicação entre eles. Verônica ficou pensativa, calada, um pouco triste, quase arrependida por ter entrado naquela história. Recuperava os últimos meses em sua cabeça para entender onde estava o ponto de virada, não encontrava.
Enquanto isso, Léo entendia que a confusão era natural, afinal, acabara de se divorciar. Aliás, de se separar, pois o divórcio ainda não tinha saído. Sendo assim, esperou que o incômodo de Verônica se dissipasse no ar.
Sua falta de atenção foi tamanha que fez o cálculo absolutamente errado. Diante do silêncio que deveria ser pacificador, mas somente fez incendiar uma guerra interna no peito da moça, nasceu uma carta que Léo receberia em seu correio eletrônico.
Léo,
Eu realmente não tenho vocação para coadjuvante. Não vou tentar sobreviver à humanização da sua deusa, processo esse que vem se dando de forma cruel e covarde. Não sou a mesma moça de vinte e poucos anos, muita coisa mudou em mim como produto das escolhas que fiz e das surpresas que a vida me fez. Não tenho forças para competir com a idealização de mim mesma. Não tenho paciência para competir com a sombra da sua ex-esposa, que se aproxima como nuvem de chuva que não chove, mas somente coíbe o sol de brilhar.
Sendo assim, peço que não me procure mais. Viva sua pós-separação como achar melhor, viva um período de solteirice, elabore o luto que quiser em sua cabeça, com suas lembranças e seus fantasmas. Eu pensei que tivesse alguma coisa a ver com isso, mas notei tristemente que não, que nada disso diz respeito a mim. A garota que eu fui era um trampolim de onde você pôde se jogar, mas esta eu que existe agora não está nas águas onde você mergulhou.
Cuide-se. E também cuide de não ferir outras pessoas no seu caminho até descobrir o que você realmente quer da sua vida neste momento.
Léo respondeu à carta e Verônica apagou sem ler. Sabia que lhe chegariam palavras vazias e confusas, além de perguntas e questionamentos. Era só isso que Léo era capaz de produzir mesmo. Ficava indignada de ter de responder a dúvidas que ela não reconhecia. Ele tentou telefonar e ela não atendeu.
Passados alguns dias, sem conseguir nenhum retorno de Verônica, Léo começou a ser consumido pela culpa. Não tolerava a acusação de que envolveu Verônica em sua vida de forma egoísta, até que ela fosse engolida por suas incertezas e traumas. Recusava-se a crer na imagem da deusa se esvaindo por entre seus dedos, não para tornar-se humana em seus braços, mas para escapar-lhe devido a sua incapacidade de fazê-la ficar. Onde ele tinha se perdido dela? Onde ele tinha se perdido de si?
Sofreu por semanas, sem saber bem por qual dos motivos disponíveis. Pensava que era por saudades. Não tinha fome, não tinha sono, nem vontade de sair – nem mesmo para desabafar com os amigos. Passava noites em casa, diante da TV, tentando sem sucesso ler algum livro ou estudar casos que a agência lhe passava. Queria tirar férias, não podia. Queria mudar de emprego, não sabia. Queria mudar de planeta, não havia. Estava fadado a conviver consigo mesmo, suas culpas, sua infelicidade, sua tragédia sentimental e todas as dúvidas que, por mais que ele tenha jogado no mundo, não paravam de brotar por geração espontânea dentro dele.
Léo falou olhando para aquele tempo, mais de oito anos antes. Enxergava-o tão nitidamente que não viu o terrível incômodo que provocou. Verônica aborreceu-se de imediato, em sua face lia-se com clareza que ela não acreditava no que tinha acabado de ouvir.
Era mesmo inacreditável que aquele Léo apaixonado e carinhoso tenha cedido lugar a um homem banhado a tamanha insensibilidade que fosse capaz de, naquele momento, a tal altura do campeonato, deixar escaparem aquelas palavras. E ele bebericava sua cerveja como nada de anormal tivesse acontecido.
Ela fechou a cara e quis ir embora. Não aceitou que Léo passasse a noite em sua casa e despediu-se com votos secos de boa noite. Nem um “até amanhã” acompanhou.
Léo desconfiou que sabia onde errara, e, ao deixar Verônica em casa, franziu a testa, coçou a cabeça e pensou: “estava indo tudo tão bem!”. Mas ok, haveria os próximos dias para que tudo se acertasse novamente.
Mas o dia seguinte passou arrastando-se, e nada de comunicação entre eles. Verônica ficou pensativa, calada, um pouco triste, quase arrependida por ter entrado naquela história. Recuperava os últimos meses em sua cabeça para entender onde estava o ponto de virada, não encontrava.
