Como mulher e torcedora de futebol, como uma pessoa que gosta de ir ao estádio, torcer pelo meu time, torcer contra o time dos outros... falar de futebol no bar, vestir a camisa... infelizmente (ou não), eu insisto em me indignar.
O futebol é terreno propício para propagação do machismo, do racismo, da homofobia, da intolerância. Não dá pra nós - pelo menos nós, que somos de esquerda - fingirmos que o estádio é um mundo à parte, onde tudo tem perdão. "Ah, no estádio vale, não vale?". Não, não vale. Eu não canto musiquinha machista e/ou homofóbica, e ainda me irrito com quem canta. Dá vontade de nem participar mais. Eu não acho "frescura" ou "exagero" as denúncias de racismo dentro de campo. E acho um absurdo quem ache que, simplesmente, "isso faz parte do jogo".
Futebol NÃO é coisa de homem. Ninguém nunca convenceu a grande Marta disso, por exemplo. Ou as tantas repórteres de campo, apresentadoras, comentaristas que têm surgido. Então, o mínimo que podemos fazer é exigir RESPEITO.
Eu mesma já escrevi muito aqui sobre o assunto. É só clicar em futebol, na barra aqui do lado direito. Porque, infelizmente, sempre tem assunto. Hoje, quem deu o assunto foi o volante da seleção, Felipe Melo. Na esteira das críticas à bola da Copa do Mundo, disse ele: "A outra bola é igual a mulher de malandro: você chuta e ela continua ali. Essa de agora é igual Patricinha, que não quer ser chutada de jeito nenhum".
Alguém precisa dizer pro Felipe Melo que mulher não é pra ser "chutada". Que mulher não é objeto, para poder ser bola. Que chutar no sentido literal é violência contra a mulher, e chutar no sentido figurado é de uma misogenia inacreditável. A primeira dá cadeia. A segunda devia dar também.
Espero que o ouvido das pessoas tenha doído ao ouvir isso. Ou que os olhos tenham ardido ao ler. E que as pessoas tenham se indignado, e que as mulheres tenham se sentido ofendidas. Chega de aceitar. Isso sim é intolerável.
Pena que tem gente que pode falar na TV e ser ouvido e aproveita esse tempo com uma asneira dessas. Tanta gente com tanto pra dizer e tem que permanecer calada. Que lástima.
Que merda, hein, Felipe Melo?
Música, feminismo, diálogos, política, futebol, crônica e poesia convivendo no mesmo espaço. E sem conflito.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
terça-feira, 25 de maio de 2010
Engodo
Já pedi pro meu amigo Rodolfo Vianna, duas vezes, me deixar colocar um conto dele neste humilde blog. Não obtive autorização, mas a razão disso até que era justa (não vou contar). Desta vez, consegui. Um poema dele que se parece muito com o que eu postei ontem, que era de minha própria autoria. Pura coincidência. Deliciem-se.
Engodo
(Rodolfo Vianna)
A pedra atirou
ao alto
e dela queria pássaro.
Tácito engano: na queda
viu que pedra era, e a pedra
que voar não podia.
Num dia a pedra lançada
perdeu-se e não tocou o
chão:
não viu se voou, se piou não ouviu
assumiu a rota da invernada
debandou em tremular de asas
não soube e coube a mágoa
- era pedra a filha da puta?
Engodo
(Rodolfo Vianna)
A pedra atirou
ao alto
e dela queria pássaro.
Tácito engano: na queda
viu que pedra era, e a pedra
que voar não podia.
Num dia a pedra lançada
perdeu-se e não tocou o
chão:
não viu se voou, se piou não ouviu
assumiu a rota da invernada
debandou em tremular de asas
não soube e coube a mágoa
- era pedra a filha da puta?
segunda-feira, 24 de maio de 2010
O foguete e o passarinho
De repente, quando olhou pro céu
O foguete não era foguete
Era um passarinho
E estava bem longe dele...
Não podia carregar nada em si, exceto o que já tinha.
Pensou que se enchesse o passarinho com as coisas que queria pôr no foguete
O passarinho não ia voar.
O passarinho ia morrer.
Ora, por que deixaste de ser foguete?
- Seus olhos que se enganaram, senhor.
Meus olhos foram enganados por ti.
E depois da frustração de não poder exportar suas mágoas pro espaço
Teve vontade de ser um passarinho que nem aquele.
O foguete não era foguete
Era um passarinho
E estava bem longe dele...
Não podia carregar nada em si, exceto o que já tinha.
Pensou que se enchesse o passarinho com as coisas que queria pôr no foguete
O passarinho não ia voar.
O passarinho ia morrer.
Ora, por que deixaste de ser foguete?
- Seus olhos que se enganaram, senhor.
Meus olhos foram enganados por ti.
