terça-feira, 24 de abril de 2012

Que triunfe a poesia


"Fecha meu livro, se por agora / Não tens motivo nenhum de pranto". Ouso roubar a ideia do grande Manuel Bandeira para dizer: nem segue lendo minha crônica se espera ler uma análise fria sobre uma partida de futebol.



Eu quis inúmeras vezes escrever sobre o Barça neste blog. Acabei deixando pra lá, porque qualquer lirismo que eu quisesse colocar no meu texto não seria comparável ao que os vejo fazer em campo. Brinco com amigos que é a equipe que vinga o Brasil de 82, a Holanda de 74 e a Hungria de 54. Já ouvi muita gente dizer que é a melhor que já viu. É o time que parece escrever nas bandeiras: "olhem só, vocês pragmáticos, é sim possível vencer com jogo bonito e pra frente".

Minha afinidade com o Barça começou em 1992 - vejam que estranho -, quando o vi pela primeira vez. Meu São Paulo o derrotou na final do mundial de clubes. Não é que eu gostei do Barça. Mas ao ler sobre ele, vi que tinha junto uma história de Catalunha, de povo catalão, de língua catalã. Me chamou a atenção. Desde então, achei-o simpático.

Mas foi de três anos pra cá que me encantei. Pelo futebol, pela obra de Pep Guardiola, pelo belo jogo, jogado no chão, com inteligência, ousadia, beleza. As lindas jogadas ensaiadas, os improvisos espetaculares, a qualidade dos jogadores, quase todos oriundos das categorias de base do clube. A genialidade de alguns deles, Messi principalmente. E mais: não há nenhum jogador do naipe de uns e outros que vivem por aí sendo notícia tanto pelas festas que fazem, as compras, as viagens, as aparições, quanto pelo próprio futebol. O Barça chegou ao topo do mundo com uma equipe de bons moços. Pra mostrar que mau caratismo não é a associação automática da gana de jogar, nem de esperteza.



A temporada passada foi a consagração: título espanhol, Liga dos Campeões, Mundial de Clubes. Não sei se alguém se lembra, mas, Guardiola, ao iniciar a temporada 2011/2012 disse à imprensa: "O mais provável é que não ganhemos nada este ano". Com isso, inteligente e elegante como é, ele anunciava algo realmente previsível: os adversários conheciam cada vez mais seu estilo de jogo e se preparavam para ele. Somar-se-ia a isso a vontade de derrotar o melhor do mundo. Feita a equação. Guardiola estava certo.

O Chelsea se armou para enfrentar o melhor do mundo. O que equivale dizer que se jogou inteiramente para trás, com a disciplina típica do futebol inglês, um pouco de sangue nos olhos e Drogba. Vão me perdoar mas não vou deixar de mencionar a terrível falta de sorte que fez com que 4 bolas fossem mandadas na trave, nesses dois jogos, além do pênalti não convertido pelo inquestionável melhor jogador do mundo. Bem, deu Chelsea.

Pra mim, pior que a retranca do Chelsea, só o olho gordo universal contra a equipe azul-grená. Assim como há alguns e algumas como eu, que se apaixonam pelo que lhes enche os olhos, que se entusiasmam de ver as vitórias de um time que joga como sempre quisemos que jogassem os nossos; também há aquela coisa de torcida de futebol, meio mesquinha e infantil, de querer ver cair quem está no topo. Independentemente de tudo. O seu time não vai ser alçado ao topo no lugar. Mas ele não suporta ver o sucesso do outro, ainda que seja o outro em outro canto do mundo, sem nenhum torcedor dele pra lhe incomodar por perto.



Eu não. Eu me apaixonei pelo futebol vendo o Telê treinar meu São Paulo. Busquei a seleção de 82 pra conhecer o que era aquilo. Me encantei com Zico, Sócrates, tantos outros que sempre jogaram nas equipes adversárias da minha. Para mim, ver o Barcelona vencer, é como dizer pra história recente do futebol: tá vendo como você está errada?

Mas tudo bem. O Barça é tão inspirador, que ele certamente vai encontrar onde beber para recuperar seu trajeto à eternidade. A missão agora - que já ficou demonstrado que futebol bonito ganha jogo sim - é provar que a beleza e a superação também se combinam. E o triunfo definitivo desse grande Barcelona pode vir na próxima temporada, para dizer que, se o melhor nem sempre vence, o melhor sempre volta.


