Música, feminismo, diálogos, política, futebol, crônica e poesia convivendo no mesmo espaço. E sem conflito.
terça-feira, 23 de abril de 2013
Das memórias que faltam
Eu esqueço as minhas letras
Lindos poemas, perdi
Calaram-se anônimos
No escuro de um desktop
Mas, amor, quando eu me lembro
Sou memória pura do que virá
Deja vus que se sucedem
Me antecipam você lá
Em todos os poemas que ainda vou escrever
Mas ainda nem sabia.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Anoitecer
Em cada veia, a noite ardia
No negro vestido, as flores
Para inventar alegria
Para inventar bons motivos
De desfazer-se das dores
E os gestos de desconcerto
Ao peito um aperto trazia.
Por que eu sabia?
Em azul marinho o céu explodia
Estrelas saltavam do alto
Como se dessem notícias
E andando distraída
O tempo lhe deu breve hiato,
Contra o peito, um desacato:
Emoções despercebidas.
Por que eu sabia?
A madrugada reluzia
Em corpos que se fizeram lar
Da brisa e da ventania
A carícia da areia e do mar
E em meio à água e à terra
Transbordava a primavera
Da pergunta que ele fazia:
Por que eu sabia?
Minguante, a manhã invadia
Um recinto tomado de ar puro
Os raios secaram a apatia
Mas nunca romperam os muros
Na sombra de tão triste olhar
Que não se deixou levar
Pela luz do novo dia.
Por que eu sabia?
Mas chegou a tarde fria
E observou, como ausente
Ansiedade, medo, euforia
Chocarem-se violentamente
Como que desgovernados
Antes que o sol se escondesse
Sob vãs filosofias.
Por que eu sabia?
E, de novo, anoitecia.
O riso tornou-se refém
Do escuro da melancolia
Em chamas que se esvaíam
Em lágrimas que se consumiam
Sem reportar a ninguém
O feitiço que se desfazia.
Porque eu sabia.
A mágoa
A mágoa
A mágoa
A mágoa
Por que diabos não chove,
Não escorre que nem água?
Como quando nuvens escuras e brabas,
Depois da chuva,
Dão lugar ao céu azul...
A mágoa não chove
Não escoa
Não deságua
A mágoa não molha,
A mágoa só salga.
A mágoa não se esvai
Para não formar o rio
Que separa duas casas.
Mas ali, enquanto fica,
Faz terra seca
Onde nada cresce
E a água não chega.
E quando sai, é pelo ar
Como fumaça
Que ninguém viu como entrou,
Nem sabe como sumiu,
Mas sabe, sem querer,
Que nada fica em seu lugar.
domingo, 7 de abril de 2013
Em defesa das pessoas
As grandes palhaçadas disseminadas pelos meios de comunicação de massa são produto de uma lógica calculada, que tem como impulsionadora a ânsia pela venda, não a satisfação de uma demanda social.
Ninguém está imune à possibilidade de reproduzir o senso comum. Por mais que se julgue letrado e independente, nasceu e cresceu no mesmo mundo em que nasce e cresce o senso comum e as demais pessoas que habitam o planeta.
O senso comum faz parecerem imutáveis coisas que não deveriam ser naturalizadas. Existem centenas de milhares de exemplos. Os mais evidentes são os que relacionam senso comum e meios de comunicação de massa - sim, porque estes fortalecem e potencializam o senso comum, justamente contribuindo para sua naturalização.
Um que eu estou farta de ouvir de pessoas das mais diversas origens e contextos sociais é a ideia de que a mídia oferece qualidade de merda porque as pessoas querem isso. Tipo: o sensacionalismo e a exploração absurda tanto de tragédias coletivas quanto de vidas privadas existem porque "as pessoas" demandam. Vejamos.
Ponho-me em defesa desses seres anônimos, entes coletivos massificados, quase coisificados por quem se julga imune ao senso comum e porta-voz do olhar além do alcance.
Eu nunca soube que um SAC recebeu reclamações de telespectadores, ouvintes ou leitores famintos por manchetes sangrentas que não lhes foram oferecidas. Nunca vi manifestações de pessoas ávidas por informações da vida privada das celebridades que não lhes foram disponibilizadas. Nunca ouvi, numa mesa de boteco ou fila de padaria, alguém reclamar que não sabe o que aquela pessoa vítima daquele crime tão noticiado jantou três noites antes do fatídico dia.