E depois da frustração de não poder exportar suas mágoas pro espaço
Teve vontade de ser um passarinho que nem aquele.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Estatuto do Nascituro: Mais uma aberração a ser combatida
Não bastassem todos os ataques cotidianos à dignidade das mulheres, neste 19 de maio, tivemos mais uma lamentável notícia. Os deputados da bancada fundamentalista conseguiram que passasse pela Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados uma aberração nomeada “Estatuto do Nascituro”, que visa, entre outras coisas, a revogar direitos conquistados pelas mulheres e aprofundar a realidade de dominação que as submete, inclusive, a risco de morte e de sequelas todos os anos.
O tal projeto de lei elimina os casos de aborto previstos atualmente em lei: quando há risco de morte para a mãe e quando a gestação é decorrente de estupro. Sem contar que o texto abre brecha para a proibição, inclusive, de algumas medidas contraceptivas.
Não há nenhuma novidade nisso. O fundamentalismo religioso que procura impor sua crença a todos, desrespeitando o princípio democrático e republicano de laicidade do Estado e mesmo o direito à liberdade religiosa, é o mesmo que conhecemos em uma série de oportunidades, sempre atentando contra a vida das mulheres, seus direitos e sua autonomia. Muitos ataques são desferidos contra a luta das mulheres pelo mesmo e conhecido grupo de parlamentares que visam a mantê-las subjugadas.
Propostas absurdas como a apelidada de “bolsa-estupro”, por exemplo, por oferecer dinheiro para que as mulheres vítimas de violência sexual não interrompam uma gravidez daí decorrente, sempre pipocam com o intuito de retroceder nos direitos das mulheres. Mas a cada vez, os fundamentalistas se superam e, com criatividade impensável, propõem mais mecanismos para impedir que as mulheres sejam seres humanos livres e autônomos. Aproveitam a proximidade do período eleitoral para rebaixar o nível dos debates, para nos condenar a tomar decisões sobre a vida das mulheres a partir de uma crença que é de alguns, mas eles querem impor a todos.
Sempre defendemos e defenderemos o direito à liberdade religiosa, liberdade de culto e de crença, mas não aceitaremos que Igreja nenhuma criminalize as mulheres para evitar que exerçam sua autonomia. O corpo e a vida das mulheres não é um objeto a ser controlado e vigiado, que possa ser objeto de tutela nem da Igreja, nem dos juízes, nem do Estado.
Portanto, retroceder a esse ponto, obrigar mulheres vítimas de violência sexual a levarem essa gestação a cabo, inviabilizar a interrupção de uma gravidez que traga risco de morte à mulher, é inadmissível e incabível. É uma crueldade que não tem tamanho. Não podemos tolerar a violência contra as mulheres. Criminosos são os agressores!
Como resposta, mais uma vez, vamos aprofundar nossa luta em defesa da legalização do aborto e contra a violência contra as mulheres. Sabemos que as chances de uma aberração como essa passar impunemente pela Comissão de Constituição e Justiça são mínimas. Também sabemos que muitos companheiros e companheiras da Igreja estão conosco na nossa luta, e que a opinião dos fundamentalistas está distante de ser unanimidade entre os religiosos. Neste momento, queremos contar com esses e com companheiros e companheiras parlamentares, solidários à luta das mulheres, que querem construir conosco um mundo de igualdade, liberdade, justiça, solidariedade e livre de qualquer tipo de opressão.
Alessandra Terribili, integrante da Secretaria Nacional de Mulheres do PT.
O tal projeto de lei elimina os casos de aborto previstos atualmente em lei: quando há risco de morte para a mãe e quando a gestação é decorrente de estupro. Sem contar que o texto abre brecha para a proibição, inclusive, de algumas medidas contraceptivas.
Não há nenhuma novidade nisso. O fundamentalismo religioso que procura impor sua crença a todos, desrespeitando o princípio democrático e republicano de laicidade do Estado e mesmo o direito à liberdade religiosa, é o mesmo que conhecemos em uma série de oportunidades, sempre atentando contra a vida das mulheres, seus direitos e sua autonomia. Muitos ataques são desferidos contra a luta das mulheres pelo mesmo e conhecido grupo de parlamentares que visam a mantê-las subjugadas.
Propostas absurdas como a apelidada de “bolsa-estupro”, por exemplo, por oferecer dinheiro para que as mulheres vítimas de violência sexual não interrompam uma gravidez daí decorrente, sempre pipocam com o intuito de retroceder nos direitos das mulheres. Mas a cada vez, os fundamentalistas se superam e, com criatividade impensável, propõem mais mecanismos para impedir que as mulheres sejam seres humanos livres e autônomos. Aproveitam a proximidade do período eleitoral para rebaixar o nível dos debates, para nos condenar a tomar decisões sobre a vida das mulheres a partir de uma crença que é de alguns, mas eles querem impor a todos.
Sempre defendemos e defenderemos o direito à liberdade religiosa, liberdade de culto e de crença, mas não aceitaremos que Igreja nenhuma criminalize as mulheres para evitar que exerçam sua autonomia. O corpo e a vida das mulheres não é um objeto a ser controlado e vigiado, que possa ser objeto de tutela nem da Igreja, nem dos juízes, nem do Estado.
