Na voz do Chico, que cometeu o terrível impropério de expor sua opinião política e assim se tornou inimigo de classe para a massa cheirosa do Leblon e dos Jardins. Que estes permaneçam atentos para, a qualquer momento, ver passar na avenida um samba popular.
Este lindo samba é pra ser um carinho no coração:
Da militância do PT, o bem mais precioso que esse partido construiu em 34 anos. Jovens, adultos e idosos cheios de coragem e vontade, que não esperam ninguém chamar, não têm medo de cara feia nem de intimidação, que carregam nos olhos e nas bandeiras uma determinação inabalável, banhada nas esperanças mais bonitas que temos, para defender o Brasil do elitismo preconceituoso, ignorante e arrogante que, até agora, não aceita que não são os donos do país;
Da militância do PCdoB e da Consulta Popular, cada uma a seu modo, sempre aguerridas, nunca titubeando nos momentos fundamentais da construção do nosso sonho coletivo;
Da militância do PSOL que esteve na campanha da Dilma neste segundo turno, pedindo voto nas ruas e nas redes, exibindo o avatar virtual com referência à presidenta, exaltando a criticidade de seu voto, destacando que seguirá na oposição pela esquerda. Essa militância pela qual eu sempre tive todo o carinho e todo o respeito, cuja companhia torna nossa luta mais virtuosa;
De tanta gente que estava afastada da política, da militância, que estava desesperançosa, desapontada, desmotivada... E encontrou bons motivos para voltar às ruas, não só encontrou como fez da força de suas convicções e esperanças a fonte da juventude do segundo turno desta campanha;
De tanta gente que nunca tinha se exposto em disputas políticas dessa ferocidade; mas, diante do que viu, não recusou o chamado e foi protagonista de uma virada que não foi numérica, mas talvez, histórica... Acho que um dia entenderemos a importância disso.
Não sei qual o resultado que sai das urnas amanhã. Mas, em meio a tanto ódio, tédio e náusea... Para mim, foi a mais bela das flores: esse cordão que construímos linda e quase que espontaneamente. Os filhos e filhas que não fogem à luta somos nós, não permitiremos que até o hino nacional eles privatizem.
Obrigada pela companhia. Obrigada por, mais uma vez, escancararem para mim o sentido das escolhas que sempre fizemos.
Que me perdoem aqueles que sentem ódio, raiva, medo. Eu sinto amor.
Eu sinto amor pelos sonhos que tenho, porque nenhum deles é individual e mesquinho. Sinto amor ao imaginar um mundo onde um ser humano não seja subjugado por outro. Sinto ainda mais amor ao perceber quantas pessoas imaginam a mesma coisa, e se movimentam para isso.
Seu ódio não me faz sentido, eu não vou falar com ele. Se você gritar, xingar, ofender, exibir num estandarte seus preconceitos ou esbravejar sua vontade de esmagar os outros pra chegar aonde quer, eu nem vou ouvir. Vou rir.
O amor explode em meu peito quando me dou conta de que agora, finalmente, estão acontecendo coisas pelas quais muita gente lutou. E minha insatisfação não tira de mim meu amor, porque eu olho ao redor e vejo gente lutando. Eu me instrumentalizo de amor para enfrentar o que não aceito.
Sinto o amor me varrendo a alma quando vejo tanta gente que estava afastada, que tinha desistido, que estava frustrada... Tanta gente voltando a empunhar bandeira. Tanta gente expondo nas roupas, nos rostos, no seu tempo a sua opinião, a vontade de disponibilizar a si mesmo para que o país avance num caminho de distribuição de renda, de causas humanitárias e justiça social. Amo a coalizão construída nesses marcos, e amo ainda mais a responsabilidade que essas presenças valiosas trazem.
Eu amo quando seu ódio empurra mais e mais pessoas para o nosso abraço.