Tsc tsc. A mídia cria e executa o tal do sensacionalismo e ela mesma justifica com: "é isso que as pessoas querem". Não podemos comprar esse discurso. Não podemos supor que todo o povo é idiota ou sádico.
Eu chego a compreender que haja certa curiosidade, por parte da média das pessoas, pela vida privada de quem se expõe através da mídia: se namora, se casou, o que fazia antes da fama, que música ouve. E isso não justifica a existência de papparazzis enfurecidos que perseguem celebridades pelas noites. Eu compreendo integralmente a comoção que se abate sobre toda uma nação quando de uma tragédia das proporções daquela recente em Santa Maria, por exemplo. As pessoas sabem se colocar no lugar dos outros. Imaginam-se pais, mães, irmãos, namorados, amigos. E isso não justifica a exploração da vida privada de famílias, do sofrimento de pessoas próximas, o choro diante das câmeras, a exposição desenfreada das próprias vítimas. Nada justifica, por exemplo, a tal fotografia do apartamento do Chorão, divulgada pouquíssimo tempo depois de sua morte, violando a privacidade de sua família e amigos, desrespeitando a memória dele (gostem do cara ou não) e passando de todos os limites do aceitável. Se a foto nunca tivesse sido divulgada, "as pessoas" não a pediriam ansiosamente.
A foto do apartamento de Chorão não é notícia. Não é essencial para ilustrar o acontecimento. Não exibe fatos novos, não é a prova conclusiva de nada - e ainda se fosse, sua reprodução em massa continua absolutamente questionável. É sensacionalismo puro. É desrespeito, é ânsia por vender seu peixe custe o que custar. Da mesma forma que cutucar uma pessoa que acaba de sofrer uma perda irreparável, fazê-la perder as estribeiras diante de milhões de desconhecidos, provocar seu pranto, sua emoção, isso não é notícia, isso não é essencial para compreender o evento, é desnecessário para dar a dimensão da tragédia. É sensacionalismo puro, é desrespeito, é o nível mais baixo aonde um profissional da notícia pode chegar. Não importa em que ele se formou, nem se fez aulas de ética e legislação.
Esse tipo de situação não é promovida pelo nada. Não se espalha pelo ar. São pessoas, outras, que encaminham essas ações. Essa é a questão. Eu me sinto ofendida como consumidora da mídia. E me sinto envergonhada como jornalista.
Não é justo responsabilizar "as pessoas". A responsabilidade é de quem produz e expõe esse conteúdo. "Ah, mas tem audiência". Não importa. Aposto que também tem a audiência de muitos que se indignam com a situação. Eu poderia replicar com: muita coisa de qualidade tem audiência. "As pessoas" gostam do que tem qualidade. Lembro-me, por exemplo, da época em que a TV Cultura tornou-se referência de programação infantil. Não foi porque meia dúzia de mestres e doutores lhe deram esse título. Foi porque "as pessoas" lhe davam a tal da audiência.
Não é um ou outro canal de TV. Não são os jornais impressos chamados "populares". Não é um raro portal de internet. É um comportamento generalizado - infelizmente -, verificável em veículos de comunicação dirigido a todos os extratos sociais, produzidos em todas as regiões do país, detentores de largo ou curto poder de alcance. Ou seja: as maiores emissoras de TV, os jornais de maior tiragem, etc etc etc, não só não escapam a essa lógica, como, muitas vezes, são os principais "alimentadores" desse comportamento-urubu, cuja principal razão de ser é a seríssima intenção de conquistar anunciantes.
Mais um motivo para se tratar como urgente a regulamentação da mídia e, principalmente, entender que nada é por acaso ou por culpa "das pessoas": empresas de comunicação são empresas; e desejam "liberdade" indiscriminada para fazerem o que bem querem, sem que a "liberdade" delas termine onde começa a sua. Isso NÃO é natural e pode SIM ser discutido. Censura é nos proibir de questionar.
"As pessoas", ainda que consumam essa merda toda, não podem ser responsabilizadas por alguma coisa cuja produção e veiculação em nada depende de sua ação.