Portanto, retroceder a esse ponto, obrigar mulheres vítimas de violência sexual a levarem essa gestação a cabo, inviabilizar a interrupção de uma gravidez que traga risco de morte à mulher, é inadmissível e incabível. É uma crueldade que não tem tamanho. Não podemos tolerar a violência contra as mulheres. Criminosos são os agressores!
Como resposta, mais uma vez, vamos aprofundar nossa luta em defesa da legalização do aborto e contra a violência contra as mulheres. Sabemos que as chances de uma aberração como essa passar impunemente pela Comissão de Constituição e Justiça são mínimas. Também sabemos que muitos companheiros e companheiras da Igreja estão conosco na nossa luta, e que a opinião dos fundamentalistas está distante de ser unanimidade entre os religiosos. Neste momento, queremos contar com esses e com companheiros e companheiras parlamentares, solidários à luta das mulheres, que querem construir conosco um mundo de igualdade, liberdade, justiça, solidariedade e livre de qualquer tipo de opressão.
Alessandra Terribili, integrante da Secretaria Nacional de Mulheres do PT.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Hipocrisias politicamente corretas
"Prioridade se verifica por investimento, não por discurso".
Enquanto o senso comum alimenta a ideia de que as mulheres já conquistaram a igualdade, e que tudo o que se diz em contrário é histeria – a despeito dos tantos dados que há por aí -, muitos companheiros da esquerda (em qualquer partido a que estejam filiados) corroboram com essa perspectiva falsa e nociva ao desqualificar as reivindicações programáticas das mulheres organizadas ou ao tratar com jocosidade temas que são fundamentais para a construção de igualdade e justiça.
Alguns assumem a postura do: “tá, deixem-nas falar, eu aceno positivamente com a cabeça, e quando elas forem embora, tudo continua como antes”. Em seus discursos, sempre se lembram das companheiras e saúdam as históricas lutas das mulheres, chegando até a assumir compromisso com o combate à desigualdade. Mas palavras sozinhas não mudam o mundo.
Outros são piores. Fazem tudo isso, e na saída, não é que desprezam. Caçoam, zombam, desqualificam. Por detrás da cortina. Recorrem a pérolas do machismo institucionalizado em frases prontas, ou em pensamentos pré-concebidos, como o desempenho das mulheres ao volante, à sua presença na História, aos atributos sexuais desta ou daquela.
Os dois tipos, na vida privada, não se sentem antirrevolucionários por reproduzir cada centímetro do machismo construído historicamente. Isso se expressa na divisão do trabalho doméstico, ou nos comentários “maldosos”, na conotação sexual dedicada a cada mulher que cruza seu caminho. Sem falar naqueles comportamentos mais “imperceptíveis”, como sair da reunião para fumar quando é uma mulher que está falando, ou não se dirigir às mulheres, mas sim, sempre encontrar um interlocutor homem para negociar política.
Mas tem aqueles, também, que explicitamente subordinam os temas feministas a outros “mais importantes”. Esses restringem o espaço político das mulheres, de suas pautas, de sua plataforma, não têm vergonha nenhuma de afirmar que “isso pode ficar pra outro dia”, e acabam servindo de bucha de canhão daqueles que também pensam assim, mas jamais teriam coragem de dizer, em nome “da esquerda e do socialismo”. Esses acabam sendo explicitamente combatidos, e ficam rotulados de “antifeministas” até pelos demais homens, que, em ocasiões “apropriadas”, riem muito da situação e dão dicas de como passar por aquilo fingindo interesse no assunto, para não ser taxado de inimigo das causas feministas e se queimar.
A direita não merece ser comentada, né, gente? Para a direita não existe desigualdade entre homens e mulheres, não existe opressão, não existe nada a ser transformado nesse sentido. No máximo, há que se garantir um parto tranquilo para elas.
É necessário compromisso real, não só de teatro, para enfrentar a desigualdade e a opressão das mulheres e construir uma nova e justa sociedade. Nós, que, inclusive como marxistas, sabemos que a libertação de um setor oprimido virá pelas mãos e pela luta desse mesmo setor, que nenhuma conquista do povo se deu, até hoje, por concessão do opressor, também sabemos que os companheiros da esquerda, dos movimentos sociais, são aliados nessa luta estratégia, na luta pelo outro mundo possível, e precisamos contar com essa solidariedade para atingir um objetivo que não é nosso, mas de todos e todas que tremem de indignação diante da injustiça.
Para percorrer esse caminho juntos, não devemos ocultar as contradições da luta. Quando defendemos que haja política para garantir mais presença de mulheres nos espaços de poder e decisão, criamos o mecanismo das cotas, que é um mecanismo artificial para combater uma desigualdade que não é mesmo natural. A aplicação delas, ainda que ninguém se sinta à vontade para ser contra, é sempre constrangedora. Busca-se todo tipo de brecha e artifício para não cumpri-las. Desde provocar a desqualificação política e pessoal da candidata ao posto em disputa até flexibilizações da regra de todos os tipos, naturezas e justificativas. E, muitas vezes, firma-se um pacto velado e silencioso pela não denúncia do não cumprimento da norma feminista.