Enquanto isso, Léo entendia que a confusão era natural, afinal, acabara de se divorciar. Aliás, de se separar, pois o divórcio ainda não tinha saído. Sendo assim, esperou que o incômodo de Verônica se dissipasse no ar.
Sua falta de atenção foi tamanha que fez o cálculo absolutamente errado. Diante do silêncio que deveria ser pacificador, mas somente fez incendiar uma guerra interna no peito da moça, nasceu uma carta que Léo receberia em seu correio eletrônico.
Léo,
Eu realmente não tenho vocação para coadjuvante. Não vou tentar sobreviver à humanização da sua deusa, processo esse que vem se dando de forma cruel e covarde. Não sou a mesma moça de vinte e poucos anos, muita coisa mudou em mim como produto das escolhas que fiz e das surpresas que a vida me fez. Não tenho forças para competir com a idealização de mim mesma. Não tenho paciência para competir com a sombra da sua ex-esposa, que se aproxima como nuvem de chuva que não chove, mas somente coíbe o sol de brilhar.
Sendo assim, peço que não me procure mais. Viva sua pós-separação como achar melhor, viva um período de solteirice, elabore o luto que quiser em sua cabeça, com suas lembranças e seus fantasmas. Eu pensei que tivesse alguma coisa a ver com isso, mas notei tristemente que não, que nada disso diz respeito a mim. A garota que eu fui era um trampolim de onde você pôde se jogar, mas esta eu que existe agora não está nas águas onde você mergulhou.
Cuide-se. E também cuide de não ferir outras pessoas no seu caminho até descobrir o que você realmente quer da sua vida neste momento.
Verônica
Passados alguns dias, sem conseguir nenhum retorno de Verônica, Léo começou a ser consumido pela culpa. Não tolerava a acusação de que envolveu Verônica em sua vida de forma egoísta, até que ela fosse engolida por suas incertezas e traumas. Recusava-se a crer na imagem da deusa se esvaindo por entre seus dedos, não para tornar-se humana em seus braços, mas para escapar-lhe devido a sua incapacidade de fazê-la ficar. Onde ele tinha se perdido dela? Onde ele tinha se perdido de si?
Sofreu por semanas, sem saber bem por qual dos motivos disponíveis. Pensava que era por saudades. Não tinha fome, não tinha sono, nem vontade de sair – nem mesmo para desabafar com os amigos. Passava noites em casa, diante da TV, tentando sem sucesso ler algum livro ou estudar casos que a agência lhe passava. Queria tirar férias, não podia. Queria mudar de emprego, não sabia. Queria mudar de planeta, não havia. Estava fadado a conviver consigo mesmo, suas culpas, sua infelicidade, sua tragédia sentimental e todas as dúvidas que, por mais que ele tenha jogado no mundo, não paravam de brotar por geração espontânea dentro dele.
***
Continua...
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Léo e Verônica - parte 8 de 10
As sete partes anteriores estão disponíveis neste blog.
Léo mostrava-se inconsolável, mas tantas dúvidas e pouca atitude eram claras demonstrações da sua fragilidade, que já se exibia desde a época da faculdade. Características assim não eram recomendáveis para quem procurasse sustentar qualquer coisa de verdadeira com Verônica. Aquela mulher que, quando jovem, namorava vulcanicamente entre amorosos beijos públicos e fatais desentendimentos com desfecho sempre em aberto. Que não tinha medo de atropelar corações indefesos, quiçá de expor seus sentimentos a teste. Aquela cuja beleza brilhava de dentro para fora, na coragem de estabelecer pontes improváveis como aquela que a levou da elaboração de técnicas para a venda de produtos até a história da humanidade registrada através do olhar de artistas pulsantes de sensibilidade, habilidade e criatividade.
Ele sabia que seus erros, naquele momento, poderiam ser uma via de mão única e sem retorno. Mas não conseguia equilibrar suas ações na cabeça. A ética, esse conceito que cada um define como quer. O amor, que não é muito definível para ninguém. A culpa, um modo de se relacionar com a vida. A comodidade para desviar de grandes sofrimentos, desentendimentos, expectativas frustradas. O cálculo dos passos leva a lugares exatos, não é preciso jogar os olhos para além de onde se pode alcançar, evitem-se as frustrações. O tempo disso era a juventude, ficou para trás há algum tempo já.