Ninguém está imune à possibilidade de reproduzir o senso comum. Por mais que se julgue letrado e independente, nasceu e cresceu no mesmo mundo em que nasce e cresce o senso comum e as demais pessoas que habitam o planeta.
O senso comum faz parecerem imutáveis coisas que não deveriam ser naturalizadas. Existem centenas de milhares de exemplos. Os mais evidentes são os que relacionam senso comum e meios de comunicação de massa - sim, porque estes fortalecem e potencializam o senso comum, justamente contribuindo para sua naturalização.
Um que eu estou farta de ouvir de pessoas das mais diversas origens e contextos sociais é a ideia de que a mídia oferece qualidade de merda porque as pessoas querem isso. Tipo: o sensacionalismo e a exploração absurda tanto de tragédias coletivas quanto de vidas privadas existem porque "as pessoas" demandam. Vejamos.
Ponho-me em defesa desses seres anônimos, entes coletivos massificados, quase coisificados por quem se julga imune ao senso comum e porta-voz do olhar além do alcance.
Eu nunca soube que um SAC recebeu reclamações de telespectadores, ouvintes ou leitores famintos por manchetes sangrentas que não lhes foram oferecidas. Nunca vi manifestações de pessoas ávidas por informações da vida privada das celebridades que não lhes foram disponibilizadas. Nunca ouvi, numa mesa de boteco ou fila de padaria, alguém reclamar que não sabe o que aquela pessoa vítima daquele crime tão noticiado jantou três noites antes do fatídico dia.
Tsc tsc. A mídia cria e executa o tal do sensacionalismo e ela mesma justifica com: "é isso que as pessoas querem". Não podemos comprar esse discurso. Não podemos supor que todo o povo é idiota ou sádico.
Eu chego a compreender que haja certa curiosidade, por parte da média das pessoas, pela vida privada de quem se expõe através da mídia: se namora, se casou, o que fazia antes da fama, que música ouve. E isso não justifica a existência de papparazzis enfurecidos que perseguem celebridades pelas noites. Eu compreendo integralmente a comoção que se abate sobre toda uma nação quando de uma tragédia das proporções daquela recente em Santa Maria, por exemplo. As pessoas sabem se colocar no lugar dos outros. Imaginam-se pais, mães, irmãos, namorados, amigos. E isso não justifica a exploração da vida privada de famílias, do sofrimento de pessoas próximas, o choro diante das câmeras, a exposição desenfreada das próprias vítimas. Nada justifica, por exemplo, a tal fotografia do apartamento do Chorão, divulgada pouquíssimo tempo depois de sua morte, violando a privacidade de sua família e amigos, desrespeitando a memória dele (gostem do cara ou não) e passando de todos os limites do aceitável. Se a foto nunca tivesse sido divulgada, "as pessoas" não a pediriam ansiosamente.
A foto do apartamento de Chorão não é notícia. Não é essencial para ilustrar o acontecimento. Não exibe fatos novos, não é a prova conclusiva de nada - e ainda se fosse, sua reprodução em massa continua absolutamente questionável. É sensacionalismo puro. É desrespeito, é ânsia por vender seu peixe custe o que custar. Da mesma forma que cutucar uma pessoa que acaba de sofrer uma perda irreparável, fazê-la perder as estribeiras diante de milhões de desconhecidos, provocar seu pranto, sua emoção, isso não é notícia, isso não é essencial para compreender o evento, é desnecessário para dar a dimensão da tragédia. É sensacionalismo puro, é desrespeito, é o nível mais baixo aonde um profissional da notícia pode chegar. Não importa em que ele se formou, nem se fez aulas de ética e legislação.
Esse tipo de situação não é promovida pelo nada. Não se espalha pelo ar. São pessoas, outras, que encaminham essas ações. Essa é a questão. Eu me sinto ofendida como consumidora da mídia. E me sinto envergonhada como jornalista.
Não é justo responsabilizar "as pessoas". A responsabilidade é de quem produz e expõe esse conteúdo. "Ah, mas tem audiência". Não importa. Aposto que também tem a audiência de muitos que se indignam com a situação. Eu poderia replicar com: muita coisa de qualidade tem audiência. "As pessoas" gostam do que tem qualidade. Lembro-me, por exemplo, da época em que a TV Cultura tornou-se referência de programação infantil. Não foi porque meia dúzia de mestres e doutores lhe deram esse título. Foi porque "as pessoas" lhe davam a tal da audiência.