É preciso que se entenda que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, então, para uma mulher ter poder, um homem tem que perder. Mas não é fácil e é indesejável perder poder, então, está travada a batalha sobre essa contradição. É como já apontava Danielle Kergoat: os homens conhecem os mecanismos da dominação e se utilizam deles sim.
Por isso, quando afirmamos que, da mesma forma que não há feminismo sem socialismo, não há socialismo sem feminismo, não há uma sociedade livre, justa e igualitária se não acabarmos com a desigualdade entre homens e mulheres, entre brancos e negros, espera-se que a compreensão geral, na esquerda, é de que é preciso alterar, inclusive, os padrões de relação que sustentamos hoje, mesmo entre nós, companheiros/as de partido, de movimento, de sindicato. É preciso desafiar-se a olhar além do que se vê. É preciso questionar muita coisa que é “verdade” construída, é preciso romper com um cotidiano que, muitas vezes, nos é favorável.
Sem isso, não existe compromisso efetivo, estou certa disso. E se não houver compromisso efetivo com o feminismo, bem como com o fim do racismo, ninguém vai me convencer de que somos capazes de construir uma sociedade diferente desta.
Enquanto o senso comum alimenta a ideia de que as mulheres já conquistaram a igualdade, e que tudo o que se diz em contrário é histeria – a despeito dos tantos dados que há por aí -, muitos companheiros da esquerda (em qualquer partido a que estejam filiados) corroboram com essa perspectiva falsa e nociva ao desqualificar as reivindicações programáticas das mulheres organizadas ou ao tratar com jocosidade temas que são fundamentais para a construção de igualdade e justiça.
Alguns assumem a postura do: “tá, deixem-nas falar, eu aceno positivamente com a cabeça, e quando elas forem embora, tudo continua como antes”. Em seus discursos, sempre se lembram das companheiras e saúdam as históricas lutas das mulheres, chegando até a assumir compromisso com o combate à desigualdade. Mas palavras sozinhas não mudam o mundo.
Outros são piores. Fazem tudo isso, e na saída, não é que desprezam. Caçoam, zombam, desqualificam. Por detrás da cortina. Recorrem a pérolas do machismo institucionalizado em frases prontas, ou em pensamentos pré-concebidos, como o desempenho das mulheres ao volante, à sua presença na História, aos atributos sexuais desta ou daquela.
Os dois tipos, na vida privada, não se sentem antirrevolucionários por reproduzir cada centímetro do machismo construído historicamente. Isso se expressa na divisão do trabalho doméstico, ou nos comentários “maldosos”, na conotação sexual dedicada a cada mulher que cruza seu caminho. Sem falar naqueles comportamentos mais “imperceptíveis”, como sair da reunião para fumar quando é uma mulher que está falando, ou não se dirigir às mulheres, mas sim, sempre encontrar um interlocutor homem para negociar política.
Mas tem aqueles, também, que explicitamente subordinam os temas feministas a outros “mais importantes”. Esses restringem o espaço político das mulheres, de suas pautas, de sua plataforma, não têm vergonha nenhuma de afirmar que “isso pode ficar pra outro dia”, e acabam servindo de bucha de canhão daqueles que também pensam assim, mas jamais teriam coragem de dizer, em nome “da esquerda e do socialismo”. Esses acabam sendo explicitamente combatidos, e ficam rotulados de “antifeministas” até pelos demais homens, que, em ocasiões “apropriadas”, riem muito da situação e dão dicas de como passar por aquilo fingindo interesse no assunto, para não ser taxado de inimigo das causas feministas e se queimar.
A direita não merece ser comentada, né, gente? Para a direita não existe desigualdade entre homens e mulheres, não existe opressão, não existe nada a ser transformado nesse sentido. No máximo, há que se garantir um parto tranquilo para elas.
É necessário compromisso real, não só de teatro, para enfrentar a desigualdade e a opressão das mulheres e construir uma nova e justa sociedade. Nós, que, inclusive como marxistas, sabemos que a libertação de um setor oprimido virá pelas mãos e pela luta desse mesmo setor, que nenhuma conquista do povo se deu, até hoje, por concessão do opressor, também sabemos que os companheiros da esquerda, dos movimentos sociais, são aliados nessa luta estratégia, na luta pelo outro mundo possível, e precisamos contar com essa solidariedade para atingir um objetivo que não é nosso, mas de todos e todas que tremem de indignação diante da injustiça.
Para percorrer esse caminho juntos, não devemos ocultar as contradições da luta. Quando defendemos que haja política para garantir mais presença de mulheres nos espaços de poder e decisão, criamos o mecanismo das cotas, que é um mecanismo artificial para combater uma desigualdade que não é mesmo natural. A aplicação delas, ainda que ninguém se sinta à vontade para ser contra, é sempre constrangedora. Busca-se todo tipo de brecha e artifício para não cumpri-las. Desde provocar a desqualificação política e pessoal da candidata ao posto em disputa até flexibilizações da regra de todos os tipos, naturezas e justificativas. E, muitas vezes, firma-se um pacto velado e silencioso pela não denúncia do não cumprimento da norma feminista.