Acho graça quando quem odeia não explica o próprio ódio. Rio das besteiras que tremulam sem poder justificar, sem assumir que não é ele mesmo o elaborador daquele ódio todo. Eu rio e sigo amando. Quem sabe esse amor forme um tapete por onde passarão pessoas que, fatigadas pelo ódio, se deixarão contagiar pelo amor à igualdade e ao respeito.
Quanto mais o Brasil se afastar do elitismo, dos preconceitos, da exploração como forma convencionada de relação social, mais eu vou sentir amor.
Se seu ódio é o melhor que tens, o meu amor é só um caminho para atingir sonhos ainda maiores.
*** É por isso que, neste domingo, vou de #Dilma13.
Ora, mas é claro! O rapaz da lata de cerveja na praia de madrugada!
- Sim, foi uma boa dica! – sorriu para o desconhecido – Mas tenho uma ideia melhor para eliminar os danos definitivamente.
Teresa puxou o homem pelo braço para uma área do salão absolutamente visível para qualquer um que estivesse do lado de fora. Ele não entendeu o movimento, quando notou... Teresa tascou-lhe um beijo de cinema. Ao fim da cena, ele, ainda um pouco zonzo, olhou a mulher num misto de surpresa e graça. Esfregou os olhos com leveza, voltou a si e, parecendo ter entendido, só então lhe cochichou ao ouvido:
- Era aquele de laranja o responsável pela dor da noite de sexta-feira?
- O irresponsável da dor da noite de sexta-feira, você quer dizer.
- E fazendo isto a gente devolve a dor para ele?
- Ahan.
O desconhecido virou-se para seus amigos e deu uma piscadela. E Teresa outra vez o beijou ardentemente. Atrás do balcão, Romeu não entendeu nada. Os amigos do rapaz tentavam controlar o riso. Gentil investigava pelo canto do olho, estranhando, um pouco desconfortável. Imaginava que o show era para ele.
Teresa, beijos finalizados, deu a mão para o desconhecido e encaminharam-se até a mesa onde estavam os amigos dele.
- Amor, não me mate, estou praticando uma boa ação – disse o moço em direção a outro rapaz.
- Tomara que dê certo, pra que esse chifre horroroso que vocês cometeram sirva para alguma coisa! – o outro homem ria muito.
Teresa se surpreendeu mais por encontrar um namorado tão compreensivo que pela informação de que eles eram gays.
Gentil durou pouco mais de meia hora no bar. Ao entrar para acertar sua conta, teve de testemunhar mais alguns beijos de cinema. Fingiu não ver, mas até os paralelepípedos de Santo Antônio de Lisboa estavam embasbacados. Romeu fechava a conta do moço usando um olho, e com o canto do outro observava Teresa: conversava alegremente com seus três novos amigos, mal se dava conta da presença de Gentil.
Depois de se certificarem de que ele partiu mesmo, todos brindaram e gargalharam. Teresa sentiu-se aliviada. O peito murchou não como uma flor que murcha, mas sim como se antes ele estivesse artificialmente inflado, e, ao atingir seu limite, em vez de estourar como balão de festa, por ter sido cutucado, fura e esvazia-se até deixar um coração flácido no lugar daquele que já quase tinha explodido.
Com Romeu também à mesa, Teresa contou-lhes toda a história entre ela e Gentil. Ao narrar, revivia aqueles dois meses, recompunha fatos e expectativas, já sem lembrar com precisão a ordem cronológica. Em alguns momentos, a sensação era de muito barulho por pouca coisa. Em outros, ela se compreendia e se perdoava. Mas ainda tinha aquele restinho de tristeza melancólica guardado em algum canto do peito murcho, que se acendia nos espaços de tempo em que não havia nada a dizer.
Jonas e Paulo também contaram como se conheceram e o que viveram até chegarem até ali. Sem grandes obstáculos entre eles, os obstáculos quem lhes impôs foi o mundo, que, com essa idade, ainda não aprendeu que o amor entre as pessoas não deveria ser um fator de incômodo para ninguém. E se for, ué, que os incomodados se mudem.