Não é um ou outro canal de TV. Não são os jornais impressos chamados "populares". Não é um raro portal de internet. É um comportamento generalizado - infelizmente -, verificável em veículos de comunicação dirigido a todos os extratos sociais, produzidos em todas as regiões do país, detentores de largo ou curto poder de alcance. Ou seja: as maiores emissoras de TV, os jornais de maior tiragem, etc etc etc, não só não escapam a essa lógica, como, muitas vezes, são os principais "alimentadores" desse comportamento-urubu, cuja principal razão de ser é a seríssima intenção de conquistar anunciantes.
Mais um motivo para se tratar como urgente a regulamentação da mídia e, principalmente, entender que nada é por acaso ou por culpa "das pessoas": empresas de comunicação são empresas; e desejam "liberdade" indiscriminada para fazerem o que bem querem, sem que a "liberdade" delas termine onde começa a sua. Isso NÃO é natural e pode SIM ser discutido. Censura é nos proibir de questionar.
"As pessoas", ainda que consumam essa merda toda, não podem ser responsabilizadas por alguma coisa cuja produção e veiculação em nada depende de sua ação.
sábado, 6 de abril de 2013
Categoria
Era tudo uma questão de classificação. A oração tinha que ser coordenada ou subordinada. Tinha os adjuntos, que podiam ser adnominais. Os pronomes, então, podiam ser um monte de coisa. Meu Deus, pra que tanta nomenclatura?!
Sei lá, nomenclaturas ajudam a classificar. Pra quê? Pra você poder organizar em categorias... Pra quê? Pra melhor poder estudar, encontrar pontos de convergência, as diferenciações. Sei lá. Porque sim.
Só que seres humanos dispensam esse tipo de nomenclatura. Não é razoável buscar uma característica comum e agrupar em torno dela todos os seres humanos que a possuam. É menos razoável ainda presumir que as pessoas precisam ou gostam dessas classificações. Nossa, imagina, eu jamais colocaria rótulo em alguém? Ah é?
Lembre-se de que nem sempre a gente percebe que está rotulando alguém. Que nem sempre se faz isso com má intenção. Mas eu imagino que os seres humanos nem sempre - ou não o tempo todo - gostam de serem olhados pelo prisma do que têm de comum, mas sim, pelo que os(as) diferencia em relação aos demais.
A pena da classificação de pessoas é correr o risco de torná-las enlatados previsíveis e desinteressantes. Essa postura rouba-nos o encanto de sermos surpreendidos(as). Rouba a graça do mundo. Vamos, sem medo, ver o que é que há atrás de cada máscara de Carnaval, de cada escudo de autoproteção, de cada desejo reprimido e em olhos que torcem para serem lidos com atenção, interpretados como gostariam. A ânsia de nomear tudo antecipa e estraga muita coisa...
sexta-feira, 22 de março de 2013
Afazer
Atrasada para o trabalho, corre esbaforida, perde o celular no caminho, deixa a camisa nova toda suada. Chega, passa o dorso da mão na testa, respira buscando o mais de ar que pode alcançar. À sua volta, alguns riem da pressa - "essa não tem jeito!". Ela nem se importa, liga o computador e começa a fazer o que devia ter começado há... 15 minutos?
O dia não está ruim, só está apressado. Em meio a tanto o que fazer em tão pouco tempo, invade-lhe os pensamentos aquele cara de quem gostava... Saíram algumas vezes, ela se apaixonou, ele não. Doeram-lhe o coração e o estômago por várias semanas. "Nunca mais vou me apaixonar", prometeu outra vez. Não podia vê-lo, a dor voltava. A paixão também. E, quando via, lá estava ele em sua cama, partindo de novo.
Pensando nisso no meio de seu dia corrido, olhando o que ainda tinha por fazer, imaginando o fim de semana pelo qual mal podia esperar, ela pára. E então, ocorre-lhe a insolucionável questão: o que eu via nele???
***
Moral da história: a gente tem mais o que fazer, mas nem sempre percebe isso rápido.
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