***
PS: Messi segue e seguirá quebrando recorde atrás de recorde. Não se engane, olho gordo.
PS 2: Como diz uma certa música: "quem precisa de notícia? eu prefiro poesia"...

quarta-feira, 14 de março de 2012

Erro de Português

(Oswald de Andrade)

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.


***
Para o Dia da Poesia.

terça-feira, 13 de março de 2012

Nostalgia - mais um enredo pro samba

Esta letra já tem música, parceria com o camarada Diego Dewes, meu parceiro do violão na Feira de Mangaio. Quem viver ouvirá rm breve! :-)


Nostalgia


Eu que poucas vezes
Olhei para trás
Me pego pensando
Em nunca mais

O que perdi no caminho
Ou sonhei devagarinho
E ficou pela estrada

O que foi só ilusão
Ou nunca teve morada
Em meu coração

Tudo me toma a lembrança
Em tempos de pouca esperança
É desejo de não esquecer
Pra fazer reviver minha missão
Em tanta situação
Que o tempo não deixou morrer

Mas pra não me perder na nostalgia
Tenho sempre a boemia
E as coisas que eu não perdi

É bom lembrar sem chorar
Um lugar aonde voltar
Abraçar o que vivi

quinta-feira, 8 de março de 2012

"Não temo quebrantos, porque eu sou guerreira..."

Da mesma forma que não há um só grande amor na vida de alguém ("o" amor da vida), também não há um só lugar no mundo pra cada pessoa. Atualmente, sinto absolutamente que encontrei meu lugar no mundo. A música e Porto Alegre vieram dar um sentido diferente à minha vida a ponto de transformar muita coisa em mim. Isso não quer dizer que eu sempre andei por aí perdida, sem encontrar meu lugar. Pelo contrário. Tenho a sorte de pertencer a vários "lugares". Isso é muito confortante.

Mas se tem uma coisa que dá sentido a todos os meus lugares e todas as minhas paixões é o feminismo. Este post é para dividir com vocês uma alegria imensa que terei neste 8 de março.


Há exatos dois anos e nesta exata Porto Alegre, peguei meu MTB (registro de jornalista) depois de sofrer implacável perseguição daqueles que deveriam defender os trabalhadores: o sindicato da categoria. Perdoem-me o bom português, mas estou me lixando para o corporativismo deles. Sou jornalista e, como escrevi na ocasião, meu MTB, mesmo antes de existir formalmente, sempre esteve a serviço da luta das mulheres por liberdade e igualdade. É um instrumento de que disponho para contribuir, para ser mais uma em marcha.

Hoje, vou subir ao palco do 512 - rua João Alfredo, 512, Cidade Baixa, Porto Alegre - para marcar o Dia Internacional da Mulher, esse dia tão importante, tão repleto de significados, que traz em si o brilho de cada luta e conquista das mulheres, homenageando as mulheres do samba.



Como Beth Carvalho declarou recentemente, é claro que o samba é machista. Pois se o mundo é, como o samba haveria de não ser? Mas as coisas só mudam na luta das mulheres. Embora ainda haja muito o que mudar, se hoje a realidade é diferente de 50 anos atrás, isso se deve somente às mulheres que resistiram, que não aceitaram passivamente o papel da submissão, que ousaram desnaturalizar a opressão e reagir. Muitas morreram, muitas sofreram represálias de todos os tipos. E mesmo quem abre a boca estúpida para dizer "não sou feminista, sou feminina", deve muito a todas essas que lutaram sem medo. Neste 8 de março, essas aí deviam ajoelhar e reverenciar.

Eu farei isso. Com a sorte de ter ao meu lado pessoas que acreditam na mesma coisa, poderei saudar as mulheres do mundo, as guerreiras de todos os lugares, por meio das mulheres do samba. Que enfrentaram mundos e fundos para fazer valer sua vontade e pôr sua voz no mundo. Que superaram obstáculos ferozes para triunfar. Que experimentaram a desigualdade em sua trajetória, e foram em frente com autenticidade, sem se render a padrões perversos que só aprofundam as injustiças. Que entenderam que sua voz e sua música podem sim contribuir pra mudar o mundo, e a vida de tantas outras que vieram depois, e não precisaram esconder seu nome feminino para assinar uma composição, como D. Ivone Lara teve de fazer.