É preciso que se entenda que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, então, para uma mulher ter poder, um homem tem que perder. Mas não é fácil e é indesejável perder poder, então, está travada a batalha sobre essa contradição. É como já apontava Danielle Kergoat: os homens conhecem os mecanismos da dominação e se utilizam deles sim.
Por isso, quando afirmamos que, da mesma forma que não há feminismo sem socialismo, não há socialismo sem feminismo, não há uma sociedade livre, justa e igualitária se não acabarmos com a desigualdade entre homens e mulheres, entre brancos e negros, espera-se que a compreensão geral, na esquerda, é de que é preciso alterar, inclusive, os padrões de relação que sustentamos hoje, mesmo entre nós, companheiros/as de partido, de movimento, de sindicato. É preciso desafiar-se a olhar além do que se vê. É preciso questionar muita coisa que é “verdade” construída, é preciso romper com um cotidiano que, muitas vezes, nos é favorável.
Sem isso, não existe compromisso efetivo, estou certa disso. E se não houver compromisso efetivo com o feminismo, bem como com o fim do racismo, ninguém vai me convencer de que somos capazes de construir uma sociedade diferente desta.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Tragédia Grega
Traduzi do espanhol o artigo abaixo, para o site da DS, sobre a crise na Grécia. É bem interessante, especialmente porque é escrito por um militante do movimento social grego, Yannis Almpanis, que é da Rede por Direitos Políticos e Sociais e do Fórum Social Grego.
Sugiro enfaticamente a leitura. O que a Grécia vive hoje não é novidade pra ninguém. Não é, porque trata-se de uma crise anunciada há tempos. E não é, também porque nós latinoamericanos conhecemos muito bem a cartilha imposta pelos organismos internacionais do naipe do FMI aos países à beira do colapso. A classe trabalhadora grega é que vai pagar a conta, segundo eles.
Fiquei bem decepcionada com o dinheiro que será aportado pelo nosso Governo Federal ao FMI para a Grécia. Não dá pra legitimar esse órgão. Não dá pra aceitar o que ele e a União Europeia querem fazer com a Grécia. "Ajuda" coisa nenhuma. Não é "ajuda" à Grécia. É estrangulamento.
Boa leitura.
DESESPERO E RESISTÊNCIA NA GRÉCIA
(Yannis Almpanis)
Neste caso, a esquerda e os movimentos sociais predisseram o futuro. Enquanto a Grécia comemorava sua integração à zona do euro, advertimos que as enormes desigualdades existentes entre as economias desenvolvidas da Europa do norte, como a Alemanha, e as relativamente débeis da Europa do sul, como a Grécia, associado a um predomínio das forças políticas conservadoras nos governos nacionais do continente, conduziriam, inevitavelmente, a uma enorme pressão sobre os salários. A integração à zona do euro não permitia desvalorizar a moeda, e a zona do euro não dispunha de mecanismos para compensar as enormes diferenças econômicas entre as economias européias, o que faria com que todos os esforços nas políticas de ajuste econômico acabassem recaindo sobre a variável do custo da mão de obra direta e indireta. Dez anos mais tarde, essa previsão sinistra (que, naquele momento, foi acusada de “esquerdista” e “dogmática”) se confirmou.
Durante o sonho idílico dos Jogos Olímpicos de 2004, fomos poucos os que resistimos à “nova grande ideia” de nossa gloriosa e histórica nação. O resultado da “poderosa Grécia” foi uma catástrofe: foram desembolsados entre 20 e 30 milhões de euros (ninguém sabe o valor exato) em investimentos totalmente improdutivos. Agora, Atenas está repleta de enormes estádios fechados que ninguém usa.
No entanto, quando chegou o dia do Juízo Final, quase ninguém se lembrava dos discursos dos políticos neoliberais e dos meios de comunicação há alguns anos. E assim: uma parte apresenta a Grécia como um país indefeso (poderoso há alguns anos) vítima da especulação estrangeira. De outra parte, o novo governo “socialista” conseguiu encontrar os bodes expiatórios para as dificuldades financeiras. De outro lado, a crise seria resultado de problemas estruturais crônicos da economia grega: um setor público superdimensionado, com excessiva quantidade (e bem paga) de empregados e empregadas. A quebra, pois, é inevitável se o país não tem capacidade de encontrar 24 milhões de euros entre abril e maio para financiar seu déficit público ou se continua adquirindo empréstimos nos mercados internacionais com juros de 6,3%. Para evitar a quebra, o país se viu obrigado a recuperar a confiança da União Europeia e dos mercados internacionais a fim de encontrar dinheiro a baixo custo para financiar sua dívida pública. E o melhor meio de ganhar a confiança dos “mercados” consistiu em adotar dolorosas medidas contra seu próprio povo. Mediante chantagem: se os trabalhadores não aceitassem as medidas de austeridade, o país afundaria.
