terça-feira, 14 de maio de 2019

Em defesa da Cultura Brasileira

Tem gente que se acha super patriota porque chora quando a seleção de futebol masculino perde.

Pra mim, isso tipo foda-se.

O orgulho que eu sinto é da nossa cultura popular, da arte produzida no Brasil, da Clarice Lispector, do Machado de Assis, do Guimarães Rosa, do Drummond, do Manuel Bandeira, da Cecília Meireles, Carolina de Jesus, do Portinari, da Tarsila, do Mário de Andrade, do Aleijadinho. E de Noel Rosa, Tom Jobim, Chiquinha Gonzaga, Carmen Miranda, Chico Buarque, Baden Powell, Caetano Veloso, Cartola, Candeia, Clementina, Clara Nunes, Elis. A Música é aquela deusa à qual todo mundo tem acesso.

A Música tem sua própria cadeia de produção, e muitos que vivem dela. Para fazer meu show no Clube do Choro no último dia 4, eu precisei de mais do que oito músicos. Alguém fez os arranjos, a direção musical. Alguém produziu o show, ou seja, assegurou materialmente que ele acontecesse. Alguém trabalhou para contatar e divulgar via imprensa, via redes sociais e outras formas de contato. Precisou de designer gráfico. Teve o técnico de som, o iluminador. Precisou de alguém na bilheteria, outro na portaria, precisou de uma equipe de limpeza e de garçons. Antes de tudo isso, alguém trabalha para organizar uma programação, alguém coordena esses processos todos, alguém capta recursos para viabilizar tudo isso, porque o Clube do Choro oferece aos artistas da cidade e ao público uma estrutura para que possamos compartilhar Música e Arte. E ainda tem os fornecedores. E ainda tem a Escola de Choro, professores, material didático, estrutura da escola, funcionários da escola.

O show era de lançamento de um disco, que demandou que alguém o gravasse, mixasse, masterizasse. Precisou de fotógrafo, ilustrador. Houve uma empresa de prensagem.

Olha quantos empregos envolvidos diretamente na cadeia de produção da Música! E estamos falando de um único show, de uma única casa, de um único disco.

Brasília forma e exporta grande músicos, artistas maravilhosos que levam nossa arte para o mundo, como Hamilton de Holanda e Zélia Duncan. Pedro Martins tem estado - agora - nos nossos jornais, reconhecido internacionalmente por sua guitarra tão única e inspirada. E é muito mais gente, muito mais. Gente de fora vem conhecer a Música e os músicos de Brasília. Sabe por quê? Porque Brasília tem a Escola de Choro, o Clube do Choro, a Escola de Música. Porque Brasília tem o FAC, tem espaços públicos onde se pode compartilhar a arte que se produz.

Se você acha muito bom ver o nome de uma empresa pública estampada na camisa de um time de futebol e acha muito ruim que haja políticas públicas de cultura que envolvam leis de incentivo, apoio e financiamento público de projetos culturais de interesse social, então, você realmente não merece morar na cidade que Niemeyer desenhou.

Quando um edital do FAC, que foi encaminhado adequadamente segundo as leis do DF, é cancelado, o fora-da-lei não é o artista não. Os fora-da-lei são o governador e o secretário de cultura, que, ainda mais do que exterminar a cultura da cidade, contribuem para tirar emprego de toda essa turma que citamos parágrafos acima.

Todos queremos a reforma do Teatro Nacional. O Governo tem a responsabilidade e o dever de promover a reforma, de devolver o Teatro à comunidade artística e ao povo do Distrito Federal. E ele tem que fazer isso sem desviar dinheiro da comunidade artística e da população. A deputada Érika Kokay, por exemplo, se ofereceu para buscar esses recursos via emenda da bancada federal do DF ao orçamento federal (*). Seus esforços foram rejeitados pelo governador.

Quando um espaço de convivência como o bar A Vizinha sofre uma multa de mais de R$10 mil por proporcionar música aos seus frequentadores durante 4 horas nas tardes de domingo, então estão sendo sacados os empregos dos músicos, dos atendentes, dos cozinheiros. São cancelados contratos com fornecedores de todo tipo, desde a bebida até a tenda. Estão sendo anulados espaços de convivência, de lazer, de arte. Estão nos aplicando um calaboca mesmo.

Um músico, geralmente, é um trabalhador precarizado, que não tem seus direitos trabalhistas assegurados e nenhum tipo de proteção social. Músico, assim como tantos trabalhadores informais ou "free-lancers", quando não trabalha, não recebe. E é a Música do músico que movimenta bares, teatros, centros culturais, que oferece matéria-prima pro rádio, pra festa, pra trilha sonora da sua vida, pro tema do seu romance, pra sua nostalgia. Se você acha isso pouco, então parece que esta sociedade horrível neste momento horrível que vivemos causou danos irreparáveis em você.