Peço a benção a Clara Nunes, mineira guerreira, primeira mulher a estourar em venda de discos no Brasil. Mulher como tantas mulheres do nosso país, de origem pobre, trabalhadora desde criança, matando um leão por dia. Destemida, correu atrás de um sonho, passando por cima de caras feias, esteriótipos e preconceitos. Resgatou a diversidade da cultura brasileira, chamou a África para a nossa música, cantou a vida das pessoas. Para quem acha que o povo só se identifica com "ai se eu te pego" e afins, Clara é uma prova viva de que o povo não é bobo coisa nenhuma. Mesmo que a mídia tente forçá-lo a ser, engolindo enlatados descartáveis e enriquecendo mentes vazias todos os anos, a cada verão.


Quem puder ir ao 512 hoje, vai encontrar uma banda que se encontrou exatamente na batalha diária por encontrar seu lugar, e não fugiu do desafio de fazer diferente. Vai encontrar uma cantora feliz da vida, cantando como que estivesse orando. A elas, a todas elas. E especialmente, ao que virá. Mulher tem mais é que carregar bandeira, porque - a história mostra - o mundo depende de que a gente se movimente. Salve o 8 de março! Saravá!

Alcione canta "Maria da Penha".

Clara, a mineira guerreira, grande inspiração.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Violência de "gênero" é o escambau

Para combater a violência contra as mulheres, é preciso tratá-la como elemento da vida real, e mostrar que o agressor é um homem e a agredida é uma mulher.


Nestes dias, o Brasil acompanha o julgamento do assassino de Eloá Pimentel, uma menina de 15 anos morta pelo ex-namorado. O motivo: ela rompeu com ele. Inconformado, e valendo-se do machismo que não aceita que as mulheres tenham as rédeas da própria vida, o rapaz sequestrou a moça e a manteve em cárcere privado por dias. Ao final, ela foi assassinada em rede nacional.

A atuação desastrosa da polícia paulista no caso é memorável. Basta lembrar que mandou de volta ao cativeiro uma vítima que havia sido libertada pelo sequestrador, a menina Naiara, que, ao final, teve como saldo a perda da melhor amiga e um tiro no rosto. Eloá pagou com a vida. Foi atingida por dois tiros que o sequestrador disparou quando a polícia invadiu o local.

Outra característica daquela situação foi a cobertura em tempo real. Enquanto Eloá e Naiara estavam sob a mira do revólver de Lindenberg, também estavam sob os holofotes da mídia. É certo que a cobertura jornalística deve haver. Para informação da população, para divulgação dos casos e para oferecer um olhar atento que intimide o criminoso. Mas o que se viu ali foi uma cobertura que, de tão sensacionalista, quase chegou a confundir vida real e ficção.

É importante que duas coisas fiquem claras. Uma, a violência contra a mulher não é ficção, não é tragédia de teatro e não acontece só com mulheres bem distantes da vida real. Casos como o de Eloá acontecem o tempo todo. Quem não se lembra da morte da cabelereira Maria Islaine, registrada pelas câmeras de segurança que ela mesma instalou para defender-se do ex-marido? Ou não percebe as incontáveis histórias de mulheres mantidas em cárcere privado por ex-maridos ou ex-namorados? Por que isso acontece? Os homens têm uma tendência "natural" à violência e as mulheres têm predisposição para ser vítima?

Desde sempre essas histórias acontecem (recuperei essa ideia em texto sobre o caso Elisa Samudio). O machismo é uma coisa integral que se manifesta em esferas diversas: na desigualdade salarial, em expressões culturais que subordinam as mulheres, nos atos de violência sexista, em ditas "tradições" que aprisionam as mulheres à vida doméstica de modo a cumprir dupla jornada e realizar gratuitamente uma massa de trabalho infinita. Isso tudo é uma coisa só, cada esfera retroalimenta a outra e assim vai. Combater o machismo é ter um olhar integral e integrado sobre tudo isso.

É por isso que não toleramos as famosas "brincadeirinhas" machistas, sem nos importar em sermos classificadas como "sem senso de humor". É por isso que repudiamos a mercantilização dos corpos das mulheres. É por isso que não aceitamos que homens que lutam dentro de partidos de esquerda e de movimentos sociais reproduzam, no âmbito privado, relações de dominação sobre as mulheres.

E, fundamentalmente, é por isso que não dá pra falar em "violência de gênero" e expressões derivadas. A violência é contra a mulher. Invisibilizar o alvo da violência é não contribuir para o seu enfrentamento. É preciso que se diga quem é a vítima e quem é o agressor. Gênero é categoria de análise, gênero não é sujeito de nada. Quem está exposta à violência são as mulheres, assim como quem se organiza para enfrentá-la são as mulheres.