O pacto de estabilidade e desenvolvimento do programa elaborado pelo governo grego e pela União Europeia (EU) é, realmente, uma barbaridade: cerca de 10% de redução dos salários no setor público, aumento de 2% do IVA (Imposto sobre Valor Agregado), 10% de redução do gasto público, ampliação em 2 anos da idade de aposentadoria, 100 milhões de euros de redução do orçamento da educação. O objetivo do governo é economizar 4 milhões de euros e enviar à UE e aos mercados internacionais a mensagem de que está fiel ao dogma do fundamentalismo neoliberal.
Porém, apesar de seu caráter antipopular, o plano não parece convencer os mercados internacionais, e as taxas de juros na Grécia continuam muito altas (6%). Como consequência, o plano de resgate está à espera. Ainda que, no momento, não se conheça a forma concreta do dito plano, estamos bastante convencidos de que a “ajuda” europeia, somada às políticas do nosso governo, conduzirá a uma quebra social inevitável. As previsões do Deutsche Bank são terríveis: recessão de -7,5% do PIB de agora até 2012 e 20% de desemprego (cerca de 1 milhão de pessoas). O único que vai salvar o plano de estabilidade e desenvolvimento dos programas são os benefícios dos especuladores internacionais e o patronato grego. Na realidade, esse programa não é outro senão aquele reivindicado pela Federação Patronal há 20 anos.
Está claro que havia alternativas e que outra política econômica é possível. Embora a dívida pública da Grécia (113% do PIB) seja a mais elevada das dívidas públicas da zona do euro, e se soma-se a ela a dívida privada, o total alcança 173% do PIB. O Japão, por exemplo, tem dívida além de 200%. Antes da era euro, em 1993, a Grécia utilizava 14% do seu PIB para financiar sua dívida. Agora o custo é de 6%. Assim pois, a dívida grega não é tão grande. O verdadeiro problema é que a zona do euro repousa sobre regras neoliberais extremamente rígidas que exageram a importância da dívida pública e tornam difícil seu financiamento (por exemplo, não se pode conceder empréstimos orientados para o mercado interno).
Além disso, o governo grego tinha outros meios de resolver-se com os fundos necessários. Por exemplo, atuando frente aos produtores de navios comerciais (a Grécia é a maior produtora mundial, com cerca de 4 mil navios sob bandeira grega, recuperando o IVA dos produtos que compram nos portos gregos, que representa cerca de 6 milhões de euros que o Estado perde por ano, quando as economias previstas no plano de estabilidade são estimadas em 5 milhões. No ano passado, os armadores gregos juntos pagaram menos imposto do que pagaram os e as imigrantes para obtenção da “carta verde”. Além disso, a maioria do patronato grego transferiu seus ativos para sociedades cipriotas (taxa de juros de 10%); a igreja ortodoxa não paga impostos, quando nossos guias espirituais são os campeões nacionais do setor imobiliário por conta de suas propriedades florestais, de terras, lagos e milhares de imóveis. A cada ano, o patronato frauda mais de 8 bilhões do Sistema de Seguridade Social; 800 mil pequenas e médias empresas pagam a mesma quantidade de impostos que seus trabalhadores, cujo salário é de 2 mil euros. Os bancos gregos receberam 28 bilhões de euros dos fundos públicos no início da crise e agora especulam com a dívida pública (na realidade, a maioria dos especuladores “internacionais” são gregos, alemães e franceses), e a cada ano se dedica 4% do PIB para gastos militares (10 bilhões transferidos aos EUA e à EU para a produção de armas).
Todos esses dados mostram que o governo poderia tomar o dinheiro dos ricos, mas prefere saquear o povo pobre. Trata-se, pois, de uma opção de classe em nome da urgência internacional.
Enfim, esse é o nível europeu. A catástrofe social que sofre, hoje em dia, o povo grego é produto da estrutura neoliberal da união financeira e monetária da Europa. Uma moeda comum sem orçamento comum, um mercado unificado sem nenhum mecanismo de transferência de recursos da gente rica para a gente pobre, um pacto de estabilidade baseado no mais puro dogma neoliberal, cujo único objetivo é o benefício privado, sem preocupação com o povo. A crise mostra que é impossível viver sob as regras de Maastricht.
A Grécia sempre foi um país de enormes desigualdades sociais. Assim, embora o poder de compra na Grécia seja 92% da média da zona do euro, os salários não passam de 70%. Agora, é claro, a situação social criada pelas novas medidas não pode se manter de pé. Não só porque o povo não aceita reduções salariais, nem porque o mercado interno se estancará por anos, mas sim, sobretudo, porque não há nenhuma confiança em que possamos sair desta miséria. Um sentimento de desespero agravado pela amargura de se sentir abandonada pela União Europeia. O que se conhece por “ajuda” europeia é, na verdade, uma ajuda ao estilo do FMI, que vai conduzir a uma crise social terceiro-mundista. Desde o fim da guerra civil dos anos 40, não se havia conhecido, na sociedade grega, uma falta de esperança como a atual.
É certo que o desespero não conduz automaticamente à resistência. Muita gente pensa que não se pode fazer nada , que se já é difícil derrubar os planos do governo, é praticamente impossível de fazê-lo, ao mesmo tempo, contra a UE e o FMI, Alemanha, França, os misteriosos “mercados” internacionais... contra o mundo inteiro que se uniu contra a classe trabalhadora grega.