Aos que desejam o pleno e absoluto silêncio, recomendo a vida de ermitão. Ficaremos felizes de poder contar com sua ausência. Aos que sabem muito bem o que estão fazendo, recomendo prestarem atenção nas riquíssimas festas que tomam lugar em clubes e estádios, cujo som atravessa a cidade, e contra as quais nunca se move nem uma palha.

Os cachês dos músicos estão congelados há mais de dez anos, quando não retrocederam, em alguns casos. O sujeito paga mais de R$100 pra ir ver seu time no Mané Garrincha, e pede pra tirar da conta o couvert de R$15 da música que ele curtiu a noite toda. O bar não negocia o aluguel de jogos de mesas, a compra de toalhas, as contas de água e de luz, ou com os fornecedores de bebidas e alimentos, mas chora pro músico reduzir seu cachê.

É assim mesmo, desse jeitinho aí.

Cancelar editais do FAC, bem como recusar-se a rever a absurda e antiquada Lei do Silêncio, é censura, é calaboca, é emudecer a cultura e gerar desemprego. Tudo isso orna muito bem com os tempos que vivemos, de subserviência, vira-latice e ignorância relinchante.

Mas sabe outra coisa que orna também? Gritar. Porque calado (a), como nos querem, a gente não fica não.

(*) Nota da deputada Érika Kokay:
"Entrei em contato com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), na última sexta-feira (10/5) para sugerir que ele mantivesse os recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), com o compromisso desta parlamentar de construir junto à bancada federal do Distrito Federal uma emenda de bancada, para 2020, com o objetivo de reformar o Teatro Nacional. A proposta foi um dos encaminhamentos de audiência pública, realizada na Câmara Federal, no último dia 2 de maio, que discutiu o FAC e a Lei Orgânica da Cultura (LOC).


De forma rude e grosseira, o governador respondeu que as emendas seriam bem-vindas, mas iria, sim, retirar os recursos do FAC para a reforma do Teatro, impedindo o prosseguimento de qualquer diálogo sobre o assunto."

sábado, 14 de abril de 2018

Quem matou Marielle Franco?

Eu não conheci a Marielle Franco pessoalmente. Mas conheci sua campanha, em 2016. Amigos/as em quem confio, do PSOL ou não, pediam votos pra ela entusiasmadamente. Ela só podia ser uma pessoa boa. No adorável e resistente Bip-Bip, a maior parte dos frequentadores, notei certo domingo, se dividiam entre ela e Reimont. Peguei o panfleto, achei legal pra caralho. Ela só podia ser uma pessoa boa.

Recebi com alegria a notícia de sua eleição por expressiva votação. Torci pra que o mandato fosse bom, porque o Rio merece, a periferia merece. Porque as mulheres negras das favelas merecem essa referência. Ela só podia ser uma pessoa boa.

Há um mês, aquele nome, Marielle Franco, que li em panfletos e diálogos de luta e de esperança, estava numa notícia horrível, digna deste nosso tenebroso tempo. A dor pesa 500 toneladas. Tão difícil colocar nesses quase-sempre-odiáveis parlamentos uma mulher negra da favela. Lutadora dos direitos humanos. Quando ela chega lá, dão-lhe quatro tiros na cabeça e pronto. Eles atiram na esperança da gente, na esperança do povo pobre. Ela foi morta porque estava fazendo bem seu trabalho. Marielle foi morta porque estava honrando cada um de seus mais de 46 mil eleitores.

Mataram uma vereadora no meio da rua na ex-capital do país. Ela era uma pessoa boa.


sábado, 20 de janeiro de 2018

Esverdeia














Esverdeia, meu pai
Esverdeia
Bota cor neste mundo sombrio
Ilumina o meu caminhar
Esverdeia
Bota o gosto doce da fruta
Na boca do povo
Bota o aroma fresco da mata
No coração a pulsar
Esverdeia, meu pai
Pulsa o verde-esperança
Que este mundo precisa de cor
Esverdeia
Alimenta de paz, amor e alegria
Traz inspiração
Na ponta de sua flecha

São essas nossas armas
De o mundo mudar

Ele vai mudar.

Okê arô, Oxóssi


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A nova política

Nada mais velho do que se autodeclarar o novo.

Desde que me conheço por ser político, sempre há quem se vista sob o manto da novidade. É um discurso tão sedutor quanto falso.

As agendas políticas que vêm ganhando espaço na esquerda não são novas, e esse espaço é produto da luta, da formulação e da autoorganização de tempos. A reação a essas bandeiras não é nova, tampouco inesperada. A tática da apresentação de empresários, apresentadores de TV ou pseudocelebridades em geral como alternativa aos "políticos" não é nova, porque a negação da política não é nova. Construir um partido com lindo e moderno layout que gira em torno de uma candidatura à Presidência da República não tem absolutamente nada de novo.

Vejo as velhas práticas de sempre em tudo que se autodenomina "o novo". Personalismo, fisiologismo, vale-tudo na disputa interna, centralização de decisões.