Os dias continuaram passando iguais. Verônica via-se numa situação em que nunca estivera antes. Primeiro, teve medo do envolvimento com Léo, porque ele a amava de forma estabanada e infantil, pela qual ela não podia se responsabilizar. Depois, pensou que deveria ceder àquela paixão do rapaz, afinal, (que ironia) talvez fosse mesmo saudável viver sem grandes contradições ou perigos. Passou a experimentar as sensações de deixar-se levar por um caminho que não era de seu feitio cumprir, mas, justamente por isso, poderia levar a um lugar surpreendente. Quando finalmente esteve à vontade em meio àquela situação, foi Léo quem titubeou.
Para Léo, não se tratava disso. Ele evitava admitir para si mesmo e para qualquer um que sentia pena de Laís, entendendo que ela construíra sua vida ao redor dele e agora estava cercada por todos os lados. Não tinha para onde fugir e, acuada, não era forte o suficiente para reerguer sua vida sobre outras bases. E que bases poderia erguer se estava vulnerável por ter sido traída, trocada por uma mulher mais exuberante, por quem seu marido sempre fora apaixonado, desde a juventude?!
- Não queria lhe dizer isso, amiga, mas esse é o tipo de situação que acaba com cada um dos três para um lado – opinou uma amiga com quem Verônica se aconselhou.
Manteve a relação com Léo ciente dos riscos, mas confiante que era o melhor a fazer naquele momento. Não tinha mesmo nada a perder.
Certa noite, a caminho do cinema, Léo e Verônica avistaram ao longe Maria Elena, antiga colega de faculdade de ambos. Estava bastante diferente daquela época, mais magra, cabelos pintados, muito produzida. Antes, era desleixada e famosa pela tagarelice. Diziam que costumava portar-se como dona da verdade e pensava dominar todos os assuntos, desde beisebol até física quântica.
Léo e Verônica riram das lembranças que Maria Elena provocou, e ele resolveu fazer uma revelação:
- Ela me consolou de você.
- Como assim?
- Ficamos juntos durante um tempo depois da faculdade, mas ela era louca!
- Jura?
- Sim, maníaco-depressiva, histérica, possessiva.
- Ela ficaria assombrada ao nos ver juntos agora!
- Certamente! – ele riu – Cada vez que eu tocasse no seu nome... Ela armava um escândalo!
- Cruz credo! Gente insegura!
- Foi horrível... Mas eu estava tão carente que me subordinei àquilo tudo.
- Por tanto tempo assim?
- Entre idas e vindas... Um ano, mais ou menos...
- E você não tinha me contado, seu dissimulado!
- Tive medo de você não me querer mais ao saber que já me relacionei com essa maluca!
Verônica ficou surpresa ao ouvir aquilo, e assim, percebeu que aquele medo que ele já teve de perdê-la parecia não estar mais lá. Por um lado, uma alegre constatação. Por outro, a chave das respostas que buscava. Beijou gentilmente os lábios de Léo e entregou-se à leveza daquela noite, livre da sombra de Laís e de tudo o que ela trazia consigo.
Até que chegaram, como na cauda de um cometa desgovernado, pronto a chocar-se contra o planeta, no descuido de palavras ventiladas no anoitecer dos sentires.
Léo mostrava-se inconsolável, mas tantas dúvidas e pouca atitude eram claras demonstrações da sua fragilidade, que já se exibia desde a época da faculdade. Características assim não eram recomendáveis para quem procurasse sustentar qualquer coisa de verdadeira com Verônica. Aquela mulher que, quando jovem, namorava vulcanicamente entre amorosos beijos públicos e fatais desentendimentos com desfecho sempre em aberto. Que não tinha medo de atropelar corações indefesos, quiçá de expor seus sentimentos a teste. Aquela cuja beleza brilhava de dentro para fora, na coragem de estabelecer pontes improváveis como aquela que a levou da elaboração de técnicas para a venda de produtos até a história da humanidade registrada através do olhar de artistas pulsantes de sensibilidade, habilidade e criatividade.
Ele sabia que seus erros, naquele momento, poderiam ser uma via de mão única e sem retorno. Mas não conseguia equilibrar suas ações na cabeça. A ética, esse conceito que cada um define como quer. O amor, que não é muito definível para ninguém. A culpa, um modo de se relacionar com a vida. A comodidade para desviar de grandes sofrimentos, desentendimentos, expectativas frustradas. O cálculo dos passos leva a lugares exatos, não é preciso jogar os olhos para além de onde se pode alcançar, evitem-se as frustrações. O tempo disso era a juventude, ficou para trás há algum tempo já.