Foi no sofá da casa de Jonas e Paulo que Teresa passou a última noite daquela pequena temporada em Florianópolis. Pensou que demoraria em conseguir dormir, porque fora um intenso final de semana, mas o cansaço era a maior das sensações naquele momento, seguido de perto pelo medo de perder o voo.
- Se prometer nunca mais agarrar meu marido, te esperamos para uma próxima visita! – brincou Jonas na manhã seguinte, antes que Teresa partisse de volta ao Rio de Janeiro.
O trajeto de volta não teve lágrimas, altivez ou déficit de dignidade. Entre os sentires, o que mais a ocupava era um bastante confuso: por onde será que tanta tristeza saiu? Superar uma paixão, esquecer uma história vivida, ou pior, esperada, com alguém é que nem equação logarítmica: quando te dizem o que fazer, parece impossível. Mas você resolve, e aí, parece que foi fácil. Como é que eu não tinha feito isso antes? A verdade é que fiz, e quem haverá de dizer que não foi no tempo certo?
O peito ainda estava murcho, parecia consequência do cansaço do corpo e da alma. Teresa não dormiu no avião, ficou observando as nuvens passarem, tentando enxergar o oceano lá embaixo. Era grande demais. Vai saber o que ele liga e o que ele separa.
No Rio de Janeiro, esperavam-lhe os alunos e algumas telas vazias. Resolveu pintar uma para Romeu, outra para Jonas e Paulo. Levou-as a Florianópolis no réveillon, foram muito bem recebidas pelos novos donos. Romeu pendurou no bar mesmo. Paulo emocionou-se com o presente. Era ótimo ser hóspede na casa daqueles dois, eram generosos, hospitaleiros e bem humorados. Sem contar que moravam numa chácara no Pântano do Sul, dava para ir a pé até a trilha da Lagoinha do Leste. Era perfeito, aquele encontro parecia coisa do destino mesmo.
- Você não é o último motivo que eu tenho para visitar Florianópolis. Eu conheci primeiro ela, depois você – falou, meio ranzinza, meio debochada – A namorada não veio?
Só faltava não haver namorada nenhuma.
- Não, não. Nem sei por onde ela anda hoje, temos um relacionamento aberto.
Aberto é a puta que pariu.
Por que estava dizendo aquilo?! Teresa sentiu cócegas naquela parte do corpo responsável por produzir raiva. Relacionamento aberto?! Ora, e o que me importa? E não adianta esse sorrisinho maroto ridículo, canastrão! Antes de comover ou seduzir, vai se assemelhar àquelas bandas de pagode romântico bem cafona, de camisa multicolorida, óculos espelhados e tênis de plataforma. Cantando músicas que prometem ir buscar a lua, o sol, as estrelas, os cometas e até os buracos negros desta e de todas as galáxias em nome do amor.
- Ora, que bom para você. Desejo de coração que fique com ela e com todas as mulheres que puder.
Ele riu, ela não. Dito isso, Teresa se virou para o balcão, chamando Romeu para lhe servir outra dose. Gentil ficou no vácuo. Um pouco aturdido, afastou-se devagar, meio que olhando para trás, meio que fingindo que aquilo estava nos planos. Foi à direção de seu amigo, quase sem rumo, e sentaram-se na área externa do bar.
- Mulher, o que afinal você quer? – Romeu perguntou – Quer disputá-lo? Quem mostrar-lhe que está bem, para efetivamente sentir-se melhor? Quer esquecê-lo? Que curtir a dor? Eu não te entendo, de verdade.
- Eu quero é outra dose, Romeu. Porra.
O coração da carioca ainda estava disparado, custando a digerir a situação recém-vivida. Aberto?! Que tipo de gente meio que entra num relacionamento aberto, e diz isso a conta-gotas para as outras pessoas? Procurou desviar o foco de sua atenção para ver se controlava aquele sentimento esquisito, que escapava dela mesma na forma de respiração ofegante e um pouco de tremelique. Ao menos, a ela, parecia que estava respirando ofegante e tendo tremeliques.