O caminho para não permitir que haja mais moças de 15 anos que têm a vida interrompida nas mãos de um ex-namorado, mais mulheres e senhoras vítimas de violência doméstica, de cárcere privado, de assassinato, é entender que essa violência é cometida por homens sobre mulheres. É importante ter políticas para a prevenção e o enfrentamento. É importante que as pessoas entendam que é inaceitável, intolerável. É importante desnaturalizar as bases culturais dessa opressão. É importante desconstruir a base material da desigualdade. E pra tudo isso acontecer, uma coisa bem simples precede: é preciso deixar explícito que a violência é produto do machismo - aquele de todo dia, que não é nenhum espetáculo de TV. Chamar de "violência de gênero" significa andar dez passos para trás nessa caminhada.

domingo, 22 de janeiro de 2012

A Fonte das Mulheres

Acho que a melhor decisão que tomei desde que o ano começou foi entrar no cinema nesta tarde de domingo para ver A Fonte das Mulheres. Isso não desmerece as demais decisões de 2012. É que o filme é realmente muito bom.



Eu não tinha ouvido falar dele, mas, como vocês devem supor, o nome me chamou a atenção. Em tempos de pós "Primavera (?) Árabe", o filme ganha ainda mais atualidade. A história se passa numa pequena comunidade islâmica, situada em local desértico entre o norte africano e o oriente médio. Sob um olhar superficial, as mulheres se rebelam contra os homens, porque cabe a elas o trabalho pesado de ir buscar água para abastecer a vila, sem nenhuma ajuda de seus maridos, pais e irmãos.

Entretanto, o enredo se apropria dessa "limitada" questão para lançar luz sobre muito mais. A protagonista da história, a jovem Leila, é das raras mulheres que sabem ler e escrever. Ao lado da experiente Velho Fuzil, as duas questionam a interpretação que se faz do Alcorão, alegando que Alah espera que homens e mulheres sejam iguais. Denunciam que as mulheres realizam todo o trabalho, enquanto os homens somente as exploram. Mobilizam as demais e se organizam para enfrentar a situação por meio de uma greve de sexo, que atinge enorme repercussão. Muitas mulheres acabam estupradas pelos maridos, sofrem violência, inclusive diante dos filhos, sem ter a quem recorrer. Em meio a tudo isso, a omissão da Igreja e a corrupção das autoridades.

Leila é perseguida pela sogra, que demonstra discriminá-la pelo fato de ser estrangeira. Ao mesmo tempo, o marido, professor, dos mais intelectualizados da aldeia, procura apoiar sua luta, mas recua muitas vezes. Teme que as mulheres queiram ir além de conquistar ajuda no ato de ir buscar água.

Num diálogo entre homens, que se reúnem para encontrar solução para o impasse, alguém se lembra que a tarefa, executada pelas mulheres, deveria ser garantida pelo Estado. Porém, pouco ou nada fazem para fortalecer a luta feminina - que, a princípio, buscara a divisão da tarefa com os homens. Os mais conservadores sugerem explicitamente que elas sejam controladas por meio de violência. Porém, destemidas, elas seguem com sua luta, utilizando de todos os poucos artíficios de que dispõem.

Engana-se quem assiste ao filme com desprendimento científico. Ali, fala-se sobre um local perdido entre o norte da Árica e o Oriente Médio, e sobre a religião dos muçulmanos. Entretanto, respeitadas as proporções, aquela é a realidade de todas as mulheres do mundo. A divisão sexual do trabalho, que responsabiliza exclusivamente as mulheres pelo trabalho doméstico e de cuidados, continua escravizando milhões delas em todo o mundo, seguidoras de todas as religiões. A violência é um meio de controlá-las em toda a parte. O estupro dentro do casamento é uma cruel realidade global. A organização das mulheres no feminismo continua sendo combatida por muitos, por meio da desqualificação política e da truculência. A liberdade ainda não é uma realidade, e a luta feminista continua necessária.

As falas e as músicas cantadas por Leila e Velho Fuzil são, muitas vezes, emocionantes. Não porque rebuscadas ou carregadas de metáforas, pelo contrário: exatamente porque falam de coisas concretas de forma literal, com inteligência e coragem.

Um belo filme, uma boa história, uma importante lição: as mulheres não vão aguentar caladas a opressão que sofrem.





LE SOURCE DES FEMMES 
Diretor: Radu Mihaileanu
Elenco: Leïla Bekhti, Hafsia Herzi, Biyouna, Sabrina Ouazani
Duração: 135 min
Ano: 2011

Em Porto Alegre, o filme está em cartaz no Unibanco Arteplex
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