Os dias continuaram passando iguais. Verônica via-se numa situação em que nunca estivera antes. Primeiro, teve medo do envolvimento com Léo, porque ele a amava de forma estabanada e infantil, pela qual ela não podia se responsabilizar. Depois, pensou que deveria ceder àquela paixão do rapaz, afinal, (que ironia) talvez fosse mesmo saudável viver sem grandes contradições ou perigos. Passou a experimentar as sensações de deixar-se levar por um caminho que não era de seu feitio cumprir, mas, justamente por isso, poderia levar a um lugar surpreendente. Quando finalmente esteve à vontade em meio àquela situação, foi Léo quem titubeou.
Para Léo, não se tratava disso. Ele evitava admitir para si mesmo e para qualquer um que sentia pena de Laís, entendendo que ela construíra sua vida ao redor dele e agora estava cercada por todos os lados. Não tinha para onde fugir e, acuada, não era forte o suficiente para reerguer sua vida sobre outras bases. E que bases poderia erguer se estava vulnerável por ter sido traída, trocada por uma mulher mais exuberante, por quem seu marido sempre fora apaixonado, desde a juventude?!
- Não queria lhe dizer isso, amiga, mas esse é o tipo de situação que acaba com cada um dos três para um lado – opinou uma amiga com quem Verônica se aconselhou.
Manteve a relação com Léo ciente dos riscos, mas confiante que era o melhor a fazer naquele momento. Não tinha mesmo nada a perder.
Certa noite, a caminho do cinema, Léo e Verônica avistaram ao longe Maria Elena, antiga colega de faculdade de ambos. Estava bastante diferente daquela época, mais magra, cabelos pintados, muito produzida. Antes, era desleixada e famosa pela tagarelice. Diziam que costumava portar-se como dona da verdade e pensava dominar todos os assuntos, desde beisebol até física quântica.
Léo e Verônica riram das lembranças que Maria Elena provocou, e ele resolveu fazer uma revelação:
- Ela me consolou de você.
- Como assim?
- Ficamos juntos durante um tempo depois da faculdade, mas ela era louca!
- Jura?
- Sim, maníaco-depressiva, histérica, possessiva.
- Ela ficaria assombrada ao nos ver juntos agora!
- Certamente! – ele riu – Cada vez que eu tocasse no seu nome... Ela armava um escândalo!
- Cruz credo! Gente insegura!
- Foi horrível... Mas eu estava tão carente que me subordinei àquilo tudo.
- Por tanto tempo assim?
- Entre idas e vindas... Um ano, mais ou menos...
- E você não tinha me contado, seu dissimulado!
- Tive medo de você não me querer mais ao saber que já me relacionei com essa maluca!
Verônica ficou surpresa ao ouvir aquilo, e assim, percebeu que aquele medo que ele já teve de perdê-la parecia não estar mais lá. Por um lado, uma alegre constatação. Por outro, a chave das respostas que buscava. Beijou gentilmente os lábios de Léo e entregou-se à leveza daquela noite, livre da sombra de Laís e de tudo o que ela trazia consigo.
Até que chegaram, como na cauda de um cometa desgovernado, pronto a chocar-se contra o planeta, no descuido de palavras ventiladas no anoitecer dos sentires.
***
Continua...
domingo, 9 de novembro de 2014
Léo e Verônica - parte 7 de 10
As seis partes anteriores estão disponíveis neste blog.
Incomodada pelo gradual e injustificado afastamento, Verônica passou a cutucar o namorado para entender o que se passava. A situação não chegou de repente, mas foi de repente que ela notou. Sabia que o pós-separação não seria fácil, mas não tolerava que as coisas acontecessem somente na cabeça de Léo, enquanto ela assistia, deduzindo as cenas dos capítulos anteriores. Quando provocado, Léo tergiversava.
- Às vezes ela está bem, às vezes não... Tente entender, foram sete anos...
- Até quando?
- Até quando o quê?
- Até quando eu vou ter que entender que você não entende que sua ex-mulher está esperançosamente tentando se reaproximar de você?
Léo tinha convicção de que entre ele e Laís já não havia amor, isso não era uma questão. Separaram-se de comum acordo, ela também demonstrara por meses a fio o quanto a presença dele lhe era dispensável. O divórcio tinha sido para os dois uma libertação daquela obrigação de conviver que não tinha mais sentido. Esforçava-se para conversar com naturalidade, para mostrar à ex-mulher que, mesmo que não fossem casados, ela fazia parte da vida dele de um jeito bom. Escondia de Laís os resquícios de Verônica que havia no seu corpo e nos seus olhos para não feri-la, imaginando que essa ação se daria por tempo determinado. Logo, estaria livre. Assim que Laís também estivesse.
Assim, a presença imperiosa de Laís fazia com que o deslumbramento por Verônica cedesse lugar a dúvidas e olhares distantes. Parecia que a cautela que Verônica sugerira no início começou a fazer sentido para o moço.