De outro lado, há cada vez mais gente que dá as costas para o governo e as mobilizações são cada vez maiores. Vivemos duas exitosas greves gerais, enormes mobilizações em todas as cidades, ações de todo tipo, formação de coordenações de base dos sindicatos e de comitês locais, e uma resistência tenaz às políticas provocativas.
Os trabalhadores e trabalhadoras se mobilizam inclusive contra a vontade dos dirigentes da Confederação Geral. E, neste momento, o que parece é que, às medida que as pessoas vão padecendo por efeito das novas medidas, maior será a resposta dos trabalhadores.
Sugiro enfaticamente a leitura. O que a Grécia vive hoje não é novidade pra ninguém. Não é, porque trata-se de uma crise anunciada há tempos. E não é, também porque nós latinoamericanos conhecemos muito bem a cartilha imposta pelos organismos internacionais do naipe do FMI aos países à beira do colapso. A classe trabalhadora grega é que vai pagar a conta, segundo eles.
Fiquei bem decepcionada com o dinheiro que será aportado pelo nosso Governo Federal ao FMI para a Grécia. Não dá pra legitimar esse órgão. Não dá pra aceitar o que ele e a União Europeia querem fazer com a Grécia. "Ajuda" coisa nenhuma. Não é "ajuda" à Grécia. É estrangulamento.
Boa leitura.
DESESPERO E RESISTÊNCIA NA GRÉCIA
(Yannis Almpanis)
Neste caso, a esquerda e os movimentos sociais predisseram o futuro. Enquanto a Grécia comemorava sua integração à zona do euro, advertimos que as enormes desigualdades existentes entre as economias desenvolvidas da Europa do norte, como a Alemanha, e as relativamente débeis da Europa do sul, como a Grécia, associado a um predomínio das forças políticas conservadoras nos governos nacionais do continente, conduziriam, inevitavelmente, a uma enorme pressão sobre os salários. A integração à zona do euro não permitia desvalorizar a moeda, e a zona do euro não dispunha de mecanismos para compensar as enormes diferenças econômicas entre as economias européias, o que faria com que todos os esforços nas políticas de ajuste econômico acabassem recaindo sobre a variável do custo da mão de obra direta e indireta. Dez anos mais tarde, essa previsão sinistra (que, naquele momento, foi acusada de “esquerdista” e “dogmática”) se confirmou.
Durante o sonho idílico dos Jogos Olímpicos de 2004, fomos poucos os que resistimos à “nova grande ideia” de nossa gloriosa e histórica nação. O resultado da “poderosa Grécia” foi uma catástrofe: foram desembolsados entre 20 e 30 milhões de euros (ninguém sabe o valor exato) em investimentos totalmente improdutivos. Agora, Atenas está repleta de enormes estádios fechados que ninguém usa.
No entanto, quando chegou o dia do Juízo Final, quase ninguém se lembrava dos discursos dos políticos neoliberais e dos meios de comunicação há alguns anos. E assim: uma parte apresenta a Grécia como um país indefeso (poderoso há alguns anos) vítima da especulação estrangeira. De outra parte, o novo governo “socialista” conseguiu encontrar os bodes expiatórios para as dificuldades financeiras. De outro lado, a crise seria resultado de problemas estruturais crônicos da economia grega: um setor público superdimensionado, com excessiva quantidade (e bem paga) de empregados e empregadas. A quebra, pois, é inevitável se o país não tem capacidade de encontrar 24 milhões de euros entre abril e maio para financiar seu déficit público ou se continua adquirindo empréstimos nos mercados internacionais com juros de 6,3%. Para evitar a quebra, o país se viu obrigado a recuperar a confiança da União Europeia e dos mercados internacionais a fim de encontrar dinheiro a baixo custo para financiar sua dívida pública. E o melhor meio de ganhar a confiança dos “mercados” consistiu em adotar dolorosas medidas contra seu próprio povo. Mediante chantagem: se os trabalhadores não aceitassem as medidas de austeridade, o país afundaria.
O pacto de estabilidade e desenvolvimento do programa elaborado pelo governo grego e pela União Europeia (EU) é, realmente, uma barbaridade: cerca de 10% de redução dos salários no setor público, aumento de 2% do IVA (Imposto sobre Valor Agregado), 10% de redução do gasto público, ampliação em 2 anos da idade de aposentadoria, 100 milhões de euros de redução do orçamento da educação. O objetivo do governo é economizar 4 milhões de euros e enviar à UE e aos mercados internacionais a mensagem de que está fiel ao dogma do fundamentalismo neoliberal.