Não tenho nenhum fetiche quanto ao "novo". Pra falar a verdade, gosto de um monte de coisas que são velhas, no sentido de terem sido concebidas há muito tempo.

Mas é que, pra mim, certas ideias formuladas há bastante tempo não perderam a validade, não envelheceram, e não porque "os sonhos não envelhecem". Mas sim porque não foram testadas em sua plenitude. Não tiveram chance de serem desenvolvidas.

Estive em muitos espaços políticos em que a intervenção mais inovadora veio do militante mais velho, que, por meio de ideias que nos acolhem desde antes de nascermos, aponta para um lugar ao qual nunca conseguimos chegar, percorrendo um trajeto que, até hoje, nunca ousamos percorrer. Ao mesmo tempo, cansei de ver gente jovem acostumar-se a vícios políticos e degenerações de variadas espécies muito mais e muito antes que aqueles(as) que lá estão há mais tempo.

A chave da "renovação" é válida, mas ela tem limites. É bom que tenhamos novos porta-vozes para o mesmo projeto. Mas quero saber qual o projeto. Quero saber: renovar em que bases?

A dualidade velho/novo, na política, é vazia. Velho e novo não encerram qualidade a priori. Às vezes, é o que chamam de velho que abre caminho para o novo momento.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Prosa do Avião - uma epifania

Com misto de assombramento e encanto, eu percebo, a cada vez que volto a São Paulo, que não a conheço mais. Desoriento-me nos caminhos, esqueço os nomes, falha-me a memória e a esperança de ali criar meus porvires. Caminho por calçadas que já foram tão surradas pelos meus pés, mas agora eles não encontram o fio da meada; olho para o alto da Consolação e não vejo a Paulista; não sei por onde anda o seu Antônio nem a vontade que eu tinha de um dia morar numa casa de vila. Os sons da cidade mais me impressionam do que comovem, e eu me vejo andando em círculo, cercada por flores de um buquê, não de um jardim.

Tudo que manteve seu sentido eu carreguei comigo, errante, mas leal. Meus olhos ainda guardam as manhãs que raiavam na janela do velho apartamento do Largo do Arouche, que hoje, na minha imaginação, é habitado somente pelas lembranças que lá deixei, e que, numa fotografia mental, aparecem-me em cores desbotadas.

Eu nunca mais voltei à USP, desabafava melancólica com a pessoa que mais me conhece na grande metrópole. Quando penso na ECA - Escola de Comunicações e Artes, onde estudei -, sinto o cheiro da grama molhada de chuva mais do que dos cachorros insistentes que dividiam o espaço conosco. Ouço a voz do Steven Tyler dizendo que "something's right with the world today/and everybody knows it's wrong", e os versos fazem mais sentido do que nunca.

Cada visita é uma nova ruptura e um novo começo. Eu encontro a cidade enquanto me perco na nostalgia de não me ver mais numa paisagem que sempre tinha me definido. Há tanta coisa que adormece na gente, que é difícil mensurar o tamanho do que se perdeu. Como se, do alto do Edifício Itália, eu não possuísse mais a cidade, mas sim, pudesse ver no horizonte os lugares onde ela não está e eu estou. Mais fácil, para mim, contemplar aliviada o que ganhei.

Naquela noite de domingo, quando ele abriu a porta e eu vi seu rosto, senti-me outra vez iluminada por aqueles raios que me despertavam nas manhãs da minha juventude, como se outra vez eu me enxergasse no meio do caos cinza, colorido de grafite e de sonhos de gente que vem de todo lugar. Ao emoldurá-lo, São Paulo me acalmou do susto e me devolveu para mim mesma.

E, tranquila, eu voltei para casa.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Sete Desejos

Eu ouvi essa música uma vez, era de uma novela. Não lembro bem. Era adolescente, eu acho. Ela me trazia uma paz gostosa, um conforto, uma sensação de que a vida vai longe, longe mais do que a vista alcança. Onde a vista não alcança, o sonho chega e conta história.

O sonho sempre me contou história nessa música.

Comecei, a certa altura, a dizer para as pessoas próximas que essa era a música da felicidade. O flamboyant vermelho, a mala azul, a réstia da luz amarela. A vida tem cores! Deitada na rede e, sob a fumaça de um cigarro deliciosamente saboreado, pensar que bom é recomeçar das cinzas. Recompor a paisagem. "Você sabe fazer" - me dizia minha professora de canto.

Essa linda música sempre esteve na minha mente. Às vezes ela se oculta. E volta.

Volta agora de novo. Com o lelelelelelele do Alceu. O destino, o trem que nos transporta. A música como um filme da vida, como uma produtora de imagens mentais, que remexe a alma, busca coisas, salta pra fora, e eu agradeço.

Ao Alceu pela música.

Ao universo, pela generosidade com que tem me tratado.

Que me permita produzir versos tão claros e projetar cada vez mais desejos em cada vez menos cigarros.