A displicência crescia gradativamente, até explodir numa tarde chuvosa. Depois de três dias inteiros sem falar com o namorado, Verônica telefonou tensa:
- Léo, eu quero saber o que está acontecendo.
- Ué, não está acontecendo nada...
- O que mudou?
- Nada mudou...
Encontraram-se para jantar, e ela não estava de bom humor. Léo tentou tranquilizá-la, disse que estava desenvolvendo projetos importantes na agência, que não precisavam se relacionar com aquele grau de intensidade.
- Alto lá! Quem estabeleceu essa dinâmica foi você!
Verônica, que antes nem estava certa do que sentia por ele, agora notava isso acontecer sob seu nariz sem saber explicar. De um lado, não apostava em que Léo e Laís tivessem um amor a ser reatado, e exatamente por isso o afastamento de Léo fazia pouco sentido. Talvez estivesse aberto a conhecer outras mulheres e viver outras histórias antes de se envolver profundamente com alguém, como ela mesma tentara alertá-lo na mesma noite em que ele, como um menino que chora com medo do trovão, disse que a amava.
Ao observar a falta de palavras expressa num olhar assustado, de quem entrou na sala errada, Verônica respirou fundo e voltou atrás. Em parte.
- Desculpe, Léo. Sempre fui eu quem disse que deveríamos ir devagar, respeitar seu tempo de se recompor do fim de um casamento. Você não se preocupava com isso, mas vejo que agora está pisando no chão novamente...
***
Continua...
Incomodada pelo gradual e injustificado afastamento, Verônica passou a cutucar o namorado para entender o que se passava. A situação não chegou de repente, mas foi de repente que ela notou. Sabia que o pós-separação não seria fácil, mas não tolerava que as coisas acontecessem somente na cabeça de Léo, enquanto ela assistia, deduzindo as cenas dos capítulos anteriores. Quando provocado, Léo tergiversava.
- Às vezes ela está bem, às vezes não... Tente entender, foram sete anos...
- Até quando?
- Até quando o quê?
- Até quando eu vou ter que entender que você não entende que sua ex-mulher está esperançosamente tentando se reaproximar de você?
Léo tinha convicção de que entre ele e Laís já não havia amor, isso não era uma questão. Separaram-se de comum acordo, ela também demonstrara por meses a fio o quanto a presença dele lhe era dispensável. O divórcio tinha sido para os dois uma libertação daquela obrigação de conviver que não tinha mais sentido. Esforçava-se para conversar com naturalidade, para mostrar à ex-mulher que, mesmo que não fossem casados, ela fazia parte da vida dele de um jeito bom. Escondia de Laís os resquícios de Verônica que havia no seu corpo e nos seus olhos para não feri-la, imaginando que essa ação se daria por tempo determinado. Logo, estaria livre. Assim que Laís também estivesse.
Assim, a presença imperiosa de Laís fazia com que o deslumbramento por Verônica cedesse lugar a dúvidas e olhares distantes. Parecia que a cautela que Verônica sugerira no início começou a fazer sentido para o moço.
A displicência crescia gradativamente, até explodir numa tarde chuvosa. Depois de três dias inteiros sem falar com o namorado, Verônica telefonou tensa:
- Léo, eu quero saber o que está acontecendo.
- Ué, não está acontecendo nada...
- O que mudou?
- Nada mudou...
Encontraram-se para jantar, e ela não estava de bom humor. Léo tentou tranquilizá-la, disse que estava desenvolvendo projetos importantes na agência, que não precisavam se relacionar com aquele grau de intensidade.
- Alto lá! Quem estabeleceu essa dinâmica foi você!
Verônica, que antes nem estava certa do que sentia por ele, agora notava isso acontecer sob seu nariz sem saber explicar. De um lado, não apostava em que Léo e Laís tivessem um amor a ser reatado, e exatamente por isso o afastamento de Léo fazia pouco sentido. Talvez estivesse aberto a conhecer outras mulheres e viver outras histórias antes de se envolver profundamente com alguém, como ela mesma tentara alertá-lo na mesma noite em que ele, como um menino que chora com medo do trovão, disse que a amava.
Ao observar a falta de palavras expressa num olhar assustado, de quem entrou na sala errada, Verônica respirou fundo e voltou atrás. Em parte.
- Desculpe, Léo. Sempre fui eu quem disse que deveríamos ir devagar, respeitar seu tempo de se recompor do fim de um casamento. Você não se preocupava com isso, mas vejo que agora está pisando no chão novamente...
***
Continua...
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