Porém, apesar de seu caráter antipopular, o plano não parece convencer os mercados internacionais, e as taxas de juros na Grécia continuam muito altas (6%). Como consequência, o plano de resgate está à espera. Ainda que, no momento, não se conheça a forma concreta do dito plano, estamos bastante convencidos de que a “ajuda” europeia, somada às políticas do nosso governo, conduzirá a uma quebra social inevitável. As previsões do Deutsche Bank são terríveis: recessão de -7,5% do PIB de agora até 2012 e 20% de desemprego (cerca de 1 milhão de pessoas). O único que vai salvar o plano de estabilidade e desenvolvimento dos programas são os benefícios dos especuladores internacionais e o patronato grego. Na realidade, esse programa não é outro senão aquele reivindicado pela Federação Patronal há 20 anos.
Está claro que havia alternativas e que outra política econômica é possível. Embora a dívida pública da Grécia (113% do PIB) seja a mais elevada das dívidas públicas da zona do euro, e se soma-se a ela a dívida privada, o total alcança 173% do PIB. O Japão, por exemplo, tem dívida além de 200%. Antes da era euro, em 1993, a Grécia utilizava 14% do seu PIB para financiar sua dívida. Agora o custo é de 6%. Assim pois, a dívida grega não é tão grande. O verdadeiro problema é que a zona do euro repousa sobre regras neoliberais extremamente rígidas que exageram a importância da dívida pública e tornam difícil seu financiamento (por exemplo, não se pode conceder empréstimos orientados para o mercado interno).
Além disso, o governo grego tinha outros meios de resolver-se com os fundos necessários. Por exemplo, atuando frente aos produtores de navios comerciais (a Grécia é a maior produtora mundial, com cerca de 4 mil navios sob bandeira grega, recuperando o IVA dos produtos que compram nos portos gregos, que representa cerca de 6 milhões de euros que o Estado perde por ano, quando as economias previstas no plano de estabilidade são estimadas em 5 milhões. No ano passado, os armadores gregos juntos pagaram menos imposto do que pagaram os e as imigrantes para obtenção da “carta verde”. Além disso, a maioria do patronato grego transferiu seus ativos para sociedades cipriotas (taxa de juros de 10%); a igreja ortodoxa não paga impostos, quando nossos guias espirituais são os campeões nacionais do setor imobiliário por conta de suas propriedades florestais, de terras, lagos e milhares de imóveis. A cada ano, o patronato frauda mais de 8 bilhões do Sistema de Seguridade Social; 800 mil pequenas e médias empresas pagam a mesma quantidade de impostos que seus trabalhadores, cujo salário é de 2 mil euros. Os bancos gregos receberam 28 bilhões de euros dos fundos públicos no início da crise e agora especulam com a dívida pública (na realidade, a maioria dos especuladores “internacionais” são gregos, alemães e franceses), e a cada ano se dedica 4% do PIB para gastos militares (10 bilhões transferidos aos EUA e à EU para a produção de armas).
Todos esses dados mostram que o governo poderia tomar o dinheiro dos ricos, mas prefere saquear o povo pobre. Trata-se, pois, de uma opção de classe em nome da urgência internacional.
Enfim, esse é o nível europeu. A catástrofe social que sofre, hoje em dia, o povo grego é produto da estrutura neoliberal da união financeira e monetária da Europa. Uma moeda comum sem orçamento comum, um mercado unificado sem nenhum mecanismo de transferência de recursos da gente rica para a gente pobre, um pacto de estabilidade baseado no mais puro dogma neoliberal, cujo único objetivo é o benefício privado, sem preocupação com o povo. A crise mostra que é impossível viver sob as regras de Maastricht.
A Grécia sempre foi um país de enormes desigualdades sociais. Assim, embora o poder de compra na Grécia seja 92% da média da zona do euro, os salários não passam de 70%. Agora, é claro, a situação social criada pelas novas medidas não pode se manter de pé. Não só porque o povo não aceita reduções salariais, nem porque o mercado interno se estancará por anos, mas sim, sobretudo, porque não há nenhuma confiança em que possamos sair desta miséria. Um sentimento de desespero agravado pela amargura de se sentir abandonada pela União Europeia. O que se conhece por “ajuda” europeia é, na verdade, uma ajuda ao estilo do FMI, que vai conduzir a uma crise social terceiro-mundista. Desde o fim da guerra civil dos anos 40, não se havia conhecido, na sociedade grega, uma falta de esperança como a atual.
É certo que o desespero não conduz automaticamente à resistência. Muita gente pensa que não se pode fazer nada , que se já é difícil derrubar os planos do governo, é praticamente impossível de fazê-lo, ao mesmo tempo, contra a UE e o FMI, Alemanha, França, os misteriosos “mercados” internacionais... contra o mundo inteiro que se uniu contra a classe trabalhadora grega.
De outro lado, há cada vez mais gente que dá as costas para o governo e as mobilizações são cada vez maiores. Vivemos duas exitosas greves gerais, enormes mobilizações em todas as cidades, ações de todo tipo, formação de coordenações de base dos sindicatos e de comitês locais, e uma resistência tenaz às políticas provocativas.
Os trabalhadores e trabalhadoras se mobilizam inclusive contra a vontade dos dirigentes da Confederação Geral. E, neste momento, o que parece é que, às medida que as pessoas vão padecendo por efeito das novas medidas, maior será a resposta dos trabalhadores.
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