Começou a correr os olhos pelo pequeno salão, pretensamente mansa, como que investigando reações, como que altiva. Apenas uma mesa estava ocupada, e eram três homens. Reparou que um daqueles homens não lhe era estranho e fixou o olhar nele por alguns segundos. Mas não se lembrava de onde o conhecia. Deixa pra lá.
Pouco tempo depois, chocou-se com o rapaz ao sair do banheiro.
- Acabaram-se os motivos de chorar? – ele perguntou sorridente.
Ela ficou muda porque realmente não lembrava quem diabos era aquela pessoa, mas era um homem bonito. Ele percebeu que a memória da senhorita falhava, e continuou:
- Talvez os procedimentos de redução de danos tenham surtido efeito.
Acordou ao lado do estranho sedutor. Estava muito cedo ainda, e ele já precisava partir. Recomendou-lhe que dormisse mais e que esquecesse Gentil.
- Não vou procurá-lo, te falei! – ela garantiu – Eu ainda tenho algum resquício de dignidade.
O paraense riu, beijou-lhe os lábios e saiu sorrindo. Dentro do quarto, ela sorriu de volta, para si mesma, e voltou a dormir.
O domingo começou ao meio-dia. Teresa deixou o quarto com sua tristeza em direção à Lagoinha do Leste, sua praia predileta. Nunca foi até lá na companhia de Gentil, porque é necessário percorrer uma trilha para atingi-la, e ele não era muito chegado a grandes esforços – imagine, se nem de um namorico à distância o paspalho dava conta.
Ficou ali, sentada diante do mar, durante um tempo que não calculou ou controlou. O vai e vem das águas, a quebra desigual das ondas, o horizonte bem distante, lá no fundo, tudo parecia dar conselhos. Mas não era nada do tipo “ele não te merece”. Era mais como: “passa”.
Não que a dor passe. Isso se ouve das mães desde crianças, quando se abre um machucado no corpo. Passa. Depois de adultos, não é a dor que passa. É você que passa. E faz a opção de carregar aquela dor ou não. Teresa olhava o mar e não encontrava o fim dele. Seus olhos fixaram-se no horizonte, olhando tudo que havia debaixo daquelas águas. Tanta coisa se passou. Tantos caminhos elas já devem ter conhecido, tanta gente já deve ter se deixado levar por aquele movimento. No fim, o sofrimento de agora é pequeno mesmo, porque o agora é pequeno demais.
Antes que ameaçasse cair o sol, ela se levantou e pegou a trilha de volta. Cansada, sentiu-se melhor pela primeira vez em... Dois dias.
E foi a Santo Antônio de Lisboa. Caminhou pelas ruazinhas inadvertidamente, a passos lentos, como quem não quer chegar a lugar nenhum e não vê problema nisso. A noite rasgou o céu, trazendo-lhe uma certa nostalgia, aquela dorzinha insistente no peito, uma tristeza melancólica que não cessava, mas era só o restinho dela. Talvez fosse só o fim do domingo, o fim da viagem. Vai saber.
Voltou ao bar de Romeu. Ao avistá-la, o amigo riu:
- Foi boa a noite?
- É, foi sim, o sujeito era legal.
Sentou-se ao balcão pela terceira vez em três noites. Agora, com menos gente no bar, contava com a companhia do velho amigo. Teresa parecia calma, mas o corpo estava cansado. A alma também estava esgotada, coitada. Chega, Teresa. Deu.
Não demorou muito tempo e um rosto bastante familiar adentrou o bar, falando alto e dando risadas. Seu peito fez-se água e escorreu pelo sangue. Era Gentil, acompanhado de um amigo.
Ele a viu e se dirigiu até ela, sem jeito, um pouco surpreso pelo encontro.